MaGenCo


TUDO POR UM PARAFUSO

 

            Era um sábado. Não lembro a data; faz tanto tempo... Estávamos viajando de volta, eu e minha mulher.

         A estrada ainda não era asfaltada; uma buraqueira tremenda; uma chova torrencial, com atoleiros que metiam medo. A mesma viagem, que hoje se faz comodamente em menos de quatro horas, levava, no mínimo, sete ou oito, por melhor proveito que se tirasse das poucas retas que havia no trajeto.

         O trecho que tinha pela frente, meu velho conhecido, era um verdadeiro inferno, e constituía uma prova de fogo para o meu Gordini. Mas precisava chegar a tempo. Seria padrinho de um casamento. E o pobre carrinho vinha sacudindo tanto, que eu tinha a sensação de estar guiando uma britadeira elétrica. 

E foi justamente depois de vencer uma serra empinada, cheia de curvas e despenhadeiros, que o caldo entornou. O motor começou a falhar. Parei, abri a tampa traseira e logo descobri a razão do problema: um parafuso da regulagem do carburador havia sumido. O jeito, contudo, era tocar em frente.

         No perímetro urbano da minha cidade, cruzei em frente à oficina autorizada e constatei, surpreso, que a porta estava semi-aberta. Era dessas de ferro corrugado, que se enrolam num eixo superior.

         Chegando a ela, suspendi-a até que me desse passagem e fui entrando. Lá dentro, um Gordini estava sendo preparado para uma corrida no domingo, e alguns mecânicos se concentravam ao redor. O ruído era ensurdecedor. Cheguei mais perto e, à certa distância, fechando os ouvidos com as palmas das mãos, me dirigi ao mais idoso, supostamente o chefe, e gritei:

         - Boa tarde!

         Ele se virou, mas continuou trabalhando sem me dar atenção. Diante disso, tomei fôlego e berrei:

         - Boa tarde!!

         Virou-se de novo e ficou me olhando. Então, emendei bem alto:

         - Eu estou com um probleminha no carro ali fora... - e apontei a porta da rua, pensando que fosse perguntar que problema era.



Escrito por MaGenCo às 18h34
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         Mas ele não perguntou. Apenas disse, quase sem altear a voz, de tal maneira que só entendi pelo movimento dos lábios:

         - A oficina está fechada.

         Achei melhor, face à evidente má vontade, fazer de conta que não tinha entendido e retruquei:

         - O senhor pode chegar lá fora? Não estou escutando direito.

         Num gesto automático, tomei o seu braço. Ele deu um repelão, como se o toque da minha mão lhe produzisse um choque. Não insisti, mas repeti, andando de costas:

         - O senhor pode vir aqui?

         Ele veio, embora a contragosto. E eu lhe disse:

         - O meu Gordini está ali fora, com um probleminha no carburador...

         Ia dar mais detalhes, quando fui interrompido, com rispidez: 

         - Eu já lhe disse que a oficina está fechada!

         Senti que estava perdendo a paciência e repliquei:

         - Fechada, não está! Se eu entrei, é porque está aberta...

         - É..., mas o expediente encerrou ao meio-dia.

         - Escute, meu amigo. Eu posso, pelo menos, lhe dizer qual é o problema do carro? É uma coisa muito simples...

         De novo, ele me cortou a palavra:

         - Seja lá o que for, já lhe disse que o expediente encerrou ao meio-dia. Nós só estamos aqui para preparar aquele carro para uma corrida.

         O homem era um cavalo e resolvi apelar:

         - O senhor já disse isso. Mas eu só estou precisando de um parafuso da regulagem do carburador. Se me arranjar um, eu mesmo coloco. E estou disposto a pagar; não estou pedindo nada de graça.

         - O setor de vendas está fechado, e não tenho a chave.

         - Então, poderia me emprestar um, tirado de outro carro. Eu devolvo na segunda-feira... Confie em mim... Sou freguês da casa...

         - Não. Os carros não são meus.

         - Mas, por favor, me escute: estou chegando de viagem. Hoje é sábado. Logo mais, sou padrinho de um casamento. E amanhã é domingo... Eu não posso ficar sem carro!

         - Por que não? Se eu posso, o senhor também pode...

         - Mas eu sou médico! Posso ter um chamado de emergência...

         Aquele sujeito não era gente; foi incrível o que me respondeu:

         - Isso não é problema meu.

         Eu não sabia mais que argumentos usar diante de tanta brutalidade. E, sem pensar, saí com esta:

         - E se o doente for o senhor? Se precisar de mim, de repente?

         - Não pretendo precisar do senhor, nem agora nem nunca!

         Não havia mais o que fazer ali. Rodei nos calcanhares e me encaminhei para a porta. Ainda olhei para trás, na esperança de que tivesse mudado de atitude, mas ele já estava de volta ao carro, agachado junto ao motor, e se esquecera de mim. Saí porta afora revoltado e arranquei sacudindo. Fui ao casamento de táxi e passei o domingo em casa. Por sorte, não tive chamados.



Escrito por MaGenCo às 18h33
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         Na segunda-feira, voltei lá e comprei dois parafusos - para ter um de reserva. Bastou ajustá-lo, e o Gordini ficou perfeito. Procurei falar com o proprietário da firma para me queixar do tal fulano, mas não o encontrei; havia viajado. Telefonei duas vezes nos dias subseqüentes. Ainda não tinha voltado e, por fim, com a lida diária, acabei perdendo a motivação e dei o assunto por encerrado.

         Dois meses depois, encontrei-o na rua e relatei o episódio em detalhes:

         - Por que não me procurou?

         - Liguei duas vezes. Você estava viajando.

         - Então, deixe eu lhe contar: botei aquele cara na rua há duas semanas. Já estava doido pra me livrar dele; um criador de caso. Era queixa todo dia. Você pensa que foi o único que ele destratou? Foram vários...

         Bem..., o gajo recebera o que merecia.

         A vida seguiu, sem maiores atropelos em matéria de carros. Mas, como se diz, o mundo não pára de rodar...

         Anos mais tarde, lá pelas três da madrugada, o telefone tocou. Nunca me acostumei com isso; até hoje levo susto quando sou acordado por esse barulho antipático.

         - Doutor, é do hospital. Tem aqui um homem com uma baita hemorragia de nariz. O senhor pode vir?

         - Claro! Já estou indo. Peça à freira para separar o material para um tamponamento, tipar e reservar sangue...

         E preparei o espírito para mais uma refrega. Fazer o quê?...

         Quando cheguei e vi quem era o paciente, não quis acreditar. Era o próprio! Sangrava que mais parecia uma torneira aberta. Pálido, pela perda sangüínea e talvez pelo medo, ele segurava contra o nariz uma toalha toda encharcada, e me fixava com aquele olhar de quem está pedindo socorro. Mas não me reconheceu. Sua esposa, ao lado, aflita, nunca tinha me visto e, para ela, não fazia a menor diferença que o médico fosse eu. Mas para ele faria?...

         E apesar de não ser "hora de expediente", foi atendido, como outra pessoa qualquer, com toda a atenção. Tomou sangue na veia e, em pouco tempo, estava corado como se nada tivesse acontecido.

         Embora desperto e atento, não parecia estar me reconhecendo e, talvez, fosse melhor assim. O importante, para minha satisfação, era estar podendo devolver-lhe a gentileza com que me obsequiara anos atrás.

         Mas, infelizmente, não sou tão evoluído e senti que, de algum jeito, tinha que fazê-lo lembrar o passado; nem que fosse a título de lição...

         Dever cumprido, lá pelas cinco da madrugada, voltou para o quarto e para a companhia da esposa, que não sabia como me agradecer. Ele não se mostrou tão efusivo, limitando-se a murmurar, com a mesma fisionomia carregada de outros tempos, um murcho e quase inaudível "obrigado, doutor".

         E voltei para casa, a fim de tomar um banho e o café da manhã, visto que o sono, que era bom, tinha perdido completamente, impressionado com aquele curioso e extraordinário capricho do acaso.



Escrito por MaGenCo às 18h31
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         Uma semana depois, no domingo, data prevista para a alta do paciente, que já tinha sido destamponado dias antes, saí de manhã cedinho, com o carro cheio: eu, a mulher, os filhos e os sogros.

         A família tinha aumentado, e fora obrigado a comprar um Galaxie. Cabia todo mundo naquela "barca". Tínhamos programado um passeio, mas antes, por dever e por prazer, eu precisava ir ao hospital, a fim de liberar o meu simpático paciente. Deixei o pessoal no estacionamento e subi as escadas.

         Chegando à frente da porta do quarto, dei duas leves pancadinhas e fui entrando, devagar. Lá estava ele, todo aceso, folheando uma revista semanal. A senhora, sentada ao lado do leito, fazia tricô ou crochê - nunca aprendi a diferenciar uma coisa da outra. Reinavam ali a paz e a tranqüilidade ideais para os meus propósitos:

         - Bom dia! - exclamei alegremente.

         - Bom dia, doutor! - respondeu ela, no mesmo tom.

         Ele apenas murmurou algo ininteligível. Que homem irascível! Mesmo ali, naquela absoluta condição de dependência, era incapaz de manifestar um pingo de calor humano. Como devia ser difícil, para aquela pobre e simpática senhora, conviver com uma pessoa assim... Provavelmente, era tratada em casa como se fosse sua escrava.

         Simulando indiferença pela carranca, pus em prática a pantomima preparada. Acercando-me do leito, fiz um exame nasal, medi o pulso e a pressão, avaliei a coloração das mucosas e me dei por satisfeito.

         A despeito do zelo com que fora examinada, a criatura não despregou os olhos da revista, como se eu não estivesse ali no seu exclusivo interesse. Que coisa! Eu, que preparara um discurso sereno, já estava, de novo, ficando com raiva do brutamontes. Controlando-me, entretanto, sentei numa cadeira ao lado da cama e lhe dirigi o olhar. Finalmente, sentindo essa silenciosa forma de pressão, ele pôs de lado a revista e me olhou com absoluta indiferença, como se mirasse um objeto qualquer. Nada tinha a dizer e, decerto, esperava que eu falasse. E foi o que fiz, lenta e pausadamente:

         - O senhor... o que é que faz?

         - Sou mecânico... aposentado...

         - Engraçado, eu acho que me lembro do senhor... Onde trabalhava?

         - No começo, trabalhei por conta própria. Depois passei um tempo na Willys, mas não gostei e resolvi mudar de emprego. Mais tarde, me aposentei.

         - Pois foi na Willys que o conheci... Não se lembra de mim?

         A senhora continuava a fazer placidamente o seu tricô. Apenas, de vez em quando, levantava rapidamente os olhos e voltava ao trabalho. O assunto não era do seu interesse, mas, educada, decerto não queria se mostrar desatenciosa com o doutor. E o marido respondeu:

         - Não estou lembrado, não. Era pra lembrar?

         - É..., talvez..., porque eu nunca me esqueci do senhor...

         Nesse ponto, senti que me olhou diferente, franzindo os olhos, como se intrigado com a reticência implícita. Imaginei que, tendo destratado tanta gente ao longo de todos aqueles anos, sempre estivesse na defensiva para se prevenir contra algum tipo de represália. E justificou, evasivo:

         - Nunca fui bom fisionomista...

         Tal desculpa não me comoveu, e retruquei:

         - Então, vou tentar refrescar sua memória... Deixe ver...



Escrito por MaGenCo às 18h31
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         Observei que a senhora, a essa altura, parara de tricotar e me fixava atentamente, talvez por ter notado a evidente mudança no clima da conversa, antes tão banal e corriqueira. E, com um gesto teatral, meti a mão num dos bolsos como se buscasse alguma coisa. Ambos, agora, acompanhavam meus movimentos com indisfarçada curiosidade. Mudei de posição e passei a outro bolso, depois a um terceiro, na típica atitude de quem não está encontrando o que procura, enquanto, para ganhar tempo e preencher o silêncio, ia dizendo:

         - Onde será que está isso?... Será que perdi?... Não é possível!...

         O clima de suspense mantinha ambos intrigados e, para distraí-los, interrompi a busca e indaguei, afetando naturalidade:

         - O senhor, certamente, ainda se recorda da mecânica do Gordini, não?

         - Claro! Cheguei até a preparar alguns para corrida...

         - Justamente! Agora tenho certeza como se fosse hoje. Foi num sábado à tarde. A oficina já estava praticamente fechada; só havia uma frestinha na porta. Eu estava chegando de viagem. Entrei e falei com o senhor e, de fato, um Gordini estava sendo preparado para correr no domingo. Veja só! Já faz tanto tempo, mas eu nunca esqueci...

         À medida que ia dizendo essas coisas, observava atentamente sua reação e notei que, pouco a pouco, sua fisionomia foi se modificando. A guarda foi se armando; os olhos já disparavam chispas em cima de mim, com incontida hostilidade. A mulher, que até então não compreendera nada, também notou a súbita mudança. Eu, então, prossegui calmamente, como se não tivesse percebido a expressão homicida:

         - É verdade..., parece que foi ontem... Eu estava com um probleminha no carburador do meu Gordini..., uma coisinha banal..., mas o senhor "não pôde" me atender, porque "já não era hora de expediente, e a oficina estava fechada"... Lembra-se?

         - Não me lembro de nada disso - mentiu secamente.

