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NASA DISCUTE MORTE NO ESPAÇO – MAS NÃO SEXO

Agência analisa o que fazer em casos de morte e doença em missões longas.
Sexo entre astronautas, no entanto, ainda é tabu.
  • Da AP

Como se livrar do corpo de um astronauta que morreu durante uma missão de três anos a Marte? Quando desistir de alguém terminalmente doente que está consumindo oxigênio precioso e ameaçando o resto da tripulação? A Nasa deveria fazer testes de DNA para não aceitar astronautas que possam ter algum problema de saúde durante um vôo mais longo?

 

Com os planos de pousar em Marte daqui 30 anos, e com a recente descoberta de um planeta parecido com a Terra fora do Sistema Solar, a agência espacial americana começou a estudar algumas das questões práticas e éticas envolvidas com a exploração espacial.

 

Parte dessas perguntas estão em um documento sobre a saúde da tripulação obtido pela agência de notícias Associated Press. Médicos e cientistas da Nasa, com a ajuda de especialistas em bioética, esperam respondê-las nos próximos anos.

 

“É algo que as pessoas não ficam muito confortáveis de conversar a respeito”, diz o chefe do departamento médico da Nasa, Richard Williams. “Estamos tentando desenvolver um arcabouço ético para equipar comandantes e gerentes de missões para tomar essas difíceis decisões quando elas chegarem no futuro”.

 

O documento detalha algumas políticas de saúde espacial, por exemplo, quanta radiação os astronautas podem receber durante uma missão (não mais do que a quantidade que elevaria o risco de câncer em 3% durante sua carreira) e o número de horas que um membro da tripulação deve trabalhar por semana (não mais que 48).

 

Sobre outros assuntos, como os passos para se livrar dos mortos ou para desligar os cuidados médicos de um astronauta que não pode sobreviver, a Nasa diz apenas que precisa definir uma regra.



Escrito por MaGenCo às 20h22
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“Pode surgir um momento em que um risco significativo de morte precisa ser colocado na balança contra o sucesso da missão”, diz Paul Root Wolpe, especialista em bioética da Universidade da Pensilvânia, que trabalha como consultor da Nasa desde 2001. “A idéia de que sempre escolhemos o bem estar de alguém sobre o sucesso de um trabalho soa muito bem, mas não necessariamente se torna a maneira com que as decisões são tomadas”, afirma.

 

Atualmente, se um astronauta ficar doente ou se machucar na Estação Espacial Internacional (ISS) –- algo que nunca ocorreu --, ele pode ser levado à Terra em poucas horas, a bordo de um veículo russo Soyuz.

 

Em uma viagem a Marte isso não seria possível, já que o hospital mais próximo estaria a milhões de quilômetros de distância. Os astronautas, em alguns casos, sequer poderiam contar com os conselhos do Controle de Missão, porque demoraria quase meia hora entre uma pergunta feita e uma resposta enviada pelo rádio.

 

Por isso, a Nasa deve considerar se vai fazer seus astronautas passarem por cirurgias preventivas, como as de retirada de apêndice, para evitar emergências durante uma missão. Os tripulantes também podem ter que fazer testamentos com instruções sobre seus desejos após a morte. Jovens astronautas, em idade reprodutiva, podem ter que estocar óvulos e espermatozóides -– para evitar mutações genéticas causadas pela radiação. Astronautas mais velhos podem ser cortados das missões.

 

As três grandes tragédias da história da Nasa – da Apollo 1, do Challenger e do Columbia --, que mataram 17 pessoas, foram todas causadas por problemas técnicos, e não médicos. Nunca a agência teve que abortar uma missão por questões de saúde, mas a União Soviética teve esse problema três vezes. Para alguns, a Nasa não está preparada adequadamente para encarar a possibilidade de morte no espaço.

 

Tabu

Outro tópico difícil de ser lidado: como conviver com o desejo sexual entre jovens homens e mulheres saudáveis durante uma missão que pode durar anos? O sexo não é mencionado no documento e é há muito quase um tópico tabu na Nasa.



Escrito por MaGenCo às 20h21
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Segundo Williams, o sexo não é uma questão da saúde da tripulação, mas um aspecto comportamental que deve ser discutido por outros membros da Nasa.

 

Mas a agência terá que lidar com a questão mais cedo ou mais tarde, diz Wolpe. “É uma decisão que deverá ser feita sobre tripulações mistas, e deverá haver muito debate a respeito disso.”

 

OBSERVAÇÃO MINHA:

A Nasa que se prepare; vai mexer num abelheiro. Já antevejo os palpiteiros e abelhudos, os mesmos que, travestidos de teólogos e moralistas religiosos, tem se intrometido, como se fossem donos da verdade, nas questões éticas relacionadas às pesquisas científicas com células-tronco, área exclusiva do Projeto Genoma. Surgirão falsos arautos da palavra divina, tanto do Vaticano como de origens menos votadas – os mesmos que negam à mulher o direito ao aborto de anencéfalos – a meter seu bedelho em assuntos que não são da sua alçada. E, como sempre, com seu viés obscurantista, farão tudo o que estiver a seu alcance para travar o progresso da ciência, como fizeram até o Renascimento e mesmo depois, enquanto detiveram o poder de influenciar autoridades. Por isso, essas decisões terão de ser muito bem pensadas. Caso contrário, será mais uma guerra aberta contra a ignorância, a hipocrisia e a má-fé que campeia nesses meios.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 20h20
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MAMATAS E MOLEZAS TUPINIQUINS

 

Acabo de ler um artigo de Rogério Mendelski, dando conta de que o MST, entidade brasileira sem responsabilidade jurídica, está gestionando junto aos poderes constituídos a fim de obter a regularização, no Conselho Federal de Medicina, de médicos brasileiros diplomados em Cuba, que exerceriam sua atividade nos assentamentos invadidos por essa facção de agitadores.

Palavras do autor: “O MST não respeita a lei brasileira quando invade, depreda e queima propriedades e equipamentos agrícolas, mas agora se acha no direito de exigir a legalização dos diplomas de 'seus' médicos”. E continua: “Em agosto – segundo o jornal O Estado de São Paulo – chega ao Brasil a terceira turma desses formandos cubanos, (18 de turmas anteriores já estão aguardando legalização) egressos de curso na ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina), sob os auspícios do ‘Dr. Fidel Castro’.

A lei brasileira, que vale para todos os diplomados em qualquer país estrangeiro em qualquer área do conhecimento, exige revalidação do diploma através de um exame prestado em universidades públicas estaduais ou federais, mas no congresso já tramita um projeto de lei que torna automático o reconhecimento, em caráter excepcional, desses diplomas expedidos pela ELAM, fundado num acordo firmado entre Lula e Castro.



Escrito por MaGenCo às 17h10
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Note-se que, no Brasil, o Conselho Federal de Medicina há mais de três anos não abre processos de revalidação em virtude da pletora de médicos no mercado de trabalho. Acrescente-se que também existe, por parte desse órgão normativo, a preocupação com a qualidade do ensino oferecido em Cuba e na Bolívia, “dois países que não são modelo para formação acadêmica de ninguém. Em Cuba, conforme depoimentos de autoridades médicas, a medicina é primária e não há equipamentos sofisticados para o ensino dos alunos. Alem disso, temos escolas médicas em excesso. Logo, os que se formam no exterior só irão concorrer com os jovens diplomados por aqui.”

Só falta, agora, o MST invadir o Ministério da Educação e Cultura e o Conselho Federal de Medicina para validar, na marra, os diplomas de seus militantes, hipótese de que não duvido, se eles invadiram até o Congresso.

Sem pretender generalizar, afirmo que, durante o período em que vigorou na Faculdade Federal de Medicina de Santa Catarina, em Florianópolis, um convênio semelhante com alguns países sul americanos, sobretudo Peru e Bolívia, tive diversos alunos provenientes dessas origens, e seu índice de aprendizado e aproveitamento – repito, salvo exceções – era abaixo do desejável. E como o convênio era mal redigido, dando margem a vícios e distorções  de interpretação, a maioria deles, ao invés de retornar a suas casas, ficou no Brasil, casando-se com jovens brasileiras...

Hoje, aposentado, não sei se tais convênios ainda estão em vigor.

Tomara que não estejam...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 17h10
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O TIRO QUE SAIU PELA CULATRA

 

         Nunca fui dado a nutrir ou cultivar antipatias gratuitas. Uma esquisita intuição, todavia, me obrigava a sentir uma certa repulsa por aquele sujeito. Vezes sem conta, já o vira circulando pelos ambulatórios e corredores do hospital. Quase todo dia, entrava e saía com a maior desenvoltura, trazendo, armado nos lábios – mas nunca nos olhos – um sorrisinho estereotipado e pouco convincente.

         Impecavelmente trajado, de preferência com ternos escuros e conspícuos, em geral de listrinhas, colarinho engomado, gravata compatível, sapatos de cromo importado, em suma..., era o arquétipo do perfeito cavalheiro, conquanto não passasse de um legítimo corpo estranho a desfilar, impávido, pelas superlotadas enfermarias de indigentes.

         O detalhe que decerto me intrigava o subconsciente era sempre trazer reboque algum pobre diabo, que, chapéu na mão e pés descalços, o seguia com fervorosa devoção, como se dele, e de mais ninguém, dependesse a sua sorte. E a cena, com pequenas variações, repetia-se com freqüência, despertando-me intensa curiosidade. Até o dia em que o aludido personagem passou a ser o alvo da conversa na "chacrinha" do café. E sobre ele escutei poucas e boas...

         Com a palavra, um dos colegas, especialmente humanitário, contava, aborrecido, que, nos últimos meses, vinha sendo sistematicamente caçado pelo dito cujo, até por telefone, e coagido a antecipar o atendimento, além de operar gratuitamente, nada menos do que dez daqueles seus modestos seguidores. O homem não dava uma folga. Simplesmente chegava, trazendo a tira-colo seu afilhado e, traficando influência para furar as filas, punha-se a importunar o médico durante o trabalho, em busca de uma vaga para internar os casos mais corriqueiros e, uma vez satisfeito, sumia, reaparecendo, como por milagre, no dia da alta hospitalar, para carregar de volta o paciente restabelecido.



Escrito por MaGenCo às 09h43
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         Nunca esboçara o menor gesto de agradecimento ao doutor, como se este lhe devesse favores; como se tivesse para com ele qualquer obrigação. Em compensação, fora surpreendido pelo mesmo numa espécie de comício ao lado do leito, a exaltar, alto-e-bom-som, os próprios méritos pela cura do conterrâneo. Não tivesse sido "sua insistência e seu espírito de caridade, e aquele 'coitado' teria morrido sem socorro"... E o doutor, na sua incurável timidez, não o interpelara na justa hora em que acabava de falar. "Preferira ficar calado para não se incomodar"... Ah, se fosse comigo! Mas, de qualquer forma, guardei a informação no meu arquivo de memórias para eventual uso futuro. "Afinal, nunca se sabe..."

Pois "não deu outro bicho". Cerca de um mês mais tarde, estava eu, terminada a aula prática, fechando a porta do ambulatório – onde ficara além da hora para preencher umas fichas – quando escutei uns passos apressados na escadinha ao lado.

         - Puxa, doutor, que sorte que nós ainda o alcançamos!

         Virei-me e, para meu desgosto, deparei com o "figuraço" à minha frente. Descrevê-lo de novo é supérfluo, mas lá estavam o sorrisinho hipócrita, a gravata austera e os sapatos finos. Lá estava também uma vistosa pasta executiva negra, de couro legítimo. E, como não poderia faltar, lá estava, atrás dele, meio que escondido, um homem baixinho, magro e enrugado, cabelos bastos e cinzentos, roupinha humilde e pés descalços, olhos baços e inexpressivos.

         - O que foi que o senhor disse? - indaguei, procurando afetar desinteresse.

         - O problema é o seguinte, doutor... - começou ele, sem perder a linha, enquanto, num gesto elaborado, colocava protetoramente a mão no ombro do homenzinho e o trazia para junto de si. E continuou:

         - ...O Ambrósio aqui, doutor, está surdo. E eu me lembrei de trazê-lo para que o senhor o examinasse. Felizmente ainda chegamos a tempo...

         - Infelizmente vocês chegaram tarde. O ambulatório fecha às onze horas, e já são onze e quinze. Eu é que me atrasei na saída. Além disso, os alunos já foram embora. Agora, só amanhã às nove – expliquei, com voz pausada.



Escrito por MaGenCo às 09h43
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         - Mas o caso é que o homem veio do interior e precisa voltar hoje. Ele não tem onde ficar...

         - Bem..., eu não posso fazer nada - repliquei, enquanto fazia menção de me afastar.

         - Mas doutor - insistiu, pegando-me no braço e repetindo - doutor, levando em consideração que este pobre homem não tem recursos, o senhor não poderia abrir uma exceção? Não sei se o senhor sabe quem eu sou... - acrescentou, capcioso.

         - Não..., ainda não tive este prazer...

         Num gesto gracioso e rápido, aparentemente bem treinado, a figura sacou da lapela, como por mágica, um elaborado cartão, aduzindo orgulhosamente:

         - Eu sou o Deputado Fulano d'Anzóis!

         Alcunha nobre, proclamada com apóstrofo e tudo... Seu sorriso, agora aberto, estampava aquela fantástica convicção de que bastaria isso para lhe franquear todas as portas.

         - E eu?... O senhor sabe quem sou? - retruquei de supetão, deixando-o visivelmente embaraçado.

         - O senhor é um médico, claro! - foi a resposta cretina que lhe ocorreu.

         - Isto é óbvio..., mas o meu nome... qual é?

         - O seu nome? - Seu mal-estar era evidente e, vacilando por um lapso, saiu-se com esta maravilha: - Doutor, infelizmente a memória me falha no momento. Mas isso não importa... O que interessa é o seu trabalho..., que sei que é dos melhores!

         Ouvindo este disparate, fixei-o intensamente, e, estampando o arrependimento na cara, ele ficou, por instantes, desarmado. Mas recompondo-se, enquanto ajeitava a gravata, voltou à carga com força total:

         - O senhor é um professor!... Portanto é competente!

         Outra mancada lamentável, que logo tratei de aproveitar:

         - Então o senhor acha mesmo que todo professor é competente?

         - Senão, não estaria lecionando, ora essa!

         - Logo, posso deduzir que todo deputado é competente, senão não estaria legislando...?

         - Mas é uma coisa inteiramente diferente. Um deputado não tem que ser formado para legislar...



Escrito por MaGenCo às 09h42
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         A conversa estava ficando bem a meu gosto, e resolvi tripudiar um pouco, com pena de que o Ambrósio, de tão surdo, não a pudesse acompanhar. Mas pensei melhor e concluí que, mesmo ouvindo, ele seria incapaz de entendê-la. E contra-ataquei:

         - Mas não lhe parece que criar leis é uma tarefa muito séria..., que não está ao alcance de qualquer um?

         Não sei se ele percebeu o sentido ambíguo da pergunta e, se o fez, não deixou transparecer. Todavia, em vez de responder, preferiu sair pela tangente:

         - Bem, doutor, isso agora não vem ao caso. O que lhe perguntei foi se não poderia abrir uma exceção...

         - Abrir uma exceção, como?

         - Atendendo o Ambrósio agora, claro!

         - Por que não abre o senhor a exceção?  

         - Eu não compreendo..., que tipo de exceção eu poderia abrir?

         - O senhor pode pagar a consulta do Ambrósio, deputado!

        A surpresa que se estampou nos olhos do ilustre representante do povo era hilariante, quando gritou:

         - Eu..., pagar a consulta dele?

         O Ambrósio, coitado, que, afinal, não parecia tão surdo quanto apregoara seu protetor, já estava evidentemente contrafeito com a discussão. E eu insisti:

         - E por que não? O senhor paga a consulta, e eu atendo o seu amigo...

         - Mas é um absurdo! Isto aqui é um ambulatório..., pertence à Universidade. Aqui não se cobram consultas..., é tudo de graça!

         - De graça até às onze, deputado. Depois do horário, eu não sou pago para atender de graça; sou um liberal, está lembrado? Além do mais, o atendimento gratuito, embora tenha um fim social, tem, como objetivo primordial, o ensino médico. E os alunos, como o senhor sabe, já saíram todos.

         - E o seu espírito humanitário, doutor? E o seu juramento?... Então o senhor se recusa a atender um pobre diabo como este? - E apontando o Ambrósio, que, vexado, baixava os olhos, berrou: - Isto é omissão de socorro!

         - Absolutamente, deputado. Eu estou me prontificando a atendê-lo, se o senhor pagar. Portanto, não estou omitindo socorro, concorda? E não se trata de uma emergência. Logo, o senhor paga, e eu atendo. Fim de papo.



