MaGenCo


O “COLEGA”

 

       A época: década de 60. O local: Floripa. Cenário: centro da cidade, num café. Manhã de outono, ensolarada.

 

Primeiro ato:

Os personagens: um médico e um amigo, não médico. A conversa: trivialidades. Eis que chega um terceiro e apresenta um ‘colega’, também otorrino, recém-chegado à cidade. Prazer pra cá, prazer pra lá, dois interlocutores se vão, e ficam os “colegas”.

         Sotaque do recém-chegado: portunhol. Traços e biótipo incas. Atitude: humilde, quase servil. Idade: mais ou menos a mesma – trinta e poucos anos.

         Diálogo:

- Está de passagem?

- Não, isto é..., sim..., depende...

- Depende de quê?, se posso perguntar...

- Pois é..., não sei... eu vim conhecer a cidade..., ver se há espaço pra mim... O ‘senhor’ é o primeiro colega que...

- Onde você se formou?

- No Rio...

- Então, foi aluno do Professor Fulano?

          - Si, justamente. E foi seu sobrinho, o Fulaninho, que me aconselhou a vir...

- Eu conheci o Fulaninho. Trabalhei com ele...

          - Si, justamente. Eu sabia. Por isso mesmo, pedi para lhe ser apresentado.

- Ah, então, você estava me procurando...

- Não, quer dizer..., si..., eu tinha essa vontade...

          - Neste caso, já conseguiu... O que posso fazer por você?

- Pois é..., eu gostaria de saber se tenho chances de trabalhar aqui... Não conheço os outros otorrinos... Não imagino como me receberiam...

- Olhe, eu também cheguei um dia, me apresentei e logo comecei a trabalhar. Por que não faz o mesmo? A cidade é livre. Basta ter o diploma reconhecido... e registrado...

- É..., mas eu sou estrangeiro..., não sei...

- Ninguém aqui é xenófobo, meu caro. Você é boliviano?

- Não, peruano.

- Ah..., mas faça isso. E se precisar de mim...

- Ótimo! Vou fazer. Muito obrigado.

O "peruano" se foi. E o doutorzinho ficou a dar tratos à bola. “Esquisito”, pensou.

 

Segundo ato: dias após.

Personagens: o doutorzinho e o peruano. Cenário: o consultório do primeiro. A conversa:

         - Pois é... eu andei por aí. Acho que vou tentar. Experimentar. O que o senhor acha?

- Bem, eu não acho nada. Espero que seja feliz...

- Pois é... quem sabe?

- E onde vai trabalhar?

- Pois é..., acho que vou começar a freqüentar o hospital. Quem sabe aparece algum paciente pra eu operar? O problema é que não tenho onde atender consultas...

         De repente, o Quixote Panglossiano, que sempre habitou o coração do doutorzinho, despertou e disse:

         - Por que não usa este consultório de manhã? Eu só venho à tarde. E meu equipamento está à sua inteira disposição...

- O quê? – foi a pergunta, espantada, quase incrédula.

- Claro! É o que eu disse.

- Pero yo no tengo como pagarle... soy mui pobre...

          - Você não vai pagar. É meu jeito de mostrar hospitalidade... Eu sou assim mesmo. Mais tarde, quando puder, você paga. Está aqui a duplicata da chave. Comece quando quiser.

          - Eu não acredito! Com telefone e tudo? Estou sonhando! Isso não existe! Muito obrigado! O senhor não vai se arrepender!

 

Terceiro ato:

          Algum tempo depois. O doutorzinho, no consultório, num sábado, de manhã, quando não havia expediente. Fora organizar o fichário. O telefone toca:

- É o dr. Sicrano? – pergunta, em tom de surpresa, uma voz feminina.

- Sim. É ele mesmo.

- Mas o senhor não está doente?

- Eu? Doente? Não! Por quê?

         - Foi o dr. Beltrano que me disse. Por isso, nunca mais o procurei e passei a consultar com ele.

 

         Então o finório, que já havia feito poucas e boas na cidade; que nunca pagara um tostão pelo usufruto do consultório, estava até aliciando a clientela do seu benfeitor. E ainda tinha tido a cara-de-pau de jurar que este nunca se arrependeria.

 

         Cena final, sem diálogo: o doutorzinho e o chaveiro.

         Motivo: troca do segredo da fechadura.

         Clima: silêncio, tristeza e arrependimento.

Desdobramentos: o finório sumiu, sem deixar pistas.

Epílogo: decepção, que não foi a última...

 

 

          Mario Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 21h18
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ILUSÃO DE ÓPTICA 

Este entalhe, trabalho meu de 1978, esculpido em madeira de cedro-rosa - com o título atual de DELICATESSE - apresenta uma particularidade: se a imagem for invertida, tem-se a impressão, em consequência de um surpreendente efeito óptico, de que as reentrâncias se transformam em saliências. Por isso, ele está sendo mostrado em duplicata. O curioso é que, ao vivo e sob o mesmo ângulo de incidência da luz, o fenômeno não se repete. Abraços. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 19h47
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O JORNAL ‘METASTÁTICO’

 

“Esta é mais velha que jornal de ontem!” – já ouvi gente boa dizer com estas aspas, em tom de quase provérbio, ao referir-se a uma notícia ultrapassada e sem interesse.

Considero este dito uma grande injustiça, na melhor das hipóteses, um pressuposto errado e, não raro, uma rematada idiotice. Por quê?

Porque o jornal verdadeiro, moderno, não é só notícia. Diria até, não é mais notícia. Nesse aspecto, por mais que se esforce, o jornal de hoje – e quando digo “de hoje”, estou dizendo “de hoje em dia” – não tem, e nunca mais terá, como competir com meios noticiosos mais modernos, como a televisão, da mesma forma que já não tinha como competir com o bom rádio que se fazia outrora.

Noticiário de jornal, a rigor, é sempre velho, no mínimo, da véspera. As edições de domingo, que chegam às ruas já na tarde do sábado, são o melhor exemplo. Gordas, pesadas e incômodas de ler, tornam-se às vezes ridículas em sua absoluta impossibilidade de prever o futuro imediato de fatos em vias de desdobramento.

Jornal que se preza, é muito mais que isso – é até literatura. Jornal que se preza, é uma legítima escola que veicula idéias, conceitos, muito mais que notícias. E onde estão essas idéias, esses conceitos? Estão em suas colunas, em sua linha editorial, em uma temática abrangente e diversificada que atenda aos múltiplos e variados interesses do âmbito de sua distribuição.

Jornal que se preza, vence o tempo; não vive apenas do momento, muito menos do ontem. Jornal que se preza, é aquele que, deixado numa sala de espera ou na bolsa da poltrona de um avião, continua, em muitos aspectos, válido e atual até que o tempo e o constante manuseio se encarreguem de destruí-lo.

Há dias, tomando um café de passagem pelo centro, entrevi lá fora, sentado num dos bancos do calçadão, chapéu “panamá” de abas largas, camisa aberta ao peito e mangas curtas, um querido amigo, a ler um desses calhamaços.