         Mentiroso, eu já sabia que ele era, pois tinha afirmado que deixara a Willys espontaneamente, quando, de fato, fora mandado embora. 

         - Lembra, sim. Uma coisa assim, a gente não esquece...

         - É, mas eu não me lembro, não...

         - Bem..., então eu vou ter que refrescar mais uma vez sua memória. Não que isso faça agora alguma diferença, pois, afinal, tudo aquilo aconteceu há tanto tempo que já nem importa. Mas eu lhe trouxe um presentinho...

         E, num gesto elaborado, fui tirando da algibeira uma coisinha miúda, envolta num papelzinho amassado. Ele não atinou com o que fosse, mas o leitor, decerto, já adivinhou...

         - Presentinho? Que presentinho?...

         - Este parafusinho... - e fui desenrolando o pequeno embrulho na palma da mão.

         Mal-educado, mentiroso e, ainda por cima, fingido, o nosso homem só reunia virtudes.

         - Que parafuso é este? - perguntou, intrigado.

         - Um parafusinho especial. É, justamente, o da regulagem do carburador do Gordini, o mesmo que o senhor me negou naquele sábado...

         Pensei que ele não tivesse ânimo de dizer mais nada, mas ainda teve coragem de insistir, embora, com isso, confessasse que se lembrava de tudo:

         - Não emprestei porque a oficina já estava fechada!



Escrito por MaGenCo às 18h30
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        Absolutamente incapaz de reconhecer um erro, aquele sujeito era uma pedra. Mas ainda me restava um trunfo, guardado na manga. Era o último e, em desespero de causa - porque não queria constranger ainda mais a pobre senhora - tive que lançar:

         - Este parafusinho vai servir para que o senhor nunca mais diga a outras pessoas aquela linda frase que me disse naquele dia...

         - Frase?... Que frase?

         Já afirmei que o cidadão era uma pedra, só que falsa; dessas que se despreza no garimpo por não ter valor algum.

         - Eu sei que se lembra. Só não quer dizer na frente da sua senhora. Mas eu mesmo digo...

         Ela, então, contrafeita, o interpelou:

         - Que frase foi essa, Rosemiro?

         - Não te mete, mulher! Eu não falei frase nenhuma!... E não quero ouvir mais nada!

         - Mas vai ouvir, sim! O senhor disse: "Eu não pretendo precisar do senhor! Nem agora nem nunca!"

         - Tu disseste isto, Rosemiro? Pro doutor?... Meu Deus!

         Delicadamente, depositei o parafuso na mesinha de cabeceira. Em seguida, com um gesto mudo, me despedi da senhora e fui deixando o quarto. Quando girei a maçaneta, ainda me virei para olhá-lo. Seus olhos me fuzilavam. Mas, finalmente, não dizia mais nada. Pudera!

         Fechei a porta devagarinho e saí. Tinha caminhado alguns passos pelo corredor, quando ela me alcançou. Trazia o parafusinho na palma da mão. E com a voz contrita e embargada, falou:

         - Doutor, eu estou tão envergonhada... O senhor "nos" perdoe...

         Coitada..., tão humilde, ainda estava disposta a assumir metade da culpa. Como se lhe coubesse alguma!...

                            

         Mario Gentil Costa

        

 



Escrito por MaGenCo às 18h29
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O TERCEIRO MILÊNIO

 

Eis um tema que sempre me fascinou: - a chegada do terceiro milênio. Fomos os testemunhos vivos do fato. Por isso, tivemos, em relação a ele, enorme responsabilidade no transcurso do tempo.

Todavia, dois mil anos, no caso, é uma medida "relativa", uma contagem baseada no suposto ano do nascimento de Cristo, do qual ninguém tem certeza e com o qual nem todos os estudos religiosos concordam; li algures que Ele teria nascido seis anos antes e, se foi assim, o que restou da data?

Contudo, valeu o calendário. E prevaleceu a influência dos "milenistas", muito dados a predizer catástrofes apocalípticas, como, segundo consta, aconteceu no período anterior à passagem do ano 1000.

Esquecem esses "profetas de plantão" que o tempo é uma dimensão cósmica contada convencionalmente com nossos relógios, pois "logo ali" – como diria o nativo ilhéu em sua simplística avaliação de distâncias – em Júpiter, o dia, dada a rápida rotação do enorme planeta em torno do próprio eixo, dura só 10 das nossas horas, e o ano, em virtude da sua órbita mais afastada do Sol, dura 12 dos nossos.

Mesmo assim, disseram eles, estivemos sujeitos, por um irado pré-determinismo divino, aos mais ciclópicos dilúvios, que viriam punir os nossos acumulados pecados “não mais originais”, lamentáveis crendices que não encontram mais guarida no atual estágio do conhecimento.

Preciso deixar registrada minha opinião sobre tudo isso para não ser misturado à massa comum que sempre foi e será o alvo de pregadores, gurus e adivinhos, ansiosos por tirar proveito material da credulidade coletiva.

Nem parece que vivemos na era da informática, da astrofísica e da realidade virtual. Nossos ancestrais, que viveram no ano 1000 – aqueles sim! – não tinham alternativa, subjugados pelo obscurantismo religioso católico, bárbaro e medieval, sem poder expressar opinião, com medo das represálias dos papas e cardeais ignorantes e prepotentes, donos da 'verdade da época'.

Nós, ao contrário, temos a obrigação de pensar. E se não quisermos ser vistos pelas gerações futuras como "farinha do mesmo saco", temos que dar nosso testemunho de que nem todos acreditamos em búzios, tarôs, dogmas, profecias, revelações, milagres e todas as charlatanices congêneres que seria fastidioso enumerar.

E, por ilação, como pensei no ano 1000, projeto-me agora ao ano 3000. Será que a humanidade do futuro já se terá livrado dessas influências espúrias e estará finalmente integrada na obrigatória visão científica que o amanhã nos reserva?

Ou ainda existirão os milenistas a profetizar cataclismos punitivos que reconduzirão os seres humanos à vexatória condição de descendentes e cúmplices involuntários do ridículo "pecado original" de um Adão e de uma Eva imaginários, ou de vítimas predestinadas de uma raiva divina inconcebível, a abater-se com crueldade infinita sobre simples viventes que não têm qualquer noção, e muito menos, culpa de suas próprias origens?

 

             Mário Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 19h00
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O MODELO JAPONÊS

 

         O mundo se curva, perplexo, diante do Japão atual, tão fartos e variados são os seus exemplos de como construir uma nação.

         Dizimado pela mais impiedosa das guerras, esse pequeno-grande país, o único na história castigado por bombas atômicas, deve trazer em si alguma centelha mágica, algum dom essencial que podemos importar sem consumir divisas, já que seu melhor produto é o japonês, há mais de oitenta anos convivendo conosco e a nos dar, desde então, na lavoura, na indústria, nas atividades científicas e intelectuais, no comércio e nas artes, os mais genuínos exemplos de tenacidade e valor.

         Qualquer estudo que objetive analisar esse fenômeno vale por si mesmo, quando o essencial é encontrar um modo de absorver rapidamente o que nos for conveniente dessa cultura cujas origens se perdem de vista no passado mais remoto.

         Hoje em dia, não mais se justifica esperar que os séculos e os milênios se encarreguem - à maneira paciente e gradativa como trabalha a evolução darwiniana - de plasmar o aperfeiçoamento do homem.

         Há que importar cultura, sabedoria e conhecimento; há que importar exemplos de pertinácia, de crença na fundamentalidade do trabalho como fonte de riqueza, regras de organização que respeitem a dignidade e a individualidade do homem, pontos de partida para qualquer povo que esteja realmente disposto a assumir sua independência.

         Uma análise feita em torno desses aspectos essenciais deixa qualquer pensador estarrecido diante da passividade com que um país privilegiado como o Brasil permaneceu, até recentemente, - e, de certa forma ainda permanece - neste marasmo desalentador de subdesenvolvimento, caminhando por uma rampa descendente de miséria abjeta, de corrupção político-administrativa e caos incontrolável.

         País que possui uma generosa costa pesqueira, uma plataforma submarina rica de potencial energético, um solo fertilíssimo e adaptável a qualquer cultivo, um dos mais vastos rebanhos do mundo, um subsolo farto de jazidas minerais e metais preciosos, uma copiosa e equilibrada bacia hidrográfica em grande parte navegável e com quedas d’água naturais de imenso manancial não poluente.

         País que, graças a sua topografia diversificada, é capaz de oferecer ao mundo, num mesmo dia, climas e temperaturas das quatro estações do ano; que é dono da Amazônia, ecológica e eterna fonte de constantes surpresas.

         País que não tem vulcões nem terremotos..., esse mesmo país que, de um lado, é capaz de desenvolver tecnologia de ponta e, de outro, é também capaz de negligenciar com a educação e a saúde de seu povo, como se não fosse ele, afinal, seu maior patrimônio.

         O Japão não é nada disso.

         Arquipélago montanhoso e granítico, desprovido de matéria-prima e de solo para plantar, sacudido diariamente por terremotos e vivendo à sombra de vulcões ameaçadores, é capaz, entretanto, de subjugar a adversidade, dando ao mundo estupefato as mais formidáveis lições de crença no poder da vontade e de vencer as barreiras milenares de sua linguagem ideogramática para adaptar-se ao futuro sem desprezar suas tradições ou esquecer seu passado.

         Qual será o segredo desse povo admirável? A qualidade intrínseca do seu homem?... Uma carga genética extraordinariamente aperfeiçoada?... Ou alguma misteriosa essência de ordem mística?...Eis a profunda indagação...

         E este querido Brasil?

         Este Brasil..., campeão mundial de contrastes inacreditáveis, em que o centro das grandes cidades não reflete a triste realidade das periferias e dos sertões agrestes..., onde campeia a subnutrição geradora da oligofrenia e da ignorância das crendices e dos fetichismos que estimulam uma superpopulação cada vez mais alijada do acesso aos mais elementares meios de sobrevivência.

         Este Brasil, onde o voto analfabeto é majoritário e criado demagogicamente para equilibrar, através da quantidade, o “indesejável” e decisivo peso do voto sábio e criterioso.

         Este Brasil onde, para cada cidadão que morre, nascem quatro crianças, das quais três são filhos de subempregados ou desempregados, sem teto, sem comida, sem escola e sem saúde.

         Este Brasil que dobra sua densidade demográfica a cada 40 anos.

         Este Brasil que dá ouvidos a misticismos e a opiniões mal-intencionadas de grupos que só sobrevivem no meio da ignorância e não toma providências enérgicas para planejar a família com a distribuição gratuita e orientada de anticoncepcionais e outros recursos reconhecidamente eficazes de divulgação, únicos meios de controlar a natalidade enquanto é tempo, como se os recursos da terra fossem intermináveis e garantidos pela bênção divina.

         Este Brasil que, por isso, terá que alimentar e gerar empregos para 300 milhões de habitantes nos próximos 40 anos e terá que enfrentar a violência inevitável que explodirá como um caldeirão incandescente.

         Estejam certos, meus amigos. Ou tomamos providências inteligentes e inadiáveis ou estarão nossos filhos e netos condenados a conviver com o exemplo mais concreto do inferno, pois este país estará irremediavelmente inviabilizado sócio-economicamente num futuro muito próximo.

         A menos que os responsáveis pelo nosso destino amadureçam e se façam surdos e imunes à perniciosa influência dos maus conselheiros e daqueles que, não obstante herdeiros do passado funesto e diabólico das grandes cruzadas e inquisições purificadoras, vestem-se hoje de arautos do respeito à vida. Eles sempre viveram do controle das consciências, e seu eterno sonho é um rebanho crescente de ovelhas burras sobre as quais possam tripudiar e enriquecer.

 

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 20h46
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IMPLANTES DENTÁRIOS

 

Considero a odontologia a profissão que melhor sintetiza o conceito de concentração de competências, pois atua em torno de um único órgão – o dente – ou, se preferirmos, gira em torno dele e de seus iguais, que, quando presentes em sua totalidade, somam apenas 32 unidades. E quantas doenças ou dores inadiáveis esses ínfimos elementos podem causar, a ponto de justificar legítimas emergências.

Meu dentista tem quase a minha idade. Dono de vasta clientela, pratica, com indiscutível seriedade, a velha odontologia geral que seria, em termos comparativos, aquilo que faziam na medicina os antigos clínicos gerais. Daí, não obstante a crescente oferta de ‘concorrentes’ que as faculdades despejam anualmente no mercado, ele manter seu prestígio e sua clientela, hoje, obviamente, mais seleta. Afinal, grande parte dela já morreu. Mas o tempo criou em torno dele os contornos de um verdadeiro oráculo; sua palavra é ordem, e sua opinião, uma sentença. 

Claro, ele não é o único na cidade; há outros, da mesma geração, que pontificam como referências e que até já consultei por essa ou aquela razão. Todavia, criou-se entre nós dois um vínculo de empatias que transcende a mera confiança profissional. Somos, acima de tudo, amigos de longa data. Por isso conversamos tanto e, como médico e dentista, trocamos tantas idéias.

Ele me conta seus casos; eu lhe conto os meus. E assim, pela coincidência de nossos propósitos sempre voltados para o bem do paciente, desenvolvemos nosso senso de prioridades e de avaliação de condutas.