Escrito por MaGenCo às 09h40
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         - Fim de papo? Como se atreve a falar comigo nestes termos? O senhor sabe perfeitamente com quem está falando. Portanto me respeite!

         - E o senhor me respeite também! Não fui eu que baixei o nível!

         - Como é seu nome?

         - Agora o meu nome é importante... Escute aqui, deputado, o senhor pensa que eu sou burro? Acha, então, que não entendi o seu jogo? O senhor traz seus protegidos, como já vem fazendo há tempo com outros colegas..., eles são atendidos de graça por um anônimo qualquer..., voltam para casa agradecidos e fazendo propaganda do seu nome. Com isso, o senhor vai conquistando votos e mais votos. E com esta manobra cômoda e barata, vai se reelegendo eternamente, à custa do trabalho gratuito dos médicos. Pois fique sabendo que não vai levar o meu trabalho de graça, assim, sem mais nem menos. E tem mais! O azar do Ambrósio é que ele veio em sua companhia. Se tivesse vindo sozinho, ou com outra pessoa qualquer, seria atendido hoje mesmo... e de graça!

         E falando um pouco mais alto, dirigi-me ao paciente:

         - Ambrósio, faça o seguinte: volte amanhã sozinho, às nove horas, e o atenderei com o maior prazer. E para não perder a viagem, quem sabe você fica hospedado na casa do deputado...?

         - Na minha casa? O senhor está saindo dos limites! Como é seu nome?

         - De novo, deputado? Já lhe disse que meu nome não lhe interessa!

         - Eu vou me queixar ao Reitor da Universidade! O senhor vai ver o que é bom! - Virou-se e saiu como um foguete, com o Ambrósio, perplexo, a reboque.

         - Pode queixar-se até ao Presidente da República! – gritei, já de dentro do carro.

         Antes de arrancar, notei que meu pulso estava acelerado, mas, em compensação, estava com a alma lavada. Há quanto tempo eu esperava uma oportunidade como aquela!...

        

         No outro dia, chegou o Ambrósio. Veio sozinho. E meio sem jeito. Diante dos alunos, tirei-lhe duas enormes rolhas de cera dos ouvidos. Depois, para testar o resultado, perguntei-lhe baixinho:

         - Onde passou a noite, Ambrósio?

         - Na casa do deputado, doutor... - respondeu-me, com um sorrisinho maroto.

        

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 09h38
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O VIOLINISTA

 

          - Você, por acaso, sabe o que é uma verruma?

          - Verruma? - posso imaginar sua estranheza.

          - Pois bem..., deixe-me, então, explicar. Verruma é uma ferramenta já meio antiga, “do meu tempo”, que funcionava manualmente como um furador para madeira, e que, felizmente, foi substituída pela broca elétrica. Esta estória gira em torno de uma verruma. E começa assim:

         Lá em Curitiba, empilhados num casarão de três andares - a saudosa Pensão da Dona Glória - viviam alguns universitários cujos nomes não considero relevante citar por motivos que serão óbvios adiante...

         Entre eles, habitando um quarto de duas camas, dois eram algo excêntricos e potencialmente incompatíveis, dadas as diferenças básicas de suas personalidades e de seus biorritmos.

         Um era sério, sereno, estudioso, compenetrado, educadíssimo e de poucas palavras. E tinha um passatempo incomum numa pensão de estudantes: tocar violino... e, diga-se de passagem, fazê-lo tão bem, a ponto de ser solista de uma orquestra sinfônica. Todas as tardes, pontualmente às seis horas, ele nos brindava com um solo da Ave Maria de Gounod e, em horários imprevisíveis, sempre sujeitos a seu estado de ânimo, podíamos ouvir, fluindo pelo corredor, ora uma Serenata de Schubert, ora uma Meditação de Thaís, de Massenet, além de outras peças imortais que nos faziam gravitar em órbitas bem mais elevadas do que este mero chão a que nos prende a gravidade da terra comum.

         O outro..., bem..., o outro..., como disse, era o oposto. Vivia na noite, dormia a manhã inteira, não estudava nada, não queria nada com a hora do Brasil. Era o que se chama habitualmente de “estudante-profissional”..., nem por isso menos inteligente, além de muito mais comunicativo e bem-falante.

         O relacionamento dos dois, que, como únicos ocupantes de um mesmo quarto, deveria ser cordial – para não dizer amistoso – era apenas protocolar, ao contrário do que acontecia conosco, do outro lado do corrredor, se chegávamos ao extremo de usar roupas um do outro... quando cabia, é claro..., visto que – para lhe dar uma pálida idéia de nossa vida em comum, e sem que ninguém mais fique sabendo... – a única exclusividade que fazíamos questão cerrada de preservar eram as escovas de dente e, quando possível..., as cuecas...



Escrito por MaGenCo às 20h11
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         Na época, eu não conseguia compreender como aqueles dois eram capazes de coexistir sem atritos. Hoje sei por quê: eles pouco se encontravam; seus caminhos quase nunca se cruzavam, exceto de manhã, quando, pontualmente, o primeiro saía cedinho para as aulas, e coincidia que o segundo estava chegando da noite. Acontecia, nesse exato momento, seu único diálogo: o Violinista, que saía..., educadamente dizia:

         - Bom dia!

         O Boêmio, que chegava..., invariavelmente respondia:

         - Boa noite!

         Acontece que este não dormia o dia todo. Lá por volta do meio-dia estava novamente aceso, já aquecendo as turbinas para a noite imediata. E, sem mais o que fazer, entregava-se às suas fantasias, ora batendo longos e inconseqüentes papos com a dona da pensão a fim de conservar-lhe cativa a simpatia, ora lendo, horas esquecidas, variados e clássicos alfarrábios que trazia da Biblioteca Pública. Quando cansava dessa intensa e alternante atividade sócio-cultural, lá pela tardinha, na hora em que as mocinhas casadouras desfilavam em bandos, saía para sua esticada pela Rua 15, sempre na ronda, sempre na paquera, estampando, com seu passo descansado de eterno turista, com seu topete lustroso laboriosamente projetado na testa, e seus olhinhos atentos, aquele sorriso irônico e estereotipado de dançarino de tangos e boleros. Outras vezes, por absoluta falta do que fazer, invadia nosso quarto em simpática visita de cortesia, a contar lorotas e piadas ou a fazer citações.

         Até que... uma tarde..., deitado em sua cama, a folhear, de olhos esbugalhados, uma revista pornô, escutou uns sons estranhos no quarto vizinho, que era ocupado pela filha da dona da pensão. Motivado como estava pelas fotos que acabara de apreciar, e lúbrico, como era seu estado habitual, esticou as antenas e a imaginação. Pé-ante-pé..., para não fazer barulho e despertar suspeitas, aproximou-se da porta que dividia os dois compartimentos e colou a orelha à madeira. E o que escutou deve tê-lo deixado agitadíssimo..., visto que, minutos depois, irrompia em nosso quarto e perguntava à queima-roupa:

         - Alguém aqui tem uma verruma?

         - Não, ninguém. Mas pra que tu queres uma verruma a uma hora dessas? - foi a pergunta coletiva.

         - Deixa..., não tem importância, eu me viro - respondeu e saiu.

         Embora perplexos e intrigados com tão estranha e urgente necessidade, deixamos morrer a questão, pois tínhamos prova no dia seguinte e, se nem com verrumas furando nossas cabeças nos sobrava tempo para absorver toda a matéria, muito menos podíamos desperdiçar neurônios com questão tão aleatória.

         Pouco depois, entretanto, um de nós, para espairecer, foi à janela, que dava para a rua, e viu que ele voltava assobiando e subia a escada, todo lampeiro, com um pacotinho na mão.

         - Acho que ele foi comprar verrumas... - opinou.

         - Esse cara é doido... - concluiu outro.



Escrito por MaGenCo às 20h10
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         E voltamos a estudar, esquecidos do Boêmio, que, entretanto, a essas horas, já se pusera a trabalhar..., “a verrumar”..., sem que ninguém adivinhasse.

         Passaram-se semanas..., e ele nunca mais tocou no assunto. Nós..., inocentes..., tampouco. Um dia, lá pelas onze da noite, voltados do cinema e já meio recolhidos, a bater aquele papinho noturno que estreitava a amizade e condicionava o sono, eis que ouvimos, vindos do corredor, gritos e berros desconexos. Saltamos da cama a um só tempo e corremos, quase em trajes menores, para deparar com o Violinista à porta de seu quarto, envergando um pijama completo – daqueles de listrinhas – apavorado e sem saber como reagir às frenéticas e veementes acusações que, em camisolas, lhe dirigiam a dona da pensão e sua filha.

         - Só podia ser o senhor mesmo!... Um tarado!... Um imoral!

         - Eu? - protestava o pobre e indefeso artista. - Nem sei do que as senhoras estão falando!?...

         - Ah, não sabe, é?... Ainda por cima é um mentiroso..., seu cínico! - vociferava, em coro com a mãe, a moça, indignada.

         - O senhor vai dormir na rua!... Trate de fazer a sua mala e ponha-se daqui pra fora!

         - O quê?... A senhora quer que eu saia agora(?)... a esta hora da noite?... Mas eu não fiz nada!...

         - O que foi que aconteceu, dona Glória? - indagou um de nós, sem a mínima idéia dos motivos daquele salseiro.

         - O que aconteceu...? O que a-con-te-ceu... - disse ela, aos trancos, foi que este tarado estava es-pi-an-do a minha filha pela porta...

         - Mas como, dona Glória, se a porta é fechada? - contemporizou outro, na esperança de acalmar os ânimos.

         - Ah,... é fechada para os senhores, que são pessoas educadas..., mas não pra este maníaco... - e apontava o dedo em riste para o infeliz e assustado músico.

         - Mas como é que...?

         - Os senhores hão de crer que ele fez furos na porta, pra ficar me espiando? - exclamou, zelosa de seus pudores, a mocinha, furibunda.

         - Eu não fiz nada disso!... Você tá maluca! - protestou o indigitado.

         - O senhor é um desequilibrado!... Um defeituoso!

         - A senhora não acha que pode estar havendo algum mal-entendido?... Quem sabe...? - interveio um de nós - conhecedores exclusivos da “operação verruma” - ao mesmo tempo não querendo comprometer ninguém sem absoluta certeza.

         - Não! Eu vi muito bem!... Quando apaguei a luz, e a do quarto dele ficou acesa, vi três buraquinhos brilhando no meio da porta... Ele é um tarado, sim!... Um doente mental! - invectivava novamente a casta senhorita.

         - Eu nem sabia de buraquinho algum!

         - Sabia, sim!... Seu enxerido..., seu estuprador!



Escrito por MaGenCo às 20h08
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         Não tinha mais jeito. Não havia como negar tamanha evidência, a menos que o Boêmio estivesse presente e confessasse a autoria do crime. Mas o Violinista era um cavalheiro e não acusaria levianamente o companheiro ausente. Mesmo porque, com sua mente lógica de futuro engenheiro, já lhe deveria ter ocorrido a hipótese – embora improvável – de que uma terceira pessoa, algum morador mais antigo e já bem longe, tivesse verrumado a porta. E, na dúvida, preferiu calar-se, dando margem a que a injuriada donzela voltasse à carga e aduzisse, no tom mais depreciativo de que era capaz:

         - E tem mais!... Fique sabendo que nós sempre achamos o senhor muito esquisito..., sempre enfurnado neste quarto..., a azucrinar o ouvido da gente com aquele violino horroroso...

         Com esta derradeira ofensa, o desventurado Violinista calou-se por completo, o desprezo pelo seu violino a calar-lhe mais fundo que todo o resto. E saiu de cena, fechando vagarosamente, com a maior nobreza, a porta do quarto. Daí a instantes..., com a máxima compostura, sem pedir arrego a ninguém, apareceu já vestido no corredor e declarou, olhando a dona da pensão bem nos olhos:

         - Eu mando buscar o resto amanhã. Mas juro que sou inocente... Boa noite!

         E desceu as escadas, cabisbaixo, levando, de seu, apenas o violino e o pijama embrulhado num plástico. Fez-se um silêncio embaraçoso, depois do qual, contrafeitos, todos se recolheram.

         O constrangimento era tal, que nenhum de nós conseguiu dormir direito. Afinal, em semelhante circunstância, cabia-nos ou não acusar o outro? E, se apesar dos indícios, ele também fosse inocente?... Se, afinal de contas, aquela verruma tivesse tido outra qualquer serventia...?

         No outro dia, lá pelas dez, quando o Boêmio chegou e viu a cama do companheiro vazia e arrumada, foi direto ao nosso quarto, e aí, então, nós o pegamos de jeito:

         - Belo serviço, hein?... Ficamos os três sem saber o que fazer, cara. Ninguém queria te dedurar, mas agora que o pobre coitado pagou o pato, vê se te manca e conserta esta cagada, tá? Afinal, tu sabes que nós sabemos quem fez aqueles furos. E não podemos ficar a garganta presa. Ele não merece isso, pô!



Escrito por MaGenCo às 20h06
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         - É, eu sei. Deixa comigo!... Mas quem é que ia imaginar um azar desses?... A porta é escura..., e eu furei debaixo da travessa... Ninguém podia enxergar... - foi a confissão que lhe escapou quando, caminhando de costas, já com um pé fora do quarto, segurava a maçaneta para sair.

         Dirigiu-se, então, à cozinha e perguntou:

         - Que foi que houve com o Violinista, dona Glória?

         - Mandei ele embora!

         - Ué..., mas por quê, senhora?... Um cara tão legal...

         - Legal?... Pois o senhor há de acreditar que ele fez furinhos na porta que dá para o quarto da minha filha..., pra espiar?

         - Não me diga!... Não é possível!

         - Não é possível?... Então, vá lá o senhor mesmo e veja!...

         - Eu? Ir lá? Não! Eu jamais faria uma coisa dessas, dona Glória!... Nem de brincadeira!... Imagine!... Eu..., espiar pro quarto da sua filha?... Deus me livre!

         - Ela foi à aula... O senhor pode ir lá olhar... sem medo...

         - Não!... Pra mim basta a sua palavra. E faço questão de ver esses furinhos tapados imediatamente. Não quero que pense que eu seria capaz de...

         - Ora, eu nunca desconfiaria do senhor..., que sempre foi tão amigo da gente..., tão fino..., tão atencioso...

         - Veja só!... É por isso que eu sempre digo: “como são imperscrutáveis os desvãos e os escaninhos do espírito humano!”

         - O que foi que o senhor disse?

         - Deixe..., foi só um pensamento que me ocorreu. Mas..., a propósito..., justamente agora... que azar!...

         - Não estou entendendo o que quer dizer...

         - É..., justamente agora, que eu estava pra viajar, acontece uma coisa dessas...

         - O senhor vai viajar?

         - É..., há tempos que eu estou pra visitar meus pais...

         - Ah..., eu compreendo. Mas posso guardar seu lugar..., se não for demorar muito..., é claro. O senhor compreende..., o dinheirinho do aluguel me faz falta.

         - Não seja por isso, dona Glória. Eu deixo pago um mês adiantado...

         - Mas não vai lhe faltar?... O senhor está sempre se queixando de que...



Escrito por MaGenCo às 20h06
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         - Não, agora eu estou bem. Recebi uns trocados por um..., como diria..., “serviço” que fiz para uma certa senhora muito..., como diria..., aflita..., e vou aproveitar para ver os velhos enquanto não gasto tudo. Não se preocupe.

         - O senhor é que sabe...

         - Escute, dona Glória..., posso lhe pedir um favor?

         - É claro!

         - A senhora não seria capaz de perdoar o Violinista..., agora que os furos serão cobertos? Afinal..., foi só um momento de fraqueza... Isso, de certa maneira, é humano...; ele é um jovem..., e a carne é fraca...

         - Ah, isto não é possível!... Minha filha ficou envergonhadíssima... O senhor compreende..., ela é uma mocinha... Já imaginou... há quanto tempo aquilo estava acontecendo...? E ela, coitada, na mais santa inocência..., sem desconfiar de nada...

         - É..., eu posso imaginar..., aliás, ‘imagino’ perfeitamente... Bem..., é que, apesar de ele ser meio, como diria..., esquisito..., eu gostava dele... E estou com pena porque no fundo..., no fundo..., era um artista..., e os artistas, às vezes, têm atitudes incompreensíveis...; seus anseios estéticos são diferentes dos nossos...

         - Eu também sinto pena..., mas não é fácil...

         - E... se fosse eu..., a senhora perdoaria...? - a pergunta veio de chofre, encaixada, como se fosse fortuita, com a maior naturalidade.