Pelo hemisfério norte do meu bifocal-executivo, fiquei a observá-lo entretido na leitura, absolutamente alheio à plebe rude que passava quase esbarrando em suas pernas cruzadas, quando coincidiu que seu jornal e meu cafezinho acabavam juntos. Já tinha a intenção de me aproximar tão logo saísse, pois considero esse homem uma companhia que, além de agradabilíssima, dá qualidade a qualquer papo, e não foi pouco o que já aprendi com ele.

Vi que se levantava e deixava o jornal sobre o banco. Já havia caminhado meia-dúzia de passos, quando o alcancei:

- Você esqueceu o jornal!

- Não, Mario, eu o deixei de propósito...

De imediato, percebi sua intenção. Ele visava a alguém que, eventualmente ali sentado, tivesse oportunidade de ler também.

- Você sempre faz isso? – indaguei, intrigado.

Sua resposta foi surrealista... reticente:

- Olha, sempre que me lembro, trato de me esquecer...

- Acho que matei a charada. E também vou passar a lembrar de me esquecer... – comentei, sorrindo.

De fato, não há coisa com vida mais efêmera que uma edição de jornal, sobretudo se for consumida por um só leitor.

Mas se todos nos acostumássemos a agir como o meu amigo, dobraríamos sua vida útil e estaríamos veiculando, sob a forma de uma ‘metástase benigna’, um mínimo de informação e cultura e, quem sabe(?), um sutil estímulo à leitura, nem que passageira e superficial, por parte desse povo que tão pouco lê.

-    Parabéns, meu caro mestre! Seu ‘esquecimento’ foi uma preciosa lembrança que teve a serventia de uma lição.

E tomara que o leitor desta croniqueta também lembre de esquecê-la em algum lugar onde possa ser lida por outro...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 17h53
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A SENHA (.....)

 

Tive um amigo, falecido prematuramente, que era espírita kardecista. Chamêmo-lo de N. Ele dizia-se capaz de sair do corpo enquanto dormia e testemunhar, em tempo real, acontecimentos em outra cidade. Durante anos, por gostar muito de mim – sentimento que era recíproco – N tentou me impor sua crença. Dizia-se preocupado com minha precoce tendência ao ceticismo, temeroso de que eu não “evoluísse em direção à luz”.

Sou de família católica, e meu avô, como todo bom seguidor dessa doutrina, tinha horror ao espiritismo, não desperdiçando a menor ocasião de combatê-lo. Era, por assim dizer, o contraponto que eu tinha dentro de casa. Minha mãe era uma santa, dedicada exclusivamente à lida da casa e à educação dos filhos, que eram quatro. Ia à igreja, simplesmente. Meu pai, por seu turno, era comedido e, embora a freqüentasse regularmente, nunca exerceu sobre nós uma influência que se pudesse rotular de impositiva. Apenas nos ensinava, até com o próprio exemplo, regras de conduta. Cresci nesse ambiente, mas, desde cedo, fui muito crítico em relação a assuntos religiosos; aos onze anos, já alimentava minhas dúvidas, que cresceram à medida que, matriculado em colégio jesuíta e recebendo a maciça carga de proselitismo que vigora como matéria de lei em tais estabelecimentos, comecei a cogitar com mais freqüência sobre os porquês que forjam a chamada fé ou seu oposto.

Nesse longo período de sete anos em que fui bombardeado com tal doutrinação, comecei a desenvolver uma progressiva rejeição por seus postulados, sobretudo pela dificuldade crescente de lidar com a amedrontadora noção de pecado e da danação infernal. Minha paz de espírito era cada vez menor e, no entanto, não descobria uma alternativa que me satisfizesse. Dedicado aos estudos e aos esportes, fui, talvez por reação inconsciente, sufocando tais indagações e deixando o tempo passar. Quando saí de casa para estudar noutra cidade, vi-me, de repente, livre desse assédio e dessas influências.

N foi comigo e, durante os seis anos do curso, mantivemos uma convivência praticamente diária. Certa ocasião, num papo descontraído, ele propôs, para nosso uso exclusivo, uma espécie de senha numérica de cinco dígitos que, em futura comunicação sobrenatural, serviria como prova cabal da existência do que chamava ‘plano astral’ onde estaria quem morresse primeiro. Até hoje, tenho esses números gravados na memória.

Convivendo com novas cabeças e idéias, e quase adulto, já não freqüentava igrejas com a antiga regularidade. Leituras mais livres e arejadas foram, aos poucos, mudando meu foco e oferecendo explicações mais convincentes para meus questionamentos onto-epistemológicos.

Não nego que o contato teórico e prático com assuntos ligados à biologia tenha tido alguma importância nessa guinada gradativa. O fato é que, já na metade do curso, minha conduta era outra. Mas o que determinou o rompimento definitivo foi minha predisposição para duvidar das questões de fé. Hoje, não duvido mais; tenho, dentro dos limites a que está confinado o cérebro humano, um grau de convicção que me satisfaz plenamente e que me permite viver livre de tutelas. Não faço mais parte do rebanho. Sou um ateu assumido. Penso livremente e confesso que me sinto muito mais à vontade. Mas também reconheço que não é fácil adotar essa postura e estar sempre cercado de uma maioria esmagadora de crentes que, conquanto não declarem ostensivamente, me olham com a estranheza e a condescendência respeitosa de quem se vê diante de um espécime raro e não conseguem esconder uma inconfundível expressão de caridoso pesar pelo que me está reservado no futuro. Conclusão: para viver em sociedade, é muito mais cômodo pertencer à maioria...

Mas, para encerrar essas singelas considerações, até hoje – e  lá se vão anos – por mais que, em meus madrugais insones, me concentre na figura simpática e sorridente de N – e alerto, desde já, que não aceito interpretações doutrinárias, tais como minha inaptidão “mediúnica” – jamais recebi qualquer mensagem que repetisse nossa senha...

 

 Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 11h35
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KRONOS, O TEMPO

 

          O tempo é um mistério insondável. Segundo Einstein, trata-se de uma grandeza relativística, tanto que é considerado como a quarta dimensão do espaço, capaz de curvá-lo na velocidade da luz e até gerar buracos-negros.

          Entretanto, ao contrário das outras três dimensões da geometria euclideana clássica – comprimento, largura e altura – ele não é percebido fisicamente pelos nossos sentidos. Olhamos ou tocamos um objeto e somos capazes de lhe determinar, mesmo a grosso modo, aspecto, tamanho, peso, cor e consistência. O tempo, contudo, dir-se-ia ultra-sensorial. A cada momento, a noção que temos dele é a vaga consciência de sua passagem nos ponteiros do relógio. Afora isso, parece parado, mas sempre avança; ou nós avançamos nele, numa viagem sem retorno. Olhado de costas, já é passado que se esvai e se perde nas brumas da memória; de frente, apresenta-se como o futuro, o vir-a-ser. É tão relativo que parece arrastar-se quando vivemos momentos difíceis e voa célere se a ocasião é de prazer. Visto em sua essência, contudo, não passa do instante, lapso tão ínfimo e inconsistente que nem mensurável é. E é na inconsistência desse não-ser que vivemos nosso presente. Ele, o tempo, é, entretanto, o infinito depósito em cujas prateleiras vamos arquivando nossa experiência pessoal ou coletiva.

