
O MENTIROSO
O velhinho que entrou no consultório era baixo, moreno e magro. Seu olhar era negro. Pontiagudo. E alerta. Os vincos fundos que desciam do nariz adunco, e a pele seca, crestada pelo sol, lembravam um pergaminho amarrotado. O cabelo curto, grisalho e farto, espetava o crânio pequeno e bem desenhado. A testa, riscada por cinco rugas paralelas, lembrava uma pauta musical sem notas. A barba densa estava por fazer. Vestia roupa humilde. A camisa branca, de colarinho puído e mangas compridas, vinha abotoada até o pescoço, sem gravata. As calças leves, de brim desbotado, haviam sido passadas a ferro. Nos pés sem meias, tênis gastos davam o atestado definitivo de sua modéstia. Mãos calosas e dedos grossos denunciavam anos de intensa e exaustiva lida. Seu sorriso, fácil e aberto, carecia de alguns dentes. Todavia, a voz forte, levemente áspera, soava de modo agradável. E o jeito de falar era inconfundível: - o de um legítimo “mané” da ilha.
Passei os olhos na ficha. Data: 20 de novembro de 1992. Nome: Onofre Pestana. (O sobrenome sugeria um cristão-novo açoriano. Aquilo me chamou a atenção). Profissão: Pescador aposentado. Idade: 82 anos. Residência: Ribeirão da Ilha (Freguesia). Telefone: não tem.
- Muito bem, seu Pestana. O que me conta?
- Dotô, eu ando meio surdo. De uns tempo pra cá. Co’s ovido abafado, o sinhô comprende?
- Claro, seu Pestana.
Feito o interrogatório, encaminhei-o ao exame físico e descobri duas compactas rolhas de cerume, cuja remoção lhe restituiu uma audição mais que satisfatória para a idade. Ao final, ele não cabia em si de contente e exclamou, agradecido:
- Dotô, tô ovindo tudo! Até o barulho dos carro na rua.
Podia encerrar a consulta nesse momento, mas resolvi esticar o papo. Sem saber por que, eu simpatizara com o seu Pestana.
- Quer dizer que o senhor era pescador...
- Ah, sim. Pesquei a vida toda.
- E mora no Ribeirão...
- Naci lá. E vô morrê lá – ele confirmou, orgulhoso.
- Então, deve conhecer toda aquela gente...
- Conheço todo mundo, dotô. Os vivo e os morto...
De repente, ocorreu-me uma idéia extravagante e, quase sem querer, indaguei, de supetão:
- O senhor, por caso, conheceu o Genuíno Tavares?
- O Genuíno? Claro! Quem não conheceu o Genuíno?
Escrito por MaGenCo às 20h33
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Levei um susto. A resposta ecoara em mim como um petardo. Este é o nome do personagem central do meu primeiro romance – “A Cara e a Coragem de Genuíno Tavares”.
Que tremendo mentiroso! - pensei. Mas como dizem que todo pescador é uma fonte inesgotável de lorotas, concedi-lhe a atenuante e, fazendo cara de quem recorda, observei:
- De fato, ele deveria ter a sua idade... Vocês dois nasceram em 1910.
- Pois eu não tô lhe dizendo...?
- E o pai dele, o Ananias, que também era pescador, o senhor chegou a conhecer?
- Quem, o seu Anania? Então não conheci? Quando eu era guri, já pescava com ele...
- É, de fato, o Genuíno não gostava de pescar... – comentei, para dar um cunho de veracidade à afirmação.
- E eu ia no lugar dele... – aproveitou depressa o potoqueiro, cada vez mais à vontade.
- Quer saber de uma coisa, seu Pestana? Eu nunca imaginei que um dia iria topar com um amigo do Genuíno...
- Esse mundo é pequeno, dotô.
- Tem razão. E quem diria que um sujeito como ele iria chegar aonde chegou... – provoquei.
Mas ele era esperto. Prevenido, cruzou as pernas devagar, concordou com um gesto de cabeça e esperou que eu fosse adiante:
- Olha que, pobre como era, vir do Ribeirão para a cidade, naquela época, com um pé na frente, outro atrás, estudar e se formar não era coisa fácil. O senhor não acha?
- S’eu não acho? Claro que eu acho. Um sujeito de corage.
Nova espera. Novo silêncio. Estreitando os olhos, ele deixou escapar um leve sorriso de concordância. E eu prossegui, dando asas à nossa dupla mentira consentida. Mas com cautela. Estava fascinado. Não queria quebrar o sortilégio. Queria, isso sim, desfrutar daquele momento mágico; conversar com o homem que convivera com o meu personagem. Isso dava ao fabuloso Genuíno Tavares uma densidade inesperada, uma consistência de carne-e-osso, muito além da que eu fora capaz de passar da imaginação para o papel. Por instantes, me parecia estar sonhando. E não queria acordar.
Aí, o descarado fabricou a mais legítima expressão de pesar e, com o olhar varando o vazio às minhas costas, como se estivesse enxergando o passado, lamentou:
- Nunca mais tive notícia do Genuíno...
Peitudo mesmo. Em vista disso, resolvi dar corda no palavrório e ver até onde o velhaco ousaria ir:
- Ele foi para a guerra na Europa. O senhor não sabia?
- Isso eu sabia, mas... o sinhô comprende... já tô c’a memória meia gasta...
- Foi ser aviador. Lutou pela Inglaterra, contra os alemães. Recebeu até medalha... – eu completei.
- Eu sube! Agora me alembro!
- E não lhe parece que um herói como esse merecia uma estátua, lá na pracinha do Ribeirão?
- O sinhô inda não sabe da maió, dotô. Já tão tratando disso... Um tal de... como é mesmo... de presbi...?
- Plebiscito?
- Isso mesmo! Presbicito.
Meu assombro, embora forjado, era quase verdadeiro, quando exclamei:
- Não me diga!
- Pois eu lhe digo, dotô. É a coisa mais justa. E, se dependê do meu voto, ele ganha...
- Seu Pestana, o senhor não faz idéia de como esta notícia me alegra. Não pensei que fosse possível... Parece um sonho...
- Então, pode pará de sonhá, dotô. É a pura verdade. E o sinhô será convidado. Agora, se me dá licença... não repare, mas eu já tô atrasado.
- Claro, passe bem, seu Pestana. E apareça.
O velhinho saiu com pressa um tanto demasiada para as circunstâncias, mas com a cara mais séria deste mundo. Afinal, todo bom mentiroso sabe até onde a mentira pode ser esticada.
E o mais grave é que eu fiquei ali... cristalizado... pensando no discurso que faria na inauguração da estátua.
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 20h32
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POBRE, MAS ORGULHOSO
“Sou pobre, mas sou orgulhoso” – é comum ouvirmos tal protesto nas mais diversas situações do dia-a-dia. Em geral, a expressão vem da-boca-pra-fora, e quem a pronuncia raramente é pobre. Pois foi em torno deste chavão que, dia desses, presenciei uma cena inusitada e daí tirei o mote desta crônica.
Estava com alguns amigos à porta de um café, no centro da cidade, quando se aproximou de uma dessas lixeiras de plástico – que as prefeituras, em nome da limpeza urbana, espalham pelas ruas – um cidadão de meia-idade, olhos azuis, louro-grisalho, alto, magro, rijo, seco, barba por fazer, sacola de pano pendurada ao ombro, indumentária suja e chinelos de dedo. Vi-o levantar a tampa e inspecionar atentamente o interior. Revolvendo o variado e imprevisível conteúdo, ele desencantou uma casquinha com restos de sorvete que alguém ali jogara. Não teve dúvidas. Trouxe-a até a boca e, com visível avidez, sugou a sobra, já semi-derretida. A casca era também comestível. Mastigou-a sem a mínima repugnância.
De repente, nossos olhares se encontraram. Perdi a naturalidade, como se me visse flagrado a invadir a intimidade alheia. Ele, em contrapartida, me fixava com rara intensidade, como se me dirigisse a pergunta muda: “Qual é o problema, meu chapa? Está com nojo?”