         - Puxa..., o senhor me confunde..., eu não sei... A possibilidade é tão absurda... Não consigo imaginar um cavalheiro como o senhor...

         - Deixe..., foi apenas uma curiosidade casual..., me desculpe...

         E ficou nisso. As bagagens do Violinista se foram, o Boêmio viajou, e o quarto ficou vazio.

         Alguns dias depois, chegou uma carta para dona Glória. Era do Boêmio, que, com grande constrangimento, confessava tudo, pedia mil perdões e dava o novo endereço do Violinista, pedindo que, em desagravo, esse fosse recebido de volta e redimido como merecia.

         Reunidos em conselho no refeitório, presentes todos os moradores, a sugestão do Boêmio foi aprovada por unanimidade, e fomos encarregados do contato com o artista injustiçado. Quando voltamos da missão, ela logo veio saber do resultado:

         - E então? - perguntou, ansiosa.

         - Foi inútil, dona Glória. Não houve jeito... Ele não quer mais voltar.

         - Mesmo com as nossas desculpas?

         - Ele disse que desculpa tudo... A acusação injusta e até mesmo o erro do Boêmio...

         - E então..., por que não volta?

         - Porque não consegue perdoar a ofensa ao seu violino...

         - Que pena... - foi a reflexão sentida da dona da pensão, que, pesarosa, baixou a cabeça e voltou à cozinha.



Escrito por MaGenCo às 20h03
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         Um dia, ao voltar da faculdade, paramos numa banca de revistas. E quem estava ali, a folhear o jornal do dia? Ele, o Boêmio!

         - Hei, rapazes? Como é que vão as coisas?

         - Tudo bem. E tu..., como vais?

         - Vocês acreditam que, até hoje, não consegui me esquecer daquilo?

         - Nós também não...

         - E daí?... O violinista voltou? - indagou, pressuroso.

         - Não - foi a resposta, acrescida dos porquês.

         - Quanto mais eu vivo, menos compreendo a natureza humana... - filosofou.

         - Mas continuas verrumando as portas...(?)

         - Claro!... Só que, agora, aperfeiçoei a técnica...

         - Ah, é?... De que jeito?

         - Nunca deixo de tampar os furinhos com palitos de fósforo...

         O sorriso irônico..., o giro gracioso de bailarino..., ele ajeitou o topete com um gesto displicente e, passo cadenciado, afastou-se assobiando um tango de Gardel.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 20h01
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RAPADURA TERAPÊUTICA

 

 

         Tudo fazia crer que se tratava de uma daquelas dores que os americanos rotulam de Atypical Hemifacial Pain – pois ocorria em crises que partiam do nada e sem motivo aparente. Ia, segundo relato do paciente, num rápido crescendo que durava alguns minutos até alcançar um nível intenso, mantendo-se, então, num platô que variava de minutos a horas, para, a partir de um momento, iniciar uma curva descendente até o alívio total. Os intervalos oscilavam de dias a semanas e, durante os mesmos, nada parecia haver de anormal, permitindo ao paciente levar vida normal. Teria havido ocasiões – palavras suas – em que lhe parecera notar uma certa relação de causa e feito com ingestão prévia de bebidas alcoólicas destiladas, mas não houvera, nesse aspecto, uma regularidade que lhe permitisse tirar conclusões definitivas. Exames odontológicos e oftalmológicos recentes nada detectaram. O mesmo se poderia dizer de radiografias de crânio e seios da face. Em outras palavras, estava o médico diante de um caso incomum e sem diagnóstico.

         - Meu amigo, o exame é normal. A localização da dor, a julgar pelas irradiações, é no território do nervo trigêmeo mas não é, até prova em contrário, uma nevralgia típica desse nervo. Existem outras nessa região que poderiam ser lembradas, mas nenhuma delas tem esse tipo de comportamento. Entre essas, já tive um caso que consegui curar com uma manobra intra-nasal, mas havia sintomas paralelos que o senhor não tem.

         - Não quer tentar essa manobra, doutor? Eu me submeto a qualquer coisa. Não posso é continuar assim. Já estou perdendo a paciência. 

         - Mas já lhe disse que o caso era apenas parecido; não era igual.

         - Tudo bem, mas quem sabe...?

         - Está certo. Vamos tentar, mas não lhe prometo nada.



Escrito por MaGenCo às 11h09
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         Posto em prática o procedimento, foi o mesmo que nada, e sobreveio para ambos, médico e paciente, uma frustração total.

         - Acabo de gastar meu último cartucho. Acho que deve consultar um neurologista.

         - Já estive com um. Olhou o fundo do meu olho e veio com um belíssimo diagnóstico, que, trocado em miúdos após insistentes pedidos de minha parte, queria dizer “enxaqueca do homem”. E receitou-me uns comprimidos que me deixavam tonto. Acabei desistindo.

         - Procure outro.

         - O problema é que esse que eu procurei é tido como um dos melhores...

         - Isso não quer dizer nada, meu caro. Ninguém é dono da verdade. De repente, outro pode pensar numa hipótese diferente... e acertar na mosca.

         - Não sei. Já perdi a esperança. Antes de vir para cá, disse à minha mulher que esta seria minha última tentativa. Depois disso, só me resta o espiritismo.

         - O senhor é espírita?

         - Não, não sou..., mas ela é. E vive insistindo comigo para que vá tomar uns “passes”. Diz que pode ser algum “trabalho” que fizeram contra mim...

         - E acredita nisso?

         - Pois é como lhe disse. Não pratico, mas respeito. Mas numa horas dessas, acho que vale tudo. Não lhe parece?

         - Bem..., nesse aspecto, eu não saberia aconselhá-lo.

         - Então, eu vou tentar. Se não aparecer mais, é porque deu certo e eu fiquei bom. De qualquer maneira, gostei de conversar com o senhor.



Escrito por MaGenCo às 11h09
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         E o homem foi embora. Passou um mês, e ei-lo de volta com a cara mais desanimada do mundo. O médico, à falta de novas idéias, insistiu com o encaminhamento a outro neurologista, e ele aceitou. Redigido um minucioso relatório, sumiu de novo. O colega a quem havia sido enviado, telefonou para dizer que tinha solicitado a indispensável Ressonância Magnética, última palavra em exames complementares, e nada de anormal havia sido encontrado. Em suma, “o paciente estava em excelentes condições. Apenas continuava com a dor...”

         E acabou não aparecendo mais. O médico, embora sempre atarefado, nunca se esqueceu daquela esquisita dor que o desmoralizara. Vez por outra, cruzava com o cliente na rua, e se limitavam a um silencioso cumprimento. Nada fazia crer, entretanto, pela expressão fisionômica deste, que houvesse alguma novidade. O tempo passou, e ele esqueceu o caso.

         Um dia, os dois se encontram numa churrascaria. Estava o próprio em companhia de uma senhora que deveria ser sua esposa, a abocanhar, todo sorridente, uma suculenta maminha. Parecia tão contente, que o médico resolveu aproximar-se:

         - Como tem passado, meu caro?

         - Ah, doutor. Tenho passado bem, felizmente.

         - E sua nevralgia, como vai?

         - Olha, como ela vai eu não sei. Só sei que descobri um remédio infalível. É só ameaçar e num instante dou conta dela.

         - Não me diga? Que remédio é esse...?

         - Rapadura.

         - Rapadura?

         - É..., rapadura. É só mastigar com o lado esquerdo e pronto. Ela some na hora.

         - Mas assim..., sem mais nem menos?

         - Isso mesmo. Como o senhor deve se lembrar, ela tinha um comportamento progressivo; começava com um nadinha que só eu conhecia. Mas não passava. Agora passa. E o melhor é que não cresce; desaparece em minutos. E como sei que não tenho nada grave, resolvi esquecer. É como se eu a alimentasse com rapaduras. Vivo com elas no bolso. Só há três problemas: um é que estou engordando; outro é que já me quebraram um dente; e o terceiro é que, às vezes, tenho de mastigá-las em lugares e momentos impróprios. Entende o que estou querendo dizer...?



Escrito por MaGenCo às 11h07
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         - Perfeitamente, meu caro.

         - Conhece alguma explicação para isso, doutor?

         - Não, não conheço. Mas fico contente.

         - Eu estive pensando: quem sabe o senhor escreve um trabalho a respeito?

         - Não vejo como, meu amigo.

         - Então, quando lhe aparecer um caso igual, não se esqueça: rapadura nele!

         O médico despediu-se com um sorrisinho, mas ficou intrigado. E tratou de reportar o fato ao neurologista, que, como era de esperar, ficou mais ainda.

         - Não é possível!... Rapadura?

         - Isso mesmo. Você imagina algum mecanismo que explique?

         - Olha, não quero bancar o sabe-tudo, mas duvido que alguém explique. 

         - Então, é caso inédito.

         - Claro! Pelo menos, nunca li nada parecido...

         - E não quer publicar?

         - Você tá me gozando...

         - Então, publico eu.

         - E como vai justificar?... Onde vai buscar bibliografia?

         - Não vou precisar de nada disso...

         - Como, não vai precisar?

         - Claro que não! Vai ser um conto!...

 

        

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 11h05
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O SEXTO SENTIDO

 

 

            Tudo começou numa escola primária de uma capital do sul do Brasil.

         - Hoje vamos estudar biologia - declarou a professora, emendando: - Quantos e quais são os sentidos do corpo humano, Paulinho?

         O menino, apanhado de surpresa, titubeia, mas começa:

         - São cinco: Visão..., Audição...

         E pára. Tem medo de errar a ordem ensinada pela mestra. Esta, impaciente, vira-se para outro aluno, quieto e calado, lá no fundo da sala:

         - Diga você, Pedrinho.

         Este, também desprevenido, recomeça, indeciso:

         - Visão..., Audição... Tato...

         E pára. De repente, uma menina levanta o dedo:

         - Eu sei, professora!

         - Então, diga, Aninha.

         - São cinco: visão, audição, tato, gosto e olfato.

         - Muito bem. Corretíssimo!

         E a mestra continua:

         - Então, já sabemos: os sentidos são os cinco que a Aninha acaba de dizer. 

         E prossegue definindo cada uma dessas funções e descrevendo, em traços gerais, os órgãos que lhes servem de sede. Faz, em seguida, uma análise comparativa com alguns animais superiores e encerra a aula.



Escrito por MaGenCo às 19h21
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         À saída, Paulinho e Pedrinho, meio envergonhados, limitam-se a dirigir um olhar de inveja à coleguinha que sabia mais que eles. Mas na expressão do primeiro permanece uma certa dúvida. Lembra-se de que, em casa, ouviu algo diferente, dito pelo pai, que é um prestigioso clínico com trinta anos de contínuo exercício da profissão.

         “O que foi mesmo que o pai disse?” - ele tenta recordar.

         Sua memória busca freneticamente a palavra que dava nome a um suposto sexto sentido.

         “Como era mesmo...?”

         É inútil. A palavra esquisita não vem. De tardinha, quando o pai chega em casa, ele pergunta:

         - Pai, qual é o nome do sexto sentido?

         O doutor se surpreende com o súbito interesse do filho temporão pelo assunto. De fato, uma semana antes, conversando à mesa do jantar, havia dito algo sobre os sentidos, declarando que, a seu ver, eles não eram cinco, e sim seis.

         - Por que está tão interessado nisso agora, Paulinho?

         - Hoje, na aula, a professora me perguntou sobre os cinco sentidos...

         - E você disse que eram seis?

         - Não, só citei dois: visão e audição. Quando ia continuar, ela me interrompeu e perguntou ao Pedrinho. Ele também não completou, mas a Aninha sabia e disse os cinco. Aí, me lembrei de que o senhor tinha falado em outro...

         - De fato, filho. A meu ver, os sentidos não são cinco; são seis. Mas este é apenas um ponto de vista pessoal. Não está nos livros de medicina, muito menos nos escolares. Eu acho, entretanto, que o equilíbrio é o sexto sentido, pois, sem ele, ficaríamos desorientados no espaço; não conseguiríamos nos manter de pé e, muito menos, caminhar. Isso, pra não lembrar a prática de certos esportes. Vejo isso em meus pacientes. Sentem-se perdidos, incapacitados, diria até, inválidos. 

         - E o que é o equilíbrio, pai?

         - Bem..., - responde o médico, após um instante de reflexão, enquanto cofiava o bigode grisalho: - ...numa definição geral, equilíbrio é o estado de manutenção da posição dos corpos no espaço.   



Escrito por MaGenCo às 19h20
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         Notando, porém, o ar de perplexidade estampado na fisionomia do garoto, ele procura ser mais explícito e acrescenta:

         - Ou seja, quando uma ou mais forças atuam sobre um corpo, e ele se mantém estável, é porque está equilibrado; porque consegue anular os efeitos dessas forças.

         - Que coisa complicada! - retruca Paulinho, já arrependido de ter levantado a questão.

         Mas o pai prossegue, com uma derradeira tentativa:

         - É, de fato, para você ainda é um pouco cedo. Deixe-me dar um exemplo prático: quando fomos ao circo, mês passado, havia um homem que caminhava sobre uma corda-bamba, lembra-se?

         - Claro! Aquele palhaço que usava uma vara comprida.

         - Pois é. Ele se equilibrava sobre a corda. Com o auxílio da vara, ele conseguia anular as forças que o empurravam para um lado ou para o outro e o atraíam para baixo.

         - Pára, pai! Pára! Eu nem sei o que é força... - protesta o menino.

         - Força, meu filho, é todo agente da natureza que gera movimento; que obriga um corpo a mudar de direção ou de posição ou a abandonar seu estado de repouso. Entendeu?

         - Não. Não entendi nada. Chega, pai!

         - É, eu compreendo. No ginásio ou no científico você entenderá melhor. Mas é isso. Mais ou menos.

         - E onde está o equilíbrio no corpo humano? - insistiu Paulinho, que, mesmo não tendo compreendido as explicações do médico, queria, ao menos, ficar com uma idéia da sede dessa estranha função.

         - Está no Labirinto, filho. Um órgão duplo, completo e complicadíssimo, tão independente quanto qualquer outro. Ele é constituído de canais curvos e cheios de um líquido especial, que estão embutidos a cada lado, num osso da base do crânio chamado Temporal. É o principal responsável pelo Equilíbrio, embora atue em conjunto com o sistema nervoso, como, aliás, todos os outros cinco. 

         - Tá bem, pai. Já sei o que queria.

         No outro dia, na escola, Paulinho, ansioso, chamou Pedrinho e lhe transmitiu, como pôde, o que ouvira do pai. O coleguinha ficou na mesma, embora intrigado. Quando a mestra entrou na sala, o menino aproveitou a primeira ocasião e, com ar provocativo, levantou a questão:

         - Professora, os sentidos não são cinco; são seis...

         - O quê? Seis? De onde tirou este absurdo, Paulinho?

         - Meu pai disse. Ele é médico - acrescentou o aluno, com o objetivo de dar o necessário respaldo à afirmação.



Escrito por MaGenCo às 19h20
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         Todos se viravam em sua direção, e ele saboreava aquele fugaz momento de glória, quando a mestra, pouco à vontade, viu-se forçada a indagar:

         - Repita, por favor, o que seu pai disse.

         - Meu pai disse que o Equilíbrio é o sexto sentido...

         - Interessante. Nunca ouvi falar nisso. Tem algo mais a dizer, Paulinho?   

         - Tenho, professora. Meu pai disse que o equilíbrio do corpo humano parte do Labirinto, um órgão duplo, completo e complicado, cheio de um líquido especial que circula em canais que existem na base do crânio, dentro de um osso chamado Temporal. É ele que nos mantém de pé; que nos permite caminhar sem cair ou andar em cima de uma corda-bamba, no circo...

         - Seu pai já publicou algum artigo defendendo esta idéia?

         A indagação o deixou surpreso, e ele, afobado, respondeu:

         - Ainda não.

         A mestra, que conhecia e respeitava o médico, estava perplexa. Pedrinho, por seu turno, morria de ciúmes pelo brilho do amigo, pois ambos andavam disputando as atenções de Aninha, a menina mais bonita da sala. E esta, sem conter sua admiração, não desgrudava os olhos do autor da façanha, que, logo em seguida, na hora do recreio, lhe oferecia balas, aceitas, todas, com o mais prazenteiro sorriso.

         Em casa, de noite, ainda assediado pela questão discutida na aula, Paulinho dirigiu-se ao gabinete do pai, que lia fumando seu cachimbo após o jantar, e perguntou:

         - Pai, por que o senhor não publica um artigo mostrando que o Equilíbrio é o Sexto Sentido?

         - Ah, filho, não é simples como parece. Isso exigiria uma longa pesquisa, busca de bibliografia no mundo inteiro, muito estudo especializado e uma dedicação quase exclusiva. E não me sobra tempo. Tenho de ganhar a vida. Sou um médico à moda antiga. Vivo do meu dia-a-dia, como você sabe. Mas por que continua tão preocupado com esta questão?

