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FUTEBOL

“o mais difícil e belo de todos os esportes”

 

Em tradução literal, “futebol” é “jogo de bola com o pé”.

É um esporte praticado entre dois grupos que se servem dos pés, do peito e da cabeça para marcar pontos, movimentando uma bola em direção à meta adversária.

          

         O futebol, como é conhecido hoje, foi trazido para o Brasil em 1894 pelo brasileiro Charles Miller, filho de ingleses, que desembarcou em São Paulo com duas bolas de couro e um conjunto de regras aprovado na Inglaterra. Promoveu o primeiro jogo em abril de 1895. A iniciativa pegou, e o resultado disso todos nós conhecemos:

 

Nenhum esporte no mundo desperta tanto entusiasmo popular.

Nenhum atrai tantas multidões e provoca tanta paixão.

 

Os primórdios do futebol, todavia, não são ingleses; - são chineses. Tudo parece ter começado 2500 anos a.C., embora a primeira publicação conhecida, de regulamentos de um jogo de bola com os pés, tenha surgido em 206 a.C., também na China. Seu objetivo era o aprimoramento físico para fins militares.

Mais tarde, em 150 a.C., surgiu na Grécia um esporte precursor do futebol, o episkuros, transportado mais tarde para a Itália pelas legiões romanas vencedoras. Daí surgiu o cálcio, nome até hoje adotado pelos italianos, que também o levaram à Grã-Bretanha, onde adquiriu o nome de soule e, mais tarde, de soccer.

 

A brutalidade posta em campo era tamanha, que, não raro, resultava na morte de contendores. Preocupado, o rei Eduardo II promulgou lei proibindo sua prática em 1314. A repressão, todavia, não impediu que o jogo continuasse. Eduardo III confirmou-a em 1349. Também não houve resultado. Diante da teimosia popular, o esporte, que até então permitia rasteiras, socos e outros golpes desleais e perigosos, foi submetido a uma primeira regulamentação, apesar da sistemática resistência dos reis até o fim o século XVIII.

Só no começo do XIX, com a atenuação da violência, a preferência dos ingleses pelo esporte prevaleceu. Rapidamente, o jogo foi adotado por escolas e universidades. O primeiro regulamento oficial, aprovado e homologado em 1846, partiu da Universidade de Cambridge. Até então, era permitido o uso simultâneo das mãos e, só em 1863, os partidários do futebol, praticado apenas com os pés, o peito e a cabeça, fundaram a Football Association.

A reação de alguns inconformados com tal limitação deu origem à Rugby Association, que mantinha o uso das mãos e deu origem ao chamado “Football Americano”, que, de futebol, tem apenas o chute inicial, mesmo assim praticado com um objeto oval – e não esférico – “apelidado” de bola. De resto, é uma carnificina, uma verdadeira batalha campal, praticada com elmos, ombreiras e capacetes cujo objetivo é assegurar a sobrevivência de brutamontes deselegantes.

        

O entusiasmo pelo verdadeiro futebol em todo o mundo levou à criação da Federação Internacional de Football Association (FIFA) em 1904, e o primeiro jogo entre nações ocorreu entre Escócia e Inglaterra em 1905. 

         E também levou os americanos, que inventaram aquele arremedo e não engolem a preferência do resto do mundo, a praticá-lo.

         Resta esperar que, eficientes como costumam ser em quase tudo, eles não adquiram a ginga e o parangolé brasileiros. E é provável que não, a julgar pela sistemática dificuldade que têm os ingleses – e os europeus em geral – de vencer os sulamericanos.

Sim, porque, a meu ver, o maior clássico mundial é disputado entre Brasil e Argentina, os dois países que praticam o melhor futebol. Esta é minha opinião.

 

Para finalizar, até onde me consta, modernamente, o futebol é o único jogo de bola que não permite o uso das mãos, exceção feita ao goleiro ou na cobrança de laterais. 

E, como os pés, o peito e a cabeça são órgãos rudes, desprovidos, do ponto de vista gestual, de habilidades inatas, o futebol é, a meu ver, o esporte mais difícil de praticar, ou seja, aquele exige mais destreza, mais precisão e maior talento.

 

Ouso afirmar, abstraindo preferências pessoais, que não existe, nem mesmo na dança, nenhum movimento de expressão corporal mais perfeito, mais plástico, mais reflexo, mais elegante, mais harmonioso do que um drible desconcertante, um gol de bicicleta nas alturas, um passe em profundidade, uma tabelinha triangulada, uma matada no peito em pleno ar, uma cabeçada certeira e fulminante, tudo isso feito sem as mãos, com o improviso da mais pura criatividade, sem a música, sem o ritmo e sem as coreografias treinadas à exaustão, em que cada um dos executantes sabe, de cor e salteado, o que vai fazer no passo seguinte.