Imaginei-me respondendo “Absolutamente. Estou com pena de você”, mas fugi àquele olhar frio, quase agressivo. Haveria ali uma expressão lunática? Não sei.
Qualquer um de nós ficaria enojado à simples idéia de repetir seu gesto extremo. Mas a fome faz coisas incríveis. Em casos limítrofes, supera até a náusea. E tudo fazia crer que a dele não estivesse saciada, pois, indiferente à minha curiosa e constrangedora inspeção, voltou a escarafunchar no lixo.
Aproveitei o intervalo para perguntar aos amigos se o conheciam. Não. Ninguém. Todavia, aquele cidadão alto e louro, de olhos azuis, não encarnava o meu padrão preconceituoso. A verdade é que nós, brasileiros, nos acostumamos a criar modelos mentais dos nossos miseráveis. Imaginamo-los em geral servis, humildes, morenos, baixos, enrugados e andrajosos. Pus-me, então, a fazer conjeturas; a elaborar uma justificativa plausível para o seu drama.
Um homem como aquele não poderia ser um pobre de raiz, de origem; algum sério revés, com certeza, o alijara do convívio social. Talvez até fosse gente de bom nível intelectual, que, vítima de um golpe de força esmagadora, deixara-se abater. Seria um homem traído?, foi minha primeira indagação. Teria mulher e filhos? A esquizofrenia o teria tornado um incapaz? Um desqualificado? Afinal, já testemunhei casos assim dentro da medicina...
Se ele me fixar de novo – pensei – vou oferecer-lhe ajuda. Dinheiro ou comida. E, num impulso, confessei este propósito aos amigos.
- Se eu fosse você, não faria isso... – advertiu um deles.
- Por que não? – perguntei.
- Ah, sei lá. O sujeito tem cara de maluco...
Nossos velhos estereótipos, concluí; o argumento não me convencera.
De repente, ele parou de remexer no lixo, limpou uma mão na outra e me encarou de novo. Não perdi tempo e esbocei, esfregando o indicador no polegar, a intenção de lhe dar dinheiro. Reagiu com uma expressão de surpresa, quase de espanto. Para não perder o embalo e confirmar meu propósito, reuni meus restos de ousadia e fiz, com a mão, o gesto universal de comer. Sua resposta foi imediata, instantânea. Sacudiu a cabeça com vigor, num inconfundível ânimo de recusa, como se tivesse sido ultrajado. E, num rompante, endereçando-me um olhar agudo, intenso e penetrante, empertigou-se com a compostura que lhe restava e partiu rua afora a passos firmes, carregando consigo a ofensa, a fome e a miséria.
Ali estava, portanto, um desses raros “pobres orgulhosos” que não falam da-boca-pra-fora. Podem não ter o que comer, mas, por algum motivo insondável, preferem morrer à míngua a entregar-se à piedade alheia.
Zelo incontido por um passado respeitável? Senso exacerbado de dignidade? Amor-próprio? Orgulho? Autoestima? Vergonha na cara? Respeito humano? Ou mera loucura...?
Quem sabe? Ainda estou dando tratos à bola para encontrar a resposta...
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 18h54
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HINO NACIONAL EM ORDEM DIRETA
I As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico, e, nesse instante, o sol da Liberdade brilhou, em raios fúlgidos, no céu da Pátria.
Se conseguimos conquistar com braço forte o penhor desta igualdade, em teu seio, ó Liberdade, o nosso peito desafia a própria morte!
Ó Pátria amada, idolatrada, salve! salve!
Brasil, se a imagem do Cruzeiro resplandece em teu céu formoso, risonho e límpido, um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança desce à terra.
És belo, és forte, impávido colosso, gigante pela própria natureza, e o teu futuro espelha essa grandeza.
Ó Pátria amada, Brasil, [apenas] tu, entre outras mil [terras], és terra adorada!
Pátria amada, Brasil, és mãe gentil dos filhos deste solo!
II
Ó Brasil, florão da América, deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, fulguras iluminado ao sol do Novo Mundo!
Teus campos lindos, risonhos, têm mais flores do que a terra mais garrida; [e assim como] "nossos bosques têm mais vida," [também] "nossa vida" no teu seio [tem] "mais amores".
Ó Pátria amada...
Brasil, o lábaro estrelado que ostentas seja símbolo de amor eterno, e o verde-louro dessa flâmula diga: — Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues a clava forte da justiça, verás que um filho teu não foge à luta, quem te adora não teme nem a própria morte.
Terra adorada...
Observação: quando canta o Hino Nacional, a maioria dos brasileiros não tem a mínima idéia do belo significado de sua letra.
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 09h34
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SOLIDÃO ABSOLUTA
Estar sozinho num deserto, onde não se ouve um só ruído e não se enxerga viva alma, é uma forma de completa solidão. Estar só, no burburinho de uma multidão desconhecida, também é. Ocupar cargos de mando de grande responsabilidade, tendo sobre os ombros o ônus das decisões finais é, sem dúvida, outra terrível maneira de estar só.
Mas solidão, mesmo..., possivelmente a pior e mais opressiva de todas, é a que deve sentir o médico único de uma pequena cidade do interior. Foi ele, durante décadas, talvez séculos, um desbravador, um pioneiro lutando numa frente de batalha sem limites, assumindo sozinho o penoso encargo de zelar pela saúde e a vida de toda uma comunidade. E, justamente por isso, ele nunca foi um médico igual aos demais.
Se considerarmos o diagnóstico como base de tudo...; se aceitarmos o conceito de que este depende de recursos básicos, humanos e instrumentais, sem os quais o tratamento está sujeito a erros irreparáveis, teremos erguido o tripé em que se apóia toda a Medicina.
Se, sobretudo, transportarmos esse personagem, o médico único, para o interior do terceiro mundo, teremos montado o palco de um drama.
Para nós outros, que desde o início estivemos cercados da presença confortadora de colegas com quem trocar idéias; que nos acostumamos a contar com o apoio de meios técnicos a nos conduzir ao diagnóstico, fica muito difícil imaginar o tremendo desafio que era - e ainda é - ser médico sozinho no interior. Tal responsabilidade está acima dos limites de um único homem.
No centro desse desolado cenário, sua figura patética, quase quixotesca, enfrenta, solitária, a imensa platéia, ansiosa e cheia de mazelas, a encará-lo como se fosse um Deus onisciente e onipotente. Mas ele não é nada disso; é um homem como outro qualquer, com suas imperfeições, com suas inseguranças, com suas dúvidas. E que dúvidas!...
O que significa, nos dias atuais em que a Medicina se transformou numa das ciências mais complexas e dicotomizadas que existem, esperar, de um único ser humano, que domine, no mínimo, a clínica médica, a pediatria, a obstetrícia, a traumatologia e a cirurgia geral?... Isso, para não falar nos casos graves e urgentes que estão fora do âmbito dessas imensas áreas. É algo de proporções inimagináveis..., gigantescas...
Sem diagnóstico não há tratamento; sem tratamento o paciente morre. E quem é o culpado? Claro que é o doutor!...
“MÉDICO CRIMINOSO!... INCOMPETENTE!...” - publica o jornaleco local em letras garrafais.
Isso é justo?... Não!... O médico deveria ter poderes mágicos..., de adivinho. Mas isso ele não tem; é apenas um herói abandonado à própria sorte.
Assim foi..., assim ainda é a vida de muitos médicos do interior do Brasil, legítimos sacerdotes missionários que, a despeito de tudo, fizeram e continuam fazendo os verdadeiros milagres.
Toda cidadezinha do interior, que tem ou teve um único médico, deveria erigir, em sua praça principal, uma estátua, pelo menos um palmo mais alta que a torre da sua igreja matriz para reverenciar esse "Santo" pelos tempos afora. Já viram alguma? Eu nunca vi! Só nos resta o consolo e a certeza de que o santo genuíno dispensa canonizações. Ele se faz santo por si mesmo...