          Nele, em meio às mazelas da história humana, estão guardados todos os avanços e conquistas do conhecimento. Registros vão ali se acumulando com freqüência e volume cada vez mais atordoantes. Quem iria imaginar que, em apenas cinco décadas, estariam aí a televisão substituindo o velho rádio; o teclado eletrônico, cheio de artifícios, sepultando de vez a máquina de escrever; o computador matando inapelavelmente os métodos centenários de cálculo, registro, armazenamento e projeção de dados; o telefone celular banalizando ao tempo real a comunicação a distância; a internet reduzindo o globo terrestre a uma aldeia multi-comunitária. A tradução do genoma a derrubar barreiras até há pouco intransponíveis. As células-tronco a prometer perspectivas de longevidade quase bíblica.

          Sim, porque eu sou contemporâneo de todos esses defuntos. E nesse curto intervalo, a pílula anticoncepcional, o pouso na Lua e a clonagem da ovelha Dolly vieram, cada um a seu modo, mudar os costumes, oferecer nova perspectiva para a sobrevivência extraplanetária do reino animal, além de estremecer as bases milenares da ética e da moral, transferindo o domicílio da busca e do entendimento da verdade de sua antiga e bolorenta sede na fé dogmática para a razão metodizada, e abrindo a janela do cosmo para uma visão holística sem precedentes.

          E em termos pessoais? O que aconteceu comigo nesse fugaz interlúdio? Simplesmente, perdi meus bastos cabelos pretos, substituídos por uma rala penugem grisalha; deixei de jogar futebol e, por causa disso, tive a massa muscular das pernas reduzida quase à metade; “ganhei” um indesejado aumento do diâmetro abdominal que me impede de enxergar o bico dos sapatos “y otras cositas”, a menos que me curve ou esteja diante de um espelho; fui brindado com uma progressiva dificuldade em executar, com a antiga desenvoltura, os simples movimentos de girar o pescoço num ângulo de 180º; com a definitiva incapacidade de, sem tonturas e ofegâncias, subir, em marcha ininterrupta, as centenas de degraus da escadaria do meu prédio; de devastar uma suculenta feijoada ao meio-dia e digeri-la tão depressa a ponto de sair da mesa correndo e bater bola a tarde inteira. E por aí-a-fora, uma inestimável seleção de outros prejuízos que me recuso a reconhecer, a confessar e, sobretudo, a comentar aqui...

          Diz-se que a gente se acostuma a tais perdas, desde que sejam naturais, como pelo menos até agora, têm sido as minhas. E que – palavras que consolam – ‘em compensação’ – e aí vêm, enfileirados, aqueles lugares-comuns que, de bom grado, trocaríamos por tão saudosos haveres, poderes e aptidões...

          A verdade, porém, é bem outra. Lá no íntimo, bem lá no fundinho, confesso que gostaria de começar tudo de novo, no mínimo, para testemunhar o que de inimaginável vem por aí. Mas com uma condição: que me fosse dado o privilégio de ajuntar àquelas inesgotáveis capacidades de outrora a experiência e a sabedoria adquiridas nas cabeçadas que dei, a fim de não repetir os mesmos erros ou desperdiçar, por timidez, excesso de autocrítica, indecisão, cansaço ou até mesmo preguiça, as oportunidades que tive e joguei fora. E saber curti-las com mais competência, senso, tato e paladar.

          Essa é, todavia, a maior de todas as utopias. Tanto é assim que George Bernard Shaw, um dos mais atilados cérebros do século XX, resumiu tudo num simples dito que tenho na conta das preciosas sínteses do pensamento:

          “Que pena a juventude ser desperdiçada no jovem! O ideal seria que a juventude soubesse..., e a velhice pudesse...”

 

          Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 17h46
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“CANTORES ?”

 

Estava eu, hoje de manhã, num bar da Avenida Atlântica, em Camboriú. Tomava um chope na companhia de um compadre muito caro. O papo não podia ser mais agradável, e o ‘camarão especial isolado’ não deixava por menos. Sol, temperatura amena, carrões, gente bonita, jovem e saudável desfilando à nossa frente; o ritmo entrecortado das ondas do oceano a esbater-se na praia..., em suma, tudo o que pode haver de melhor para olhos e ouvidos humanos.

Eis que, de repente, alguma coisa começou a me incomodar. Na hora, não identifiquei a causa, mas logo caí em mim: o alto-falante começara a funcionar em alto volume. A conversa ficou difícil; nada mais se escutava, exceto o ruído – sim, ruído, porque aquilo não era som – de uma dessas musiquinhas atuais, tipo ‘pocotó-pocotó’, que irrompia em nossos tímpanos indefesos. Algum louco desvairado, com um megafone aberto e estridente, trepara e se instalara na borda, na concha da minha orelha...

Chamamos o jovem garçom com a desculpa de dobrar as doses. Ele correu, pressuroso, pois o movimento ainda era pequeno. O que queríamos, mesmo, era pedir-lhe que desligasse aquela porcaria ou, pelo menos, que reduzisse o volume a um nível suportável. Sua expressão não foi das mais alegres, mas, como estávamos pagando – e o preço não era dos menores – concordou. Pronto! Pudemos voltar a conversar e, para nossa satisfação, merecemos de um outro freqüentador um gesto mudo, feito com o polegar, de inteiro apoio ao nosso pleito. E assim, reconfortados, terminamos o passeio matinal, feito diariamente para esticar as pernas.

Mas o que quero enfocar aqui não é Camboriú, nem verão, nem praia, nem juventude sarada. Quero, mesmo, é espinafrar com o que rola pelo Brasil de hoje em matéria de preferências musicais e seus intérpretes. A melodia não existe mais; as letras são de uma pobreza franciscana. De uma estupidez quase bovina. E os cantores? É o caso de exclamar, mesmo não sendo devoto: “Minha Nossa Senhora!” Aquela ‘coisa’ era um ‘cantor’. Que grava! E que vende CDs! O sujeito era uma lástima, um atentado ao bom gosto, quase ao pudor; um desclassificado, um impostor, uma fraude!

Fico pensando como essa palavra ‘cantor’ está prostituída. Então, aquele mentiroso, aquele vigarista se intitula, tem-se na conta de um cantor, palavra respeitável que, durante décadas, identificou um Frank Sinatra, um Sammy Davies Jr, um Andy Wylliams, um Satchmo, um Nat Cole, um Charles Aznavour, um Emílio Santiago, uma Maysa, uma Dolores Duran, um Gardel...; isso para não falar de virtuoses, como Lanza, Bjorling, Domingo ou Pavarotti.

Devemos, urgentemente, devolver a essas palavras - ‘cantor’ e ‘música’- o significado que tinham. E a respeitabilidade. E devemos, mais urgentemente ainda, inventar um termo para definir essas monstruosidades sonoras, essa escatologia com que a chamada ‘modernidade’ está avacalhando e deteriorando o gosto musical e o que chamávamos de ‘cultura popular’. Ou melhor, deveríamos, porque não há a menor esperança de que isso venha a acontecer.