 

O futebol, ao contrário, é improviso. E o craque é um genuíno repentista.

O futebol é criatividade, é inteligência espacial, é magia.

O futebol bem praticado é inigualável. É arte coreográfica pura.

 

E, para render minha homenagem às mãos, que afinal usamos tanto a vida inteira, confesso meu espanto e presto meu irrestrito aplauso a um goleiro que voa, com a mão espalmada, para tirar com a ponta dos dedos, no último minuto, uma bola da gaveta...

 

Mario Gentil Costa

 



Escrito por MaGenCo às 09h45
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A BELEZA DA DÚVIDA CARTESIANA

 

Não devemos confundir filosofia com teologia, escatologia e telefinalismo.

Tenho um dicionário de Francisco Silveira Bueno – em 9 volumes – muito superior ao Aurélio, que diz textualmente: "Escatologia = estudo do que acontecerá depois do fim do mundo".  Pode alguém imaginar maior adivinhação que esta? Alguém, algum dia, seria capaz de fazer afirmações em torno disso? Só mesmo delirando. Mesmo porque não há, sendo o mundo visto como o Universo, a menor probabilidade de que tal venha a acontecer. O Universo nunca terá fim. Por que é infinito. A única coisa que vai acontecer com absoluta certeza é o fim da vida no planeta Terra. E esse evento só poderá ocorrer de três maneiras: uma – a mais provável – por motivos astrofísicos, quando o Sol queimar sua última molécula de hidrogênio e se transformar – como de fato é previsto (e não adivinhado) pela ciência – numa gigante-vermelha que englobará e incinerará todos os planetas interiores (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte), fato que já aconteceu com outras estrelas, Antares incluída. Outra hipótese desastrosa seria o eventual choque com um meteorito de grandes proporções, uma colisão acidental de astros. E a última – que depende do comportamento humano – se a humanidade se autodestruir num conflito nuclear de proporções planetárias. Isso, sim, dizimaria  a espécie humana e a maior parte da vida animal e vegetal na superfície. Pronto! Está dito o que a ciência sabe, prova e garante.

O resto, escatologias à parte, é chute de gente que nada sabe e gosta de praticar adivinhações. É conversa-fiada de ignorantes presunçosos, incluídos aí todos os papas, teólogos e profetas bíblicos. Não há a menor possibilidade de essa gente ter qualquer razão em suas previsões místicas. Acho que isso basta para separar os alhos dos bugalhos. A única ferramenta de que dispomos para estudar essa fenomenologia é a ciência.

Mencionei os dogmas de propósito, justamente por tê-los na conta das afirmações mais infundadas e descabidas de que é capaz um papa ou um desses escatólogos atrelados aos ditames da fé organizada. Nada disso tem apoio na razão ou na lógica. Apesar dessa carência, há pessoas ingênuas que lhes dão crédito irrestrito. E não exagero nas minhas afirmações, todas admitidas pelos maiores luminares do saber científico. Em contrapartida, o que dizer da virgindade de Maria e da infalibilidade do papa? Isso não é afirmar categoricamente? Então, o que é? Como pode um papa afirmar coisas que o bom senso rejeita e, ainda assim, questionar o que afirmam aqueles que têm a razão e a lógica como pilar de sustentação? Qual dos dois merece credibilidade? O profeta, que previu absurdos que jamais se realizaram? O papa, que se diz iluminado pelo espírito santo e, em nome dessa falácia, se autodenomina infalível? Ou o cientista que se utiliza da física, da química ou da matemática para, depois de muito desgaste mental e anos de cálculos e profundos estudos, fazer previsões fundadas em raciocínios e testes confirmados em laboratório? Como foi que Galileu provou a tese da igualdade da velocidade da queda dos corpos no vácuo? Rezando? Por inspiração divina? Como foi que Lavoisier chegou à estupenda conclusão que o levou à lei da conservação da matéria e da energia em todo o Universo (Natureza)? Terá sido através de revelações místicas, vindas diretamente do além? Isso, sim, essas leis imutáveis mereceriam o rótulo de dogmas. Mas dogmas documentados, límpidos, claros, insofismáveis, indiscutíveis, que se repetem e confirmam a cada teste, dia-após-dia, ano-após-ano.

A diferença entre esses gênios e os papas está na tríade grega dos teoremas: hipótese, tese e demonstração. Peça-se a um papa para demonstrar um único de seus dogmas. Claro que ele nunca será capaz de fazê-lo. Se pedíssemos a Pio XII uma justificativa racional para o dogma da "subida de Maria ao céu em-carne-e-osso", teríamos uma resposta convincente? Jamais!