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 20h30
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INTERPRETAÇÃO LIVRE. E A MINHA É UMA SÓ...
Teresa de Ávila
- «(...) Neste estado, agradou ao Senhor dar-me a visão que aqui descrevo. Vi um anjo perto de mim, do meu lado esquerdo; não era grande, mas sim pequeno e muito belo; o seu rosto afogueado parecia indicar que pertencia à mais alta hierarquia, aquela dos espíritos incendiados pelo amor. Vi nas suas mãos um longo dardo de ouro com uma ponta de ferro na extremidade da qual ardia um pouco de fogo. Às vezes, parecia-me que ele me trespassava o coração com esse dardo, até me chegar às entranhas. Quando o retirava, parecia-me que as levava consigo, e ficava em chamas, totalmente inflamada de um grande amor por Deus. Era tão grande a dor, que me fazia dar gemidos, mas ao mesmo tempo era tão excessiva a suavidade que me punha essa enorme dor, que não queria que terminasse, e a alma não se podia contentar com nada menos do que Deus. Este sofrimento não é corporal, mas sim espiritual, e no entanto o corpo participa, e não participa pouco.»
A prosa que se lê mais acima, caras leitoras e caros leitores, é da autoria de Teresa de Ávila, uma pobre rapariga espanhola que foi freira durante mais de meio século, no século 16. Entrou para a vida de convento aos dezasseis anos e, como se pode depreender do texto exposto, sentia-se sexualmente frustrada de uma forma terrível. Os católicos consideram-na «santa», mas deveriam realmente meditar nas vidas ardentes que se estragaram em tantos conventos e seminários, e das quais esta mulher é um mero exemplo.
Fonte: Blogue Ateísta
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 15h59
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PADRINHO DE ARAQUE
Quando estava no auge de minha atividade médica, fui convocado para batizar alguns pequenos pacientes operados. Gente simples, em geral, que via no gesto o meio mais legítimo de expressar sua gratidão e homenagear aquele que, segundo sua crença ingênua, representava o braço oculto de Deus na cura da moléstia. Se tivesse aceitado todos os convites, teria hoje uma dúzia de afilhados. Felizmente, com uma desculpa ou outra que, aos poucos, fui aprendendo a alegar, consegui reduzir a lista a uns poucos que já são adultos e pais de família.
Claro que, com o enfraquecimento subseqüente do vínculo com os respectivos familiares, fui esquecendo seus nomes e endereços. Há poucos dias, vi-me abordado na rua por um homenzarrão, até já meio grisalho. Veio, pressuroso, me dar um abraço, exclamando, quando percebeu que não era reconhecido:
- Então, doutor, não se lembra mais de mim?
- Olhe, me desculpe... eu...
- Sou seu afilhado! O Bentinho!
- Sim, claro! O Bentinho..., lá..., do Aririú... – arrisquei.
- Não! O Bentinho..., de São Pedro de Alcântara!
- Ah, perdão. É que houve também um...
Quem me garante que houve o Bentinho de Aririú? Afinal, já lá se vão 40 anos..., e a memória dessas convivências fugazes se esvai como fumaça ao vento.
O fato é que, pelos cavacos do ofício, esqueci de todos, menos de um: o Juliano, que operei em 1965 no Hospital Infantil. Ele nasceu com o desgracioso lábio leporino, daquele tipo duplo que projeta uma verdadeira tromba na base do nariz. Coincidiu sua chegada ao ambulatório com meu retorno de São Paulo, onde acabara de fazer, com o Prof. Victor Spina – famoso cirurgião plástico paulista, já falecido – um proveitoso estágio que me permitia encarar o desafio. Fi-lo, pois, com o entusiasmo e a confiança dos neófitos que exageram suas habilidades e competências. Mas, na mesma proporção, caprichei na estrita obediência à técnica ensinada e aprendida. E o resultado, confirmado por fotografias pré-e-pós-cirúrgicas que cheguei a mostrar em reunião científica local, superou minha expectativa; o menino, que era, de resto, robusto e saudável, teve uma evolução auspiciosa e, em pouco tempo, recebia alta hospitalar com a condição de retornar pontualmente para os curativos subsequentes. Encerrado o tratamento, recebi dos pais o amável convite para o respectivo batismo na localidade litorânea onde a família residia e fui, com esposa e filhos pequenos, honrado com uma festiva recepção que até hoje me traz comoventes recordações.
Escrito por MaGenCo às 22h52
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Os anos, como disse, passaram voando, e hoje, ostentando um vasto bigode ruivo que lhe cobre a marca inapagável das incisões, meu velho amigo Juliano é um bem-sucedido homem de negócios.
Mas nem tudo foram flores nesse meu convívio com os afilhados. O fato é que, aos poucos, minhas posturas em matéria de crença religiosa, foram mudando e, na mesma proporção, minhas credencias para ser padrinho foram enfraquecendo sem que eu soubesse. Até que um dia, já não tão remoto, fui brindado com um novo convite e, escolado, retruquei ao pai, esperançoso:
- O amigo vai me perdoar, mas não sou mais católico...
- Ah!... que pena... nós faríamos tanto gosto...
O homem se foi, cabisbaixo, e eu dei o assunto por encerrado. No fundo, estava satisfeito, pois não tinha mais idade para a honrosa missão que, em verdade, jamais cumprira à risca.
Uma semana depois, ele voltou:
- Doutor, o padre mandou dizer que não ser católico não é problema.
E agora? O que dizer? Ocorreu-me, então, outra escapatória:
- O problema é que também não sou cristão...
A decepção, quase a surpresa, estampava-se no semblante do coitado. Fiquei com pena, mas, antevendo a resposta, sugeri:
- Em todo caso, vá perguntar ao padre se um não-cristão pode ser padrinho. Se ele for uma mente avançada, não oporá obstáculos...
O homem, mesmo desanimado, aceitou a idéia e partiu. Fiquei esperando. Já o esquecera, quando retornou, dizendo:
- Doutor, estive de novo com o padre...
- E o que ele disse? – indaguei, ansioso, preocupado com a indesejada perspectiva de o religioso ser avançado demais...
- Ele mandou perguntar se o senhor, ao menos, crê em Deus... Se me disser que sim, isso basta...
- Não. Eu não creio no Deus cristão...
Já não era surpresa o que sua expressão traduzia – era espanto. Susto.
- Então, o senhor é ateu!?
- Na sua ótica, sou.
- Como é que pode, doutor? Um médico?
- E o que tem isso?
- Mas onde fica a ética médica? A moral?
- Ora, por favor, não misture as coisas. Ética e moral nada têm a ver com fé religiosa. O que me diz, por exemplo, dos padres pedófilos? E de tantos católicos moleques, volúveis e devassos que todos nós conhecemos?
Perplexo e pensativo por alguns instantes, pensei que ele estivesse convencido, quando retrucou, em partes:
- É..., até pode ser..., mas..., mesmo assim..., agora, quem não quer sou eu...
Fiquei chocado com a impertinência, mas, ainda assim, insinuei:
- Nada impede, entretanto, que continuemos bons amigos...
- Vai me desculpar, doutor, mas nem isso eu garanto.
- Nesse caso, vá com seu Deus, meu caro. E seja feliz.
- De qualquer forma, vou rezar para que Ele tenha pena do senhor...
Hoje, quando cruzamos, ele nem me cumprimenta. Faz de conta que não me vê. E quando pode, vira esquinas. Desse modo, penoso e constrangedor, encerrou-se minha longa e frustrada carreira de padrinho.
Mas foi melhor assim – nunca fiz jus ao título...
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 22h51
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HAJA ÁGUA!