Minha impressão, quase certeza, é de que o nível será cada vez mais baixo. E o barulho, cada vez mais alto. O mais doloroso é que minha neta de 15 anos dá a esse mau gosto o maior apoio e confessa, com a mais genuína sinceridade, que porcaria, mesmo, são os nomes que eu citei. Esse mundo está perdido...

 

         Mario Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 17h54
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ANOTIA
 
Certa vez, há alguns anos, vi-me envolvido com um caso de 'ANOTIA". Era uma criança de fora, cuja mãe, por carta, me pedia orientação. Mandei-lhe tudo o que tinha, inclusive o endereço de uma clínica americana especializada. Nunca mais recebi notícias, nem mesmo para agradecer. Era um caso semelhante ao dessa garotinha da figura. Até do mesmo lado. Considero esse tipo de medicina uma prática de alta indagação social e humanitária.
 
 
ANAPLASTOLOGIA - UMA OBRA DE ARTE MÉDICO-SOCIAL

A Anaplastologia, que é a arte e a ciência de restaurar estruturas corporais ausentes ou mal formadas através da utilização de meios artificiais, permite confeccionar próteses com a mais alta tecnologia  para pacientes portadores das mais variadas deformidades.

Próteses
As próteses são confeccionadas com materiais aloplásticos como o silicone e o acrílico. Elas são artesanais, feitas individualmente respeitando-se as características anatômicas e a coloração da pele de cada indivíduo. O meio de retenção pode ser obtido através de adesivos, por sucção ou com a utilização de implantes ósseo-integrados.

Indicadas para portadores de deformidades pós-cirúrgicas, as próteses podem também ser utilizadas em pacientes que sofreram queimaduras e diversos tipos de traumas mecânicos e físicos, além de recompor mal-formações crânio-faciais congênitas.

 
"O dom de curar nem sempre está em medicamentos ou em cirurgias. Pode estar, literalmente, nas mãos de um artista, mesmo que esta arte não seja exposta em galerias famosas.  Nesse caso, a cura foi a devolução da auto-estima para uma garotinha. O que é maravilhoso!"
 
Nota do Pediatra Nelson Grisard - Professor de Néo-Natologia da UFSC e de Ética Médica da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI)
Florianópolis - SC
 
OS PRÊMIOS SÃO O BEIJO E O SORRISO
Mario Gentil Costa


Escrito por MaGenCo às 22h53
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INTUIÇÕES E MAUS PRESSÁGIOS

 

          Estimulado pelos inúmeros relatos de intuições e maus presságios que se concretizaram, decidi expor aqui meu ponto de vista sobre este tema. “Intuição é a capacidade de perceber ou pressentir coisas, independente de raciocínio ou análise”.

          Mas o que é uma intuição? Algumas pessoas que já tiveram maus presságios confirmados atribuem à intuição um significado mágico ou metafísico. A princípio, esta é uma alternativa que serve muito bem. Mas a julgar pela navalha de Occam, “diante de duas explicações igualmente válidas para o mesmo fato, devemos preferir a explicação mais simples”. E, em muitos casos, essa explicação dispensa completamente o uso de seres metafísicos ou energias mágicas. Intuição, em princípio, é função cerebral pura. É a nossa imensa capacidade mental de reconhecimento de padrões complexos.  

          Reconhecemo-los o tempo todo e tiramos conclusões deste processamento mesmo sem racionalizá-lo. Nossa incapacidade de racionalizar o reconhecimento de tais padrões é evidente na área da computação. Muitos sistemas baseiam parte de sua segurança na dificuldade computacional que é reconhecer padrões complexos.

          Quem já não viu um sistema que exibe uma figura com caracteres distorcidos, coloridos e desalinhados, solicitar do usuário a digitação do texto inserido na figura? Isto nada mais é do que um artifício para fazer com que esses sistemas sejam usados apenas por usuários humanos. Nem o mais poderoso algoritmo de reconhecimento ótico de caracteres é capaz de reconhecer com confiabilidade os caracteres dessas figuras. Já nosso cérebro é capaz de reconhecê-los através de um processo não racional. Assim funciona quando saímos à rua, e, mesmo que o céu não esteja nublado, pressentimos que vai chover. Nossos sentidos coletam informações da temperatura do ar, da umidade e de mais uma série de fatores de que sequer nos damos conta. Nosso cérebro compara esses dados com toda a base de dados armazenada em nossa memória, para saber quando esses fatores climáticos ocorreram no passado e se choveu ou não naquela data específica. Assim, "pressentimos" a chuva.

          O mesmo ocorre com os maus presságios. Acredito que muitos souberam, após a morte de Ayrton Senna, que ele teria tido um mau presságio em sonho e que pensou duas vezes antes de entrar na pista naquele fatídico domingo. Mas será que isso foi um aviso dos céus? Ou, sabendo que pilotar um Fórmula 1 é uma tarefa potencialmente fatal, e consciente dos riscos envolvidos, ele pressentiu que algo poderia acontecer? Quantas vezes terá ele entrado na pista despreocupado e relaxado? Não devem ter sido muitas. Ademais, será que a quebra do eixo de direção, a que muitos atribuem o acidente, foi uma coisa brusca e repentina? Será que Senna, inconscientemente, não percebeu sinais da quebra nos treinos de sexta e sábado? Nesse caso, os fatos daquele dia podem ser explicados com uma visão racional das coisas.

          Devemos, então, deixar de acreditar na intuição? Não! Deixando de aceitar sua capacidade de reconhecer padrões complexos, você estará deixando de usar a faculdade cerebral que nos distingue das máquinas e nos torna superiores. Devemos, sim, acreditar em nossa intuição e procurar desenvolvê-la, pois esta é uma das nossas ferramentas para perceber o mundo.

Observação: Este artigo foi publicado por duas razões:

1. Porque concordo inteiramente com seus postulados.

2. Em função de seu conteúdo oportuno e curioso, já que ajuda a desmistificar muitas teorias esotéricas - Autor desconhecido.

                   Mario Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 17h40
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A INCÓGNITA DEFINITIVA

 

           Embora o poder de pensar com maior clareza e profundidade dependa da carga neuronal de cada um, deveria haver uma disciplina currículo-escolar que ensinasse a pensar com lógica e ordenação. E não há. O homem, infelizmente, desperdiça grande parte de sua capacidade pensante; por isso, sua mente erra vadia e dispersiva. Contudo, seu poder de intuir, apoiado na capacidade de deduzir, é a mola que impulsiona o progresso do conhecimento e o talento criador.

A fala, a audição e a visão foram recursos fundamentais para isso. Elas  existem em função do som audível e da luz visível. Mas luz e som existem como energia vibratória e são independentes dos olhos e dos ouvidos. Existiriam, mesmo que fossemos todos cegos ou surdos.

Mais ainda, som e luz continuariam existindo se o homem não existisse, como existem os sons inaudíveis (infra e ultra-som) e a luz invisível (infra-vermelha e ultra-violeta). Já era assim no tempo dos dinossauros e assim será quando desaparecermos do planeta.