         - A glória seria sua!

         - Ora, eu não ando atrás de glórias. Para mim, basta a certeza de que pensei antes dos outros. Isso já me satisfaz.

         - Mas ninguém vai ficar sabendo, pai!

         - Não tem importância. Eu e sua mãe saberíamos. E você também.

         - Pois eu acho muito pouco.



Escrito por MaGenCo às 19h19
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         - É, no fundo você está certo. Não nego. Pensar e não dizer, num caso desses, é o mesmo que não ter pensado... - filosofou o velho, reconhecendo e assumindo, pela primeira vez em voz alta, a timidez e a humildade que tanto lhe haviam prejudicado a carreira. E acrescentou: - Vamos fazer o seguinte: em homenagem a você, que insiste tanto, eu vou escrever e publicar num jornal.

         - Jornal médico? - perguntou o menino, cheio de esperança.

         - Não sei, meu filho. Por quê?

         - Se não for num jornal médico, pai, é melhor ficar calado...

         - Que quer dizer com isso, Paulinho?

         - Claro! Se o senhor continuar falando, algum espertinho vai roubar a idéia e ficar famoso à sua custa.

         O doutor já estava surpreso com a dialética defendida pelo filho durante toda a conversa, quando o ouviu aduzir, com ar arrependido:

         - Eu nem devia ter contado “nosso” segredo na escola. Agora a professora já sabe e vai espalhar a novidade. 

         - E daí? O que tem isso?

         - Ora, pai, daí eu não terei tempo de crescer e me formar em medicina para defender essa tese. Já que o senhor não quer.

         - Você vai ser médico, Paulinho? - perguntou o pai, não escondendo a alegria que a notícia lhe trazia.

         - Vou. Decidi agora.

         - Então, filho, trate de crescer depressa... - sugeriu o médico, enquanto batia, na borda do cinzeiro, o cachimbo apagado.

         Seu olhar, ao mesmo tempo reticente e sonhador, atravessou a vidraça da janela do escritório e perdeu-se no vazio sem ocultar, entretanto, uma certa tristeza. O menino cresceu, mas não tão depressa. Estava cursando o último ano de medicina, quando a notícia estourou como uma bomba na televisão, no jornal da noite:

         "MÉDICO BRASILEIRO DESCREVE O EQUILÍBRIO COMO O SEXTO SENTIDO E RECEBE PRÊMIO DA ACADEMIA AMERICANA DE CIÊNCIAS."



Escrito por MaGenCo às 19h19
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         Paulinho, que acabara de jantar e ligara o aparelho, ficou desolado. Seu primeiro pensamento foi para a memória do pai, que morrera havia alguns meses e nem tivera o nome citado.

         Virou-se para a mãe, sentada ao lado e que testemunhara a conversa de tantos anos atrás, e repetiu, do modo que recordava, as palavras proféticas do velho:

         “Ter pensado e não ter dito, em certos casos, é o mesmo que não ter pensado...”        

         Ao que a velha senhora acrescentou, com tão surpreendente e conformada sabedoria, que deixou o rapaz atônito:

         - O pior, meu filho, foi seu pai não ter escrito, porque mesmo a palavra falada tem vida curta; morre com o silêncio imediato. Já a palavra escrita..., essa, não há silêncio, o mais profundo, que seja capaz de emudecê-la.

         - Mãe, que pensamento lindo! É seu? - ele exclamou, com sincera admiração.

         - É, mas eu tenho um ainda mais lindo, que é dele...

         - E qual é?

         - Eu e você sabemos, filho. E isso nos basta...

 

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 19h18
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PADRE FALASTRÃO

 

Foi no tempo de João Paulo II. Num ônibus, um padre senta ao lado de um sujeito completamente bêbado, que tenta, com muita dificuldade, ler o jornal. Logo, com voz empastada, o bêbado pergunta ao padre:

      - O senhor sabe o que é artrite ?

Irritado, o pároco respondeu:

      - É uma doença provocada pela vida pecaminosa e desregrada: mulheres, promiscuidade, farras, excesso de álcool, drogas e outras coisas.

 

O bêbado calou-se e continuou com os olhos fixos no jornal.

Alguns minutos depois, achando que tinha sido muito duro com o bêbado, o padre tentou amenizar:

      - Há quanto tempo o senhor está com artrite ?

- Eu não tenho isso, não! Segundo o jornal, quem tem é o Papa!

 

AUTOR DECONHECIDO



Escrito por MaGenCo às 22h09
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O MILAGRE DA PRIMAVERA

 

         Lá pelos idos de 1972, numa tarde ensolarada de primavera, um certo médico recebeu no consultório a visita de uma bela moça. Acompanhando-a, um cavalheiro grisalho e calvo que logo tomou a palavra, ansioso por contar sua história e descarregar, de um só fôlego, toda a sua mágoa.

         - Doutor, esta menina é completamente surda. Dá pena vê-la numa situação assim. Vive chorando pelos cantos, escondida das pessoas. Quase não sai de casa, tem vergonha de todo mundo. Inteligente ela é, mas está atrasada nos estudos porque não quer mais ir à aula. E já vai fazer dezoito anos. Se um rapaz a procura, ela foge correndo como se fosse uma doida. Agora mesmo, tem um moço que está indo lá em casa, mas está quase desistindo. E o pior é que a gente é obrigado a ouvir tudo que ele diz, porque tem de falar berrando. Os vizinhos até já se divertem com isso. Nós não estamos mais agüentando, doutor; dá vontade de sair brigando...

         Era o lirismo transformado em patética comédia. A moça estava quieta, triste, os olhos baixos, torcendo as mãos sobre o regaço, duas lágrimas furtivas lhe escorrendo pela face. Uma cena comovedora.

         - Já procuraram um especialista?

         - Já. Nenhum deu esperança.

         - Ela fala bem?

         - Falar, ela fala. Isso começou aos oito anos...

         - Conte-me como foi.

         - Foi assim: ela teve uma caxumba muito forte. A gente não deu importância, porque é doença que toda criança tem. Quando sarou, ela estava surda. Os médicos disseram que o nervo do ouvido estava morto.



Escrito por MaGenCo às 07h57
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         - Mas antes da caxumba ela ouvia bem? Nunca tinha sofrido dos ouvidos?

         - Tinha, mas não tanto. Quando era menorzinha, ela vertia pus por um ouvido..., mas não se queixava. A gente pingava gotas e, depois de um tempo, acabou sarando. Pra dizer a verdade, ela nunca foi de escutar muito bem, em comparação com os irmãos. Às vezes não entendia direito, e se tinha de repetir. Mas, lá em casa, todo mundo achava que era distração; que ela só escutava quando queria. Até, uma vez, cheguei a bater nela por causa disso e hoje me arrependo. A professora, na escola, também lhe dava castigo; dizia que era burrice. Mas ela era tão ladina pra outras coisas... e, com o tempo, a gente foi se acostumando a falar mais alto. Até que veio a caxumba, e começou esse desespero. Depois que ficou mocinha..., lá pelos treze..., ela começou a mudar, a ficar triste, querendo estar sempre sozinha..., e quando resolvemos procurar recurso, foi um “não” atrás do outro. Um dia desses, “lá na praça”..., numa rodinha, tinha um sujeito que eu sempre soube que era surdo. Ele parecia estar escutando tudo pois conversava normalmente com os amigos. Aquilo me deixou curioso e me aproximei. Foi quando ele me disse que tinha sido operado pelo senhor. Aí, minha esperança voltou e resolvi tentar mais uma vez. Será que o caso dela tem jeito, doutor?

         - Bem..., antes de mais nada, vamos examiná-la.

         Ao exame, foi encontrada uma surdez irreversível no ouvido da cachumba. Mas, no outro... – que surpresa fantástica! – havia uma audição potencial com perspectivas de recuperação.

         - E então? Tem jeito? - foi a pergunta ansiosa.

         - Olhe, meu amigo, talvez se possa fazer alguma coisa...



Escrito por MaGenCo às 07h56
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        Bastou essa resposta cautelosa para reacender um lampejo naqueles olhos desencantados. Diante disso, para não exagerar seu entusiasmo, o médico achou melhor acrescentar:

         - Isto é, pode-se tentar. Mas é preciso aguardar até que eu receba uma pecinha a ser adaptada ao ouvido dela, e que, no momento, não está à minha disposição. Assim que isto estiver resolvido, entrarei em contato com o senhor. Está bem?

        - É uma operação garantida?

        - Não existe operação garantida, meu caro. Tudo vai depender de uma boa reação do organismo dela. A única coisa que lhe garanto é que farei um trabalho bem feito. E considerando que se trata de uma pessoa jovem e sadia, tudo faz crer que o resultado seja satisfatório.

         - Deus há de guiar a sua mão, doutor!

         E, com esse vaticínio de fé, a dupla partiu. Ficou na sala, entretanto, a perplexidade resultante da expressão do olhar da moça, que de algum modo sentira, embora sem ouvir, o diálogo do pai com o médico; talvez o olhar de uma esperança reprimida durante anos.

         Passa um mês. O telefone toca. É da emergência:

         - Doutor, parece que suas bigornas chegaram...

         De fato tinham chegado, trazidas em perfeito estado no corpo destroçado de uma jovem, morta em acidente de carro.

         Incontinenti, numa rápida manobra, algo furtiva, essas duas “pecinhas” ósseas são removidas e guardadas em conserva. Ato contínuo, um número de telefone é discado:

         - Seu Oscar, a pecinha chegou. Podemos operar nos próximos dias, se achar conveniente.

         - Amanhã mesmo estamos aí. Só tem um problema..., desculpe a pergunta...: qual é o valor da pecinha? O senhor compreende..., a gente...

         - A pecinha não tem preço, meu caro; é uma doação...

         Fez-se a cirurgia que, felizmente, foi um sucesso. Alguns dias mais tarde, removidos os últimos tampões, a ansiedade, que estava sendo insuportável, converteu-se na mais brutal das emoções; a moça estava ouvindo tudo. E os três figurantes desse cenário glorioso se abraçavam, comovidos.



Escrito por MaGenCo às 07h54
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         Passou mais um mês. Feito o curativo final, e ante a perspectiva da alta definitiva, o médico não se continha de curiosidade por saber que vantagens aquele estrondoso êxito trouxera à vida da mocinha. E sintetizou tudo na pergunta simples:

         - E agora, Dorinha?... Como estão as coisas?

         - Ah, o senhor não vai acreditar. Eu vou noivar no Natal! O melhor é que os vizinhos ainda não sabem de nada, porque não escutam mais as nossas conversas... - E ela completou com a pergunta inesperada: - Como conseguiu este milagre, doutor?

         Entusiasta que era, ele teve de se conter e respondeu:

         - Não houve milagre. Ou, se houve, não fui eu quem fez...

         - Mas que pecinha milagrosa é essa? É feita de quê? De ouro?

         Ele era modesto, mas era também jovem e, por isso, um vibrador que deixou de ser cauteloso. Simplesmente não resistiu e disse:

         - Se você jurar não contar a ninguém, eu lhe digo como foi. Jura?

         - Juro! Meus Deus, estou tão curiosa...

         - Você está ouvindo com o ossinho do ouvido de uma moça da sua idade, que morreu num acidente de trânsito, e que eu transplantei para o seu...

         À medida que esta longa frase ia sendo pronunciada, a alegria da garota foi desvanecendo, transformada na mais absoluta incredulidade, quando explodiu:

         - O quê...? Eu estou ouvindo com o ouvido de uma morta?

         Apossou-se da ex-surda uma inesperada agitação, seguida de gritos histéricos, revirar de olhos e total perda do controle de si mesma. Com o auxílio imediato da enfermeira, foi-lhe aplicado, mais que depressa, um sedativo, sobrevindo, então, um sono irrequieto. Com a trégua, o médico mandou chamar o pai que, pegado de surpresa, chegou quase em seguida e, aturdido, encontrou a filha estirada e adormecida.



Escrito por MaGenCo às 07h54
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         - Mas o que foi que houve?

         Tudo lhe foi contado sem omissão.

         - Mas isto é um absurdo! O senhor nunca devia ter feito isso! Por que não me contou antes? Eu tinha o direito de saber!

         - Bem, seu Oscar, eu não vi motivos. Não é a primeira vez que faço esse tipo de operação e nunca houve problema. Não podia esperar que ela reagisse desta forma...

         - O caso é que, lá em casa, somos todos espíritas, e essa que está aí – apontou a filha adormecida – é médium vidente e sensitiva. Se eu tivesse sabido, talvez até tivesse concordado, mas nunca ia deixar que ela soubesse. Eu conheço a filha que tenho!

         Até hoje, o médico questiona por que, se ela era tão “vidente e sensitiva”, não adivinhou nada, antes ou depois da operação...

         - Bem, meu caro, agora é tarde. Eu vou receitar um calmante, e o senhor pode levá-la. Logo que for possível, procure convencê-la de que o mais importante é ouvir bem..., estudar..., casar e levar uma vida normal, enfim..., ser feliz. O que eu podia fazer, está feito. O resto é com o senhor, com o noivo e com a família. Acho que todos deveriam estar muito contentes em vê-la recuperada...

         - A gente estava..., até que o senhor falou demais e estragou tudo...

         - Eu discordo, seu Oscar. O que estragou foi a credulidade de vocês. Já passou o tempo em que isso deveria interferir com a Medicina. Estamos no fim do século vinte, amigo! Não há mais espaço para essas coisas...

         Dessa vez, ao contrário das anteriores, a despedida foi seca, protocolar, embaraçosa. E restou, no silêncio, o vazio absoluto. Consciente do erro de avaliação que cometera, o médico não conseguiu mais trabalhar e cancelou as consultas do dia. Abriu uma garrafa de uísque, pondo-se a meditar sobre as razões pueris que o haviam levado a agir de maneira tão irrefletida. E aprendeu uma grande lição...

         Três dias depois, quando menos esperava, o telefone tocou:

         - Doutor, é o Oscar. Seu calmante não faz efeito. Minha casa virou um pandemônio. A Dorinha não dorme, não come; só fica olhando o vazio e chora. Vive com o dedo naquele ouvido. Eu não sei mais o que fazer. Acho que o jeito, mesmo, é o senhor tirar “aquilo” lá de dentro...

         - O senhor está brincando? Destruir o que foi construído com tão boa intenção? Escute, seu Oscar, por que não dá um pulo aqui, para a gente conversar com mais calma? É difícil discutir este assunto por telefone...

         - Está bem, eu já vou.

         E o telefone ficou mudo.

         Suspensas de novo as consultas, o médico, enquanto esperava, debatia-se mentalmente em busca de uma solução alternativa que não o obrigasse a concordar com aquele despropósito. Absorto na análise das idéias conflitantes que a razão perturbada fazia desfilar por sua mente, entrou em estado de profunda meditação, assustando-se quando bateram à porta.

         - Boa tarde, seu Oscar. Sente-se, por favor.

         - Boa tarde. Obrigado.



Escrito por MaGenCo às 07h53
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         Antes tão agitado ao telefone, ele parecia mais calmo. O médico estranhou a mudança e achou melhor esperar que falasse. Talvez tivesse tido tempo de meditar pelo caminho.

         - Doutor, quero lhe pedir desculpas pelas palavras duras que usei outro dia. Nós, lá em casa, somos gratos pelo que fez pela Dorinha. Todos reconhecemos o sucesso da operação. O problema é que...

         - Um momento, seu Oscar. Deixe-me falar. Em primeiro lugar, quero que saiba que fico feliz em ouvir o que acaba de dizer. Assim, vamos poder conversar. É questão de bom senso, não acha? Não faria sentido...

         - Parece que não está me entendendo, doutor...

         - Claro que eu estou!

         - Nós não mudamos de idéia!

         - Não me diga que vai insistir naquele absurdo, seu Oscar!

         - E existe alternativa? Procure entender! Nós não podemos conviver com a situação que... se criou...

         Lá se foi a cautela diplomática, e o médico retrucou, com impaciência:

         - O senhor quer dizer... ‘que eu criei’, não é? Pois eu acho que vocês criaram, e sabe por quê? Porque vocês, espíritas, complicam tudo. Como me explica que as outras pessoas operadas, que não são espíritas, estão vivendo muito bem com seus ossinhos transplantados? Como?

         - Isso, eu não sei explicar. O que sei é que...

         - ...Como me explica que ela, sendo médium e vidente, não tenha adivinhado nada; que o senhor mesmo tenha dito que talvez concordasse com o transplante, desde que ela não soubesse? E por que ela só reagiu depois que eu cometi a burrice de dizer?