Também em função do tempo e da idade, deixamos de praticar no dia-a-dia certos procedimentos que ilustram os inegáveis progressos da medicina e da odontologia. Não teria cabimento, a esta altura de nossas vidas, nos esfalfarmos na busca dessas habilidades. Mas temos, a nosso favor, a aquisição gradativa e inevitável de juízos que só a maturidade – aquilo que, grosso modo, se rotula como ‘experiência’ ou, na gíria, se apelidaria de ‘quilometragem’ – proporciona a quem tem senso crítico e lisura de intenções.

Por coincidência, tivemos um amigo comum, viúvo aos setenta e tantos anos. Pois bem. Esse amigo, figura inesquecível, era vaidoso com sua aparência e zeloso sobretudo de seu encanto pessoal. Apesar da idade, estava sempre na expectativa de uma conquista que preenchesse o vazio de sua solidão. E, para isso, ‘precisava estar em dia’...

Uma das mazelas que mais o angustiava, era o uso obrigatório de uma eficiente ponte móvel que lhe supria a ausência de alguns dentes superiores. Não conseguia conformar-se com essa lacuna que lhe ‘tirava o brilho do sorriso’, e excomungava o ritual higiênico que o constrangia diante do sexo oposto. Teve, então – vítima da propaganda dos modernos implantes – a idéia de consultar um “especialista”, que, ‘pressuroso’, prometeu-lhe o absoluto sucesso do procedimento.

Conversando comigo, desencoragei-o de imediato diante da escassez e da fragilidade de tecido ósseo na região receptora. Mesmo assim, encaminhei-o a meu dentista, que era também o dele. Este lhe disse a mesma coisa e acrescentou que precisaria fazer demorados e dolorosos enxertos ósseos. Sua decepção era digna de pena, pois estava, diante do orçamento oneroso, até mesmo propenso a vender um terreno para enfrentar o compromisso. Acabou conformado graças à força de nossos argumentos conjuntos, entre os quais, sua própria idade e, por mais otimista que se pudesse ser em relação ao futuro, o retorno compensador do investimento.

E o implantista, do outro lado, a prometer-lhe maravilhas ‘garantidas’. Foi uma batalha que eu e o dentista conseguimos vencer à custa da amizade, do bom senso e de muita persuasão.

Nosso amigo convenceu-se. Não vendeu seu terreno e seguiu conformado com sua ‘mutilação comprometedora’, termos com que qualificava seu calvário odontológico.

Daí a um ano, assistindo ao jornal da noite, morreu serenamente diante de TV. E o ‘implantista’ ambicioso enfiou a viola no saco.

Tomara, ao menos, que tenha aprendido a lição...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 18h43
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HOLOCAUSTO - O GUETO DE VARSÓVIA

 

        A vontade de ler um determinado livro depende de certas motivações, entre as quais prevalecem o tema e o nome do autor.

 

Pois bem, um dos temas que sempre me fascinou - não sei se porque sou contemporâneo do fato, ou por alguma estranha razão que minha memória ancestral não alcança - é o Holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial. Já li muitos livros a respeito. Alguns calaram fundo na minha sensibilidade.

 

Por mera coincidência, relera recentemente MILA 18, de Leon Uris - que penetra, com toda a crueza e realismo, nos corredores do Gueto de Varsóvia - e ainda me sentia vivamente impregnado daquele horror em que perderam a vida seiscentas mil pessoas, quando fui convidado a comparecer à solenidade de abertura da Semana da Cultura Hebraica.

Lá vi desfilarem, diante de meus olhos estarrecidos, as fotografias que testemunham o regime de terror com que a paranóia de Adolf Hitler e seus "arianos de raça pura" se propunha a escravizar o mundo. 

 

E tive o privilégio de apertar a mão de Ben Abraham, um dos raríssimos sobreviventes daquela chacina histórica. Homem humilde e sábio, tão logo se viu livre e só - pois ali perdeu toda a família - veio ainda jovem para o Brasil, nacionalizou-se e, tão logo pôde, dedicou-se a escrever, como memória viva e incontestável, sobre o genocídio que até hoje envergonha a humanidade.

Já publicou doze obras, "para que as gerações mais recentes - que, infelizmente, se acostumaram a ver o Holocausto como o relato emocional de um passado abstrato e perdido no tempo - e especialmente as vindouras, tenham à mão o testemunho irrevogável de alguém que esteve lá." 



Escrito por MaGenCo às 20h26
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Disse-me ele à viva-voz que o que já se escreveu é insuficiente para que se tenha uma dimensão exata da obsessiva crueldade do regime de Hitler e seus bandidos, e que, em nome disso, pretende continuar depondo até seu último alento, a fim de que, nesses tempos imprevisíveis em que voltam a surgir, aqui e ali, facções de minorias nazi-fascistas a acenar com absurdas e anacrônicas idéias de xenofobia e intolerância, não se deixe repetir o passado comprometedor.

 

Acha ele que o Brasil, apesar de suas mazelas crônicas, tem o dom da liberdade e a vocação para mostrar ao mundo do terceiro milênio o segredo da fórmula que permitirá a coexistência harmoniosa das crenças e dos pensamentos, pois se trata de uma terra onde já convivem em paz todos os povos.

 

Ouvindo de quem ouvi tal afirmação, nesta hora em que o país se afoga na lama da corrupção e do desmando, voltei, por momentos, a sentir o meu velho orgulho de ser brasileiro.  Só não esperava que, tantos anos depois da chacina de Varsóvia - que as gerações mais recentes já sepultaram no esquecimento como coisa de um passado remoto - viesse a ter o privilégio de apertar a mão de um dos seus raríssimos sobreviventes – Ben Abraham.

 

          Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 20h26
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COMO ENTENDO A “MEDITAÇÃO”

 

    O real significado do termo “Meditação” sempre despertou minha curiosidade: - eu a vejo como um processo (ou esforço) puramente cerebral, seja ele em busca de inspiração (à custa do lobo temporal direito, que é intuitivo - poetas, compositores, músicos, escritores, artistas plásticos), ou de explicação racional (à custa do esquerdo - matemáticos, cientistas, pesquisadores, filósofos, pensadores).

    Com tal fim específico, considero a meditação passiva dos chamados “místicos”, se não irrelevante, pelo menos improdutiva. O elemento mais atuante na meditação é o nosso néo-córtex, nossa massa cinzenta fronto-temporal (esquerda e direita), aquela camada diferenciada que nos distinguiu, através da evolução darwiniana, dos nossos primos primatas e, sobretudo, dos que estão mais abaixo na escala zoológica. Em segundo plano, atua a área límbica, responsável pelo nosso componente emocional e automático: - libido, afeto, funções secretoras e que tais.

    Claro que o autoconhecimento colabora com sua parcela, mas, por si só, não o vejo como condição indispensável. A menos que busquemos a meditação com o mero objetivo do aperfeiçoamento pessoal, com fins de aprimorar nossa conduta diante da vida e do meio em que vivemos. Essa, a meu ver, é uma postura mais contemplativa, passiva e pouco produtiva para os interesses do homem coletivo - entenda-se aí humanidade - que avança na conquista gradativa do saber através da lógica que permeia o universo como um todo. 

    Seria a Meditação uma espécie de busca incessante da Verdade, que é cósmica, auto-existente e imanente. Esta estaria, no caso, representada por todos os arquétipos, entre os quais a matemática que rege o universo e independe até da existência do animal-homem. Em outras palavras, penso que esses arquétipos, como o próprio Universo, sempre existiram. O Universo é o Ser; a existência em si. O Nada é o Não-Ser (que não pode existir, pela própria definição).



Escrito por MaGenCo às 22h02
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    Descartes cunhou o dito "Penso, logo existo". O que ele quis dizer com isso? Que a noção de existência depende da consciência de existir, e essa depende do ato de pensar. É algo inerente ao Eu humano. Quem não pensa, não sabe que existe; não está em contato com seu Eu. Assim é no sono normal; assim é num estado de anestesia geral. Portanto, meditar é pensar, sim! É o mesmo que raciocinar, matutar, refletir, considerar, cogitar, especular. Não é, como defendem os gurus, esvaziar o intelecto e passar horas em atitude contemplativa. Um intelecto inativo - caso do coma - nada capta. Pode até contribuir terapeuticamente com resultados práticos para aliviar tensões, reduzir a pressão arterial, controlar uma crise de taquicardia rebelde, uma febre alta, sossegar uma mente atribulada etc. Mas nada acrescenta em termos de conhecimento ou de sabedoria.

    Descartes disse outras coisas interessantes, como "a dúvida é a mãe do conhecimento". Defendeu, à maneira de Galileu, o método científico da experimentação. Mas também disse algumas bobagens, a maior das quais - que o compromete lamentavelmente - sua tese do dualismo (cartesiano) como tentativa de provar a independência da alma, como "ser" em separado: - Res Cogitans (alma, espírito) x Res Extensa (corpo). A meu ver essas duas "coisas" são uma só, e a alma (mente) resulta da atividade cerebral consciente, como a mais sofisticada glândula de secreção interna que gera o pensamento, como seu produto mais nobre, e todo o resto das nossas funções sensitivas e motoras. Basta ver o que acontece com o cérebro brilhante de um gênio que sofre um violento AVC e, imediatamente, se transforma num lastimável imbecil, que defeca e urina nas calças sem o mínimo constrangimento. Que independência é essa? Como entender uma entidade tão independente que, ao mesmo tempo, dependa tanto de uma máquina? Uma comparação simplista, mas muito ilustrativa, é o moderno binômio interdependente Hardware (máquina) / Software (memória e outras funções). Se falha o primeiro, não se realiza o segundo.   

Toda a programação do cérebro depende integralmente de sua higidez física e bio-neuro-eletro-química. Portanto, o cérebro sadio é a base de tudo e só funciona ampla e corretamente se não sofrer lesões. Não tem escapatória; isso é axioma médico-científico inquestionável. As UTIs e os asilos provam isso à exaustão...

    Assim sendo, para meditar em profundidade não é indispensável a abstração, o alheamento mental. O essencial é um belo contingente de neurônios e sinapses. E, claro, um bom nível de conhecimento e/ou sabedoria. Repito que uma farta dose de autoconhecimento contribuirá para melhores resultados, mas não é condição indispensável.



Escrito por MaGenCo às 22h01
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    Com respeito à oração, entendo-a como um meio válido de acumular energias positivas, dependendo da fé individual. Como não tenho fé religiosa, - pois não creio na existência de foros sobrenaturais - não rezo. Ou seja, não tenho a quem (ou a que) rezar. Encaro as orações de pessoas religiosas como meios de acumular esperanças, que, em suma, são possíveis veículos de auxílio na hora de enfrentar problemas, até mesmo na hora de doença ou sofrimento; como se a prática da oração atuasse no cérebro para carrear anticorpos, endorfinas e demais fatores imunitários e, quem sabe?, substâncias que ainda nem conhecemos. 

    Discordo dos que afirmam que "a compreensão não está dentro das fronteiras do tempo; que ela não é um processo gradual". Para mim, ela é, sim! Ela é conseqüência do aprendizado através dos sentidos, e este aprendizado só se alcança com tempo, com sacrifício e com a constante ativação do pensamento lógico e crítico. Com o uso da informação e da razão, no seu sentido mais lato, através da leitura, do estudo consciente, da convivência com pessoas mais sábias. Ninguém aprende nem compreende sem esforço gradual e sistemático. Ninguém é ungido de sabedoria por passes de mágica. Não existem relâmpagos de compreensão, exceto sob a forma de inspirações momentâneas, que são casuais, embora o contínuo esforço mental possa e deva favorecê-las. Não existem "estalos de Vieira" milagrosos. Meditação é concentração, sim! Não existe sem isso. Meditação sem concentração é abulia mental. Isso que fazem os gurus, de olhos fechados, horas e horas, sem pensar, a nada leva. Mesmo porque é praticamente impossível parar de pensar. Só dormindo. O cérebro alerta pensa até se não quisermos. O pensamento flui por si. É verdade que tende a ser errático, vadio, inconseqüente. Mas temos que aprender a conduzi-lo; não a anulá-lo, o que configura mero desperdício de energia. Saber pensar é uma arte que se aprende e se desenvolve. Claro que, para isso, temos que dispor de boa máteria-prima: - neurônios e sinapses cada vez mais complexas, que, está provado, aumentam com o uso insistente.

    Assim sendo, não vejo sentido na afirmação de que "a mente que apenas se concentra não pode meditar". A meu ver, a mente que se concentra, medita e cogita, sim! Especula e questiona. Livros e mestres, ao contrário do que afirmam alguns místicos, podem nos ensinar a meditar, sim!



Escrito por MaGenCo às 22h00
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    Discordo de Krishnamurti quando afirma que "a meditação não é busca, nem sondagem nem pesquisa". Ela é tudo isso, sim! Pode não ser explosão - o tal estalo - mas visa ao descobrimento, sim! Caso contrário, é inútil. Ela é justamente o ajustamento do cérebro à busca do conhecimento ou da sabedoria. Ela é análise introspectiva, sim!; é prática da concentração que resulta no acúmulo, na soma. E se fundamenta, sim!, em aceitar ou negar através da escolha e do senso crítico. Caso contrário, ela perde sua utilidade.