Da mesma forma, há verdades que ultrapassam o alcance do nosso cérebro. Parece que Platão estava certo: ela, a verdade, é arquetípica. Quanto mais inteligentes formos, mais seremos capazes de captá-la e formulá-la, transformando-a em conceitos lógicos.

Um gato que freqüenta uma biblioteca pode conhecer superficialmente os seus contornos, mas nunca será capaz de absorver a sabedoria contida em seus livros. O mesmo vale para a insuficiência do homem em relação ao cosmos; ele está aí; resta entendê-lo, até onde for possível, à custa da intuição e da pesquisa científica.

Uma das grandes ânsias da humanidade, talvez a maior de todas, é abarcar a idéia do infinito e do eterno, dimensões incompreensíveis que esmagam e confundem o nosso cérebro limitado. É fácil e óbvio intuí-los e admiti-los, mas é impossível compreendê-los e abrangê-los. Sabemos que ambos são obrigatórios, inegáveis, necessários; fazem parte da essência do existir.

Um deles, o eterno, nos dá uma idéia de tempo sem fim, de duração ilimitada; o outro, o infinito, de espaço, de distância sem limites.

        Numa definição grosseira, poderíamos comparar o infinito a uma dízima periódica, que sempre cresce, sempre avança e nunca chega ao fim porque cada nova fração vale um décimo da precedente. É uma sequência interminável de frações cada vez menores, que, por se somarem, aumentam e, por serem cada vez menores entre si, diminuem. Seria isso o infinito? Uma espécie de soma infinita de finitos cada vez menores? A sucessão ilimitada dos fractais da teoria do caos...?

         

         E o eterno? Como o definiríamos? Eterno lembra tempo sem começo nem fim, um ‘antes’ e um ‘depois’ não-temporais, sem limites de duração. Confunde-se com o espaço infinito.

Espaço-tempo, uma dimensão cósmica interativa. Poder-se-ia afirmar que um não existe sem o outro; são interdependentes e correlatos. Ora, algo cósmico que seja eterno-infinito não pode ter começo nem fim. Algo que não tem começo nem fim no espaço e no tempo, não pode ter começado um dia e não poderá jamais terminar. Portanto não pode ter sido criado; sempre existiu, sempre existirá... Essa é minha idéia do infinito e do eterno, coincidente com o próprio Universo, valores superpostos, inerentes e inseparáveis. Estaria aí a síntese do Panteísmo de Spinoza e Einstein, do Deus-Universo, do Universo-Deus, dualidade única e irrepetível? Quem sabe?

O outro Deus, o Deus das religiões, criador do Universo, que teria feito o homem à sua imagem e semelhança, é, para mim, inconcebível; seria um eterno criando outro, um infinito criando outro. Uma impossibilidade conceitual. Portanto Deus e Universo, seriam uma coisa única, uma estranha espécie de ‘monismo-dualista’.

          Enfim, nosso cérebro, finito e limitado como é, por mais que se esforce, nunca será capaz de abrigar o conhecimento infinito, a sabedoria superlativa, a idéia do universo integral, em outras palavras, a verdade máxima final. Estamos, portanto, condenados a viver esmagados sob o efeito de dois extremos inatingíveis: o nada inexistente, impossível, e o tudo necessário, obrigatório.

 

Mario Gentil Costa

 

 

 

 

 

 


 



Escrito por MaGenCo às 18h21
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“COISAS  DA  BÍBLIA”

 

          Quando adolescente, por cobrança do professor de apologética católica, li a Bíblia quase de ponta-a-ponta. O resultado foi desastroso; não tinha maturidade e achei a experiência maçante, como, aliás, resulta ser qualquer tarefa realizada contra a vontade.

         Cresci e, já adulto, na faculdade, voltei a ela. Ao final dessa segunda experiência, restou dentro de mim um vazio, uma profunda e decepcionante sensação de perplexidade que não sabia exprimir. E fui encontrar em Mark Twain, famoso escritor norte-americano, as palavras que, de uma vez por todas, viriam em meu socorro. Ei-las, textualmente:

         “O que me incomoda na Bíblia não é tanto o que não compreendo; é, justamente, o que compreendo...”

         Que observação concisa e sábia! Então, aquele homem brilhante também sofrera idêntica decepção! Não me achei mais sozinho e desamparado. Tinha companhia ilustre! Mais tarde, com a conquista gradativa do amadurecimento, li Voltaire, Espinoza, David Hume, Bertrand Russell, Einstein, Carl Sagan, e, para contrabalançar, Huberto Rohden e Teillard de Chardin, autores religiosos igualmente reconhecidos. E fiquei ao lado dos primeiros, mais consistentes, equilibrados, convincentes e, sobretudo, mais sensatos. Havia, afinal, achado meu caminho definitivo e irrevogável.

         Há alguns anos, bem mais velho, tentei lê-la de novo. Escolhi uma edição luxuosa em capa de couro, chamada Edição Barsa - 1964, que ainda guardo na minha biblioteca e acompanhava a Encyclopaedia Britannica, adquirida na mesma década.

A aludida edição tem a tradução do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo, feita em Lisboa (1778-1790). A do Livro dos Salmos é do do Pe. Leonel Franca, feita sobre a nova latina que os Professores do Instituto Bíblico de Roma fizeram dos textos antigos. O livro, em si, vem acompanhado de notas e um completo dicionário prático a cargo do Mons. José Alberto L. de Castro Pinto, professor de Sagrada Escritura no Seminário Arq. de São José, Rio de Janeiro.

A Introdução, não assinada - imagino que seja da lavra do último religioso citado acima - vem dividida em seis seções, entre as quais, três me chamaram a atenção: - Um pouco de história, A Igreja e a Bíblia e A Bíblia e eu.

Pois justamente aí encontrei uma barreira que, afinal, se revelou intransponível: - uma tentativa (vã e contraproducente) de preparar o leitor para a “compreensão” do texto sagrado.

          Nela destaco em “itálico grifado” e, eventualmente, comento ou sublinho os trechos que mais me chamaram a atenção. Ei-la:

        

          UM POUCO DE HISTÓRIA:

         A Bíblia é a coleção de escritos que, por terem sido inspirados pelo Espírito Santo, têm a Deus como autor principal e, como tais, são reconhecidos pela Igreja.       

         São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja, define a Bíblia como “uma carta que o Senhor Onipotente quis, por sua bondade, dirigir à sua criatura.”

         Os 73 livros que integram a Bíblia não foram escritos todos ao mesmo tempo, nem sequer representam uma só época: do primeiro livro do Antigo Testamento ao último do Novo, passaram-se cerca de 14 séculos, e mais de 50 autores distintos nele trabalharam.

         Desde os primórdios do cristianismo, foram todos esses escritos reunidos em um só volume sob o nome de Bíblia (do grego: “livros”), Escrituras ou Sagradas Escrituras.

 

         Unidade de Conteúdo:

         Apesar da diversidade das épocas, autores, gêneros literários e tópicos tratados, há uma surpreendente unidade em seu conteúdo, cujos temas principais são:

         1. Um só personagem central: N.S. Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro.

         2. Um tema básico: o plano de Deus para remir o mundo por meio de seu Filho.

         3. Uma só história: as relações entre Deus e seu povo, que eram, no Antigo Testamento, os israelitas e, no Novo, a Igreja ou povo cristão, chamado por São Paulo “o verdadeiro Israel de Deus”.