         - Mas é claro! Ao dizer, o senhor atraiu o espírito da morta...

         - Ora, seu Oscar, não me faça rir! Quer dizer que, agora, eu também sou médium? É impressionante como o espiritismo tem explicação para tudo; até para o inexplicável. Sabe..., eu não vejo diferença entre os mistérios que vocês “explicam” e o dogma da Santíssima Trindade!

         - Mas nós não temos mistérios, doutor! Para nós, tudo é claro!

         - Pois é justamente isso que eu estou dizendo... Para vocês, não existem mistérios. Pelo menos nesse aspecto os católicos são mais humildes, não lhe parece? Como se justifica que os cientistas encontrem tanta dificuldade para explicar os fenômenos da Terra e do Universo, e vocês, que não são cientistas e não têm preparo algum, consigam lidar com questões sobrenaturais sem encontrar obstáculos? Vocês, por acaso, são mais inteligentes que os cientistas? Ou também vivem de “revelações”...(?)



Escrito por MaGenCo às 07h52
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         Confuso, ele fitava as mãos, postas no colo. Não tinha como rebater tais argumentos e, ao mesmo tempo, estava sentido com a veemência dos mesmos. Criara-se, então, uma atmosfera embaraçosa, e nenhum dos dois tomava a iniciativa de desfazê-la. Mas a conversa não podia terminar ali, e o doutor, finalmente, quebrou o silêncio:

         - Agora é minha vez de pedir desculpas, seu Oscar. Acho que me exaltei. Mas será que não entende que o médico existe para curar e não para prejudicar? Isso que está me propondo vai contra todos os princípios da minha profissão. Não é humano; é, até, antiético. Procuremos outra solução. Isso eu não posso fazer!

         - O senhor não sabe, e talvez não acredite, mas a verdade é que as pessoas que morrem jovens e de morte violenta não se conformam e, às vezes, transformam-se em espíritos revoltados. A tal moça, então, mais ainda, porque além de ser jovem, teve, depois de morta, o corpo violado sem o menor direito de nossa parte. É por isso que ela está perseguindo a minha filha, em busca do que lhe foi roubado.

         - Roubado, seu Oscar?

         - Desculpe - apressou-se o homem a corrigir. - É maneira de dizer..., mas, de qualquer forma, prefiro ver minha filha surda do que possuída por um espírito vingativo. Estou disposto a assinar qualquer declaração, assumindo inteira responsabilidade pela reoperação. Assim o senhor fica livre, e nós também...

         - ...e sua filha fica surda, solteira e triste pelo resto da vida...

         - Ela já sabe disso, mas prefere que seja assim.



Escrito por MaGenCo às 07h52
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         Sem outros argumentos, o médico, vendo-se encurralado, não tinha mais o que replicar, quando, de repente, lhe pareceu vislumbrar, fugidia na mente, uma idéia inteiramente nova que, de tão óbvia, não sabia como não lhe ocorrera antes. E, cautelosamente, procurando dar à voz um tom sereno e intimista, resolveu explorá-la, medindo bem as palavras:

         - Ouça, seu Oscar. Preste atenção no que eu vou dizer. E prometa fazer segredo absoluto do que vai ouvir. O senhor promete?

         - Claro, doutor! Pode falar - foi a resposta ressabiada.

         - Se eu lhe disser o nome da doadora...? Só para que o senhor possa “fazer contato” com ela...?

         Olhando o interlocutor bem nos olhos, pareceu ao médico entrever, naquele semblante fatigado, uma momentânea expressão de perplexidade.

         - O senhor acha que adiantaria?

         - Ora, seu Oscar, isso eu não sei. O senhor, que é espírita, é que deve saber. Eu só tive a idéia...

         - Bem..., não custa tentar, não é?

         - Muito bem..., mas vai me prometer que ninguém(!), exceto quem for indispensável, vai ficar sabendo disso. Normalmente, eu jamais lhe diria, mas creio que, neste caso especial, eu devo abrir um precedente.

         - Eu lhe juro, doutor! Pode ficar tranqüilo.

         - O nome dela é Vera...

         - Vera...? Vera de quê? - perguntou Oscar, desconfiado.

         - Vera... Regina... De Sanctis - pronunciou, pausadamente, o médico.

         E pôs-se a descrever os detalhes do acidente. À medida que falava, ia notando no homem um ar de antecipação, como se já soubesse de tudo.

         - A Vera era nossa prima! Que coisa!

         - Melhor ainda, seu Oscar! Assim fica mais fácil! Não lhe parece que, sendo prima, ela cederia a pecinha sem dificuldade?



Escrito por MaGenCo às 07h51
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         - Não sei, não. Ela era meio esquisita e, pra lhe falar a verdade, não se entendia muito bem com a Dorinha nem com o resto do pessoal. Nós nem fomos ao enterro...        

          - Bem, meu caro, eu fiz o que podia fazer. Até mais do que devia. 

         - Está certo. Eu vou tentar. Mas, se não der resultado, e a morta se recusar, eu volto. O que não pode é a coisa ficar como está...

         E lá se foi o Oscar. À espera do médico, outra noite de desassossego. Para ele, depender dos resultados imprevisíveis de uma sessão espírita constituía uma experiência inusitada, pois sempre fora um racionalista do tipo mais pragmático. Angustiado e inquieto, não conseguiu dormir.

         Raiou o dia, e, tresnoitado, ele não se conteve. Discou. A tensão era forte demais e, a essa altura, nada mais importava. Era preciso pôs um término àquele sofrimento.

         - Doutor! O senhor não imagina!

         - Não imagino o que, seu Oscar? Diga logo!

         - O senhor não vai acreditar...

         - Não vou acreditar em que, “homem de Deus”?

         - A prima Vera!... Deu tudo certo!

         - Que primavera, seu Oscar?

         - A Verinha!

         - Ah..., a Verinha..., e daí?

         - Ela baixou e deu a pecinha de presente pra Dorinha!

         - Não me diga! Que bom!

         - E ainda lhe mandou um recado!...

         Confusão, incredulidade, assombro e contentamento eram alguns dos sentimentos conflitantes que dominavam a mente do médico, quando perguntou:

         - Que brincadeira é essa, seu Oscar?

         - Não tô brincando, não! Tô falando sério...

         - Que é que há, seu Oscar? Então acha que eu recebo recado de defunto?

         - Se eu fosse o senhor, receberia...



Escrito por MaGenCo às 07h50
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        Apesar de tudo, o médico não conseguia vencer a intensa curiosidade que o fascinava. E, forçando um tom de ironia, brincou:

         - Muito bem, seu Oscar, pode mandar o recado da prima Vera...

         - Ela mandou dizer que o senhor pode usar a segunda pecinha em outra pessoa surda. Porque o senhor tirou duas, não foi?

         - Ela mandou dizer isso...?

         - Foi! Não tirou duas?

         - Bem..., isto é..., realmente eu tirei duas... - balbuciou o médico.

         - Ela disse que não precisa mais delas; que lá..., no lugar onde está..., ela não precisa de bigornas para ouvir..., o senhor entendeu?

         - Ela disse “bigornas”, seu Oscar?

         - Foi esta a palavra que ela usou. Por quê?

         - Não..., por nada..., quer dizer..., esta palavra, eu nunca...

         O médico estava tão perturbado que quase emudecera.

         - Está me ouvindo, doutor?

         - Claro, seu Oscar. O senhor estava dizendo que...

         - O senhor é que estava falando...

         - Sim, sim, claro..., e a Dorinha..., como está? – ele improvisou, perplexo.

         - Está outra! Amanhã, nós vamos visitá-lo para agradecer pessoalmente. Nunca vamos poder pagar o que fez por nós.

        

***

         Parecia outro mundo. Tudo calmo. Tudo em ordem. O médico não sabia a que atribuir tanta paz; se à notícia em si ou a outra coisa mais transcendental. Passados alguns momentos de total desorientação, ainda atordoado, conseguiu recompor-se e prosseguiu no trabalho, sem se deixar envolver por indagações que nada tinham a ver consigo mesmo.

         Alguns dias depois, a segunda bigorna foi transplantada com absoluto êxito. Só que, dessa vez, por via das dúvidas, no mais mudo sigilo. E, desde então, algumas silenciosas bigornas foram reincorporadas ao patrimônio terrestre, para trazer de volta a ouvidos humanos a palavra, a música e os demais sons e ruídos da vida.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 07h49
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NOTA TRANSCRITA DO G1 - PORTAL DE NOTÍCIAS DA GLOBO  WWW.G1.COM.BR

17 DE JULHO DE 2007

Abuso sexual não é só problema católico, diz Vaticano.

Outras instituições precisam combater tal 'perversidade', disse porta-voz.
Para Igreja, indenização é 'fechar um capítulo doloroso e olhar para frente'.

A pedofilia não é um problema só da Igreja Católica, e outras instituições precisam reconhecer e combater tal "perversidade" em suas fileiras, disse o Vaticano na terça-feira (17), um dia depois de uma corte de justiça dos EUA confirmar o pagamento de cerca de R$ 1,2 bilhão a vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes.

Observação minha: não cabe ao Vaticano ficar apontando outros culpados. O Papa, que gosta de acusar todo mundo, que trate de punir seus sacerdotes pedófilos, expulsando-os sumariamente. Nada justifica esse perdão corporativista. Ou eles serão tantos, que seu afastamento esvaziaria o clero...?



Escrito por MaGenCo às 22h55
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O padre Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, disse também que o acordo entre a arquidiocese de Los Angeles e vítimas de abusos sexuais, envolvendo o valor recorde de mais de US$ 600 milhões, é uma tentativa de "fechar um capítulo doloroso e olhar para frente."

"A Igreja está, acima de tudo, claramente machucada pelo sofrimento das vítimas e de suas famílias, pelas profundas feridas causadas pelo grave e indesculpável comportamento de alguns de seus membros", disse Lombardi.

Observação minha: até nos pequenos detalhes se nota a tentativa de eximir-se de culpa ou responsabilidade. Em lugar da palavra “membros”, melhor caberia a palavra “Padres”. Ou “Sacerdotes”.

"Ela decidiu se comprometer por todos os meios a evitar uma repetição de tal perversidade", afirmou ele, acrescentando que agora há "uma política de prevenção e criação de uma atmosfera ainda mais segura para crianças e jovens em todos os aspectos dos programas pastorais".

Observação minha: que meios e atmosfera mais seguros serão eficazes para prevenir e conter essa vergonheira? Só vejo dois: castrando esses tarados ou obrigando-os a usar um cinto de castidade masculino, nos mesmos moldes daquele usado pela Santa Inquisição...

Lombardi reafirmou uma posição adotada no passado por outros líderes eclesiásticos – de que outras religiões e instituições também deveriam lidar com a pedofilia de forma tão aberta quanto a Igreja Católica se viu obrigada devido aos escândalos recorrentes.

Observação minha: a pedofilia por parte de padres sempre existiu, mas só agora, com os modernos meios de comunicação de âmbito mundial, tem vindo à tona. Se dependesse da Igreja, tudo continuaria encoberto como antes. Portanto, o mérito dessa confissão pública não é do Vaticano; é da imprensa não atrelada. E da vítima, que perdeu o medo.

 

Saiba mais

"O problema do abuso da infância e da sua proteção adequada certamente não diz respeito apenas à Igreja, mas também a outras instituições, e é correto que estas tomem as decisões necessárias também", afirmou o padre, segundo quem a Igreja pretende ser "um protagonista na luta contra a pedofilia".

Observação minha: repito que não cabe à Igreja ficar envolvendo “outras instituições”. Cabe a ela, isso sim, falar apenas em seu próprio nome e assumir sua culpa. E pensar seriamente em abolir o celibato, causa principal, a meu ver, dessa tara coletiva. E se quiser dar um bom exemplo, que excomungue esses anormais.



Escrito por MaGenCo às 22h55
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Acordo

O acordo de sábado em Los Angeles envolve 508 supostas vítimas, em casos que remontam à década de 1940. Graças à solução, o cardeal Roger Mahony será poupado de depor no processo que começaria na segunda-feira. A negociação para o acordo levou quatro anos e meio.

Observação minha: por que poupar o tal cardeal? Por que não expô-lo à execração pública? Mais uma vez, prevalece, nesse privilégio, o ânimo corporativista de evitar escândalos comprometedores.

Em 2003, a arquidiocese de Boston havia feito um acordo para indenizar 550 pessoas com 85 milhões de dólares. O então arcebispo Bernard Law foi forçado a abdicar.

Além dos abusos propriamente ditos, há evidências de que líderes eclesiásticos protegiam os padres pedófilos, transferindo-os para paróquias menores ao invés de afastá-los e denunciá-los.


Observação minha: essa simples transferência de padres tarados de uma paróquia para outra é a confissão implícita e explícita da má-fé com que o Vaticano sempre atuou e tentou esconder suas mazelas, o que vem a comprovar sua falsidade de propósitos. Isso contradiz as declarações recentes de que pretende o jogo aberto.

Em sua entrevista à Rádio do Vaticano, Lombardi falou dos "sacrifícios" que o acordo imporá à arquidiocese de Los Angeles, que terá de vender seu patrimônio imobiliário, inclusive a sede do arcebispado, e recorrer a seguradoras e a várias ordens católicas.

Eleito em 2005, o papa Bento XVI adota uma postura mais rígida sobre os casos de abuso sexual do que seu antecessor, João Paulo II.

Em 2006, o novo papa puniu o reverendo Marcial Maciel Degollado, de 86 anos, fundador da ordem conservadora Legionários de Cristo, que era acusado de ter cometido abusos sexuais contra meninos há várias décadas.

Conclusão minha: mesmo admitindo tratar-se de uma minoria, imaginem o clima que deve existir nos dormitórios dos seminários, com um monte de rapazes, alguns dos quais com inevitáveis tendências homossexuais, todos carregados de hormônios (testosterona). Ali já deve começar a coisa. Depois, soltos e livres em suas paróquias, não suportam, como qualquer ser humano, as tentações e começam a pôr os pés pelas mãos. Tenho certeza de que entre outras religiões cristãs sérias, que não exigem o celibato – tire-se daí os evangélicos do “descarrego” –, esse problema, se existe, é percentualmente irrisório. Tanto é assim que quase não se ouve falar de escândalos com pastores protestantes, que têm mulher e filhos. Mas a obsessão do celibato tem outras implicações – a maioria de ordem econômica – que o Vaticano não se dispõe a encarar. Muito menos a confessar...

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 22h54
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“Aznar” – um novo verbo espanhol

 

Em português, asno é sinônimo de jumento, burro ou jegue. Também serve para designar o tolo, o parvo, o estúpido. Deriva disso o substantivo ‘asneira’, que é igual a tolice, sandice, dito, ação ou obra que revela ignorância, falta de tato ou de tino. Daí também provém o adjetivo ‘asneirento “, que se aplica à pessoa que faz ou diz asneiras.

Pois, diante das atuais circunstâncias, estou criando um verbo intransitivo a ser adotado pelos espanhóis: “Asnar”. E, para parecer mais espanhol do que português, permito-me a liberdade de trocar o “s” pelo “z” – “Aznar”.

Por coincidência ou mera casualidade, este neologismo já existia na pessoa do ex-chefe do governo espanhol – José Maria ‘Aznar’ – que, justificando a sinonímia e querendo aparecer na mídia lado a lado com Bento XVI, resolveu dar seu pitaco contra os muçulmanos, (procurar no Google: Blog do Orlando Tambosi), com a justificativa de que eles "nunca pediram perdão por invadir a Espanha e ficar ali por oito séculos. Ora, qual é a razão pela qual nós sempre temos de pedir perdão, e eles nunca fazem isso?".

          Ora? - pergunto eu. Que necessidade tinha esse ‘azno’ de vir a público com disparate tão inoportuno? Esquece ele, por acaso, que dizendo o que disse, revolta ou, no mínimo, desagrada aqueles milhares de compatriotas espanhóis que, mesmo não praticando essa religião, trazem no sangue essa inevitável descendência? Pode ele ignorar os problemas que seu país já enfrentou – ou ainda enfrenta – com os movimentos separatistas? Gostaria ele de reacender, com sua declaração “aznática”, esses conflitos que tanto afligiram o país?

          Quando vejo ou ouço um governante agir de maneira assim precipitada, cada vez mais me convenço de que para ocupar cargos de mando – a exemplo do que ocorre no Brasil atual e no Vaticano – o cidadão tem, em primeiro lugar, a obrigação de pensar antes de falar, pois suas palavras, uma vez pronunciadas de modo leviano, podem desencadear as piores reações no populacho.