Há alguns dias, recebi, sob o título “O MUNDO EM 2070”, uma dessas mensagens ilustradas com figuras, que antevia um futuro macabro para a humanidade. Cenas de terra arrasada, com gente precocemente envelhecida, todo mundo calvo e sujo, corpos enrugados pela desidratação, desertos áridos, árvores nuas, epidemias em seqüência, violência global em busca de água para matar a sede, pias e chuveiros secos, escasso suprimento de oxigênio degradado pela destruição das florestas, queda geral do coeficiente de inteligência por sub-alimentação e desidratação cerebral, infância deformada por mutações genéticas, redução drástica da expectativa de vida para 35 anos, exércitos vigiando rios quase secos para prevenir roubo criminoso do líquido vital, poluição química da atmosfera e da chuva pela emissão de gases industriais e, finalmente, a confissão amargurada de um sobrevivente, contrito por ter participado, por omissão, burrice e egoísmo, da destruição do meio ambiente.
Ao divulgar a mensagem, não tomei partido nem emiti opinião. Preferi deixar a critério de cada um dos meus destinatários a liberdade de julgar tão infausta perspectiva. Quase nenhum deles se manifestou, e os poucos que o fizeram, ou concordaram ou foram reticentes. Mas houve uma leitora que não se limitou a essa postura passiva. Ela pensou. E disse:
“Caríssimo amigo, esta carta de advertência não me comoveu com seus prognósticos sombrios. Não consigo acreditar nas visões pessimistas sobre o futuro fúnebre do planeta, simplesmente porque ainda acredito na capacidade criativa do Ser Humano. Tenho certeza de que deve andar por aí, ou está para nascer, um daqueles cientistas excêntricos, com cara de doido, com inteligência muito acima da média, e que fará a movimentação necessária para criar mecanismos que tornarão a Terra ainda mais habitável do que agora. Inventará um jeito de transformar essa água toda dos oceanos em água potável. Haja Água!
E mesmo que essa tragédia ecológica venha a acontecer, somente sofrerei no momento certo; nada por antecipação. Lembro que quando era adolescente, havia prognósticos horríveis sobre o que viria dali a alguns anos, quando a máquina dominaria o mundo, e o desemprego seria a causa da desordem social e da derrocada da sociedade; as pessoas morreriam de fome por falta de trabalho, e a humanidade sucumbiria, já que um computador e uma pessoa, sozinhos, fariam o trabalho de mil. As barbaridades que eu ouvia eram suficientes para me anular e deixar ficar dentro de casa, casar, esperar a miséria absoluta e a morte. Decidi, então, que eu trabalharia muito para ajudar as pessoas que ficassem nesse estado letárgico ou mortal. Aí entrou o Bill Gates com a sua Microsoft e revolucionou PARA MELHOR a vida de todos (falando somente em tecnologia). Nunca se viu tanta variedade de trabalho como nos dias atuais. Só não trabalha quem não gosta da coisa, porque opções, nunca existiram tantas. Tem profissões por aí que eu nem sabia existirem. Acho mesmo que a criatividade anda à solta. Por isso, ACREDITO FIRMEMENTE que o mundo tende a melhorar e não a piorar. Pena que não estarei aqui para conferir, já que em 2070, muito provavelmente, estarei habitando um outro mundo... quiçá, ainda melhor.
Grande abraço. Ana”

Não concordo com tudo o que disse a Ana com seu otimismo e, sobretudo, com a esperança de estarmos habitando outro mundo. Meus leitores já sabem que descreio dessa hipótese, a menos que se trate de outro planeta. Sim, porque, por mais otimistas que sejamos, é pouco provável que a maioria de nós esteja ainda por aqui no futuro aprazado. Mas gosto de saber que nem todos se deixam amedrontar por esse clima de alarmismo pessimista que alguns pretensos ecologistas, entre eles, alguns políticos interesseiros, estão querendo criar e incutir nas mentes menos críticas, a ponto de desenhar para nossos filhos e netos um cenário de Terra devastada e sem remédio. Em tese, concordo com ela. Não que eu acredite na inteligência das massas, que sempre foram estúpidas. A prova está nas crendices. Mas sempre acreditei nas exceções, nas mentes superdotadas. São essas – a exemplo de Ptolomeu, Pitágoras, Aristóteles, Arquimedes, Euclides, Heráclito, Demócrito, Galeno, Copérnico, DaVinci, Galileu, Kepler, Descartes, Newton, Pasteur, Mendel, Darwin, Watson & Crick, Lavoisier, Fleming, Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Bohr, Einstein e outros que sempre fizeram a diferença e salvaram a humanidade...
Nunca os ‘Profetas do Apocalipse!!!...”
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 16h39
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CANCEROFOBIA
Tenho um paciente que me consulta há mais de 30 anos. Nunca teve doença orgânica alguma na minha área – a garganta – mas espera ter... Em função dessa hipótese, sua vida é um inferno constante; sente isso, sente aquilo. Ora uma ardência, ora uma tosse rebelde, ora uma bola ao deglutir, que ele chama de ‘embucho’.
- Doutor, eu acho que tenho um câncer. Sinto gosto de podre na boca. Minha mulher diz que eu tenho mau hálito. Minha língua é toda ardida. E branca. Tenho uma azia constante. Arroto, então, nem se fala.
Já o encaminhei a um gastroenterologista para investigar a possibilidade de uma esofagite de refluxo. Nada foi encontrado. E ele nunca fica bom. Sua expressão, quando chega e se vê à minha frente, é a de um moribundo. Sua voz é soturna, cavernosa. Seu olhar é amedrontado como o de um animal acuado, como o de quem está à espera de uma sentença de morte. O leitor equilibrado já concluiu que, se tivesse de fato o que tanto teme, estaria no barro há muito tempo. Mas ele não se convence, por mais incisivo e peremptório que eu seja na afirmação do contrário. A verdade é que não agüento mais o coitado. E não posso deixar essa contrariedade transparecer.
- Seu fulano, o senhor quer ter um câncer?
- Deus me livre, doutor!
- Pois não parece. Não acha que, depois de tantos anos, se tivesse essa doença, ela já teria aparecido?
- Acho, mas o que posso fazer se eu sinto?
- Faça o seguinte: procure outro colega.
- Mas é no senhor que eu confio.
- Eu agradeço, mas quem sabe ele enxerga alguma coisa que eu não enxergo?
- Vira essa boca pra lá, doutor.
- Então, consulte um psicanalista. Existe uma doença, chamada cancerofobia...
- Câncero do quê? É um novo tipo?
- Não, é o medo de ter câncer. É o que o senhor tem...
- Eu não nego. Tenho mesmo. Meu pai morreu disso.
- Seu pai bebia e fumava?
- Se bebia? Enchia a cara. Também fumava muito. E não dispensava seu chimarrão fervente. Eu andei lendo que...
- De fato, quem bebe demais, fuma demais e abusa de chimarrão corre riscos maiores... Está comprovado, estatisticamente, que tais pessoas desenvolvem mais câncer na garganta e no esôfago. Mas o senhor bebe?
- Eu? Nunca! Não bebo, não fumo e não tomo chimarrão.
- Então, sua chance de ter um câncer nessa região é quase zero. Convença-se disso!
- Mas eu tenho medo da hereditariedade, doutor. Li, numa revista médica, que...
- Eu o aconselharia a parar de ler essas revistas. Como leigo, além de impressionável por natureza, o senhor não tem discernimento. Então, ficamos assim: procure outro otorrino ou consulte o psicanalista. Sinto muito, mas não tenho mais o que fazer pelo amigo.
Ele partiu, arcado sob o peso de sua angústia. E eu fiquei ali – impotente. Com tal estratégia, contudo, durante bom tempo, digamos, alguns meses, ele não apareceu e fiquei pensando em duas alternativas: a primeira seria ter um colega encontrado o câncer que eu nunca encontrei; a segunda, ter o psicanalista conseguido o que não consegui: convencê-lo a não pensar mais nisso, ou seja, ter sido capaz de um trabalho psicoterapêutico eficaz.