         4. A existência de um só Deus, Onipotente e Misericordioso, cuja característica mais assombrosa é, precisamente, um amor incomensurável por suas criaturas.

         5. O desenvolvimento progressivo de uma mesma revelação de origem divina que se vai ampliando, cumprindo e aperfeiçoando através dos séculos.

         Será humanamente impossível explicar toda essa extraordinária unidade e harmonia no conteúdo dos 73 livros, a não ser que se admita Deus como inspirador de todos eles.

 

        

         Comentário:

Fixemo-nos no que está grifado e sublinhado acima. O início do texto já parte de um pressuposto ao afirmar a autoria divina da Bíblia, inspirada pelo Espírito Santo. O leitor tem, portanto, de acreditar na real existência dessa figura - o Espírito Santo - para aceitar o que vem adiante. Em seguida vem o Papa Gregório dizer textualmente que “a Bíblia é uma carta que Deus enviou à sua criatura”. O leitor tem, nesse caso, de acreditar na criação, hipótese formalmente negada pela ciência com a Teoria da Evolução das Espécies pela Seleção Natural, de Charles Darwin. Em meu caso pessoal, acho-a mais aceitável e atraente do que a história do Gênesis, eivada de improbabilidades e absurdos de lógica. Portanto, não aceito nenhuma das afirmações acima.

         Logo adiante, a confissão textual de que a Bíblia se compõe de 73 livros, escritos ao longo de 14 séculos por mais de 50 autores. Só isso já compromete o conceito de Verdade, pois, durante tão vasto intervalo, as possibilidades de erro nas traduções e interpretações, além das influências da época e do meio em que cada autor viveu, tornam impraticável a idéia de “unidade” expressada acima. Isso para não aludir à antigüidade dos textos originais, todos perdidos e escritos em papiro, material sabidamente frágil e sujeito à progressiva deterioração em fragmentos eventualmente incompreensíveis, além de possivelmente intraduzíveis pela mudança gradativa do real sentido de termos caídos em desuso e das diversas línguas originais em que foram redigidos (grego, hebraico, aramaico e outras, além do latim). Depois, não há como negar a hipótese, mais que provável, de modificações propositais nas transcrições subseqüentes, oriundas da possível má-fé e de preferências pessoais de cada autor ou, até mesmo, das voluntárias alterações de passagens para que melhor se adaptassem aos interesses e conveniências de sua época. Outra perspectiva razoável seria a imposição desses descumprimentos em função da autoridade hierárquica que pairava sobre os escribas, que, não raro, eram monges humildes ou meros escravos sem o mínimo poder de questionamento ou discordância.

Poderia ir mais longe, mas penso que, por enquanto, isso basta.

 

 

          Mario Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 13h28
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O REVERSO DA MOEDA

 

Aconteceu há muitos anos, no início da minha vida médica. O cenário é meu primeiro consultório. Fim de expediente. Ouço passos na sala de espera. Abro a porta. Uma jovem senhora traz pela mão a filha de 10 anos.

       - Doutor, esta menina tem algum problema no ouvido esquerdo. Purga toda vez que mergulha.

       Examinei. Lá estava a perfuração do tímpano. À época, eu ainda não fazia essa plástica. E lhe disse. Tratei a infecção, que curou. E sugeri que procurasse um centro maior, já que meus dois outros colegas locais, mais velhos, também não faziam.

- O que o senhor acha do dr. Fulano, em Curitiba?

         - Muito bom. É meu amigo. Vou escrever-lhe uma cartinha de apresentação.

E assim fiz. Ela agradeceu e partiu.

Algum tempo depois, um amigo muito próximo me disse que um terceiro colega, do Rio, a quem eu devia favores e gentilezas do tempo da residência, estava profundamente magoado comigo.

- Por quê? – indaguei, surpreso e apreensivo.

       - Sua esposa, que é irmã da minha sogra, escreveu, dizendo que tu és um ingrato; que foste recebido em sua casa, obsequiado com presentes, almoços e passeios (até no Jockey Club!) e que, apesar disso, estavas desviando os clientes do marido para outro colega do Paraná.

       A memória deu um retrocesso, e logo imaginei de quem se tratava. E ele confirmou ao completar:

       - A menina Sicrana teve de ser re-operada no Rio, porque o enxerto não pegou...

       A mentirosa, que era amiga da senhora carioca, decerto para marcar pontos e não confessar que ela mesma havia preferido o cirurgião mais próximo, distorceu os fatos e me atribuiu a autoria da iniciativa.

       Como é de imaginar, uma raiva quase assassina tomou conta de mim. Esganaria, se pudesse, o pescoço daquela víbora peçonhenta que me comprometera por tão pouco.

       Contei ao amigo a verdade. Mas o embaraço estava criado e me cabia desfazê-lo na primeira oportunidade. Esta chegou logo adiante, quando o citado médico veio passar férias em Floripa. Procurei-o, dei-lhe a versão correta e, como era de esperar, ouvi o seguinte:

       - Ora, Mario, não esquente a cabeça por tão pouco. Aqui entre nós, eu nunca acreditei nessa senhora. Ela quis fazer média. E eu sou macaco velho... Tudo não passou de fofoca. Esqueça. Nem pense mais nisso. Continuamos bons amigos.

       Mesmo assim, nunca mais nos falamos. Criara-se, entre nós, um duplo e intransponível clima de constrangimento.

       Mas eu tenho certeza de que compensei o mal-entendido com juros de mora. O fato é que esse colega, quando vinha a Floripa nos fins de ano – e ele o fez ao longo de várias temporadas – operava, em semana escolhida, uma seleta clientela. E antes que a maledicência ocorresse, eu me havia oferecido para auxiliá-lo, sem ônus. Cheguei até a emprestar-lhe um estojo suplementar de instrumental cirúrgico para acelerar o ritmo da esterilização. Em contrapartida, ele, por iniciativa própria, me encaminhava as revisões pós-operatórias, que me procuravam na semana subseqüente. E tudo correu às mil maravilhas, até que essa dama da alta linhagem local fizesse o estrago que fez. 

       Só não sabe ele o que aconteceu numa dessas revisões. À pergunta protocolar de como havia transcorrido o pós-operatório, a mãe de um dos seus pequenos pacientes, questionou:

       - Doutor Mario, é normal o cheiro que esse menino tem no nariz? A gente nem pode chegar perto.

       Logo imaginei o drama. Ficara um tampão de gaze na cavidade operada. Antes de responder, eu lhe pedi:

       - A senhora, por favor, pode pegar na outra sala, lá na minha mesa, uma caixa de fósforos?

       Nesse meio-tempo, numa manobra rápida com uma pinça especial, removi o material podre do local, enfiei-o num saco plástico e o joguei no lixo. Em seguida, lavei as fossas nasais do pequeno com soro fisiológico. Para completar a pantomima, aqueci, com uma lamparina de álcool, um espelho especial e fiz, na garganta do paciente, uma inspeção desnecessária. E exclamei, convicto:

       - Pronto, só faltava uma boa limpeza. O cheiro vai desaparecer. Fique tranqüila.