Fica provado, mais uma vez, que a palavra falada ou escrita, ferramenta fundamental para a convivência humana, é também uma armada perigosa, à semelhança de uma flecha, que, uma vez atirada, não tem volta.

 

            Mario Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 14h13
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ESSE BENTO NÃO TEM JEITO MESMO...

 

Não bastou envolver-se em atritos com os muçulmanos, agora ele resolveu bulir com os próprios “correligionários”.

Sim, porque se o leitor atentar para a palavra em si, verá que ela provém de religião (co-religião).

Já há mais tempo, eu concluí que, para ser um líder genuíno, o cidadão deve reunir talentos mais valiosos que a mera competência, e o primeiro desses é sensibilidade. Outro é sabedoria. Pois Bento não tem sensibilidade nem sabedoria.

Essa história de ser poliglota e falar até o português – hipótese na qual eu não aposto a unha do meu mindinho – não me comove. Gostaria de ouvir um papo seu com o Lula, mas sem intérprete. Duvido que ele não batuque na primeira frase do nosso apedeuta.

Ano passado, meteu-se em confusões na Turquia ao criticar o passado do credo islamita. Foi um "Deus nos acuda” para a diplomacia do Vaticano, que fez das tripas coração no afã de desfazer o que chamou de “mal-entendido”. Não foi isso, não; foi burrice mesmo! Ele não pensa antes de falar, justamente como nosso pequeno timoneiro que, depois das mancadas, desmancha-se em desculpas esfarrapadas – "Não era bem isso que eu queria dizer...” Só que este não goza da indesculpável responsabilidade de ser “infalível”...

Onde já se viu um papa tão inconseqüente a ponto de declarar, alto-e-bom-som, que a ICAR é a “única plena”; que as demais são “incompletas” ou ‘desautorizadas”? Pra que isso, “meu Deus”? Pra que provocar uma legião de cristãos que se não é tão numerosa, é quase tão. Mexeu com os brios de milhões de protestantes dos Estados Unidos e da própria Alemanha, com as maiorias anglicanas da Inglaterra, com os ortodoxos da Grécia, da Rússia e de outros países da Europa Central e Oriental, que também são milhões. Pra quê?

Há coisas que, mesmo erradas, podem ser pensadas, mas não devem ser ditas. Sobretudo por quem foram. Eu e você, leitor(a), podemos dizer o que quisermos; ele, Bento – que tem foro de “estadista” – assim como Lula – não pode.

Um estadista tem de ser sábio, no mínimo criterioso em seus improvisos, e copioso em gestos e atitudes que se coadunem com sua investidura; não pode ser um tagarela, um boquirroto, um irresponsável. E é isso que Bento é.

Tanto, que já penso seriamente em ir colecionando suas gafes para, futuramente, sugerir uma tese de como não se deve comportar em público alguém que carregue o peso de gerenciar multidões de seguidores.

Ter fé no que se prega e apregoa é uma coisa; não medir palavras é outra. Será que não há ninguém no Vaticano com o ânimo de lhe podar essa sistemática e obsessiva compulsão de excretar besteiras e aleivosias?

Caso contrário, esse papinha, com sua mórbida mania de grandeza, entrará para a história como um dos que mais contribuiu para despejar a última pá-de-cal nas ezéquias de uma instituição acostumada a “pontificar” e já não sabe como conduzir-se ou o que fazer para suster a mais que evidente perspectiva de sua derrocada irreversível. Desespero de causa?

Sim, porque não se iludam os prosélitos: por duas razões, estamos assistindo ao desmonte gradativo dessa estrutura milenar: a primeira, pela inconsistência de seus princípios, que a lógica e a razão condenam; a segunda, pela prevalência inevitável dos postulados e das conquistas da ciência, contra a qual não haverá dogmas capazes de subsistir.

Bastará, para isso, que se comprove sem sombra de dúvida – e se comprovará – a existência de vida extraterrena. Só gostaria de estar ainda aqui para testemunhar esse desfecho irrevogável, pois estejam certos de que ele acontecerá neste milênio, talvez neste século. E o Vaticano virará o que sempre foi: um rico e suntuoso museu...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 11h16
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CURIOSO PLANTÃO NOTURNO

 

            Foi na época em que os concursos de Miss Brasil agitavam as massas e ocupavam as primeiras páginas dos jornais e revistas de todo o país. Dois anos antes, uma brasileira tinha perdido o título de Miss Universo por uma miserável diferença de polegadas nos quadris.

         E naquela noite de primavera, a mais nova eleita, uma extraordinária beleza do norte, fazia sua visita oficial a Curitiba e seria homenageada, no Clube Curitibano, pela mais seleta sociedade paranaense.

         Um de nós, moradores de um velho casarão da Rua 15 - a saudosa pensão da Dona Glória, onde só havia catarinenses - chegou, esbaforido, e deu o furo sensacional:

         - Hei, rapazes, vocês já sabem da maior?

          Outro, recostado no catre a folhear uma revista velha, respondeu, distraído:

         - Não, qual é?

         - A Miss Brasil chega hoje a Curitiba, pô!

         - E daí?

         - Daí?... Daí a gente pode ir ver!

         - O quê? Sair de casa? Só pra ver uma Miss? És um loque! 

         Tão delicado qualificativo bastou para mandar a paciência "pro espaço", e teve início o cerimonioso palavreado com que, em semelhantes situações, expressávamos amigavelmente nossos afetos:

         - Não tás vendo que ela vai se hospedar no Grande Hotel, bem aqui na tua frente, sua besta?

          - Como é que tu sabes, oh(!) atilado profeta?

         - E onde havia de ser, seu idiota? Se é o hotel mais granfino da cidade?



Escrito por MaGenCo às 17h30
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        Só de imaginar as possibilidades..., os outros, até então alheios ao mimoso diálogo, ligaram as antenas. Ato contínuo, um se levantou, escancarou a janela para melhor descortinar o futuro panorama visto do terceiro andar e, tiradas as mais otimistas conclusões, virou-se para dentro, todo aceso:

         - Daqui de cima vai dar pra ver tudo, pessoal!

          Outro correu para confirmar e se voltou, desanimado:

         - Com aquelas cortinas?... Tás sonhando!

         - Não dá agora, seu cavalo, porque é de dia. Mas, logo de noite..., com a luz acesa..., se te sobrar um mínimo de imaginação...

         - Cortina é cortina, seu tanso! Mesmo com luz acesa... e imaginação...

         - Não tás vendo que a cortina é de filó transparente, seu animal?... Com a claridade do quarto vai passar tudo!... Que sujeito estúpido!

         - Tás esquecendo, sua toupeira, que a Miss também sabe disso?

         - Mas, com a claridade do quarto e a escuridão da rua, pra ela não vai parecer transparente. Além do mais, essas Misses muito bonitas não são muito inteligentes... como alguém que eu conheço...

         - Queria acreditar nisso..., mas, infelizmente, sou um cético...

         A notícia espalhou-se como um rastilho por toda a pensão, e, quando a comitiva chegou, por volta das oito, puxada pelo Cadillac número 1 do Palácio do Governo, a maior parte da rapaziada, alerta e cheia de fantasias..., luzes devidamente apagadas..., estava estrategicamente encarapitada à janela.

         Havia, no mínimo, quinze gabirus se espremendo e disputando no braço cada brecha do espaço diminuto. Alguns, em desespero de causa, chegavam, com risco de vida, a pendurar-se nas barras de madeira velha que separavam as bandeiras das vidraças desconjuntadas; outros tinham até improvisado uma tosca arquibancada, feita com mesas e caixotes empilhados.

         Quando a beldade saltou e acenou alegremente, uma multidão cercou o carro. O pessoal da segurança se desdobrava para criar um corredor até a entrada do hotel. Daí a alguns minutos, abre-se a ampla porta-janela que dava para a sacada da suite presidencial, no primeiro andar, e ela surge, deslumbrante, enviando beijinhos à massa que delirava em verdadeiro arrebatamento patriótico..., bandeira nacional hasteada e tudo o mais.

         Passado algum tempo, a rua foi-se esvaziando. Sobrava só a galera da arquibancada..., quieta..., ansiosa..., torcendo no escuro..., em silêncio. E a imensa porta de vidro foi sendo fechada lentamente por uma das acompanhantes.

         - Será que essa desgraçada vai fechar a cortina?

         - Claro que vai! Ela não é burra... - cochichou o pessimista.



Escrito por MaGenCo às 17h29
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         Fecha, não fecha..., começaram as apostas...: um sanduíche..., uma cerveja..., uma entrada de cinema. A tensão era enorme..., insuportável... Fecha, não fecha. O cético, que, por via das dúvidas, consentira em tomar parte, já fazia até promessas...

         De repente, a tal fulana começou a puxar uma cordinha no canto da janela..., e a cortina de filó começou a deslizar dos dois lados, como se fosse um pano de teatro a separar o palco da platéia.

         - Eu não falei?... Mas que azar!... E a gente aqui..., sem poder fazer nada...

         - Mas ainda dá pra ver tudo, pô! - sustentou o otimista.

         - E se essa cretina resolver puxar também a cortina grossa? O que é que vai ser de nós? Vamos ficar aqui... chupando o dedo!

         Fecha, não fecha..., novas apostas eram lançadas..., agora com cacife mais alto...: um filé completo no Restaurante Paraná..., uma dúzia de cervejas..., chocolate e leite em pó para duas semanas...

         As mulheres, lá dentro, de fato pareciam indecisas a respeito das cortinas...; uma ia, outra vinha..., espiava para fora e voltava... E a turma..., escondida na escuridão..., naquela angústia desesperada..., roendo as unhas.

         Aí, para surpresa geral, a Miss começou a desabotoar o casaco do tailleur..., depois a saia..., logo em seguida a blusa branca...

         Uma dispnéia paroxística pesou no ar..., opressiva..., impaciente..., unânime...

         - Tira o resto! - estrebuchava um.

         - Não grita, pô! Queres que ela ouça? - arquejava outro.

         - Tira logo!... Tira tudo! - contorcia-se um terceiro, dono do único binóculo da pensão.

         Todo o pessoal morrendo de inveja, e o egoísta..., o desgraçado..., nem aí... Parecia o próprio Galileu a ver estrelas...

         Restava, ainda, a anágua curtinha, que caiu em seguida e ficou amontoada no chão. A comoção foi uníssona..., coletiva:

         - ÔÔÔÔÔÔHHHHHH!!!!!!......

         - Tô dando vintão por uma espiada nesse quatro-olho!

         - Amanhã! - respondia o abençoado.

         - Eu quero agora, pô!

         - Agora, nem por cinquentinha!



Escrito por MaGenCo às 17h28
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        E ali, do outro lado da rua, Miss Brasil, sem saber de nada, de calcinha e sutiã, no esplendor daquela absurda saúde que Deus lhe dera, desfilava "pra lá e pra cá", a experimentar, em graciosas poses, essa e aquela peça de roupa.

         - Deus do Céu! Eu não tô agüentando mais!

         O cara, pendurado na bandeira, estava quase caindo..., a outra mão a empunhar o binóculo que tremia e dava saltos.

          - Esta merda tá fora de foco, pô!

         - Tu vai cair daí, estopô! - foi o aviso agourento.

         Não deu outro bicho. Ele despencou, felizmente para dentro e ficou a estertorar; parecia um ataque epiléptico. Todo mundo pulou no binóculo; era uma carniça, uma batalha campal.

         E após interminável espera, lá embaixo, a Miss começava a tirar o restinho... Lá estavam as mãos, a buscar nas costas as presilhas do sutiã, que finalmente saltou, dando plena e total alforria àqueles dois gloriosos triunfos da natureza...

         Um rugido..., um urro abafado..., invadiu o silêncio, quando a calcinha, afinal, começou a descer em lascivos bamboleios por aquelas coxas suntuosas..., quase metafísicas...

         Que espetáculo prodigioso! Que quadro magnífico! Que cena incrível!... Uma Miss Brasil de verdade..., inteirinha..., ali..., nuazinha..., de frente e de bum-bum..., de cabo-a-rabo..., a fazer o maior streap-tease diante dos olhos esbugalhados daqueles famélicos e precisados mancebos..., diante daquela ignara e atrasada quadrilha de tarados..., daquela malta..., daquela turba enlouquecida.

          - Minha Nossa Senhora! - blasfemava o pessimista.

         - Que mulher! - suspirava o cético, comovido.

         - Nem os jurados viram tanto como nós! - alardeava, cheio de razão, um terceiro.

         - Ai, Jesus! Tende piedade de nós! - praguejava, empoleirado num caixote, o ateu mais convicto da platéia.

         - Ai, meu Pai do Céu, eu quero morrer! - padecia convulsivamente um agnóstico.



Escrito por MaGenCo às 17h27
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        O resto do bando simplesmente arfava..., bramia. E, como tudo que é bom dura pouco..., num instante, lá estava a deusa toda recomposta..., a dar à maquiagem os derradeiros toques..., girando e fazendo passes de modelo diante de um vasto espelho de chão, em cristal bisoté. Estava pronta. Ia sair. Apagou-se a luz. E, num piscar de olhos, reinava de novo a escuridão total e aquele silêncio espesso..., apoplético..., petrificado.

         Ouve-se, então, nascido das trevas, um lamento profundo..., inconformado:

         - Que pena!

          E a indagação perplexa:

         - E agora, pô?

         - Agora?... Agora já era! - filosofa uma voz rouquenha, cheia de sabedoria.

         - Pois eu sei o que vou fazê!... Vou esperá a volta do baile!

         - Eu também! Vou ficá estudando. Tenho prova amanhã... - justifica, descarado, o primeiro malandro.

         - Eu também vou estudá! - resolve, com a maior cara-de-pau, outro notório mandrião.

         - Também tens prova? - é a pergunta inoportuna.

         - Não! Não tenho. E daí? Tens alguma coisa com isso?

         - Eu também vou! - declara, por fim, o mais famoso coçador de saco da casa.

         Depois disso, a decisão foi uma só. Não tenho o menor receio de afirmar, mesmo sem consultar qualquer bibliografia, que “nunca(!)... jamais(!)... em tempo algum(!)”... em toda a longínqua e controvertida história das pensões brasileiras, terá tanto estudante junto, ficado a estudar até alta madrugada sem ter prova no dia seguinte. Propagou-se por aquela cambada de dorminhocos juramentados..., qual virulenta endemia..., uma estranha e contagiosa insônia. Nunca se teve notícia de uma vigília tão coesa..., tão solidária...,  tão santa. Até o pessimista, que também não tinha prova no outro dia, ficou “rachando”.

         De quando em quando, ao mais leve ruído de motor, um se levantava para espreitar a rua deserta. Lá pelas tantas, um dos vigias de plantão, que espichara o pescoço para fora, deu o aviso tão sonhado: 

         - Hei, pessoal! Lá vem o Cadillac!         



Escrito por MaGenCo às 17h26
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         Foi aquela correria. Dessa vez, até o Joel, coroa simpático, marido da Dona Glória, que era nosso convidado de honra – morto de medo de ser flagrado pela mulher – tinha vindo dar sua espiadinha.

         - Que nada, seu Joel! Pode chegar! A dona Glória tá dormindo! - garantiu um dos puxa-sacos.

         O clima era de bestial ansiedade. Acendem-se as luzes da suíte. Miss Brasil entra..., cansada..., e joga displicentemente um buquê de flores sobre a cama.

         - Eu não quero nem que Deus me ajude! - blasfema, já recuperado da crise convulsiva, o dono do binóculo.

         Ouvem-se passos atrás. E uma voz esganiçada de mulher:

         - Joel! Que é que você está fazendo aí?

         - Nada, mulher! - atocha o Joel, apavorado. - Eu tava sem sono e vim bater um papinho com os rapazes...

         Um beliscão perfurante, e o infeliz não consegue conter o grito agudo:

          - AAAAAAi i i i i !!!!!...

         - Passa já pra dentro, seu velho indecente! 

         E lá se foi o Joel, desconcertado e contrafeito, a mentir desculpas esfarrapadas.

         - Quem mandou se casar! - sentenciou, impiedoso, o pessimista. 

         E quando a Miss Brasil começou a desabotoar o longo vestido de baile, aquela mesma velhota excomungada..., aquela bruxa do demônio... veio vindo..., veio vindo..., repulsiva qual aparição mal-assombrada... e puxou a cortina grossa.

 

FIM

        

         Só restou a escuridão abjeta..., impenetrável..., definitiva.

         O vazio repugnante..., o nada.

         E uma revolta imortal..., uma indignação que nunca mais foi embora.

         Dizem alguns, até hoje, que..., no fim..., o grande culpado foi o velho Joel..., que gritou...