Eis que, semana passada, topo com seu nome na relação do dia. Antevendo o penoso diálogo que teria pela frente, meu humor, que estava bom, desceu vários pontos. E lá se foi o prazer com que costumo trabalhar. A hora marcada, que era a última, chegou. E ele entrou. Sua atitude parecia outra. Ereto, desempenado. O olhar mais vivo.
- Doutor, estou curado. Vim aqui só pra lhe dar a notícia.
- Não me diga! Procurou os médicos que eu recomendei?
- Não, mas fui num curandeiro e...
- O quê? A um curandeiro?!! – exclamei, revoltado. E, perdendo as estribeiras, emendei: - E ainda tem coragem de vir me dizer isso?
- Espere! O senhor não me deixa falar!
- Então, fale! Mas fale depressa, porque já estou atrasado...
- Ele fez uma reza, um descarrego e receitou umas ervas que estão me fazendo muito bem. E lhe mandou um recado...
Recompus-me como podia e cedi à curiosidade:
- Muito bem. E que recado é esse?
- Ele disse que os médicos deveriam ser menos orgulhosos; e que não sabe como o senhor não descobriu o meu mal...
Reuni o que me restava de paciência e perguntei:
- E qual era o seu mal?
- Um feitiço que me fizeram há 30 anos. Como não pensou nessa hipótese, doutor?
Ele saiu. E eu fiquei ali. Estatelado...
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 08h05
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CURTAS
TIRADAS DO DIÁRIO CATARINENSE DE HOJE
LER JORNAIS COM A MERA INTENÇÃO DE ESTAR A PAR DAS "NOVIDADES", É UMA COISA; LÊ-LOS COM ESPÍRITO CRÍTICO, É OUTRA.
MAS ISSO É PRIVILÉGIO DE UMA MINORIA DA QUAL, COM ORGULHO, EU E MEUS LEITORES FAZEMOS PARTE...
Se não, vejamos:
1. “ESTÁTUA” – Um leitor reclama de que nosso Estado, para meu desgosto chamado de Santa Catarina, não tem nenhuma estátua em homenagem a essa santa e, piedosamente, sugere a ereção, no Morro do Mocotó, de uma estátua com mínimo de 30 metros de altura, com escadaria e teleférico.
Meu comentário: - Além de aludir a uma Santa cassada pelo Vaticano – que questiona a ‘veracidade’ de seus supostos milagres – o dito cujo prioriza o culto a uma personalidade estrangeira (nascida em Alexandria) em prejuízo, digamos, de uma figura conterrânea, de preferência leiga, que, de fato, tenha prestado serviços relevantes à comunidade catarinense. De todo modo, sou visceralmente contrário a tal tipo de louvação a santidades míticas.
2. "NÓS” – Em mais um dos seus arroubos, o colunista da segunda página do mesmo diário dá conta de que “os seis bilhões de seres humanos só cuidam de si mesmos. Cada um de nós, do nascimento até a morte, só está trabalhando para cuidar de si mesmo”. Credita tais palavras – esse verdadeiro ovo-de-colombo, essa descoberta da pólvora – a uma figura que qualifica de ‘insuspeita’ – o popular Dalai Lama, do Tibete.
Meu comentário: - O ser humano, em sua esmagadora maioria, é egoísta por natureza, e isso não tem remédio. E abstraindo a má qualidade do texto em si, questiono a aludida insuspeição do indigitado, cuja maior preocupação é enganar trouxas e faturar com seus medíocres livros de auto-ajuda. O que o tal Lama diz, na minha modesta opinião, não se repete, muito menos se escreve.
3. “ROTINA” – “Gustavo Kuerten voltou a decepcionar seus fãs, perdendo na estréia. Ele tem insistido, mas está difícil. Mesmo enfrentando adversários desconhecidos, é um tombo atrás dou outro.”
Meu comentário: - Está difícil e estará cada vez mais; o auge do vigor músculo-esquelético do ser humano espreme-se no curto lapso entre os 18 e os 30 anos. Em outras palavras, talvez mais dolorosas ainda: a mocidade (juventude) 'começa a terminar' aos 30. Apontem-me – afora raríssimas exceções, tais como Romário ou Agassi – quantos esportistas e recordistas olímpicos mantiveram seu desempenho ou ganharam o ouro acima dessa idade. Nosso Guga pode tirar seu cavalinho da chuva – sua brilhante carreira chegou ao fim. E se não quer dar mais vexames, que tire o time de campo. Enquanto é tempo.
4. “VERGONHA” – "Nota colhida na Folha de S. Paulo do dia 15 pp. dá conta de que o salário dos professores secundários de Santa Catarina só é maior do que o de três estados do nordeste."
Meu comentário: - Isso é vergonhoso. Como esperar empenho e competência de magistério tão vilipendiado? Enquanto nossos governantes não se conscientizarem de que o segredo do crescimento de uma sociedade está no estímulo ao magistério de qualidade e na conseqüente educação do povo desde as primeiras letras – e não na vultosa remuneração de políticos despreparados, quando não, desonestos ou mal-intencionados – não haverá a menor perspectiva de verdadeiro progresso para o Estado e para o Brasil.
5. “DROGAS ÀS CLARAS” – ‘A mídia nacional chama atenção para o crescente uso de drogas e põe na roda, mais uma vez, a indagação: é hora de descriminalizá-lo ou não?’
Meu comentário: - Acho esse um tema da maior gravidade, a ser discutido em nível jurídico, policial, sociológico, até filosófico e, paralelamente, político. De um lado, estaria a sonhada perspectiva de neutralizar o tráfico, tido como o gerador imediato do crime e da violência urbana. De outro, mais premente, o saneamento em tempo hábil da nossa juventude, cuja dependência psico-químico-farmacológica destrói a personalidade de uma geração que vai gerir o futuro do Brasil. Mas qualquer decisão tem de ser pensada em âmbito multidisciplinar, sob pena de trocarmos alhos por bugalhos.
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 12h48
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O BOM PASTOR
Conheço um pastor protestante, que, ao mesmo tempo, é torcedor do Vasco. Eu sou um descrente e até sócio do Flamengo. Nada disso, entretanto, nos impede de sermos bons amigos. Assim, apesar de divergências tão profundas, quase viscerais, há anos convivemos em prazerosa harmonia. O fato é que sempre gostei de discutir futebol com gente do ramo – ele também foi jogador, e eu considero esse esporte, por sua plasticidade, o mais bonito de se ver, quando praticado em alto nível. Sou do tempo em que o rubro-negro de Zico & Cia. era uma academia magistral, uma orquestra sinfônica a dar espetáculos pelo mundo afora.
Ultimamente, entretanto, venho notando o distanciamento da aludida figura, que, ao contrário de passadas manhãs de sábado, não tem dado o ar de sua graça na rodinha que freqüentávamos. Diante disso, submeti minha estranheza a um amigo comum, e ficamos discutindo as possíveis causas da ausência sentida.
- Será que ele está doente? – indaguei.
- Com certeza, não. Ainda anteontem, cruzou por aqui.
- Mas falou com você?
- Não. Passou direto, de cabeça baixa...
- É – ele mudou. E deve haver uma razão... Será algo relacionado à religião...?
- O que você quer dizer com isso?
- Ah, sei lá! Acho muito esquisito. Ele era tão alegre...
- Talvez seja só impressão sua.
- Tomara, porque sempre nos demos tão bem...
- Eu também gosto dele.
- A propósito, nunca esqueci o comentário que me fez um dia... No auge de uma troca de idéias sobre fé e descrença, ele de um lado, eu do outro, a conversa tomou um rumo embaraçoso...
- Não é difícil entender o porquê; são conceitos opostos...
- Então. Ele simplesmente disse: Mario, eu tenho pena de você...
- Pena de mim? – reagi, espantado. - E por quê?
- Justamente porque o aprecio muito... e porque estamos envelhecendo...
- Não entendi.
- Nossa convivência terrena não pode durar muito tempo...