No entanto, a maior prerrogativa dada ao cérebro humano foi questionar em busca da compreensão. Foi graças a esse maravilhoso recurso intelectual da dúvida cartesiana que a ciência nos ajudou a compreender o que sabemos e que, por azar, ainda é tão pouco. Mas é o máximo que podemos ostentar, com a imensa vantagem de que iremos compreendendo cada vez mais, desde que não nos deixemos enganar por escatólogos e teólogos e dediquemos toda a atenção ao que nos dizem os postulados que provêm dos esforços fundados na razão.

Então, fica assim: 2+2=4 e a lei de Lavoisier sempre serão verdades, ao passo que afirmações de fé, que lidam com o além, sempre serão conceitos sem sustentação. Crer é aceitar passivamente, mas não é compreender. Que cada creia no que quiser - até mesmo em dogmas extravagantes - desde que guarde consigo sua crença e não queira impô-la a ninguém. Porque se a crença é livre, a descrença também é...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 10h18
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TELEFINALISMOS

 

Há gente que gosta mesmo de polemizar. Tenho um amigo que não faz outra coisa. Chamemo-lo de “H”. Está sempre me provocando, nem que seja para defender o indefensável. Eu tento evitar, mas ele não me deixa. Então, vamos lá:

H, tudo o que existe (matéria, coisa terrena) é um ser (unidade). Dois seres são duas unidades. Ninguém está falando de supremacia (ser supremo). Basta existir para ser um ser, seja ele um animal ou uma pedra (inanimada). Claro que existe uma vasta escala de níveis, de superiores a inferiores e, nessa escala, uma graduação e, em matéria de complexidade ou importância, o ser humano está no topo da escala zoológica, mas nada disso o torna obrigatoriamente eleito exclusivamente por Deus para uma destinação transcendental que é negada aos demais.

A grande e única diferença está na capacidade de seu cérebro, aliás, o autor dessa auto-destinação egoísta que nega aos demais, incapazes de abstrair, o mesmo direito de sobrevivência. Não existe, portanto, esse telefinalismo, a menos que se não lhe atribua origem sobrenatural. Se existe algum telefinalismo arquetípico, ele se insere na Natureza em si mesma. Afinal, por que negar ao macaco, que é o segundo em complexidade, os mesmos direitos? 

Em suma, seja paleontologia, seja teologia, tudo são hipóteses, e se a primeira não prova nada, muito menos o faz a segunda. Nunca se disse que a Natureza produziu o homem do nada; este é produto da evolução biológica, como o são todos os demais seres vivos. Concordo com a idéia de que tudo que existe tem uma razão de ser, mas esta razão está explicada em si mesma. A busca do aperfeiçoamento num nível consciente é inerente ao poder de pensar e de abstrair, recursos exclusivos do ser humano. Daí a filosofia e, paralelamente, a fé que serve de substrato e matéria-prima às religiões organizadas.

A busca do aperfeiçoamento também é conseqüência direta disso, inclusive na ciência. Afinal, esta deriva diretamente do poder desse cérebro capaz de questionar. Se a evolução tivesse parado nos primatas antropóides, não existiriam conjeturas racionais, e, muito menos, religiosas. Pode-se afirmar sem medo de erro que o simples uso da razão levaria inevitavelmente o homem a desenvolver sua ciência, e foi graças a esse poder que ele desvendou tudo o que conhecemos, inclusive a matemática. Puro exercício cerebral. As abstrações da fé também são conseqüências dessa ânsia de explicações e de respostas às nossas dúvidas. E a diferença básica entre essas duas vertentes se funda, de um lado, na busca de respostas para a fenomenologia que nos cerca, e de outro, na esperança de sobrevivência, por sermos o único animal que lembra o passado (memória) e aprendeu a intuir a própria morte. Se o macaco e os demais a intuíssem, teriam igualmente inventado a fé e as religiões que prometem a vida eterna, embora não a garantam de forma alguma. 

Portanto e por tudo isso, somos apenas os animais mais competentes, mas nunca os mais dignos de uma suposta prerrogativa divina rumo à eternidade. É assim que eu penso.