 

         MARIO GENTIL COSTA



Escrito por MaGenCo às 17h24
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PROFESSORES

 

Tomando como gancho o depoimento recente de um ex-aluno que, diante de um grupo de colegas, perdeu-se em exagerados louvores aos desenhos com que sempre ilustrei minhas aulas na Faculdade de Medicina, veio-me à mente a lembrança de professores que marcaram minha memória.

E cheguei à inequívoca conclusão de que existem diversas maneiras de um mestre ter seu nome lembrado. Isso não é privilégio dessa ou daquela escola. A rigor, se fizermos uma análise retrospectiva isenta de ânimos, todas têm seus altos-e-baixos e, entre nomes inesquecíveis pelo brilhantismo, iremos recordar alguns que pontificaram pela mediocridade ou menos que isso. Esta verdade vale até mesmo para nosso curso primário ou ginasial.

Minha primeira professora – aquela que me alfabetizou – foi uma dessas figuras exponenciais: Dona Leonor de Barros. Mestra única de um curso particular, dispunha de apenas uma sala nos fundos da própria casa, onde cabiam, em carteiras à moda antiga, quarenta alunos por período. Essa mulher extraordinária era capaz de dar aulas para duas turmas de vinte crianças ao mesmo tempo. De manhã, para o primeiro e segundo anos; de tarde, para o terceiro e quarto. As turmas eram divididas longitudinalmente: duas fileiras de dez, à sua esquerda, para um grau; duas à direita para o outro. E três corredores, por onde ela circulava com um livro em cada mão. Não se ouvia um pio; a disciplina era absoluta. E assim, dando duas aulas ao mesmo tempo com uma didática irrepreensível, ela ia desfilando sua competência ao ponto de fazer de seu curso um dos mais respeitados da cidade. Quem, da minha geração, disser que estudou na “Dona Leonor”, será levado a sério. Comprovei isso diversas vezes.



Escrito por MaGenCo às 21h42
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Aliás – sem falsa modéstia – fui um dos seus melhores alunos, tendo, inclusive, conquistado o primeiro lugar no quarto ano, quando ganhei a medalha de ouro. A propósito, minha esposa - pois foi ali que nos conhecemos - ganhou a de prata. Acho que, em homenagem a esse triunfo, ela, a professora, anos mais tarde, foi minha cliente. Atribuo essa distinção à imagem positiva que deixei impressa em sua memória.

Agora, divergindo um pouco, deixo registradada aqui uma certeza de que não abro mão: no limitado círculo do relacionamento humano em sociedade, o perfil de um cidadão junto a seus iguais é forjado nos bancos escolares; acredito que, na convivência adulta, é ali, nesse longo período preparatório, que se plasma a imagem de cada um; aquele que teve um desempenho negativo nesse ou naquele aspecto, dificilmente será levado a sério no futuro. Claro, há sempre as exceções, mas aluno que tinha fama de pilantra ou, pior ainda, de mal-dotado intelectualmente, até prova em contrário, jamais merecerá a confiança ou o respeito de seus contemporâneos. Tive provas cabais da consistência dessa impressão pessoal e, nesses moldes, sou testemunha de um depoimento que considero emblemático:

- O quê? O fulano formou-se em Medicina? Eu não acredito! Pois fica sabendo que, de mim, ele não tira nem “unha-encravada”.

Desse saudoso curso primário, fui para o Colégio Catarinense, dirigido por padres jesuítas. Grandes mestres, em sua maioria. Foram mais sete anos de aprendizado que me permitiram passar no vestibular de medicina na primeira tentativa. Vale aqui confessar: fui feliz nas questões com ponto sorteado, sobretudo nas provas orais – que, naquele tempo, ainda se faziam.

Abro aqui novo parêntese para dizer que hoje isso não existe mais e, pior, as perguntas são respondidas com um ‘x’, ou seja, nem se afere a competência mínima do candidato no quesito redação. Daí, quem sabe?, a deterioração progressiva do uso escrito e falado dessa bela língua, a meu ver, a mais rica herança que Portugal nos legou e que nos garante a prerrogativa de sermos o único país, entre as dezenas que compõem a América Latina, a não falar Espanhol. Que privilégio!



Escrito por MaGenCo às 21h41
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Retornando à linha anterior deste relato, recordo aqui um episódio marcante: uma semana antes do vestibular, fazíamos – eu e dois colegas – uma visita informal às dependências da Faculdade de Medicina, quando fomos apresentados, num dos corredores, ao diretor, que, ouvindo nossos sotaques floripanos, indagou:

- Vocês vêm de que colégio?

- Do Catarinense, professor.

- Então, já passaram... – foi sua afirmação categórica.

Vejam a que nível chegava o prestígio desse grande educandário que hoje, infelizmente, não tem mais padres em seu corpo docente; só leigos. Abstraindo os aspectos negativos de ordem religiosa, que aqui não caberia discutir, os jesuítas foram sempre grandes educadores. A propósito, meu pai também estudou com eles e, justamente por tudo isso, fez das tripas coração para que os filhos seguissem o mesmo caminho.

Nesse longo período, conheci grandes mestres. Um deles, um homenzarrão de quase dois metros, era o padre-professor de Biologia, que, com tirocínio quase premonitório, dividia as turmas do terceiro científico em duas: “Biologia Forte” para os alunos que fariam Medicina, Odontologia ou Farmácia; “Biologia Fraca” para os demais. Assim, ele podia aprofundar ou simplificar os conteúdos de forma seletiva. Acredito que essa sábia estratégia tenha sido determinante, pois naquele tempo não havia cursinho pré-vestibular em Florianópolis. E os resultados que seus alunos colhiam devem ter motivado o profético comentário do diretor da Faculdade.

Não saberia dizer se a fama desse estabelecimento continua inalterada, pois seu atual corpo docente é composto só de leigos, e sua imagem, talvez até pela multiplicidade de ofertas e a inevitável concorrência, não pontifica como outrora.

Já em Curitiba, na Faculdade de Medicina – como, acredito, aconteça nas demais – tive professores brilhantes, médios e fracos. Uma minoria desses últimos atingia os limites da insuficiência; outros, da loucura quase esquizofrênica, misturada a uma ilimitada mania de grandeza. Houve um, em especial tão complicado, que suas aulas, além de fugirem sistematicamente à matéria do currículo, eram literalmente incompreensíveis a ponto de me convencer de que nunca seria capaz de passar na prova final, cujas perguntas eram esotéricas e imprevisíveis. Pois foi o velho desenho que me salvou: em lugar de responder à questão – que se referia a uma descrição anatomo-cirúrgica - preferi expô-la em linhas e cores. Devo ter sido salvo pelo ineditismo da resposta e pelo confesso entusiasmo do mestre pelas artes plásticas e pela música lírica. Presumo, pois, que se tivesse sido capaz de cantar uma ária da Traviata, também teria sido aprovado...



Escrito por MaGenCo às 21h40
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Houve um outro que era tão confuso em suas explanações, que se saía da aula sem a mínima idéia do que fora discutido. Certo dia, um aluno mais industrioso resolveu gravar – na época, em fita de rolo – todas as aulas teóricas para, em casa, datilografar uma apostila que seria vendida aos colegas do ano subseqüente. A iniciativa vendeu tantas cópias e deu tanto lucro, que foi suficiente para lhe financiar uma curta viagem à Europa no fim do curso. Mas também rendeu um desconfortável mal-estar para o aludido mestre, que, abordado e interpelado por um dos compradores em busca de explicações para uma surrealística teoria gravada, achou-a tão disparatada, que exclamou, em plena aula:

- Eu nunca disse isso! Alguém imitou minha voz!

Em suma, o professor, figura tão presente e fundamental em nossas vidas, pode adquirir contornos variáveis. E, dependendo dos seus talentos – ou da falta deles – pode até entrar para nossa história pessoal como alvo de admiração imorredoura ou foco de comentários jocosos. No primeiro caso, pelo papel preponderante que desempenhou em nossa formação; no segundo – e dependendo do que disse ou deixou de dizer – pelo estrago que nos causou.

Acredito que hoje, com os salários que o magistério oferece, o prognóstico é de que, com a exceção de alguns abnegados, acabe prevalecendo a última hipótese.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h39
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MARIO LANZA - NESSUM DORMA

NESSUN DORMA - DA ÓPERA TURANDOT - DE PUCCINI

 

O GRANDE MARIO LANZA INSPIROU QUASE TODOS OS TENORES ATUAIS, ENTRE ELES, PLÁCIDO DOMINGO E LUCIANO PAVAROTTI. LANZA - QUE INTERPRETOU NO CINEMA O FAMOSO ENRICO CARUSO - MORREU SUBITAMENTE AOS 39 ANOS, MAS DEIXOU UMA MARCA INDELÉVEL NA HISTÓRIA DO CANTO LÍRICO COM SEU ESTILO INIMITÁVEL E SUA VOZ PORTENTOSA. GUARDO DELE A SAUDOSA LEMBRANÇA QUE MARCOU TODA A MINHA GERAÇÃO.

 DIVIRTAM-SE TAMBÉM CLICANDO NO MENU À DIREITA, PARA ASSISTIR A OUTRAS INTERPRETAÇÕES DE NOMES IGUALMENTE FAMOSOS. A MESMA RECOMENDAÇÃO VALE PARA OS QUADROS MAIS ABAIXO - MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 14h00
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MULHER NO BANHEIRO

 

Meu nome é Sidney Wallace Bergier. Sou um escritor profissional com boa experiência, mas ainda não sei como contar esta história. Acho melhor começar dizendo que, no presente caso, sou uma espécie de escritor-fantasma, tradução literal do ‘ghost writer’ americano. Dá-se que fui procurado por seu protagonista que, não tendo maiores intimidades com a palavra escrita, achou que estaria me passando uma espécie de prato-cheio, principalmente depois que lhe confessara dias antes, num papo-cabeça, que andava angustiado com meu atual vazio criativo. Pelo sim, pelo não, pois isso pouco importa, vamos aos fatos:

         Há alguns anos, num sábado ao meio-dia, estava o doutor sozinho em seu consultório, alugado num pequeno prédio central que antes fora destinado a apartamentos de moradia. Lia um artigo cientifico – enquanto aguardava uma cliente com consulta marcada para as 12,15h – quando alguém bateu à porta. Imaginando tratar-se de uma emergência, o médico, recém-chegado à pequena cidade e ávido por trabalho e prestígio, correu a atender. Viu-se diante de uma jovem e linda morena de cabelos longos e de mini-saia, que trazia, na mão, uma maleta de viagem e, nos olhos, um sorriso insinuante:

- O senhor é o doutor Severo?

- Sou, sim. O que a senhorita deseja?

- A verdade é que eu não estou me sentindo bem e...

          - Entre, por favor – convidou o médico.

- Obrigada. Que bom.

         A mulher entrou, e ele, deixando aberta a porta externa, fez um gesto para que passasse à sala de consulta. Ela sentou-se na poltrona à frente da mesa, cruzou as pernas longas e torneadas e aguardou. O doutor, pressuroso, acomodou-se e indagou:

- O que está sentindo?

          - Olhe, o senhor vai achar estranho. Eu não estou doente, não. É que...

- Mas não acaba de dizer que...?

- Aquilo foi uma desculpa pra entrar, doutor. É que eu...

          - Acho melhor ir direto aos fatos – foi o comentário azedo do médico, cuja solicitude já não era a mesma.

          - O caso é o seguinte: eu estou menstruada e sangro muito. Cheguei agora de viagem e preciso tomar um banho. Não conheço ninguém nesta cidade nem tenho dinheiro para um hotel. Estou procurando emprego e...



Escrito por MaGenCo às 10h04
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         O médico, agora, olhava a ex-futura paciente com franco desagrado e não sabia como dar um basta àquele diálogo surrealista. Mesmo assim, deixou-a prosseguir para ver até onde ia sua desfaçatez. E ela foi adiante, em tom provocativo:

         - Então, me lembrei: que melhor lugar para alguém, na minha situação, do que o consultório de um ginecologista jovem e solteiro...

- E como sabia que eu...?

         - Perguntei na portaria, ora esta. Mas, como ia dizendo, pensei...

Interrompendo a conversa fiada, ele foi direto:

          - Então só quer tomar um banho. Pois bem. Aquela é a porta do banheiro. Ali tem tudo. Até absorventes. Entre e sirva-se. Só lhe peço que ande rápido porque estou esperando uma paciente. Dou-lhe quinze minutos. Não mais que isso.

           Ela não se fez de rogada. Num movimento elaborado, descruzou as coxas, ergueu-se e, em passadas sensuais, marchou na direção indicada, enquanto o médico, ainda perturbado, voltou à leitura sem conseguir concentrar-se. O tempo foi passando e nada de ela voltar. O coitado já estava ficando apreensivo, quando o sensor da sala de espera deu sinal de que entrara alguém. Devia ser a cliente, que chegara antes do horário previsto. Ele experimentou um certo pânico, mas, raciocinando com objetividade, achou que poderia contornar a situação. Em primeiro lugar, não precisaria atendê-la de imediato, pois estava adiantada e decerto aguardaria lendo uma revista. Dirigiu-se ao banheiro e deu dois toques na porta:

- Está demorando muito. A cliente já chegou, e eu tenho o que fazer...

- Só mais um instantinho, doutor. Já estou saindo...

         Quase em seguida, a outra, provavelmente angustiada com seus problemas, bate de leve à porta e, ato contínuo, não ouvindo resposta, vai entrando, pois já conhecia o caminho e sabia que, aos sábados, a secretária não trabalhava.

          O ginecologista não teve como impedi-la e, assustado, pôs-se a arquitetar uma explicação razoável para o que estava por acontecer, quando a intrusa surgiu de repente por trás. Já acomodada, a paciente virou-se e deparou com seu sorriso cínico, enquanto, toda maquiada, os cabelos ainda úmidos, comentava, atravessando a sala em direção à saída, com aquele andar típico das manequins famosas:

         - Doutor, estava tudo muito bom. Foi uma experiência muito agradável e reconfortante. E obrigada pelo banho. Só tive um probleminha: a toalha é pequena... e não achei o xampu...

         - Que filha da puta! - pensou o médico, desconcertado. - Nem quero imaginar a cara que eu devo estar fazendo.

         A paciente, horrorizada, já se levantava para sair, quando ele apelou:

- Por favor, a senhora entendeu mal...

- Não, doutor, eu entendi muito bem. Isto aqui não é um consultório. É um...

- Mas não é nada disso. Deixe-me explicar. Eu... Ela estava...

As duas saíram quase juntas, e o infeliz ficou ali sozinho, estupefato, já adivinhando o que conversariam na descida...



Escrito por MaGenCo às 10h02
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         No dia seguinte, a cidade inteira já sabia, e o doutorzinho não teve alternativa: arrumou as malas e sumiu.

- É fácil imaginar: um ginecologista jovem e solteiro, numa comunidade pequena, de interior, tem de...

          - De qualquer forma, você estava inocente. Isso é o que importa – afirmei, para confortá-lo.

          - De que me adiantou isso, se tive de fugir para não ser linchado? E o que estarão aquelas pessoas pensando até hoje?

- Quero dizer que, do ponto de vista ético...

          Ia prosseguir, quando ele voltou à carga, cheio de razão:

         - E do ponto de vista da imagem profissional? E da sobrevivência?

- De qualquer forma, não se preocupe, meu caro. Agora você tem nome feito... não é mais solteiro... está num centro maior...  E tem mais: o tempo passou... - observei para tranqüilizá-lo, quando ele retrucou:

- Que nada, homem! Ela está na cidade.

- Quem?

- A mulher do banheiro! – ele exclamou.

Assustado, contemporizei com o argumento que me pareceu óbvio:

          - E como ela vai saber que você está aqui?

- Ela me viu ontem, na rodoviária...

- Tem certeza?

- Quase. É verdade que me escondi atrás de uma coluna do saguão, mas... E o pior é que estava com uma saia ainda mais curta e com a mesma maleta... Deve ter vindo atrás de mim!

- Agora já é delírio seu. Ela não pode tê-lo reconhecido num relance, tanto tempo depois. Afinal, você deve ter envelhecido um pouco. Até já está meio careca... – consolei-o, brincando, sem acreditar muito nestes argumentos.

- Sei lá. Eu estou com medo. Até suspendi o consultório hoje. Acho que vou viajar... tirar umas férias para deixar crescer a barba...

Não sabia mais o que lhe dizer. E apelei para o humor:

- Pelo menos, amigo, se ela o procurar e estiver menstruada... precisando de um banheiro... cobre a consulta.

- Não teria coragem. Isso não é um ato médico...

O doutor era sério demais, e só me restou esta saída:

- Você não disse que ela é bonita e sensual?

- De fato, é... Mas o que você faria em meu lugar?

- O que você acha?

Ele era tão puro que não me entendeu...