- Explique-se melhor, homem. Você está sendo muito reticente.
- É que nossos destinos são opostos... isto é, eu vou pro céu, e você, infelizmente, não vai...
- Essa, não! Como sabe disso?
- Está na Bíblia! “Quem crer em mim se salvará”... portanto, quem não crer...
Não pude conter uma risada e retruquei:
- Fique tranqüilo, meu caro. Se existir céu, eu também chego lá.
- Eu gostaria muito, pode acreditar. Mas...
- Então você acha que, se houver justiça divina, um homem que se dedicou à saúde do semelhante...; que, modéstia à parte, livrou crianças de corpos estranhos no pulmão...; que fez até traqueotomias em recém-natos asfixiados, em berçário de maternidade...
Com a expressão mais contrita e comovida, ele me interrompeu para dizer:
- Isso não adiantou nada. O que importa é a fé... Jesus disse.
- Você não pode estar falando sério... – duvidei.
- Nunca fui tão sério. Está escrito. Sinto muito.
- Pois se está escrito, está errado. Não pode ser assim.
- Mas é.
- Não é! Em primeiro lugar, Cristo não escreveu nem assinou nada. Em segundo, não há certeza sobre a verdade do que está escrito; os evangelhos são cópias apócrifas e deturpadas, e os originais não existem. Em terceiro, tudo depende de interpretação. Por último, ele não pode ter dito isso. Não, no sentido em que vocês entendem. Não é possível ignorarem-se as boas obras de alguém. Caso contrário, de que valeria o sacrifício de tanta gente em prol do semelhante? Deixe-me dizer-lhe o que penso: a boa obra em si, por ser produtiva, vale mais que a fé pura e simples, que é uma postura passiva. Vou lhe dar um exemplo de dedicação desinteressada: o médico Albert Schweitzer, que passou a vida na África atendendo os necessitados... Ganhou até o prêmio Nobel da Paz em 1952...
- Prêmio que nada vale se ele não tiver sido um homem de fé. Era?
- Creio que sim, mas isso é secundário. O que valeu foi sua obra...
- O que valeu foi sua fé...
- Eu não acredito!
- Pode acreditar. Está escrito. Eu sinto muito.
E ele foi embora, cabisbaixo. Foi esse nosso último diálogo.
Escrito por MaGenCo às 17h31
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Voltando a meu interlocutor, perguntei:
- Terá sido por isso que ele nunca mais apareceu?
- Não creio. Em todo caso, por que não tira tudo a limpo na primeira oportunidade?
- Você quer saber por quê? Porque eu, simplesmente, não acredito em vida eterna. Pra mim, morreu, acabou. Então, ele, se quiser, que me procure para voltarmos a discutir futebol... Pois nesse outro tipo de conversa eu não me meto mais. Não é possível que a fé na Bíblia valha mais que a solidariedade humana em si. Seria, em última análise, uma espécie de barganha egoísta: “Não vou servir a meu semelhante por causa dele, mas para garantir meu cantinho no céu...”
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 17h30
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FERIADÃO E DIA SANTO
Andei lendo que cada feriadão causa ao país, por dia, um prejuízo em R$ de 1,2 bilhão na indústria e de 5 bilhões na economia geral. Surpreso com o tamanho desses números, matutei: “É justo arcarmos com tais perdas?”
Todo país têm feriados. Uns são datas cívicas obrigatórias; outros são os chamados “Dias Santos”. Mas, para meu desgosto, a fonte dizia que “o Brasil tem, no calendário, o maior número de dias santos no mundo”. Hoje, por exemplo, estamos parados em louvor a uma santa 'aparecida" que nunca apareceu...
A matéria dizia ainda que o Rio de Janeiro, que já comemora São Sebastião – e cada cidade brasileira tem seu padroeiro – também tem um dia reservado a São Jorge. E ainda corre, em seu legislativo, o projeto-de-lei de uma data para louvar São Pedro. Que tem a ver essa vetusta figura com a cidade maravilhosa?
Já pensou, leitor, no que tais feriadões trazem sempre consigo? Malandragem, bebedeiras, hiperdoses, violência urbana, acidentes, emergências hospitalares, mortes nas estradas...
Basta ler o jornal do dia imediato; ou assistir aos noticiários da TV. Estão lá os escatológicas flagrantes das vidas desperdiçadas. A maioria, gente jovem. E tantos pais sofrendo suas perdas irreparáveis. Pra que isso?
Considero esses dias-santos-feriadões um atestado de atraso de um povo, pois, sem entrar no mérito canônico da questão, basta uma verdade: - nem todos os santos foram santos.
Santa Catarina de Alexandria, nossa padroeira, teve a santidade cassada. Não é mais santa, portanto. São Cristóvão, o protetor dos motoristas, não teve outra sorte. Ouvi dizer, de fonte limpa, que, numa “rigorosa” revisão do Vaticano, faltariam “provas indiscutíveis” de seus propalados milagres. Dá vontade de rir. Ou de chorar. Mas o que sinto, mesmo, é pena.
Como se um processo de canonização pudesse aferir a santidade de alguém. Tanto é assim que, até meados do século XII, os “santos” da Igreja eram canonizados “por aclamação”. Ouvi isso no rádio, da boca de um padre, professor de teologia. E, contrariando a lei das probabilidades, os 34 primeiros papas viraram santos!
Façamos, então, um exercício de imaginação: Bastaria ao candidato ter sido amigo de meia-dúzia de cardeais corruptos – hipótese sólida, como se sabe hoje – ou ter prestado favores a algum papa ambicioso, despótico e influente – o que também não é incomum, como mostra a história. E estaria feito mais um santo...
Resta perguntar: “Que margem de certeza têm tais canonizações?”
Santidade, meus amigos, não é privilégio de católico, nem mesmo de religioso. O santo genuíno se faz por si mesmo. E é figura rara, embora João Paulo II tenha canonizado, em duas décadas e meia, quase 500 novos santos, ou seja, 1 a cada 15 dias. Serão todos eles santos? Ou foram escolhidos por interesse político e diplomático do Vaticano?
“Blasfêmia”(!) - dirão seus adeptos mais ferrenhos - “o papa é infalível”(!)
E, em nome dessa falácia, que também quer dizer ‘falha’, fica o Brasil, além dos seus políticos corruptos, à mercê de tais crendices e vítima indefesa dos incalculáveis prejuízos sociais e econômicos de tantos feriadões e dias santos.
Não sei como ele agüenta...
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 15h36
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SER CANHOTO
Segundo as estatísticas mundiais, cerca de dez por cento dos seres humanos são canhotos, mais homens que mulheres. Não se sabe por quê. Ser canhoto é, portanto, uma exceção; é pagar um preço às vezes alto e não raro injusto.
O que se sabe sobre o “canhotismo” ou “sinistrismo” – a condição de ser canhoto ou canhota – é que, por definição e nomenclatura, está associado a sentidos preconceituosos e até mesmo pejorativos. Se não, vejamos: por definição, a mão direita é destra; a esquerda é sinistra, e seu proprietário, se for do sexo masculino, é, portanto, “sinistrômano” ou “sinistro”.
Ora, “sinistro” pode ter estes sinônimos bem desagradáveis: “funesto, infausto, fatal, fatídico, mau, malvado, perverso, pernicioso, assustador, horrível, ameaçador, medonho, apavorante”. Em certas circunstâncias, traduz “desastre, incêndio, naufrágio, infortúnio, ruína, prejuízo, dano, contrariedade, desgosto, aborrecimento, contratempo”. Em outras, pode ser visto como “errado ou errada, esquerdo ou esquerda. São óbvias, assim, as aparentes desvantagens de ser canhoto ou canhota. No mínimo, porque ser destro ou destra supõe ser “normal, correto ou correta, direito ou direita, certo ou certa”.