    Por fim, o que somos nós? Somos matéria e energia cósmica. Nada mais. Somos feitos do mesmo barro de que são feitos até os seres inanimados. Somos, para repetir o lugar-comum, poeira de estrelas. Temos vida? Sim, no momento, mas tão logo morremos, nossa matéria e nossa energia se transferem (ou retornam) para o mundo (universo), do qual fazemos parte neste ínfimo planetinha que é parte do todo. Não existíamos como ser pensante antes de nascer; não existiremos como ser pensante depois de morrer; simplesmente retornaremos ao que éramos: matéria/energia, que, eventualmente, se transformará numa flor a enfeitar tumbas... É a lei de Lavoisier em seu significado mais nobre e amplo. Tudo que tem começo, tem fim. E tudo que é eterno, é infinito. O que é o infinito? É a soma infinita dos finitos, como a dízima periódica é a soma interminável de frações cada vez menores. O que é o eterno? É a soma perpétua dos temporais. Isso pode não caber no nosso cérebro, porque é impossível conter o infinito dentro do finito. Mas é assim que é. É espaço-tempo auto-existente e não criado.

    Bem, já disse o que queria. Perdoem-me o desabafo, mas é assim que eu penso há muito tempo, desde que abri minha cabeça para a meditação consciente...

   

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h59
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O BOM CANGACEIRO

 

        Quem, como eu, teve o privilégio de conviver com ele por mais de vinte anos, terá tido também a oportunidade de entender que, por detrás daquela carregada fisionomia de personagem extraído diretamente das histórias do cangaço, escondeu-se um coração que, embora fundamente atingido, bateu enquanto pôde para sustentar uma vida rica de emoção e de bondade; um coração sofrido e carente de afeto, que cedo perdeu o pai numa tocaia do nordeste; um coração despreparado para suportar os constantes sobressaltos em que vivia o seu dono, homem ao mesmo tempo impulsivo e generoso, terno e valente; um mau ator, de todo incapaz de simular qualquer gesto que não fosse genuíno e seu; um homem verdadeiro, cuja letra grande e decidida traduzia com firmeza o macho que assinava embaixo.

         Vítima do medo atávico das tocaias insidiosas, veio parar no sul por mero acaso e, durante os primeiros tempos, nunca se sentou de costas para uma janela ou porta aberta, munido sempre de uma arma de defesa, até que, pouco a pouco, compreendeu que esse tipo de perigo não existia por aqui.

         Obcecado pela segurança e herdeiro de um costume secular, chegou a montar em casa um precioso arsenal de armas de todo tipo, dispensando-lhes um carinho de verdadeiro colecionador. Sempre disposto a longas viagens solitárias em busca de alguma peça mais rara, retornava alegre toda vez que somava algum reforço à sua paliçada.

         Apesar disso, não era dado a caçadas, pois tinha pavor da violência e da morte, mas se realizava ao aperfeiçoar sua pontaria em saudosas tardes de tiro-ao-alvo, para as quais me convidava cheio de entusiasmo. Ali, então, descarregava, com certeira precisão, toda sua munição e toda sua ansiedade.

         Sempre atento, numa espécie de alerta em tempo integral, foi escolhendo os amigos um por um, aproximando-se devagar, de modo simples e, ao mesmo tempo, complicado, mas sem manobras premeditadas ou atitudes de efeito, rigorosamente à sua maneira, policiando maiores demonstrações de afeto e quase nunca permitindo que as palavras o traíssem, como se, ao confessá-las, corresse o risco de expor em demasia aquilo que, decerto, considerava uma forma de fraqueza. Preferia expressar-se por ações diretas que traduziam uma mímica toda sua.



Escrito por MaGenCo às 20h42
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         Homem sobretudo inteligente, embora na aparência controverso, seu pensamento corria mais que a palavra. Por isso, com freqüência, atropelava-se na ânsia constante de acompanhar a si mesmo; sofria, com certeza, os efeitos de uma dupla e simultânea predominância cerebral, as cargas opostas da direita e da esquerda a chocar-se com a mesma força, na mais estranha espécie de liderança interativa bipolar. Daí, talvez, aquele pavio curto, cuja explosão, à primeira vista violenta, nada tinha de mortífera, visto que sempre resultava numa variada chuva de fogos de artifício, fugaz e colorida.

         Quem não o entendeu assim a fundo..., quem não teve a paciência necessária para analisá-lo com mais atenção, nunca sintonizou com ele e desperdiçou o privilégio de ter um amigo de verdade e, mais que tudo, jogou fora a felicidade de conviver com um homem exclusivo, desses que dificilmente se repete.

         O tempo, as pancadas da vida e as marcas profundas que ficaram, somados a uma possível carga genética, transformaram o tenso no hipertenso. E a hipertensão se encarregou do resto.

         Sua partida algo prematura, conquanto de certa forma esperada, me causou uma tristeza imensa..., a mim que também não sei se, alguma vez, fui capaz de lhe confessar, com atos ou palavras, a grandeza da amizade que ele soube me inspirar.

         E essa dúvida ainda hoje me remói, embora suavizada pela esperança de que, mesmo calado, ele tenha sido capaz de dimensioná-la.

         Não consigo afastar da lembrança aqueles momentos dramáticos que vivemos juntos..., o Dodge LeBaron 1981 voando sobre a ponte..., ele, a meu lado..., derreado e pálido..., a comprimir o peito com a mão direita enfiada dentro da camisa aberta..., o olhar amedrontado diante da terrível perspectiva que se agigantava impiedosamente..., misto de coragem e desespero..., por saber de antemão que, contra aquele tipo de inimigo, todas as suas armas juntas de nada valeriam.

         Até hoje escuto sua voz nordestina..., as palavras entrecortadas de angústia:

         - Mario!... Noite danada-de-cão essa que eu passei!... Será que não tenho o direito de respirar?

         Na hora, a emoção não me deixou falar. Mas agora eu lhe responderia, se pudesse:

         - Respirar é o primeiro direito do homem. Mas, infelizmente..., também é o último.

        

         MARIO GENTIL COSTA



Escrito por MaGenCo às 20h41
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A VAIA !!!

 

Desde a grande vaia do Maracanã, tenho lido e ouvido dezenas de explicações para a reação do ‘presidente’, que, atoleimado, emudeceu e deu o fora sem abrir a boca. Todo mundo opinou sobre as causas, que são óbvias – o povo não agüenta mais. Daí ter surgido, inclusive, o movimento “cansei”, que, duvido, resulte em algo proveitoso para o Brasil.

Claro que o povo está cansado, enfarado, desiludido e desesperançoso com Lula e seu desgoverno. É mole ver o país degringolar e atolar-se na sujeira que se acumula diariamente, como o esgoto que drena de uma fossa rompida, ao redor desse personagem lastimável que teima em apresentar-se como o salvador da pátria? Dessa “triste figura” que, não servindo nem para Dom Quixote sem Dulcinéias ou moinhos de vento, vai vestindo a carapuça e os contornos de um patético palhaço de circo mambembe que não tem mais o que dizer com sua fala vazia, com sua gesticulação desgraciosa, com seu olhar amorfo e desfocado de ébrio em tempo-semi-integral, com sua barba mal-cuidada que dá impressão de sujeira, com seu ‘s’ sibilante, com suas inoportunas piadinhas de mau gosto e pior graça, com suas ridículas comparações de mesa de boteco, com o andar afetado que desfila nas passarelas em seus mal-ajeitados ternos de grife, e, sobretudo, com o palavreado rasteiro de funilaria que permeia seus infelizes improvisos, onde transparece a vacuidade das idéias e ressalta a má-fé que preside suas atitudes de politiqueiro de comício de bairro. Estamos fuzilados. Graças ao ‘apurado’ senso crítico que prevalece na maioria de nossos eleitores analfabetos, fomos brindados com a eleição e a incrível reeleição de um homem que nunca esteve preparado para o exercício da nossa mais alta investidura e virou uma calamidade pública cuja dívida agora estamos pagando e nunca vamos saldar.

Mas o que ressalta de sua reação à vaia histórica – que surpreendeu a tantos, menos a mim – é a confissão tácita de um ressentimento incontido que define sua falta de autocrítica. Por incrível que possa parecer, ele, que – como um canastrão maquiado diante de um espelho passa a acreditar na própria transformação – teve a ousadia, a desfaçatez e o cinismo de se comparar a JK, forçou-se a crer em sua dimensão de estadista – e não se preparou para a dolorosa e inequívoca constatação de que não era nada disso; que nunca fora além das modestas chinelas de um torneiro-mecânico precocemente aposentado e ambicioso; não esperava a vaia, o motejo arrasador da massa. Não estava preparado para o apupo espontâneo e uníssono de um Maracanã inteiro.

Mas o que o emudeceu, mesmo!, foi a surpresa, o susto, a profunda decepção; a súbita certeza de que não enganou o Brasil. Ele, sinceramente, intuía gozar de um prestígio que lhe permitiria fazer o que quisesse, dizer o que dissesse, afirmar, com seus dedinhos em riste e sem o menor fundamento, o que bem entendesse, e a boiada o aplaudiria como se acabasse de testemunhar a sentença irrevogável de um oráculo. Quando descobriu que nada disso era verdade, que nunca fora levado a sério, ele desabou sobre os falsos pilares de sua autoestima fabricada no vácuo. De repente, ele se capacitou de que suas mentiras não tinham a plausibilidade que lhes atribuía e jamais susbstituiriam a verdade que salta aos olhos da massa mais crítica. Descobriu que construíra seu castelo em areia movediça...

E dessa lição, ele jamais se recuperará, por mais que se esforce e tente dar a entender. No silêncio e na escuridão de seu quarto no Alvorada, ele ainda está chorando com raiva, embora não a deixe transparecer de dia...

E vai chorar pelo resto de seus dias, porque, dessa porretada cívica, seu megalomaníaco orgulho ferido jamais tirará remédios que curem sem cicatriz. Uma sonora vaia foi o bastante para esfacelar sua autoimagem. E o grande perigo que nos ameaça é sua vingança..., que será impiedosa.

Preparemo-nos, por que, a menos que surja um novo JK, ela virá.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 17h18
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A EXTREMA-UNÇÃO

 

         Quando o homem entrou no consultório, passos indecisos, quase pendurado ao braço da mulher, não sei por que, eu já sabia qual era a doença. Acredito que esse tipo de intuição - ou coisa que o valha - ocorre vez por outra com todo médico. É uma espécie de sexto sentido, algo muito vago, que não gostaria de chamar de experiência e, muito menos, de conhecimento. É uma esquisita maneira de sentir, que não se sabe de onde vem, e cuja origem, certamente, não está em livro algum.

         Estaria estampada, naqueles olhos arrasados, a certeza íntima de uma sentença de morte? Sei lá... A sensação se consolidou quando ele falou:

         - Boa tarde, doutor!

         A voz era rouca, com um timbre característico que se aprende a interpretar com precisão, a ponto de fazer o diagnóstico de imediato. Ele tinha, certamente, um câncer de laringe. A rouquidão de uma simples laringite é diferente; a maioria dos otorrinos sabe disso. O exame físico não sugeriu outra coisa; só faltava a prova final, o laudo de uma biópsia.

         - Preciso fazer um outro tipo de investigação, um exame interno, para uma coleta de dados, compreende?

         - Doutor, isso é uma operação?

- Operação, propriamente, não é. Mas tem que ser feita com anestesia, no hospital. Não requer internação.        

- Pode ser feita sem anestesia? Sabe..., eu sou cardíaco...

         - Pode, sim. Hoje é segunda. Podemos fazer na quarta. Está bem?

         - Está bem.



Escrito por MaGenCo às 19h48
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         Acertados local e horário, os dois se retiraram. E fiquei pensando na coincidência de, justamente naquela manhã, ter dado aula na faculdade sobre o diagnóstico diferencial do câncer do laringe e ter dito aos alunos que "toda rouquidão que ultrapasse três semanas sem melhora espontânea, em fumante-bebedor com mais de quarenta anos, deve ser considerada câncer até prova em contrário". E aquele pobre coitado preenchia esses requisitos, pois, além de ter mais de sessenta, era um bebedor habitual, outra indiscutível condição predisponente.

         Feita a biópsia, veio a confirmação. No dia do retorno, me preparei para um diálogo penoso, cheio de evasivas. Mas, para minha surpresa, só a mulher apareceu; ele ficara em casa.

         - Então, doutor? - perguntou, ansiosa.

         - Seu marido precisa ser operado. Felizmente, trata-se de um problema ainda em fase inicial. A vantagem disso é que vai permitir uma cirurgia econômica. Isso é bom, não acha?

         - Ora, as despesas não são a nossa primeira preocupação...

         - A senhora não entendeu. "Econômica", no caso, significa "menos ampla e com maior margem de segurança".

         - Ah, desculpe. De qualquer forma, preciso saber do que se trata. Por acaso é câncer? Quero a verdade; sou forte. Foi justamente por isso que vim sozinha; para podermos falar abertamente. Ele queria vir, mas o aconselhei a ficar em casa "por causa do vento e da chuva", que poderiam piorar a rouquidão. Sabe..., ele vive dizendo que tudo não passa de um simples ‘resfriado mal curado’.

         - Infelizmente, não é isso. É um tumor na corda vocal. De um tipo maligno, embora ainda pequeno. Quanto mais depressa for removido, melhor será o resultado.