       Não vi mais o garoto. O doutor jamais soube do imenso galho que lhe quebrei. Nem saberá...

      

       A cascavel de guizo? Também nunca mais vi. Deve andar destilando seu veneno mortífero em outra freguesia...

 

       Mario Gentil Costa

 

 

 



Escrito por MaGenCo às 21h59
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PENSAMEUS

 

A maior parte das pessoas vive esmagada sob o conflito entre a ânsia de ser ou parecer importante e a incômoda certeza de não ter importância alguma.

 

Uma folha de papel, uma pauta musical ou uma tela em branco constituem, a meu ver, o mais formidável desafio imposto à sensibilidade, à criatividade e à inteligência humanas.

 

O mutismo aparente das prateleiras de uma biblioteca é o mais veemente discurso proferido pelo intelecto e o mais seguro veículo da imortalidade humana.

 

A palavra falada, ainda que gritada em altos brados, tem vida curta. Já a palavra escrita sobrevive, e não há silêncio que a emudeça...

 

A palavra escrita é a forma mais plástica de pensar.

 

Ter pensado e não ter dito - sobretudo não ter escrito - em certos casos, é o mesmo que não ter pensado...

 

Os únicos estados superlativos do homem são o gênio, o santo e, às vezes, o mártir. Não os fabricados pela mídia ou pela Igreja, e sim os verdadeiros. Já o herói e o covarde não são estados, nem superlativos nem diminutivos; são meros momentos do ânimo...

 

O verdadeiro santo dispensa canonizações; ele é santo por si mesmo.

 

Todo homem reto e solidário já traz em si a vocação da santidade.

 

A verdade é coisa viva e existe por si mesma, podendo permanecer muda ou desconhecida até que alguém a proclame.

 

As leis da natureza são verdades eternas que independem do homem. Este só as enuncia e, se não o fizesse, todavia elas existiriam...

 

50 anos de vida humana é o ponto em que o início da maturidade e da sabedoria se mesclam em saudável e prazeroso equilíbrio com os restos da juventude.

 

As medalhas mais valiosas não são as que nos penduram no peito, e sim, aquelas que trazemos presas no coração e na consciência.

 

O tempo, o silêncio e a distância são os três mais implacáveis inimigos das relações humanas.

 

Existem sempre duas verdades: uma, a verdadeira, que é pré-existente, arquetítipa, eterna, imutável, vale por si mesma e independe das nossas crenças ou das nossas certezas; outra, a nossa verdade subjetiva, que só será verdadeira se estiver de acordo com a primeira.

 

Que cada um creia no que quiser, até mesmo no absurdo, se for o caso, desde que guarde consigo sua fé e não procure impô-la a ninguém...

 

A maior parte dos seres humanos vive sem qualquer propósito que não seja o de simplesmente multiplicar-se e sobreviver.

 

O acaso e as circunstâncias, e não a vontade ou o livre-arbítrio, é que ditam a maior parte das nossas decisões e atitudes.

 

A eterna angústia do homem que pensa é sentir-se finito e viver num mesocosmo espremido entre dois infinitos: o macro e o microcosmo.

 

Existimos conscientemente apenas a cada instante. O que passou não mais existe porque é passado e não volta. O que virá ainda não existe porque é futuro, se vier... E o mais chocante em tudo isso é saber-se que o instante, por não ter dimensão temporal, também não existe. Fico então a cogitar se de fato existimos...

 

O hoje é o ontem do amanhã e o amanhã do ontem; o agora é o antes do depois e o depois do antes; eis como o tempo é relativo.

 

A morte não chega, não vem de fora; é nossa sombra invisível; nasce conosco, cresce conosco e morre conosco.

 

Dependendo do ponto de vista, a vida, como fenômeno natural, é mais intrigante e misteriosa que a morte.

 

As pessoas que vivem em culpa constante, experimentam um prazer quase orgástico quando podem alardear suas raras inocências.

 

É o passado que constrói o homem, muito mais que o presente. E o futuro, na verdade, nem conta; é um mero ponto de interrogação.

 

Ninguém é autor do próprio talento; é apenas usuário.

 

Talento, inteligência e outros atributos são dons que a Natureza distribui de forma impessoal e oportuna entre os seres humanos para que cumpram seus desígnios num plano superior de verdade cósmica.

 

O homem só se tornará digno de si mesmo, quando aprender a conviver em paz com seu semelhante e em harmonia com a natureza.

 

Médico, terás sido realmente médico se, ao olhares para trás, tiveres a consciência de que nunca prescreveste a qualquer paciente um tratamento que não terias proposto a ti mesmo ou aos teus.

 

Médico: - se, ao fim de tua jornada de um dia ou de uma vida, não fores capaz de te acusar de um único erro voluntário ou desumano, terás sido um verdadeiro médico.

 

 

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 20h32
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CONFISSÃO TARDIA

 

O médico nunca imaginaria que, não indo ao hospital naquela manhã, escaparia de morrer. Afora o telefonema avisando que o paciente a ser operado não conseguira vaga na internação, a manhã transcorreu como outra qualquer, e ele destinou seu inesperado e bem-vindo tempo livre ao encaminhamento de outras tarefas, sempre adiadas pela sobrecarga do dia-a-dia.

E a vida prosseguiu sem novidades. Na manhã seguinte, retomou sua rotina: deu aula prática no ambulatório e operou outro caso. Teve até tempo para subir à sala da chacrinha e bater um papo descontraído com os colegas.

A única coisa – que, aliás, já lhe vinha aguçando a curiosidade - foi o silêncio de um ex-aluno com quem sempre mantivera um relacionamento amistoso. Até atendera sua esposa e filhos. Este, por alguma razão, fora o único que, além de não responder a seu ‘bom dia’ ao entrar, retirara-se abruptamente. Mera distração? Uma necessidade premente de sair? Foram essas as hipóteses.

No dia seguinte, todavia, a reação foi a mesma. Aquilo deixou-o intrigado. “Afinal, por que ele não responde mais ao meu cumprimento?”, foi a pergunta que passou a fazer a si mesmo a partir de então. “Sempre o tratei com a maior cortesia. Por que isso, agora?”

As retiradas se transformaram em praxe toda vez que ele chegava, sobretudo quando o outro estava sozinho. Com o passar das semanas e dos meses, como seria inevitável, ergueu-se entre os dois uma barreira de indiferença mútua. A antiga cordialidade se deteriorara por completo. E o tempo passou.

Anos mais tarde, numa dessas ocasiões, quando o desafeto, interrompendo ostensivamente o cafezinho, batia em retirada, ele, num impulso irrefletido, resolveu tirar a limpo sua velha estranheza e o interpelou da maneira mais direta:

- Posso saber por que você nunca mais falou comigo?

Já quase na porta, o outro estacou. Suas costas enrijeceram. Ele foi se virando, devagarinho. Estava pálido como uma vela. Mesmo assim, aproximou-se, serviu-se de outra xícara, sentou-se, acendeu um cigarro, mirou o ex-professor com evidente embaraço e falou:

- Você devia ter morrido naquele dia...