É comum entre as pessoas esse vício conceitual, profundamente discriminatório. Será que, em função disso, o canhoto leva alguma desvantagem? Em termos. Depende do ponto de vista. Sabe-se que Leonardo DaVinci, que escrevia da direita para a esquerda – em sua chamada ‘caligrafia de espelho’ – era canhoto. Albert Einstein era outro. Assim como os não menos famosos Alexandre, 'o Grande', Friedrich Nietzsche, Isaac Newton, Ludwig van Beethoven, Machado de Assis, Pablo Picasso, Abraham Lincoln, Napoleão Bonaparte, Charlie Chaplin, Mahatma Gandhi, Harry Truman, Bill Clinton e Bill Gates. Entre nós, os jogadores de futebol Rivelino, Gerson e Maradona foram canhotos de não menos nomeada. Em minha cidade, Floripa, convivi com um escultor já falecido, que, além de ser conhoto como era o genial Michelangelo Buonarotti, parecia-se fisicamente com ele. Seu nome era Dimas Rosa, de quem tenho alguns trabalhos insuperáveis que mostrarei oportunamente. Airton Senna, outro glorioso brasileiro, era canhoto. E, em nosso meio, não posso deixar de citar o ilustre médico Murillo Ronald Capella, um dos pioneiros da cirurgia pediátrica nacional. Minha sogra, também falecida, tinha em sua mão esquerda talentos surpreendentes nas diversas prendas domésticas.
Ocorre-me, ainda, o fato incontestável de que a célebre e já popular molécula do DNA gira sua espiral no sentido da esquerda, o que confere aos canhotos um prestígio todo particular, quase privativo, pois os homenageia no âmago da própria biologia...
Assim sendo, os canhotos que não conheço podem ser uma minoria prejudicada no dia-a-dia de suas vidas, mas estão representados por uma nobre galeria de imagens verdadeiras e figuras incomuns. Diz-se até – e igualmente se ignora a causa – que os canhotos são mais hábeis em trabalhos manuais. Os escultores citados são indício inconteste dessa afirmativa.
Ilações estereotipadas ou idéias preconceituosas da mesma forma pairam em expressões de uso trivial, tais como, “entrar com o pé direito” e, em contrapartida, “levantar com o pé esquerdo”. Frases bíblicas aludem a discriminações como “Cristo estar sentado à direita de seu pai”. Ou a palavra inglesa “right” significar “direito” ou “certo, correto”. No francês, o termo “gauche” (esquerdo ou esquerda), em sentido figurado, traduz-se por “inepto, inábil, desajeitado, quando não, por torto ou aleijado”.
Todavia, restam auspiciosas notícias a dar: existem conhotos ambidestros ou que têm dupla lateralidade. O citado cirurgião, por sinal, escreve no papel com a mão esquerda e no quadro-negro com a direita. Certos futebolistas chutam com os dois pés e com igual precisão. Garrincha, Pelé, Zico e Roberto Dinamite foram quatro dignos e genuínos embaixadores desta máxima.
Um dos maiores desafios impostos aos canhotos da geração de meus pais era cortar unhas. Não havia meios de fazê-lo à perfeição, em particular as do pé, se as tesouras – que nunca foram a ferramenta ideal – eram projetadas só para os destros. Diante disso, sempre rendi minha muda homenagem ao gênio que projetou o primeiro modelo do moderno cortador-de-unhas, utensílio consagrado, quase um Ovo-de-Colombo para destros e sinistros... Dizem que ficou rico só com isso, e se ficou, fez por merecê-lo...
E o que dizer das carteiras em salas de aula? Conhecem escola brasileira que as ofereça, com desenho adequado e em número suficiente, aos alunos “sinistros”? De resto, não esqueçamos o inevitável e constrangedor “bater-de-asas” que surge invariavelmente quando, num jantar de gala com numerosos comensais, um canhoto – que maneja a faca somente com a mão esquerda – senta-se à direita de um “destro”. A meu ver, em tal circunstância, só cabe ao mestre-de-cerimônia uma solução: mandar o desventurado “sinistro” para a ‘ponta-esquerda’...
Segundo estou informado, a Inglaterra é o país que mais prestigia essa casta minoritária. Lá, nossos simpáticos “excepcionais” deparam com a mais diversificada gama de apetrechos concebidos em seu exclusivo interesse. Entre esses, vale citar ferramentas com empunhadura invertida para marcenaria (serrotes, plainas, réguas e que tais) ou mecânica, instrumentos cirúrgicos, odontológicos ou voltados à totalidade dos ofícios – cabeleireiros, barbeiros, manicures e quejandos – além de abridores de lata, tesouras de todos os tipos, modelos e tamanhos.
E como “o Brasil atual tem coisas mais importantes com que se preocupar”, a alternativa dos canhotos tupiniquins é importar seu ferramental em libras esterlinas.
Fazer o quê...?
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 21h28
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RUY CASTRO – Folha, 6/10/2007
Como um tumor...
RIO DE JANEIRO - Cientistas da Universidade de Hiroshima, no Japão, criaram uma rã transparente, cujas intimidades ficam expostas e podem ser perfeitamente observadas pelo lado de fora. Com isso, salvaram-se gerações inteiras de rãs, porque os cientistas não precisarão mais dissecá-las para saber como reagem às substâncias que eles vivem lhes injetando. Outra vantagem é a de que poderão acompanhar uma rã por todo o seu ciclo de vida -o ciclo de vida da rã, claro, não dos cientistas.
Para chegar à rã transparente, os japoneses, craques em engenharia genética, levaram anos cruzando exemplares de rãs albinas. E agora partiram para aperfeiçoá-la: vão fazer com que qualquer corpo estranho que apareça dentro da rã se acenda. Um tumor, por exemplo.
Já no Marrocos, também nesta semana, os cientistas da Universidade de Rabat conseguiram com que um pato nascesse no ovo de uma galinha. Se isso lhe parece meio estranho (afinal, no mesmo dia, em Recife, uma avó deu à luz seus próprios netos, lembra-se?), saiba que a proeza marroquina é considerada mais importante, pelo fato de os palmípedes e os galináceos constituírem famílias diferentes.
Por coincidência, é o que se está discutindo em Brasília nos últimos dias: um político gerado num ovo destinado a palmípedes pode se baldear no meio do mandato para o terreiro dos galináceos, por ver neste mais oportunidades para ciscar? Em princípio, não. Mas, e se o eleitor só quiser saber do pinto ou do pato, e não do ovo de onde ele saiu?
Essas mudanças nunca são de graça. Assim, sugiro convocar os japoneses para cruzar nossos políticos com as rãs albinas e, com isso, criar políticos transparentes. Quando um deles recebesse um corpo estranho - uma propina, por exemplo -, esse corpo se acenderia. Como um tumor...
PUBLICADO POR OPORTUNO E BEM-HUMORADO
MARIO GENTIL COSTA
Escrito por MaGenCo às 19h57
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TELEVISÃO, A JANELA DO MUNDO...
Quando se instalou a televisão entre nós, desencadeou-se na cidade uma febre, quase uma epidemia consumista: a urgência de comprar um televisor. Aliás, a coisa havia começado antes, quando uma emissora de outro estado nos enviava seu sinal por uma estação repetidora.
A imagem que nos chegava era um chuvisco impenetrável, um aguaceiro, quase um temporal, mas todos, no horário nobre, postavam-se à frente do aparelho na ânsia de identificar os personagens de uma famosa novela que, havia anos, marcara época no rádio: "O direito de nascer".
Vez por outra, com extrema boa vontade, era possível vislumbrar, cruzando pelo vídeo, uma silhueta escura e roliça, e alguém gritava:
"Olha a Mamãe Dolores!"
Com a inauguração da primeira emissora local, o pobre passou fome para comprar seu receptor; o remediado fez regime ou inverteu prioridades orçamentárias com o mesmo objetivo. A cidade e os morros se transformavam numa extensa e pontiaguda paliçada de antenas espetadas nos telhados, bucólica e inconsciente contribuição ecológica, a servir de poleiro para novas e futuras gerações de pardais e bem-te-vis.