Escrito por MaGenCo às 19h48
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         - Ih! Ele não vai querer operar-se. Ontem ainda falou. Nunca vi homem mais teimoso e metido a sabichão. Tem até livros de medicina. Vive receitando para as pessoas, sobretudo remédios à base de ervas - "as ervinhas milagrosas" - como chama. E, há mais de um mês, anda cheirando um chá medicinal de uma folha que foi buscar no mato. Sempre diz que é "contra médico"; que médico só quer saber de faca.

         - Bem..., se não conseguir convencê-lo, traga-o aqui. Diga que precisamos conversar.

         - Tudo bem, mas me diga uma coisa: operando ele fica curado..., eu quero dizer..., não há perigo de a doença voltar? Desculpe, mas a gente ouve tanta coisa...; que mexendo é pior...; que aí mesmo é que o mal vem com toda força..., sei lá...

         - O que posso lhe dizer é que, nesse estágio..., se for feita uma operação com boa margem, e, talvez, depois, uns ‘banhos de luz’, a chance de cura é muito maior. Tenho pacientes operados há mais de dez anos. E seu marido já tem sessenta e cinco. Por outro lado, se nada for feito, aí sim, a doença avançará com rapidez. Quanto mais se adiar, maior será a extensão da lesão e mais alargada terá que ser a cirurgia. Depois de certo estágio, terá que ser removida toda a laringe, e, nesse caso, ele ficará respirando por um orifício no pescoço e perderá a voz.

         - Deus nos livre disso! Vou conversar com ele. Semana que vem lhe dou uma notícia.

         Ela se foi. Triste, cabisbaixa, mas decidida. Segui minha rotina. Mas não esqueci o homem das ervinhas milagrosas; sua lembrança ficou guardada numa espécie de arquivo paralelo. Passou uma semana, depois outra. E nada. Na terceira, já preocupado, decidi telefonar. Foi ela quem atendeu:

         - Ah, que bom o senhor ter telefonado! O problema é o seguinte: ele nem quer ouvir falar de operação. Disse que vai consultar um clínico para ouvir outra opinião. Insisto com ele todo dia, mas não adianta. Já pensei até em mostrar-lhe o resultado do exame. Acha que devo fazer isso, doutor?

         - A senhora conhece seu marido melhor que ninguém. Eu não sei como reagiria. Ele já não teve um infarto?

         - Pois é, eu tenho medo. Se fosse comigo, preferiria saber a verdade, mas com ele, não sei... pode sofrer algum abalo...

         - Quem sabe eu falo com ele agora?

         - Ah, ele não está. Mas vou dizer que o senhor telefonou pedindo que volte ao consultório.

         - Meta-lhe um pouco de medo..., diga também que, por enquanto, ele só tem rouquidão, mas que, com o tempo, terá falta de ar...

         - Vou dizer tudo isso. Obrigada - E ela desligou.   



Escrito por MaGenCo às 19h45
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         Passaram dias, e nada de o homem aparecer. Pensei em ligar de novo, mas não queria parecer insistente. A velhinha estava certa; o cidadão era uma mula teimosa. Pior que isso, uma mula amedrontada.

         E viajei. Fiquei um mês inteiro envolvido com outros assuntos. Quando voltei, logo me lembrei do homem da rouquidão, mas, por alguns dias, resisti à vontade de telefonar, embora aquela indefinição já estivesse me deixando aflito. E acabei ligando. Depois de muitos toques, quando já desistia, ele atendeu. A rouquidão havia piorado.

         - Como é que vai, meu caro?

         - Ah, doutor, estou um pouco melhor, graças a Deus. Acho que umas inalações que ando fazendo, estão dando resultado.

         - O senhor não ia procurar outro médico? Sua senhora me disse...

         - É, não me leve a mal, mas o senhor sabe que tenho pavor de faca. Então, fui procurar um colega seu, um clínico geral, que está me fazendo banhos de luz infra-vermelha, de dois em dois dias. E, realmente, estou me dando bem...

         - Mas não lhe parece que a rouquidão piorou?

         - Não, pelo contrário. É porque o senhor me ouve pelo telefone, e a linha não está boa... Acho que estou falando melhor...

         - Quer dizer que está mesmo decidido a não ser operado...?

         - Olhe, por enquanto vou continuar com os banhos de luz. Quem sabe isso resolve, e eu escapo, hein? De qualquer forma, agradeço a sua atenção.

         - Escute, eu não quero desanimá-lo, mas esses banhos de infra-vermelho não vão resolver nada. Digo isso para que, mais tarde, não venha a arrepender-se; e também para lembrá-lo que, por enquanto, ainda é possível uma cirurgia de porte reduzido, com chances de cura. Sua senhora não lhe deu meu recado?

         - Deu, sim. Sei que a intenção de todos é boa. É que sou teimoso mesmo. E medroso, mais ainda!

         - Ponha este medo de lado, homem! Confie nas pessoas que querem o seu bem. E não esqueça que é o médico que entende de doença.



Escrito por MaGenCo às 19h35
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         Apesar de teimoso, o homem não era tolo e sabia argumentar. E veio com essa:

         - Mas o seu colega clínico geral também é médico, não é?

         - É, isto é verdade – falei, sem muito entusiasmo.

         - Pois então... De qualquer forma, muito obrigado. - Ele desligou; parecia ansioso por livrar-se de mim.

         Seis meses mais tarde, já meio esquecido do caso, cruzei com a velhinha na rua, e, num impulso, a abordei:

         - Como vai o seu marido?

         - Olhe... A tosse aumentou e tem emagrecido. Isso é um mau sinal?

         - Mas falta de ar, ele já tem?

         - Não, isso - graças a Deus - ainda não. Será que aqueles banhos de luz estariam dado resultado?

         - Não. Os banhos de luz a que me referia eram radioterapia. Infra-vermelho não cura nada...

         - Então a culpa foi minha, porque eu disse que o senhor havia falado em banhos de luz. Foi aí que ele resolveu procurar o clínico que tinha o aparelho. Como é que eu não percebi esse engano?

         - A senhora não deve se culpar. Afinal, não tinha obrigação de saber distinguir um banho de luz de outro.

         - Mas o médico, seu colega, sabia, não?

         - Bem..., eu não... - respondi evasivamente, procurando não opinar abertamente sobre aquele ato de evidente má fé. Por um absurdo prurido ético, não me senti à vontade para declarar que, infelizmente, existem clínicos e clínicos... - e continuei:

         - De qualquer maneira, ainda vale a pena reavaliar o caso e ver o que pode ser feito. Talvez ainda dê para fazer uma cirurgia conservadora. Diga isso a ele. Quem sabe, agora ele concorda?

         - Eu não creio. Em todo caso vou tentar.

         - Faça isso. E não esqueça que estou às ordens.

         - Muito obrigada, doutor. Prazer em revê-lo.

         E nos separamos com um aperto de mão. De repente, ocorreu-me que poderia tê-la aconselhado a levar o homem a outros otorrinos; que, ouvindo todos a repetir a mesma coisa - quem sabe? - talvez criasse coragem. Mas quando me virei para sugerir essa idéia, ela já tinha virado a esquina.



Escrito por MaGenCo às 19h34
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         O tempo foi passando, devagar para mim e depressa para ele, até que um dia, de madrugada, o telefone tocou. Era do hospital:

         - Doutor, internou-se aqui um paciente seu. Um senhor Arlindo - que sobrenome esquisito! - Bellavoce(?)..., é assim que se pronuncia?  

         - Não, é Belavotche. Ele chegou agora?

         - Agorinha. Com muita falta de ar; está aqui na emergência. A Irmã está fazendo oxigênio e pediu para "lhe" chamar. O senhor pode vir?

         - Diga que já estou subindo, e, por favor, peça ao centro cirúrgico para preparar a sala para uma traqueotomia.

         Vesti a roupa por cima do pijama, uma capa e um chapéu e me mandei. Quase capotei o Gordini na curva escorregadia da ladeira do hospital. Foi o tempo exato. Feita a cirurgia, a respiração logo normalizou, e, lá pelas sete da manhã, voltei para casa. Tomei um banho, comi alguma coisa e saí para operar noutro hospital. Perto do meio-dia, quando entrava com o carro na garagem de casa, minha mulher surgiu à janela e fez um sinal para que aguardasse sem saltar. Em seguida, com o fone ainda na orelha, cobriu o bocal e gritou:

         - O paciente da traqueotomia está morrendo! Estão pedindo para tu ires depressa!

         Dei marcha-à-ré, voei para lá e deparei com uma das cenas mais grotescas que seria capaz de imaginar: - o homem, sentado na borda do leito, as pernas penduradas a sacudir freneticamente no espaço, e as mãos em garra, a repuxar desesperadamente as dobras da colcha a cada lado do corpo. O pescoço, longo e descarnado, se esticava para diante em busca de alívio para a respiração ofegante, quase estertorosa, que sibilava como um apito agudo. Sua pele estava roxa e pálida; suava por todos os poros. Só um fiozinho de ar o mantinha vivo. Toquei seu braço; estava frio e pegajoso.

         Quando me viu, seu olhar, já meio esbugalhado, me lançou o mais suplicante pedido de socorro. Debruçada sobre os pés da cama, sua esposa contorcia as mãos postas e entrelaçadas em extrema aflição. Compondo o cenário à frente do paciente, duas outras estranhas presenças: - à esquerda, uma freira idosa, que, de olhos fechados, rezava, em silêncio, um rosário de contas enormes, do qual pendia, balouçante, um crucifixo de prata; e, à direita, o padre capelão, envergando solenemente uma ampla indumentária branca, com golas e mangas rendadas, a murmurar, em voz baixa e grave, um tipo qualquer de oração em latim, ao mesmo tempo em que ungia a testa e os pés do desventurado moribundo e, com gestos em cruz, lhe sacudia um chocalho metálico de onde saltavam, uma após outra, gotas e mais gotas de uma suposta água-benta.

         Não sei até que ponto Arlindo Bellavocce era homem de fé, mas posso assegurar que ainda não parecia convencido de que só lhe restava desempenhar, conformado, aquele dramático papel, como se intuísse, de algum modo, que, todavia, lhe sobrava uma esperança.

         Enquanto isso, o capelão, absorto nos mistérios do seu ritual, prosseguia serenamente na encomenda, sustendo, aberta sobre a mão esquerda, uma Bíblia ou similar, cujas folhas ia virando à medida que recitava sua incompreensível algaravia latina.



Escrito por MaGenCo às 19h30
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         Passado o momento de perplexidade em que me vi envolvido por aquele clima de encantamento, quase de sortilégio, concentrei-me no doente e, num relance, percebi a causa do drama: - a cânula da traqueotomia, que eu havia instalado de madrugada, tinha desaparecido. O orifício da traquéia estava praticamente fechado e, quanto mais esforço ele fazia para inspirar, mais fechado ficava. O homem estava morrendo mesmo! Asfixiado!

Indignado com tamanho absurdo, gritei, enfurecido:

         - Onde está a cânula? Quem foi que tirou?

         - Fui eu, doutor. Tirei para lavar e não consegui botar de novo...

         - Vá buscar!... Depressa!

         Mas ela parecia pregada ao chão. Apavorada, rodava como uma piorra com o rosário na mão, sem atinar com o que fazer; parecia uma barata. Branca e tonta. E o homem morrendo ali, na minha frente. Então, pelo cúmulo da sorte, entrevi, sobre a mesinha de cabeceira, uma caneta esferográfica. Não contei tempo. Arrancando o miolo, corri até a porta do quarto e, na fenda das dobradiças, parti a ponta afunilada. Com o corpo cilíndrico da caneta na mão, avancei em direção ao pescoço do paciente, enfiando-lhe, meio à força, aquele milagroso tubinho de plástico, enquanto gritava para a religiosa apalermada:

         - O que está esperando? Vá buscar essa cânula! Rápido!

         Ela, então, saiu como um foguete. Quando voltou, com o aparelho sobre uma gaze, o homem já estava mais aliviado, respirando através da caneta salvadora, que lhe espetava a garganta como um punhal. A esposa, que, assombrada, tivera de assistir àquele drama todo, parecia hipnotizada e me olhava como em transe. E o padre..., bem..., o padre depois eu conto. Antes disso, preciso conversar com a freira:

         - Irmã, por que a senhora tirou a cânula toda?

         - Eu não entendo, doutor..., toda como? Ela estava entupida de catarro e tirei para lavar...; ele estava respirando mal...

         - Mas quem lhe disse que era para tirar toda? Então a senhora não sabe que ela é dupla? Que só se tira a parte interna? Como queria que ele respirasse sem as duas?

         - Eu não sabia disso... O senhor devia ter-me ensinado...

         - Quer dizer, então, que a culpa é minha!... Irmã, quando eu nasci, a senhora já trabalhava em hospital. Como poderia adivinhar que ignorava uma coisa tão simples?

         - Desculpe, eu não tinha intenção de...

         - Claro que não tinha, mas, pelo menos, aprenda e nunca mais faça isso... A parte externa só pode ser tirada por médico!



Escrito por MaGenCo às 19h30
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         Rapidamente, substituí a caneta pela cânula, e a respiração, que ainda era meio ofegante, normalizou-se.