 

Mario Gentil Costa

 



Escrito por MaGenCo às 09h41
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"A MULHER DO CACHIMBO"

 

O Senadinho é, de longa data, o ponto de convergência do dia-a-dia em Floripa. Ali circula gente da mais variada extração e competência. Ali, em dois turnos regulamentares de repartição pública, assinam o ponto centenas de machos-classe-média, aposentados de todos os matizes e procedências; magros, gordos, moços, velhos, grisalhos, carecas e demais exemplares da fauna urbana, entretidos em bate-papos que discutem e resolvem todos os problemas nacionais e internacionais. Por ali transitam estudantes, comerciantes, comerciários, turistas, políticos, demagogos, tratantes, propagandistas, palhaços, pernas-de-pau, mentecaptos pregadores da bíblia, jornalistas, jornaleiros, cegos, cambistas, vendedores de loteria, além dos inefáveis “anotadores zoológicos a serviço do povo”, eufemismo bem-humorado com que se identificam os agentes do jogo-do-bicho.

Aos sábados, o local é ‘abrilhantado’ com desfiles de bandas de música da mais inimaginável origem. Mágicos e cômicos abrem clareiras e atraem círculos de curiosos para apresentar seus números em troca de contribuições espontâneas. Vez por outra, com idêntico propósito, surgem em determinado ponto, trepados em pedestais de madeira, figuras exóticas, vestes e corpos pintados até os olhos de uma tinta cor de bronze ou cimento, assumindo posturas de estátua em absoluta imobilidade a ponto de nem piscar. Até sua respiração é imperceptível.

Ali se joga dominó, damas e xadrez em mesas e banquetas de concreto, cobertas de caramanchões especialmente projetados. É também ali que desfilam mendigos da mais diversificada cepa, e muitos desses marcaram época pela assiduidade e pela atipia.

Referência especial deve ser feita ao saudoso e folclórico Job Maluco, um pobre-diabo de pouquíssimas luzes, que, munido de poderoso megafone, ganhava seus trocados enaltecendo as vantagens oferecidas por algumas lojas da redondeza, sobretudo as Casas Pernambucanas. Conta-se que, certa vez, Job, alvo sistemático da provocação de moleques gozadores, esquecendo-se de que sua voz ecoava no alto-falante, respondeu ao chiste insultuoso com a imediata execração da honra da genitora do ofensor, lapso que lhe rendeu a perda irrevogável do patrocínio da aludida instituição. Enfim, somados mortos e esquecidos, inumeráveis personagens marcaram época no local.

Entre os atuais, destaca-se a presença quase indefectível de uma mulher maltrapilha, sem dúvida, portadora de um sério desconto mental, a julgar pela expressão aparvalhada do olhar e pela total sem-cerimônia com que ergue a saia e se agacha para urinar em plena rua. Seu sorriso inconseqüente e abstrato, quase sempre armado, é boçal e atoleimado. Seu vocabulário é chulo. E curtíssimo; não deve conhecer mais de cem palavras básicas. Não raro, se solicitada por algum vagabundo, ergue a blusa e mostra – com injustificado orgulho – as tetas gigantescas, caídas até o umbigo. Cansada, não vacila – estira-se num dos bancos de madeira do local e puxa longos roncos como se estivesse em casa, usando como travesseiro uma sacola imunda onde guarda seus apetrechos de sobrevivência, entre os quais desponta um velho cachimbo com que, nos intervalos, dá profundas baforadas. Suas feições grosseiras lembram uma inqualificável mescla de bugre com mameluco. Seus cabelos não tem mais penteado; são um emaranhado seboso. Não deve ser velha. Diria que regula pelos 50. Imagino, à falta de melhor juízo, que não tome banho há meses, quiçá anos. Acho que nem tem onde morar...

Alguém saberá seu nome? Acho que ninguém. Vive de moedas que lhe doam alguns ‘provedores’ mais caridosos, a quem estende a mão sem nada dizer. Um ruído gutural vale como agradecimento. Alimenta-se de migalhas. Até onde me consta, nem apelido tem – coisa rara em Floripa. Documentos, então, nem pensar. Por isso, resolvi chamá-la “A Mulher do Cachimbo” e até hoje – mistérios insondáveis do metabolismo humano – não entendo como pode sobreviver em meio a tanta penúria...

Escrevi tudo isto para confessar que também passei a obsequiá-la com algum dinheiro miúdo. É mera questão de gratidão. E sabem por quê? Pelo simples fato de que, certo dia, quis acender um cigarro e não tinha fogo. Os amigos presentes, tampouco. Mas a mulher do cachimbo, que, ali ao lado, jazia em seu prazeroso e merecido decúbito lateral, percebeu minha carência e, num salto prestativo, surgiu diante de mim com o providencial isqueiro já aceso.

Mais uma lição da vida: jamais subestimar os préstimos, a serventia e a urbanidade inata dos humildes...

 

Mario Gentil Costa   



Escrito por MaGenCo às 09h24
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