Novos ídolos foram criando forma e substância na preferência popular. Estava aberta a primeira fresta da janela do mundo!
Gente que jamais pusera o pé do outro lado da Ponte Hercílio Luz, podia agora transportar-se ao Rio de Janeiro em fração de segundo, para assistir a um clássico no Maracanã.
As coisas foram melhorando até culminar na TV em cores e, mais recentemente, no controle remoto e nos vídeos.
Ultrapassadas essas etapas naturais do progresso, estão aí os satélites e as emissões por cabo. Basta mais um empurrãozinho tecnológico e estaremos debruçados na janela mais escancarada do mundo. Pois bem, não há dúvida de que ela veio para ficar, mas o que resultou de tudo isso? E resta perguntar: a televisão, como usada no Brasil, é coisa boa?
Abstraindo o mérito de trazer algumas pílulas de informação a este povo semi-alfabetizado, o uso que se faz desse poderoso veículo deixa muito a desejar. Sim, porque não basta informar; há que formar e educar.
O horário nobre, à exceção de um ou outro noticiário, é dedicado a novelas vulgares, palhaçadas de auditório e filmes que só pregam sexo e violência. Ora, a base da grandeza de uma nação está justamente na educação do seu povo.
Se o governo comprasse uma hora diária para implementar, em cadeia nacional obrigatória, uma campanha educativa que despertasse o interesse do povo, o resultado, em poucos anos, seria a diferença fundamental entre o pobre Brasil que temos hoje e aquele que gostaríamos de ter no terceiro milênio, porque só o homem educado expande seus horizontes e aprende a triunfar sobre a miséria e a doença.
Estou errado? Não! Estou apenas sendo ingênuo..., sonhando.
Mario Gentil Costa
Escrito por MaGenCo às 18h43
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MEU VELHO, MEU AMIGO, MEU HERÓI
ESTE FOI OSWALDO COSTA, MEU VELHO, MEU AMIGO E MEU HERÓI, FALECIDO EM 1978. DESENHEI-O A CRAYON EM 1981. COMO NÃO GOSTAVA DE SER FOTOGRAFADO, SÓ ME RESTOU A FOTO 3 X 4 DE SUA CARTEIRA DE IDENTIDADE. TIREI CÓPIAS EM XEROX PARA TODA A FAMÍLIA. ESTÃO ELAS EMOLDURADAS, OCUPANDO LUGAR DE HONRA NAS CASAS DE CADA UM DOS MEUS IRMÃOS. DEVEMOS A ESSE HOMEM - HUMILDE E SONHADOR - E À MINHA MÃE YOLANDA TUDO O QUE CONSEGUIMOS NA VIDA, POIS FOI GRAÇAS A SEU ESFORÇO INAUDITO QUE NOS FORMAMOS OS QUATRO. NUNCA CONSEGUIMOS RETRIBUIR O QUE AMBOS FIZERAM POR NÓS, E O MÍNIMO QUE PODEMOS FAZER É CULTUAR SUA LEMBRANÇA IMORREDOURA COM AMOR E RESPEITO. GRANDE OSWALDO COSTA! SAUDADES DO MaGenCo
Escrito por MaGenCo às 18h34
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O QUE ESSE RENAN DEVE SABER...
Lá para os idos de 1990, Renan Calheiros era um fiel escudeiro de Fernando Collor. Lembro que ele chamava atenção pelo cabelo sempre despenteado. Era uma figura estranha, vivendo na sombra do poder. Foi eleito senador pelo estado de Alagoas em 1994 e reeleito em 2002. Quando do impeachment, fazia parte da “tropa de choque” que defendia Collor.
Collor se foi, mas Renan ficou. E aprendeu como poucos a navegar no mundo da política. Foi ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso, ocasião em que presidiu a XI Conferência dos Ministros da Justiça dos Países Ibero-Americanos, e pouco depois a reunião dos ministros do Interior do Mercosul, Bolívia e Chile. Foi também presidente do Conselho Nacional de Trânsito (Contran); do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda); do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) e do Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp). Em 2002, foi um dos mentores do Estatuto do Desarmamento. Chegou a Presidente do Senado Federal em 2005 e foi reeleito em 2007. O cabelo despenteado desapareceu, a roupa melhorou, o patrimônio aumentou. E ele acabou traçando aquela tetéia que era repórter da Rede Globo. O resto já sabemos. O escudeiro transforma-se na figura central da política brasileira durante o primeiro semestre de 2007. Surgem denúncias em cima de denúncias. Mas o cara não cai. Resiste bravamente, de tal forma que começamos a desconfiar que ele tem mais do que inocência.
Ele sabe das coisas. Ou melhor, ele sabe de coisas. Sabe tanto que pode ameaçar:
- Se cair, levo um monte junto.
Esse é o risco que corre quem tem escudeiro. O escudeiro conhece as manias do príncipe, as fraquezas do príncipe, as sacanagens do príncipe. E seu conhecimento pode destruir o príncipe. Para livrar-se dele o príncipe tem que mandar matar. Ou aceitar a chantagem.
O que assistimos nos últimos meses talvez seja um dos maiores escândalos de chantagem pública “destepaíz”. Nunca antes um senador teve em suas mãos tanto poder, tanto conhecimento para causar medo. Veja só: provoca o afastamento de Fernando Collor, que se licencia de seu mandato reconquistado depois de cumprir a pena pelo impeachment. Collor não pode votar contra seu ex-escudeiro. Provoca a saída do país do Presidente Lula, que faz teatro do outro lado do mundo. Destrói a carreira de Aloísio Mercadante, que mais uma vez tenta explicar o inexplicável, justificar o injustificável. Expõe a cara-de-pau de um Romero Jucá, de um Epitáfio Cafeteira. Deixa explícito que a mídia pode muito, mas não pode tudo. Mancha definitivamente a imagem do Senado. É poder demais para um senador só, o que nos leva a perguntar: o que é que Renan sabe?
Eu posso imaginar. Sabe de outros senadores e deputados que usam dos mesmos expedientes que ele usou para benefício próprio. Sabe tudinho do mensalão. Sabe das negociatas para compra de votos, para mudança de legenda, para proteção de empresas devedoras frente ao fisco. Sabe das doações de bancos e grandes empresas. Sabe de concessões de rádio e televisão. Sabe quem come quem. Sabe dos propinodutos variados (aliás, quando é que uma CPI vai dedicar-se a esmiuçar os contratos da área de informática no governo?). Deve saber dos acordos envolvendo as Farcs. Chavez. Fidel Castro. Sabe de muitos outros filhos fora do casamento. Talvez Renan saiba quem matou Celso Daniel e o Toninho do PT. Deve saber sobre os bastidores das privatizações. Conhece alguns - ou muitos - podres envolvendo as grandes estatais. Sabe do Kia, do Boris e do Corinthians...
Renan tem o poder supremo: informação. Ele manda em quem quiser. Ele dita regras, exige apoio e faz tremer. Renan pode tudo. E sabe que pode. Daí aquela segurança, aquela arrogância, aquele sorrisinho, aquele “abisolutamente”, aquela certeza, aqueles abraços e apertos de mão inexplicáveis. Renan é o cara.
Quer saber? Eu acho que Renan sabe até quem matou a Taís.
E nós, que pensamos que sabemos das coisas e na verdade sabemos de nada? Vamos seguir a vida, bovinamente resignados e obedecendo ao supremo mandamento do novo Brasil:
- Cale a boca. E compre.
Será que o Renan sabe até quando?
Este artigo é de autoria de Luciano Pires (www.lucianopires.com.br) e está liberado para utilização em qualquer meio, contanto que seja citado o autor e não haja alteração em seu conteúdo.
LUCIANO PIRES
Reproduzido por MARIO GENTIL COSTA
Apoiado na autorização acima.
Escrito por MaGenCo às 19h53
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