         Ah!... Já ia quase me esquecendo do padre. Acho que o que me fez lembrá-lo foi o silêncio; as rezas tinham parado, e eu, afobado, nem notara. Mas ele permanecera ali, firme e quieto, embora contrafeito. O chocalho sumira. A Bíblia, fechada, ele sustentava com as duas mãos sobre o peito enorme. Os paramentos ainda estavam no devido lugar, inclusive uma espécie de estola, se não me engano roxa, que lhe dava meia-volta ao pescoço. Era um homem idoso, vermelho, calvo, com traços patibulares e postura prussiana, mas não era mau sujeito; apenas era seco e de pouca conversa. Ali ficou, sem saber o que fazer, mas, de qualquer forma, cumpriu, com a compostura que pôde, sua tarefa de encaminhar para o reino dos céus a alma do agonizante.

         Enquanto eu o olhava, foi, aos pouquinhos, despindo as vestes brancas, que, finalmente, dobrou e sobrepôs à Bíblia junto ao peito. Tive a impressão de que não queria sair sem dizer alguma coisa. Ou, sem saber como conduzir-se diante do "milagre" que acabara de testemunhar, esperava que eu iniciasse algum tipo de conversa protocolar que lhe permitisse justificar sua presença e deixar o quarto sem perder a respeitabilidade. Mas eu também não sabia o que falar e, de certa forma, sentia um esquisito mal-estar, como se a consciência me acusasse de ter interrompido violentamente, embora por um excelente motivo, um ato tão solene como era aquele que ele estava celebrando. De um modo ou de outro, acabei concluindo que ambos estávamos plenamente justificados. E, como ele permanecia calado, procurei dar à voz uma inflexão amistosa:

         - E o senhor, padre, já estava até dando a extrema-unção, hein? Mas parece que esta ainda não foi a sua vez... Quem sabe, noutra ocasião..., se eu não chegar a tempo..., aí, então, o senhor poderá levar o seu serviço até o fim...?

         - Não, doutor, não é isso que eu desejo. Se dependesse de mim, gostaria que o médico sempre chegasse a tempo. Mas o senhor há de compreender que apenas cumpria o meu dever.

         Sua absoluta falta de senso de humor tornou-se ainda mais flagrante, quando acrescentou:                      

         - Felizmente, Deus não quis que este paciente morresse e fez a graça de permitir que o senhor tivesse tempo de salvá-lo.

         - É, padre, desta vez Ele não quis. Tomara que, das próximas, Ele também não queira...



Escrito por MaGenCo às 19h29
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         Entretanto, parece que Deus mudou rapidamente de idéia, porque o nosso cabeçudo Arlindo Bellavocce - o  homem das ervinhas milagrosas - não durou uma semana. Mas, ao menos - graças a Deus - morreu respirando... Tanto é que só fui saber na manhã seguinte, quando cheguei e me pediram para assinar o atestado de óbito. 

Logo depois, numa esquina do corredor, quase esbarrei na freirinha branca, que me comunicou, solenemente:

         - O senhor Arlindo Bellavocce morreu de madrugada.

         - Ele sofreu muito, Irmã?

         - Não, doutor, morreu serenamente, com a graça de Deus...

         - E a senhora chamou o padre?

         - Chamei, sim, mas ele mandou dizer que não era necessário.

         - Ué...? E por quê? 

         - Porque "a Extrema-Unção da semana passada ainda estava valendo..."

         - Ele disse isso?... Que engraçado!... Nunca imaginei que Extrema-Unção tivesse prazo de “validade”... De quanto tempo, Irmã?

         - Isso eu não sei, doutor. Ele me disse que o paciente ‘não teve tempo de pecar de novo’...

 

         Aqui entre nós..., eu desconfio..., cá c'os meus botões..., que, no fundo, ele ficou com receio de que, contra toda a expectativa, Deus, mais uma vez, tivesse resolvido me dar tempo de chegar...

        

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 19h28
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AMIGOS, GRAÇAS À COMPETÊNCIA E SOLICITUDE DO NOSSO ALUÍZIO AMORIM NO MANUSEIO DA LINGUAGEM HTML, ACABA DE SER INSTALADO NO BLOGUE O PROGRAMA "MÚSICA", COMO PODEM CONSTATAR NA COLUNA AO LADO. BASTA DAREM UM DUPLO CLIQUE NA SETA DO QUADRINHO VERMELHO ONDE SE LÊ "RADIO LOST-FM", E VOCÊS OUVIRÃO INTERPRETAÇÕES MAGISTRAIS DE FRANK SINATRA E SEUS FAVORITOS DE ALTÍSSIMA ENVERGADURA: DEAN MARTIN, ELLA FITZGERALD, LOUIS ARMSTRONG E COMPATÍVEIS. QUEM SABE, ASSIM, TERÃO MAIS PACIÊNCIA PARA LER ATÉ O FIM MINHAS CONVERSAS-FIADAS PRETENSIOSAS? ESTÁ É A GRANDE ESPERANÇA QUE ME ANIMA. INSPIREI-ME NA NOSSA AMIGA MAGUI, QUE HOMENAGEIA O GRANDE ELVIS PRESLEY. A ÚNICA DIFERENÇA ESTÁ NAS NOSSAS MÚTUAS PREDILEÇÕES PESSOAIS. EU SOU MAIS "THE VOICE". MARIO



Escrito por MaGenCo às 07h51
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JOBIM E A CRISE AÉREA

 

Vocês sabem que, pela primeira vez, eu estou com alguma esperança no Jobim? Claro que não acredito nele por seus méritos pessoais, sua lisura de intenções ou seu patriotismo. Mas, sujeito inteligente que é, sabidamente esperto, oportunista e ambicioso, certamente estará vendo nela, na crise em si, sua grande ocasião de mostrar serviço e competência e, com isso, cunhar a imagem de um homem com iniciativa e liderança capazes de solucionar problemas de grande porte. E um possível êxito nessa empreitada lhe abriria o caminho para vôos mais audaciosos, inclusive a perspectiva de merecer a confiança do eleitor no caso de uma possível candidatura à sucessão do apedeuta. Sim, porque ninguém se iluda: seu objetivo é o Alvorada. E ele estará disposto a qualquer sacrifício em nome desse sonho de grandeza com o qual já acenou no passado. Eu jamais lhe daria meu voto, mas o eleitor simples é influenciável – como já ficou provado – e, com uma campanha bem dirigida, ele teria alguma chance, sobretudo em função da escassez de qualidade dos possíveis concorrentes. A menos que, nesse intervalo, surja algum fato novo – uma eventual repetição da tragédia – ou, em última instância, apareça um candidato de maior porte, hipótese pouco provável na atual conjuntura política nacional, em que o que justamente nos falta é alguém com a envergadura e os talentos de um verdadeiro estadista que desperte um forte sentimento de esperança no eleitorado. Mas desde que ele, Jobim, saneie esse grave impasse em que se encontra o transporte aéreo nacional, já estará de bom tamanho. E ele terá dado ao país uma contribuição que, no mínimo, suavizará a péssima impressão que deixou em todos nós como magistrado.  

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 23h33
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SANTA ANESTESIA

 

          O dia estava frio e chuvoso, de modo que eu não esperava mais ninguém e já estava saindo do consultório, quando o telefone tocou.

         Deixei a campainha retinir várias vezes, imaginando que, se se tratasse de alguma emergência, a pessoa que chamava não desistiria com apenas três ou quatro toques. E a chamada se esgotou. “Se voltasse a tocar, aí, então, eu atenderia logo”. E voltou...

         Era um velho amigo que, pelo tom de voz, parecia muito aflito. Seu filho “se engasgara com uma espinha de peixe”...

         - A que horas foi isso? - perguntei.

         - Foi no almoço - ele respondeu.

         - Sim, e por que só agora vocês resolveram me chamar?

         - Bem..., é que antes a gente tentou aqueles outros recursos...

         - Outros recursos...?

         - Ah, você sabe..., aquelas medidas caseiras tradicionais: farinha, banana amassada, pão seco e não sei mais o quê. O tempo foi passando e nada disso adiantou. Aí, bateu o desespero e chegou a hora de apelar para o médico. Você compreende..., brasileiro é assim mesmo.

         - É, eu sei..., mas, como está o menino?

         - Ele está bem..., isto é..., com muita dor. É um menino forte. Quem não está bem é a mãe..., com medo de que a espinha esteja espetando “alguma veia do pescoço”. Todo mundo aqui dá seu palpite, e ela fica pior ainda.

         Foi minha vez de dizer:

         - Eu sei..., brasileiro é assim mesmo...

         - É isso aí..., mas ainda bem que eu telefonei em tempo...

         - De fato..., mais um minuto e eu já não estaria aqui.

         - Que bom! Você pode me quebrar este galho?

         - Claro! Desde que venham logo.

         - Já estamos saindo! Obrigado!



Escrito por MaGenCo às 20h09
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         Em dez minutos, os três chegaram. Depois de ouvir da mãe um minucioso relato das táticas inúteis que já haviam sido experimentadas, perguntei ao paciente, que era um garoto robusto, na casa dos onze anos:

         - Onde você sente espetar?

         Com um gesto, ele limitou-se a encostar o dedo indicador na região que fica logo abaixo do ângulo da mandíbula. Decerto estava evitando falar por causa da dor; apenas me olhava de esguelha, com a fisionomia tensa. Nos seus olhos, contudo, não se via medo.

         - Muito bem. Vamos dar uma olhada nisso. Quer abrir a boca? Procure relaxar bem a língua; do contrário, não vou enxergar nada.

         Mas, ao simples gesto de aproximar a espátula o garoto já reagia, endurecendo involuntariamente a musculatura. Senti, com isso, que a parada não ia ser das mais fáceis, porque, em pessoas com essa sensibilidade, torna-se literalmente impossível examinar sem anestesia. Ainda assim, insisti, mas, à medida que tentava, ia ficando mais difícil, a despeito da torcida dos pais para que a vez seguinte fosse bem sucedida.

         Enquanto isso, de minha parte, eu ia pouco a pouco perdendo a esperança. Só não podia perder a paciência e, muito menos, deixar que isso transparecesse. Até que atingi os meus limites e achei melhor parar, dirigindo-me, então, ao pai:

         - Olhe, não adianta. O garoto está com muito reflexo. Não consigo nem visualizar o local provável. Deste jeito, não vai dar...

         - Então o que pode ser feito? - indagou ele, ansioso.

         - Bem..., o jeito é tentar uma anestesia. Eu vou vaporizar um anestésico.

         E foi o que fiz, mas em vão. Não deu o menor resultado.

         - Estão vendo? Já fiz a dose máxima, mas ele não relaxa.



Escrito por MaGenCo às 20h08
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         - Relaxe, meu filho! - implorou a mãe.

         - Eu não consigo, mãe! - protestou o menino.

         - A única saída, agora, é fazer uma anestesia geral. A que horas ele comeu pela última vez? - perguntei.

         - Comer, mesmo, foi no almoço. Mas, como eu lhe disse, foram feitas todas aquelas tentativas até ainda há pouco - explicou o pai.

         - É verdade. Então, temos de aguardar umas três horas e meia para que o estômago esvazie. Enquanto isso, vou aplicar um analgésico para aliviar a dor.

         Nesse momento, a mãe interveio:

         - Mas doutor..., anestesia geral para tirar uma espinha da garganta? Não lhe parece demais? Eu tenho tanto medo disso...

         - Realmente, em circunstâncias normais é um exagero; seria o mesmo que usar uma bomba para destruir uma formiga. Mas parece que não nos resta alternativa, a senhora não concorda?

         - Concordo, doutor, mas... o senhor não estaria disposto a fazer mais uma tentativa? Só mais uma?

         - Bem..., já fiz diversas sem resultado. O efeito da anestesia já está passando. E não seria conveniente dobrar a dose. A senhora viu o reflexo que ele tem...

         - Deixe eu lhe explicar uma coisa: a verdade é que eu tenho muita fé em Santo Antônio, meu protetor. Se eu rezasse para ele, o senhor estaria disposto a tentar mais uma vez?

         Diante de uma proposta tão inesperada e surpreendente, que envolvia o emprego de recursos que eu jamais pensaria em utilizar, fiquei perplexo, sem saber como agir, e repliquei, com bom humor:

         - Pois eu sempre ouvi dizer que Santo Antônio era especialista em casamentos e que o protetor dos engasgados era São Braz...

         - Até pode ser, doutor. Mas o “meu Santo Antônio” não é um Santo Antônio qualquer. O senhor pode não acreditar, mas foi graças a ele que eu casei com este homem. - E apontou o maridão, que, encabulado, lançou-me um sorrisinho daqueles de concordância, de quem, havia muito, já desistira de negar tal evidência.

         Face a uma argumentação tão convincente e a uma fé tão inabalável, achei inútil sustentar minha posição e respondi, sem muita convicção:

         E já fui me aproximando do paciente, com o abaixador de língua em posição de ataque.

         - Um momento, doutor! Primeiro, eu preciso me concentrar. Seria melhor se todos nos uníssemos para formar uma corrente. O senhor se incomodaria se nos déssemos as mãos?



Escrito por MaGenCo às 20h06
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         Contrafeito, o marido sentiu-se obrigado a intervir:

         - Não precisa nada disso, querida! A tua fé, sozinha, já basta. Além disso, tu não sabes se o doutor tem fé...(?)

         - É claro que ele tem fé..., não tem, doutor?

         Pegado de surpresa com aquela pergunta à queima-roupa, até que não me saí mal:

         - Perto da sua, a minha nem existe...

         - Mas não se opõe, não é?

         - Absolutamente... - falei, sem o menor entusiasmo.