- O quê?  

A declaração ecoara como um petardo.

          - Foi isso mesmo que eu disse: você esteve marcado para morrer. Não morreu porque não veio ao hospital numa certa manhã...

A palidez, agora, mudara de hospedeiro. Era o mais velho que estava pasmo. Não sabia como reagir à brutal revelação. Recompondo-se da maneira que pôde, conseguiu, entretanto, aparentar a serenidade que não sentia e indagou:

- A sentença já prescreveu?

- Já.

- E agora eu posso saber por quê?

- Pode. Até acho bom a gente botar tudo em pratos limpos. Isso já me angustiou demais. Principalmente depois que nós descobrimos sua inocência...

- Espera aí. Nós quem?

          - Lembra aquele processo da previdência em que nós cinco fomos indiciados e você foi arrolado como perito?

          A memória da ex-futura vítima deu um retrocesso e, de repente, tudo começou a fazer sentido. Sim, ele, de fato, fora convocado para apreciar prontuários de pacientes cujas indicações cirúrgicas estavam sendo alvo de desconfiança por parte da administração da previdência social. Mas não se lembrava de ter dito nada que comprometesse os suspeitos, muito menos assinado qualquer documento que os prejudicasse. E, fundamentado nesta certeza, esperou que o outro fosse adiante.

           - O que nos levou a suspeitar foi o antagonismo expresso que havia entre você e dois do nosso grupo. E a coincidência de ser sua irmã, como funcionária da instituição, uma das responsáveis pela sindicância.

- E por que vocês deixaram de suspeitar de mim?

- Um de nós, que já morreu, mais tarde teve acesso à documentação e verificou, pra nossa surpresa, que você não havia acusado ninguém.

- E isso aconteceu quanto tempo depois?

          - Anos. Mas na ocasião, eu vim aqui, armado com um 38, para matá-lo. Sua sorte foi não ter vindo ao hospital naquela manhã.

- E no dia seguinte? Por que não me matou?

          - Porque tive uma conversa de travesseiro com minha mulher e uma noite inteira pra pensar...

- Então, eu fui salvo pelo travesseiro...

- É isso aí.

- Está arrependido?

- Claro.

- E por que nunca me procurou para se desculpar?

          - Ah, sei lá. Amor-próprio... orgulho... constrangimento... vergonha... não sei o nome que se dá a isso...

- Eu também não sei. Só sei que estou muito feliz de estar vivo.

          E a quase-vítima, ainda assustada, foi saindo da sala. Quando estava chegando à porta, ouviu-o perguntar, com a voz embargada:

- Você é capaz de me perdoar?

        - Olha, eu preciso pensar – foi a resposta seca, dada de costas, já à saída.

          E o ex-futuro-assassino ficou ali, sozinho, remoendo sua culpa.

          O tempo voltou a correr. Um dia, ele, que já tivera três ou quatro enfartos, foi internado na UTI em condições críticas. Temeroso, e atormentado pelo remorso, pediu que lhe trouxessem a ex-futura-vítima. Esta se fez presente e ouviu novamente o pedido patético, feito com a expressão tensa e ansiosa de quem se vê diante da morte com a consciência pesada:

- Agora você é capaz de me perdoar?

- Claro, você está perdoado.

No mesmo dia, ele morreu...

 

Mario Gentil Costa

 



Escrito por MaGenCo às 12h38
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COMO CRIAR UM DELINQUENTE

 

Recebi, por e-mail, este decálogo:

1. Dê a seu filho tudo o que desejar, e ele pensará que o mundo lhe pertence.

2. Ache graça de todos os seus palavrões e inconveniências.

3. Nunca lhe dê orientação religiosa.

4. Discuta com sua esposa sempre na presença dele.

5. Dê-lhe todo o dinheiro que quiser e o ensine a esbanjar.

6. Satisfaça a todos os seus desejos de comida, bebida, brinquedos e conforto (“para evitar-lhe futuras frustrações”).

7. Arrume todas as suas bagunças caseiras (e o estará ensinando a transferir responsabilidades).

8. Defenda-o sempre contra vizinhos, professores e policiais ou qualquer outra autoridade constituída.

9. Quando ele estiver encrencado, justifique-se com a desculpa de “nunca tê-lo conseguido dominar”.

10. E prepare-se para uma vida inteira de desgostos.

 

Só discordo do mandamento número 3, e o substituiria por:

"NUNCA LHE DÊ QUALQUER ORIENTAÇÃO ÉTICA, MORAL OU COMPORTAMENTAL”.

 

E, em nome desse abismo fundamental entre crença e razão, sublinharia o corolário: "NÃO O BATIZE; DEIXE TAL INICIATIVA A SEU CRITÉRIO, SE DESEJAR E QUANDO TIVER PODER DE ESCOLHA". É, sinceramente, o que eu faria, se meus filhos nascessem hoje. No mínimo, pela mera razão de a própria ICAR estar abolindo o 'limbo', e o famigerado 'pecado original', inventado e defendido por Agostinho, ter-me parecido sempre, desde os tempos do colégio, uma anomalia, um despropósito, um absurdo de lógica e uma inominável injustiça que não pode ter autoria divina.

 

Mesmo assim, dessas duas premissas, fui bem-sucedido em pelo menos uma: nenhum deles – e são quatro – teve educação religiosa. E hoje, para alegria dos pais, são cidadãos absolutamente probos. Isso eu posso garantir. Ponho a mão, no fogo.

 

Sempre gostei de questionar tudo. E, modéstia à parte, não estou em má companhia, pois Aristóteles (384-322 A.C.), Roger Bacon (1214-1294), Descartes (1596-1650) e outros grandes já pregavam esta atitude, quando estabeleceram que "a dúvida é a mãe da razão e da sabedoria" e “a experimentação com verificação independente, ou seja, o Método Científico” são o único caminho confiável na busca da verdade”.

 

Assim sendo, como pede o autor da mensagem, passo a matéria adiante, mas com essa indispensável ressalva. A meu ver, fé religiosa é um sentimento que não se deve ensinar, muito menos impor; se os muçulmanos adotassem tal postura, garanto que, no mínimo, o número de homens-bomba que se imolam em nome de uma falsa esperança sacramentada – e tanto terror despertam na sociedade leiga ocidental – acabaria em uma geração. Assim, ao passá-la adiante com essa restrição, creio estar obedecendo a um anseio de paz e bem-estar social.

 

Religião, a meu ver, nada tem a ver com linhas de conduta. Fosse assim, todo ateu seria um bandido, Bertrand Russell incluído. Carl Sagan e outros ícones do pensamento universal, da mesma forma. Afora eu, claro, que sou um ninguém e não peso no contexto.

 

Admito, isso sim, que a prática religiosa adulta deve ser livre e protegida pelos governos como conquista de uma sociedade evoluída e justa. Espero, portanto, que o leitor entenda meu arrazoado como uma alternativa avançada e coerente. E estou aberto ao diálogo entre mentes adultas e coerentes.

 

Mario Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 13h04
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