         Mesmo assim, sem se deixar abalar, ela disse ao marido:

         - Tás vendo como o ele tem fé? Eu sabia! Onde já se viu um médico sem fé...?

         Solidário comigo, e meio sem graça, ele, entretanto, justificou, baixinho:

         - Não repare, meu caro..., ela é assim mesmo...

         - Está tudo bem..., eu entendo...

         E foi feita a corrente.

O inacreditável cenário montado só podia fazer sentido para nós quatro. Pois, para meu azar, justamente nessa hora tão inconveniente, irrompe sala adentro um outro médico e depara com aquele espetáculo bizarro. Sua cara de espanto e incredulidade ao me ver de mãos dadas com três estranhos e em atitude de profunda concentração, até hoje não me sai da lembrança. Franzindo o cenho e revelando momentaneamente um sorrisinho irônico, que só eu percebi, deixou patente a alegria que sentia, de me pegar naquele lamentável flagrante. Mas logo se recompôs e, fazendo de conta que entrara na porta errada, desculpou-se, com a maior cara-de-pau:

         - Oh, queiram me perdoar..., eu não sabia que...

         Que horror! Encabulado e sem atinar com a mínima explicação cabível, obedeci ao primeiro impulso e, com toda a probabilidade, devo ter assumido a expressão do mais completo paspalhão, quando falei simplesmente a verdade:

         - Isto é uma corrente de oração. Nós estamos rezando para Santo Antônio...

         Dando a entender que tudo lhe parecia muito lógico e natural, ele retrucou, com a inflexão mais cretina:

         - Ah, sim..., claro! Foi justamente isto que eu pensei..., mas, por favor..., continuem..., eu volto outra hora.



Escrito por MaGenCo às 20h04
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         E foi fechando a porta devagarinho, como se temendo que algum ruído mais brusco pudesse quebrar o clima de encantamento. E eu fiquei pensando no dia seguinte..., na chacrinha do hospital..., quando teria de justificar aquele despropósito. Sim, porque não tinha a menor esperança de que o impiedoso gozador me poupasse e deixasse passar em brancas nuvens um prato tão cheio..., assim..., de mão beijada. Mas tudo bem..., em favor do doente..., “O que a gente não é capaz de fazer nesta profissão...!”

          Vencido o embaraço, o marido, consternado com meu visível mal-estar, sentiu-se no dever de dizer algo que me consolasse e falou:

         - Viu o que você foi inventar, mulher? Fazer o doutor passar um vexame desses?

         Interpelada com toda essa veemência, ela, ainda assim, retrucou:

         - Mas que vexame? - E, virando-se para o meu lado, acrescentou, mais que depressa: - O senhor acha que rezar é vexame, doutor?

         - Claro que não! Isso não tem importância alguma...

         - Tás vendo, querido? Eu sabia que o doutor gosta de rezar! Imagina!... - E, sem perder o embalo, continuou: - Muito bem! Vamos fazer de conta que não aconteceu nada. Mas, antes, eu preciso fazer uma coisa... - E, sem hesitação, caminhou até a porta, dando duas voltas completas na chave, e exclamando, com toda a confiança:

         - Pronto! Agora ninguém nos incomoda mais!...

         O marido, estupefacto, não se conteve e admoestou:

         - O que você tá pensando, mulher? Esta não é a porta da sua casa!

         - O doutor não se importa, não é mesmo?

         - É claro que não! - respondi, sinceramente agradecido.

         Pelo menos, agora eu estaria protegido de algum outro gozador que resolvesse chegar no momento errado. Não sei se ela percebeu esse meu alívio; só sei que exclamou, com verdadeiro entusiasmo:

         - Estás vendo, querido? O doutor não se incomoda.

         O pobre do marido não sabia mais o que dizer. Limitou-se a me dirigir um olhar de interrogação(?). Sem ter como explicar, esbocei um vago gesto de concordância que ela, rapidamente, interpretou como um aceno de cumplicidade e prosseguiu:

         - Ótimo, então! Vamos nos dar as mãos de novo e seguir em frente. De olhos fechados, vamos pedir a Santo Antônio que faça desaparecer esse “maldito” reflexo, para que o doutor possa tirar essa “maldita” espinha!



Escrito por MaGenCo às 20h03
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         Que estranha maneira de rezar! Maldito reflexo! Maldita espinha! Era maldição demais pra minha fé. Mas não restava escolha, senão fechar os olhos e fazer de conta que também rezava. Por sorte, eu era o último da fila, o ponta-esquerda. Caso contrário, com a fé que depositava naquela parlapatice, eu, certamente, quebraria a força da corrente.

         Passados uns três minutos de absoluto silêncio, durante os quais só conseguia me concentrar no bisonho papelão que estava desempenhando, ela falou, com uma voz estranhamente grave e cadenciada:

         - Quando eu pronunciar a palavra “Já!”, nós desligaremos as mãos e o senhor entra em ação. Mas por favor, procure agir depressa, porque o Santo me disse que não pode segurar esse reflexo por muito tempo.

         De repente, para minha própria estupefação, me ouvi perguntando da maneira mais imbecil:

         - Mas quantos minutos ele me deu?

         Sinceramente, não me lembro de outra ocasião em que tenha me sentido tão envergonhado de mim mesmo. Felizmente, a porta estava chaveada e, para meu consolo, ficava pelo menos a certeza de que, da estupidez que tivera a coragem de perguntar, ninguém(!) fora daquelas quatro paredes, seria testemunha..., desde que ela me prometesse jamais divulgar para estranhos meu triste e lastimável momento de cretinice.

         Com a auto-estima irremediavelmente abalada, entreabri os olhos e tive a confortadora impressão de que a imbecilidade da pergunta passara percebida. Tanto isso era verdade, que a confirmação veio em seguida, no mesmo timbre de voz, profundo e grave:

         - Isso eu não sei. Ele não me disse...

         Estranhamente, senti um certo alívio com a constatação de que só eu, e mais ninguém, seria o guardião daquele segredo comprometedor, uma vez que me certifiquei de que todos eles, inclusive o paciente, estavam absolutamente possuídos da transcendência do momento, exteriorizando a expressão e a postura do mais solene transporte para as esferas do além. Suas pálpebras pareciam pregadas, e cheguei até mesmo a vislumbrar uma certa palidez de transe em suas faces. Que coisa impressionante!

         Com a mente envolvida nessas observações, quase esqueci o propósito de tudo aquilo e me assustei quando ela pronunciou, com a voz enrouquecida e cabalística, a palavra mágica:

         - JÁ!



Escrito por MaGenCo às 20h02
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         Reagi de imediato, automaticamente. Afobado, pois temia não poder agir tão rápido quanto requeriam as limitações do Santo Anestesista, liguei a lâmpada frontal e me postei à frente do paciente que, por algum misterioso controle remoto, permanecia de olhos fechados, absolutamente sereno e com a boca totalmente aberta. Sua língua, antes tão contraída, mostrava-se singularmente relaxada.

         Eu não queria acreditar no que estava acontecendo, mas não restava a menor dúvida de que algo havia mudado.

         Numa manobra surpreendentemente fácil, introduzi o abaixador de língua até o fundo da garganta sem encontrar qualquer reação.

E lá estava ela! Encravada na face anterior da epiglote, fincada até a metade, como se fosse uma estaca. Com a outra mão, sem perda de tempo, fixei-a com uma pinça apropriada, e ela veio docilmente para fora. Nesse instante, o menino reagiu como se tivesse despertado de um sono profundo.

         Os pais, emocionados, se abraçavam, e eu não sabia o que dizer ou o que pensar. Mas acho que devia estar fazendo a cara mais besta deste mundo, a julgar pela banalidade com que me pronunciei:

         - Minha senhora..., coisa assim... eu nunca vi em toda minha vida e acho que nunca mais vou ver!

         - Ah, o senhor ainda não viu nada! Nem imagina do que “meu Santo Antônio” é capaz..., e quando precisar de “nós”, doutor, é só chamar...

 

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 20h01
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MILAGRES

 Não sei de onde tirei o que segue. Mas valeu.

  

        “Os relatos mais extraordinários são, quase sempre, encontrados nos textos mais antigos, ao passo que, quanto mais recente é a história, mais razoável tende a ser seu conteúdo.

         Por isso, os grandes milagres só ‘aconteceram’ no passado remoto.

         A única explicação para que tantas pessoas ainda creiam em milagres é o profundo apoio que as religiões dão a esses fenômenos impossíveis. E é pouco provável que elas abram mão disso, pois sabem quão influenciáveis e ansiosas pelo sobrenatural são as pessoas crédulas e simples, sem espírito crítico”.

      

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 20h36
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O MENINO DA BICICLETA

 

         Eu era ainda um menino; tinha doze anos e era o dono de uma linda bicicleta “Centrum”, importada da Suécia. Naquele tempo, antes de Juscelino Kubitschek, o Brasil não fabricava nem bicicletas. Novinha em folha e macia como ela só, com pneus balão, toda pintada em verde-limão metálico com finíssimos frisos prateados e negros, ela era o meu sonho.

         Um dia, de tarde, terminados os deveres do colégio, saí a pedalar. Não havia o trânsito de agora. A cidade era calma; alguns ônibus, um ou outro táxi, talvez três dúzias de carros particulares. E os saudosos carrinhos puxados a cavalo. Esses, sim, nacionais... Os cavalos, pelo menos.

         Pois bem..., como dizia, saí para dar uma volta. Era uma tarde belíssima e resolvi passear na praça do Quartel General da Polícia Militar.

         Numa mansão antiga que rodeava o jardim, morava uma garotinha que eu andava paquerando. E, para isso, nada melhor do que a minha bicicleta sueca, símbolo de status da época.

         Pois a deusa surgiu à janela. Certamente ouviu os toques da minha sineta, um trinado semelhante ao dos antigos telefones de discar. Após inocente troca de olhares, demos por encerrado o encontro. Já começava a escurecer e resolvi voltar para casa, feliz e realizado. A distância que tinha a percorrer era curta, em declive. Quando comecei a descer, a corrente da bicicleta – que estava frouxa – soltou-se. E me vi perdido.



Escrito por MaGenCo às 08h23
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         Lá embaixo, estacionado de frente para cima, estava um táxi, um DeSoto 1942. Dentro, lendo displicentemente um jornal, o motorista esperava alguém. Pois foi justamente ali, naquele pára-choque maciço mais parecido a um limpa-trilho, que eu acabe parando. Mas não foi uma parada; foi uma porrada. Não sei como não morri. Só sei que fiquei embaçado, tonto, estatelado no chão. Quando começava a me recobrar e fazia esforços para me levantar, senti que, de repente, o mundo desabava em cima de mim. Só via um monte de estrelinhas. Ficou tudo escuro e silencioso.

         Acordei com os gritos de alguém que me socorria e levantava.

         - Você matou o menino! Seu covarde! Bater numa criança. Não tem vergonha, seu monstro!

         - Esse ‘estopor’ é cego? Me quebrou o carro todo!

         - Sai daí, seu animal! Onde já se viu uma bicicleta quebrar um carro? A bicicleta, sim, tá toda quebrada! - E, erguendo-me pelo braço, continuou em outro tom, cheio de carinho e solicitude: - Vem cá, meu filho. Vem comigo. Eu vou cuidar de ti. Deixa este covarde aí, pregando mentira. Este nojento..., este cavalo. Anda! Vem! A Bica vai cuidar de ti.

         Dois braços fortes me soerguiam. Abri os olhos e a vi. Era empregada doméstica na casa da esquina. Já conhecia a mulher humilde, que me ajudava a caminhar com passos trôpegos.

         Mesmo assim, ainda me virei e olhei a cara dele. Também o conhecia. Chamava-se Nicolau. Era um chofer de praça, um arruaceiro, um brigão famoso. Magro, narigudo, já tinha até feito umas corridas para o pessoal lá de casa. Sempre me parecera antipático, mas nunca imaginaria que fosse capaz de fazer o que tinha feito.

         Então, me lembrei da bicicleta. Lá estava ela, jogada ao chão, toda torta. A roda da frente mais parecia um oito. Aquilo me encheu de ódio, um ódio repentino, incontido, mortal. E, puxado pela Bica, consegui dizer:

         - Tu ainda me pagas, seu desgraçado! Um dia tu vais me pagar! Podes marcar! Eu vou crescer e nunca vou me esquecer disso.

         Lembro, como se fosse hoje, de vê-lo entrando no carro – o sorriso cheio de escárnio a deformar-lhe o rosto – e destas lindas palavras, ditas em tom de desprezo, talvez de despeito:

         - Vai te ‘cagá’, guri! E aprende a andar pela rua com esta merda!

         A “merda” era a minha querida bicicleta arrebentada. E lá se foi ele, morro acima, numa arrancada violenta. Mas a Bica estava ali, meiga e prestimosa, a me consolar:

         - Não há de ser nada, meu filho. Isso vai sarar, e a bicicleta se conserta. Mas quando tu ‘crescê’, dá uma lição naquele vagabundo. Diz que foi a Bica, aquela preta-velha, que mandou. Mas não esquece, hein?

         - Pode deixá, dona Bica. Eu não esqueço. Um dia, eu ainda pego aquele desgraçado!



Escrito por MaGenCo às 08h22
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         Nessa época, os meninos ainda não usavam os palavrões de hoje, de modo que continuei praguejando do jeito que sabia, enquanto ela me limpava as roupas e me aplicava uma cataplasma nos arranhões e esfolados, alguma mistura de sal com arnica, que ardia bastante. Cuidou de mim como se fosse seu filho. Quando viu que estava refeito, tanto da porrada quanto do susto, deixou-me ir. E lá fui eu, arrastando minha desditosa bicicletinha.

         Dias depois, cicatrizadas as feridas, estava eu de novo circulando. Por superstição, todavia, evitava aquele morro e vinha por outra descida menos empinada.

         De vez em quando, me aventurava pelo ponto de táxis para ver de perto o motorista covarde. Cheguei a passar bem devagarinho a seu lado. Mas sem dizer nada; ainda não tinha crescido e não podia me arriscar. Um dia, reuni coragem e me postei à beira da calçada, do outro lado da rua e fiquei a encará-lo. Estava derreado dentro do carro, tirando um cochilo. De repente, acordou, olhou para fora e me viu. Não me reconheceu, mas falou, quando viu que eu não desviava o olhar:

         - Qu’é que há, guri? Qu’é que tás olhando?

         - Tás lembrado de mim? Do menino da bicicleta? Pode deixar que eu ainda vou te pegar. E fica sabendo que eu te acho muito feio!

         Ele fez menção de sair do carro. Só que ali, bem a meu lado, ficava a Chefatura de Polícia. Eu já contara com esta vantagem: havia um guarda na porta. Caso contrário, não teria sido tão corajoso. E então emendei, falando mais baixo para que este não ouvisse:

         - Vem cá! Vem! Vem bater em mim, se tu és macho de verdade!

         Ele tinha o pavio curto. E veio. Quando estava na metade da rua, e eu já me preparava para fugir, ele viu o guarda e hesitou. Aproveitei sua indecisão e acrescentei, baixinho:

         - Tás com medo do guarda? Tu és um covarde! Só sabes bater em criança. Mas um dia eu te pego. Marca bem a minha cara!

         Seus olhos chispavam. Ele se conteve e foi voltando ao carro, onde se acomodou, raivoso. Ainda dei uma volta mais perto e completei:

         - Outro dia eu volto. Quero que me vejas de novo. Nunca vais te esquecer de mim, seu desgraçado!

         E fui subindo a rua, saboreando meu primeiro momento de glória e assobiando uma musiquinha bem debochada. Ainda olhei para trás. Ele abria um jornal e fazia de conta que não estava escutando.

         Assim foi passando o tempo. Repeti a visita diversas vezes e, com pequenas variações, a cena era sempre a mesma, desde que o guarda estivesse à porta da chefatura. Aos poucos, todavia, aquilo começou a me aborrecer. Talvez meu subconsciente estivesse satisfeito e vingado pelas sucessivas humilhações com que já fora capaz de presenteá-lo. Por fim, desisti. Vez por outra, ainda o vi passar, ao volante do DeSoto, sempre com a expressão crispada. Nunca vi aquele homem sorrindo; estava sempre mal-humorado, como se tivesse raiva do mundo. Devia ser seu estado normal.



Escrito por MaGenCo às 08h21
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         Os anos passaram. Completei o ginásio, entrei para o científico e fui crescendo. Não muito, mas fui. Talvez até já fosse possível pôr em prática minha vingança. Mas alguma coisa, sei lá, algum tipo de indecisão e – por que não confessar? – um certo medo sempre me faziam adiá-la. Além disso, eu já não guardava o ódio de outrora. O fato é que ele não parecia mais o mesmo homem. Talvez, até, a idade o tivesse tornado mais humano... e a mim..., eventualmente, mais maduro. Fosse por que fosse, nunca fiz nada.

         Acabei indo estudar fora. Nas férias, cheguei a passar várias vezes perto dele, caminhando a pé, sem sentir o menor impulso de abordá-lo ou repetir as antigas provocações. Teria sido medo? Nunca vim a saber. Mais tarde, voltei formado, e nunca mais nos cruzamos. Talvez estivesse aposentado; talvez tivesse morrido; só sei que o esqueci totalmente.

        

Um belo dia, em 1967, vinte anos passados desde o histórico e inesquecível acontecimento, estava eu cercado de alunos, dando aula prática no ambulatório da Faculdade, quando ele chegou, apoiado no braço de uma velhinha. Seu estado era lastimável. Os cabelos, brancos e ralos, eram sem brilho e sem vida. A pele do rosto encarquilhada pela magreza extrema, o olhar encovado e inexpressivo, as costas arqueadas tornando-o mais baixo que eu, em suma, um farrapo, um traste humano. Era também o Nicolau, o último paciente do dia. Parecia um pesadelo. Mas não havia dúvida...; aquele narigão..., aqueles olhos... não podiam ser de outra pessoa.

         Ocultando a ansiedade que me possuía, consegui dizer:

         - Muito bem, o que é que o senhor está sentindo?

         Foi ela que respondeu:

         - Olha, doutor, sentir ele não sente muito. Dor..., eu quero dizer. Só essa “rebentação” na boca é que dificulta muito. Ele não pode mais usar a dentadura, está muito fraco e sem fôlego. Quase não come e tem emagrecido muito.

         - Há quanto isso começou?

         - Ah, já faz tempo...

         - Sim, mas quanto? Semanas...? Meses...?

         - Pra lhe dizer a verdade, doutor, já faz mais de ano...

         - E nunca procurou médico?

         - Procurar nós procuramos, mas nenhum soube dizer o que ele tem...

         - Então, ele não está tomando qualquer remédio...

         - Remédio, mesmo, não. Só bochecho com malva, que não adianta. Os dentes já caíram todos, e o mau cheiro, não há quem suporte.



Escrito por MaGenCo às 08h21
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         - Vamos dar uma olhada.

        Cercado pelos estudantes, examinei o Nicolau e logo fiz o diagnóstico. Ele tinha uma Blastomicose Sul-Americana, que já lhe comprometia a boca e os pulmões.

         Fiz a biópsia e, mostrando tudo aos alunos, me dirigi ao paciente:

         - O senhor vai ter de ficar internado. Sua doença exige um tratamento longo. Se for feito, pode melhorar bastante.

         A mulher o olhava, indecisa, e ele, então, falou, com a voz rouca e enfraquecida, muito diferente daquela com que me agredira no passado:

         - Tudo bem, doutor. O senhor é que manda.

         Encaminhei a internação e ele saiu, andando com dificuldade, apoiado na mulher. Claro que não foi capaz de me reconhecer. E meu nome, para ele, nada significava. Era apenas mais um homem de branco.

         Encerrada a aula, fui para casa matutando: “Como a vida pode dar voltas. Pois não é que o Nicolau está, literalmente, na minha mão?”

         Durante sua permanência na enfermaria, visitei-o todas as manhãs. Nunca estranhou minha assiduidade, sempre acompanhado de um ou outro aluno. Até se mostrava satisfeito de merecer tanta atenção. Decerto, achava que meu interesse era exclusivamente profissional.

         Quatro meses depois, na véspera de receber alta, fui visitá-lo. E dessa vez, fui sozinho. Parecia outro homem; engordara, já caminhava com certa desenvoltura e respirava bem melhor. O apetite voltara, e as lesões da boca haviam cicatrizado. Já usava a dentadura. Naquela manhã, estava até penteado. Em suma, ele estava alegre, coisa que eu nunca vira... Recebeu-me sorridente e, como quem não quer nada, fiz a pergunta de praxe:

         - Como está hoje, seu Nicolau?

         - Ah, doutor, estou muito bem, graças a Deus!

         Não existe médico, por mais crente e religioso que seja, que não se sinta meio desprestigiado pela participação divina nas curas bem sucedidas. Até porque, se ocorre o contrário, ele tem de assumir, sozinho, o ônus do insucesso. Quando tudo vai bem, Deus curou; quando o paciente morre, o médico é o culpado. Devo ter deixado transparecer este sentimento, pois, logo em seguida, ele acrescentou:

         - E também graças ao senhor, claro!

         Dando a entender que achava mais que justa minha vice-liderança nessa escala de méritos, interpelei-o, de supetão:

         - Seu Nicolau, o senhor se lembra da Bica?

         - Bica? Que Bica?

         - A Bica..., uma mulher que trabalhava numa casa da esquina da Rua Saldanha Marinho com a Anita Garibaldi, o senhor se lembra?



Escrito por MaGenCo às 08h19
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         Coçando a calva, como quem procura recordar, ele respondeu:

         - Bica..., não me lembro de nenhuma Bica, não, doutor. Por quê?

         - O senhor não era chofer de praça? Não dirigia um DeSoto 1942?

         Sua expressão, agora, era da mais total incredulidade:

         - Com’é que o senhor sabe disso?

         - Ah, seu Nicolau, eu tenho as minhas fontes...

         Seu olhar viajou ao passado. E, após um instante de silêncio, aduziu:

         - Aquilo é que era um carrão, doutor! Não era uma dessas carroças fabricadas no Brasil. E eu também era tão forte. Tinha uma saúde de ferro. Eu era um touro! Comigo, ninguém brincava. Hoje eu sou isso que o senhor está vendo..., um farrapo... - E, voltando a fixar os olhos em mim e no presente, indagou, de novo: - Mas quem lhe disse que eu era chofer de praça? Quem? Ah, já sei..., foi a minha senhora, não foi?

         - Não foi sua senhora, não. Antes, eu quero saber como é que o senhor está sentindo a idéia de ir pra casa amanhã...

         - Ah, parece mentira. Eu pensei que desta não escapava. Estava pensando que era câncer. Ninguém sabia o que eu tinha. Se o senhor não tivesse aparecido na minha frente, eu já tava morto...

         - Não, seu Nicolau, não fui eu que apareci na sua frente. Ao contrário. Eu até poderia dizer que o senhor esbarrou em mim...

         - É verdade. Só que essa foi a única esbarrada boa que eu tive em toda minha vida...

         - Por quê? Teve muitas, seu Nicolau?

         - Esbarradas? Não, muitas eu não tive. Mas algumas. Eu era um grande motorista. Agora..., tem uma coisa: nunca bati em ninguém...

         - Nunca bateu em ninguém? Tem certeza?

         - Claro. Pelo menos...

         - Bateu, sim... Eu me lembro..., eu estava lá..., e a Bica também... Por isso eu perguntei se se lembrava dela...

         - Lá vem o senhor de novo com essa Bica... Quem é ela, doutor?

         - Calma. Já vai entender tudo. 



Escrito por MaGenCo às 08h15
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         Sua expressão, a essa altura, era de absoluta perplexidade, e seu olhar, que não desgrudava de mim, era de ansiosa expectativa. De propósito, por alguns instantes, fiquei em silêncio, como se estivesse pensando num modo de dizer o que faltava. Mas eu apenas saboreava meu segundo e último momento de glória, quando prossegui:

         - Seu Nicolau, o senhor bateu, sim. Bateu num menino..., um menino de bicicleta... na Rua Saldanha Marinho...

         Senti que ele retornava ao passado. Seu olhar tinha, de novo, aquele ar abstrato. E continuei:

         - O DeSoto estava parado de frente para o morro do colégio, e um menino veio lá de cima, com a bicicleta desgovernada, e se esborrachou no seu pára-choque. E, ao invés de socorrer o coitadinho, o senhor... saiu do carro e...

         - Chega, doutor! Não diga mais nada, por favor!

         Ele viajava no tempo e me olhava, assombrado..., de lá..., do passado. Sua expressão era de pasmo, quando deduziu, gaguejando:

         - E aquele menino... era... o senhor! Oh, meu Deus! - exclamou, baixando a cabeça e cobrindo o rosto com as mãos.

         - É isso aí, seu Nicolau. Eu sou o menino da bicicleta...

         Pronunciando lentamente as palavras, ele, então, concluiu:

         - E a Bica..., então..., era aquela preta velha... que me disse um monte de desaforos...

         - Isto mesmo, seu Nicolau... A Bica era aquela velha.

         - E agora, depois de tudo aquilo, o senhor ainda veio me curar...

         - Pois é, seu Nicolau..., ela, a Bica, mandou que eu me vingasse...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 08h13
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AUTO-MUTILAÇÃO

 

Acabo de ler, no Portal Terra, uma nota dando conta de que Rajesh Tajpuria, um nepalense de 23 anos, dono de uma farmácia em Katmandu, capital do Nepal, decepou sua mão direita em sacrifício oferecido a Kali, deusa da morte na religião hindu. Cá entre nós, é incrível a constatação de que, em pleno século XXI, tais práticas estúpidas ainda ocorram em nome do que se costuma chamar de “fé” religiosa.

Ainda se a medicina local tivesse condições de reimplantá-la, esse pobre coitado estaria salvo da auto-mutilação e do inevitável arrependimento, sobretudo quando, algum dia, se capacitar de que seu gesto foi em vão, e que a suposta deusa nem existe.

E em se tratando de um suposto farmacêutico, no mínimo um homem acostumado a lidar com remédios, imagine-se os critérios de terapia que devem nortear sua mente; o que passa na cabeça de um crente fanatizado ao ponto de se submeter a tão monstruoso castigo.

Daqui de Floripa, no Brasil, e absolutamente infenso a crenças e proselitismos de qualquer tipo ou espécie, só me resta desejar que ele, ao menos, seja canhoto...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h48
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