 

S.W.B.



Escrito por MaGenCo às 09h56
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BLUE MOON - DEAN MARTIN

A INTERPRETAÇÃO ORIGINAL, SEM INTERRUPÇÕES, DE DEAN MARTIN PARA ESSA CANÇÃO - BLUE MOON - FOI UMA DAS MELHORES DE SUA CARREIRA DE CANTOR. PERSONALÍSSIMA, POR SINAL. ELE, ALÉM DE UM PORTENTOSO GRAVE, TINHA UM TIMBRE DE VOZ NASOGUTURAL QUE O TORNOU INCONFUNDÍVEL. NUNCA CHEGOU AO ESTRELATO TOTAL PORQUE NUNCA SE LEVOU MUITO A SÉRIO, MAS FRANK SINATRA E SAMMY DAVIS SEMPRE O TIVERAM EM ALTA CONTA. E EU TAMBÉM. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 12h39
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O GRANDE FRANK SINATRA EM SUA INTERPRETAÇÃO ORIGINAL DE "MY WAY", CHAMADO "O SEGUNDO HINO NACIONAL AMERICANO". NO VÍDEO, APARECEM TAMBÉM SAMMY DAVIS JR E DEAN MARTIN, O TRIO DE QUE FALO ABAIXO. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 12h13
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VERDADES E LENDAS

 

Na sala de estar da Unicred, o banco que se transformou – sobretudo às sextas-feiras – num ponto de encontro, quase uma chacrinha de médicos, estava reunida uma seleta roda de sex-ou-heptagenários, todos ex-professores da Faculdade de Medicina da UFSC. Alguns totalmente aposentados; outros ainda em atividade, embora não tanta como outrora.

A conversa, como costuma acontecer nesse tipo de roda, girava em torno de ‘causos’. Cada um tinha sua história pra contar, pois não há profissão – entre todas – que seja fonte mais rica de episódios e vivências incomuns que a medicina.

Claro, conta-se apenas o milagre; nunca o santo, pois o sigilo nos impede de dar nomes aos bois. E nem isso interessa, pois o que vale, mesmo, é o fato vivido em sua crueza.

A rigor, não há médico mais rodado que não traga, na algibeira da memória, uma coleção de lembranças, e algumas alcançam um grau de plausibilidade quase inaceitável. Não sei se as gerações mais recentes têm ou terão a mesma oportunidade, pois eu e os membros desse grupo somos provenientes de uma época em que não havia a atual pletora de colegas, e nossa figura, não tão vulgarizada pelo número, era tida e havida como um oráculo a quem se revelava qualquer mazela com a mesma – ou maior – confiança depositada num sacerdote. Talvez, também, porque esses últimos não sejam hoje, salvo exceções, iguais aos de outros tempos...

Foi aí, no auge dessa troca de depoimentos, que chegou um cidadão, pra mim, totalmente desconhecido: baixa estatura, careca encanecida, barba idem, barriguinha bem nutrida, calculei-lhe quase a minha idade e me surpreendi quando, apresentado protocolarmente com um sobrenome anódino, retrucou com a exclamação:

- Que é que há, professor! Não me conhece mais?



Escrito por MaGenCo às 10h02
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A pergunta embaraçosa me pegou de supetão, mas o “professor” significava que tinha sido meu aluno. Não sou bom em recordar nomes, mas fisionomias, em geral, guardo com certa facilidade. Atribuí, portanto, meu lapso aos anos. Afinal, pela aparência, ele deveria ter sido das primeiras turmas, e já lá se vão algumas décadas.

- Você vai me desculpar, mas...

- Sou o fulano, que sentava sempre na primeira fila e fumava cachimbo...

- Olha, ainda assim...

- Tudo bem. Compreende-se. Naquela época, eu ostentava uma baita cabeleira negra, não deixara crescer a barba e não tinha esta barriga toda. É natural que não se lembre.

O fato é que há alunos que marcam sua passagem pela figura atípica; há os que são lembrados pelo talento brilhante ou por sua ausência absoluta. Há ainda aqueles que se destacam por algum episódio incomum. Esse, entretanto, não preenchia esses requisitos.  

Seja como for, todos calados, nós dois éramos o centro das atrações. E ele continuou, virando-se para o grupo num gesto teatral:

- Este homem aqui – e apontou em minha direção – marcou minha memória, mais que qualquer outro...

- Por quê? – quis saber um dos circunstantes.

O visitante era um desses italianos que, pela gesticulação, pelo timbre de voz e pela palavra solta, logo cativa uma platéia. E continuou:

- Como dizia, nunca me esqueci deste homem. Não tanto pelo que me ensinou, mas pelos desenhos que fazia no quadro-negro. Passou o curso de otorrino inteiro sem usar um slide. (Isto é verdade). Vocês hão de acreditar que, num traço único, ao mesmo tempo e com as duas mãos, ele desenhava duas orelhas iguais em posições opostas?

E eu ali, escutando aquilo, estupefato. Nunca fui capaz de fazer algo parecido, mas, por questão de educação, não vi como desmenti-lo de forma cabal; falava com tal entusiasmo e convicção, que só pude declarar:

- Você é muito bondoso, mas não precisa exagerar.

- Exagerar? Se eu vi? E toda a turma viu?

Por sorte minha – ou azar – não havia ali ninguém da tal turma, e ficou o dito por não dito.

Mas o que resta disso tudo é a constatação do quanto – contra ou favor de alguém – o tempo pode distorcer os fatos e, sobretudo, como, em última análise, “uma imagem vale mais que mil palavras”...

Por fim, não terá sido assim – por conta do imaginário coletivo e da repetição – que se construíram quase todas as lendas ao longo da história?

Inclusive as religiosas...?

 

Mario Gentil Costa

 

 



Escrito por MaGenCo às 10h00
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sammy davis jr

SAMMY DAVIS JR foi, pro meu gosto, a grande voz negra do mundo do show business no século XX; compôs com Frank Sinatra e Dean Martin um trio incomparável. Tive ocasião de vê-lo num Maracanãzinho lotado em 1961, quando deu um recital de canto, dança, bateria, sapateado. Nunca vi tanta versatilidade. Nascido em 1925, morreu em 1990. Em 1954, perdeu um olho em acidente automobilístico, mas nunca perdeu o bom humor. Foi também um excelente ator. Figura insuperável, que não se fabrica mais. MaGenCo  

 



Escrito por MaGenCo às 10h33
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"AJUDANDO O SANTO"

                                                  

        

          Filho de imigrantes espanhóis, Manuel Lorenzo Quezada era seu nome por extenso. O apelido, todavia, era bem brasileiro - Manecão - adquirido no ginásio com pleno merecimento pelo porte avantajado que lhe valera a posição de centro-avante rompedor do time da classe e de imbatível campeão de boxe. Essas, contudo, eram glórias do passado. Mais recentemente, o que ele fazia, com rara pertinácia, era perseguir a sorte. Semana após semana, obstinadamente, comprava o bilhete inteiro da Loteria Federal, e, com olhar sonhador, ficava na expectativa de tirar-o-pé-da-lama. A mulher reclamava que em casa faltava isso, faltava aquilo, e ele nem se abalava. Estava convencido de que um dia, quando menos esperasse, estouraria-a-boca-do-balão. E lhe retrucava que, então, teria tudo que quisesse; casa nova..., carro importado..., jóias, vestidos de grife..., prestígio social etc...

         - Há quantos anos tu dizes a mesma coisa, Maneca? Desde que as crianças eram pequenas. Além do mais, não faço questão de grifes ou carros importados.

         - Tudo bem, mulher, mas tem paciência. Um dia eu ganho...

         - Até lá, estaremos velhos.

         - Calma, mulher, calma! Antes tarde que nunca. Enquanto isso, vou ajudando o santo...

         - Que história é essa de ajudar santo...? - quis saber um compadre que, certa noite, os visitava.



Escrito por MaGenCo às 19h34
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         Manecão, pacientemente, explicou-lhe que um conhecido seu, que ganhara o primeiro prêmio, tinha ido certa vez à igreja para pedir a proteção de São Benedito e não-dera-outro-bicho...; bastara ajudar o santo...

         - Sim, mas, como foi que ele ajudou o santo?

         - Bem..., ele foi lá rezar para ganhar a loteria, e o santo disse:

“Pelo menos, meu caro, compre o bilhete...”

         - Ah, entendi: ele não comprava e queria ganhar...

         - E quando passou a comprar, ganhou... Por isso, eu compro e vou ganhar... - arrematou Manecão.

         - Mas você também foi lá conversar com o santo?

         - Não achei necessário. Basta comprar..., e ele adivinha.

         - Isso é que é ter fé! - concluiu o compadre, que tratou de mudar de assunto.

        

Manecão era um remediado. Aposentado de um cargo estadual por tempo de serviço, não obstante morava em modesta casa própria no centro da cidade, tinha carro, embora de segunda mão, e a maioria dos confortos básicos da vida de um brasileiro médio, além de uma esposa dedicada que o ajudava costurando para fora, e dois filhos quase adultos e estudiosos. Por isso, missão cumprida e sem outras perspectivas, achava-se no pleno direito de se dar a essa mania, como dizia, que se chegava a emagrecer de algum modo o orçamento doméstico, "era a garantia de dias melhores para o futuro da família..."



Escrito por MaGenCo às 19h34
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 O tempo passou e, numa inesquecível quinta-feira, o vendedor de bilhetes - que era sempre o mesmo - bateu, afobado, à porta de sua casa.

         - Seu marido está?

         - Não, ele foi pescar. Por quê? - indagou a senhora.

         O rapaz, olhando para os dois lados da rua e certificando-se de que ninguém o ouviria, aproximou-se da orelha da mulher e, protegendo a boca com a mão, como quem conta um segredo, declarou:

         - Ele ganhou o primeiro prêmio...

         - Não me diga!!!

         - Quando ele volta? - emendou o bilheteiro, pensando na gorda gratificação, tantas vezes prometida, que receberia do velho freguês.

         - Ah, só amanhã.

         - O bilhete está com ele?

         - Claro. Ele não larga aquilo.

- Muito bem. Então, por favor, diga-lhe que eu vim avisar.       

A senhora, perplexa com a perspectiva da extraordinária notícia que acabava de receber, foi logo assaltada por uma antiga preocupação: “O Maneca é cardíaco. Não sei como reagirá quando souber, ele que vive nessa esperança há tanto tempo. E se chegar de repente, o que é que eu vou fazer? Tenho medo de assustá-lo...”

         Não teve dúvida. Telefonou para o cardiologista, velho amigo do marido, pondo-o a par da novidade e pedindo-lhe orientação.

         - Não se preocupe, senhora. Eu me encarrego disso. Peça-lhe para vir ao meu consultório.

         - Mas com que desculpa, doutor?

         - Ah, diga-lhe que eu telefonei; que faz tempo que não mede a pressão; que não faz um eletro; que sugeri que me procurasse.

         - Está bem, doutor. Muito obrigada.

         No dia seguinte chegou o Manecão, carregado de tainhas e tainhotas, completamente alheio aos fatos mais recentes. O bilhete estava enfiado no bolso interno do agasalho esportivo impermeável que usava nas pescarias. Tomou seu banho, almoçou o peixe que a mulher lhe preparara, refestelou-se na poltrona, ligou a TV para assistir ao jornal do almoço e acabou pegando no sono.



Escrito por MaGenCo às 19h33
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         Lá pelas quatro da tarde, cumprindo sua rotina de aposentado, costumava sair para bater papo com os amigos no Senadinho - o café mais popular da cidade - e, engravatado, já se despedia da mulher, que sempre o acompanhava até a porta, quando esta, preocupada com o perigo de que fosse direto à casa lotérica, repetiu-lhe o recado do médico e insistiu, com o argumento de que o consultório ficava na metade do trajeto, para que, antes de qualquer outra coisa, fosse lá.

         - Não, querida, primeiro eu vou conferir o bilhete. Depois vou ao médico.

         Ela ficou desesperada. Não sabia o que dizer para obrigá-lo a inverter a ordem de suas prioridades. Quando ele já acenava do portão da rua, ocorreu-lhe a mentirinha providencial:

         - Mas Maneca, não vai dar tempo. Eu marquei hora para ti às quatro e meia.

         - Ora essa, e por quê? Eu não estou sentindo nada.

         De novo socorrida por uma inesperada presença de espírito, ela retrucou:

- Bem..., é que eu sabia que a essa hora tu estarias livre e, como o doutor se mostrou tão amigo, me pareceu uma maneira de demonstrar nossa gratidão. Além disso, com a hora marcada, não vais ficar esperando à toa. E serás liberado mais depressa...

Manecão não foi capaz de reprimir um alegre ar de admiração diante da força dos argumentos da mulher e, convencido de sua lógica irretocável, congratulou-se com sua inteligência, aproveitando a excelente oportunidade para pôr em prática, como fazia sempre que possível, sua boa política doméstica:

- Tu foste perfeita, minha querida. Tivesse todo mundo uma mulherzinha esperta como eu tenho. Excelente! Vou passar lá antes. Até logo!

         Vendo o sorriso que se estampava na fisionomia da companheira - e que, erroneamente, interpretou como de satisfação pelo elogio, quando, na realidade, era de puro alívio - ele saiu, despreocupado, assobiando uma modinha que, na ocasião, estava sendo muito tocada nas estações de rádio, e que, sem querer, guardara na memória.

         Tão logo Manecão virou a esquina, ela correu ao telefone e ligou para o consultório, dando à secretária e ao próprio médico, as necessárias explicações para a falsa hora marcada. Tudo acertado, voltou à sua lida de dona de casa, concluindo, lá com seus pensares, que valera a pena casar-se com aquele homem bom e honesto, que lhe dera dois filhos excelentes e cujo coração merecia as mentirinhas pregadas.

Enquanto isso, ele, sem pressa, pois o prédio do cardiologista ficava a poucas quadras de sua casa, caminhava pelas ruas da cidade acenando alegremente para diversos conhecidos que cruzavam, e, chegando ao consultório, foi logo encaminhado ao gabinete do cardiologista, que o recebeu com um caloroso aperto de mão:

         - Então, como tem passado, meu caro?

         - Muito bem, doutor.

         - Quantas vezes já lhe pedi para não me chamar de doutor, Maneca? Afinal, somos amigos de infância. Estudamos juntos. Por favor, pare com isso!

         - Ah, é a força do hábito. De mais a mais, um título é um título..., uma conquista que deve ser reverenciada...



Escrito por MaGenCo às 19h31
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Diga-se de passagem que Manecão, embora tolhido pelas circunstâncias da vida a um cargo humilde - pois perdera o pai muito cedo e tivera de abandonar os estudos no nível secundário para ajudar a mãe no sustento dos quatro irmãos mais moços - era um homem, talvez por isso mesmo, sensível à hierarquia social e, leitor inveterado, tinha sabido compensar a falta de um diploma universitário com a aquisição gradativa de uma cultura autodidática acima da média dos seus colegas de trabalho.

- Mas eu faço questão... - replicou o médico.

- Tá bem, tá bem. Vou procurar me lembrar na próxima vez. Mas indo direto ao assunto para não abusar do seu tempo, que é precioso, cheguei da pescaria hoje e, logo que pus os pés dentro de casa, recebi seu recado. Aliás, muito obrigado por seu interesse. Realmente, estava na hora de visitá-lo. Afinal, não sou mais criança, e este meu coração traiçoeiro também não. Tanto é que já me pregou algumas peças.

         - É verdade. E o fato de não estar sentindo nada não é garantia alguma. Já tive casos surpreendentes em pessoas até bem mais jovens. Mas deixe-me auscultá-lo.

         Demoradamente, enquanto pensava na melhor maneira de cumprir a missão que lhe transferira a esposa preocupada, o médico mediu-lhe a pressão, que estava controlada. Em seguida, com o estetoscópio, explorou-lhe em diversos pontos o imenso peito cabeludo. Convencido de que suas bulhas estavam regulares, deitou Manecão na maca e procedeu a um completo eletrocardiograma. Em seguida, submeteu-o a um teste de esforço. Nada que fosse ao menos presumível ameaçava seu velho amigo e cliente.

         - Você está ótimo!

         - Eu sabia. Vim porque me pediu. E também porque seria uma desconsideração. Afinal, não é qualquer um que goza do privilégio de ser chamado por um médico, que nunca lhe cobrou um tostão, para uma simples rotina. E, ainda por cima, com hora marcada...

         - Ora, deixe disso! Amigo é pra essas coisas. Afinal, não valem os gols que fizemos juntos no time do colégio? Na verdade, eu nem teria jeito de cobrar honorários de você...

         - O que seria perfeitamente compreensível. Só eu sei o quanto lhe devo: o tratamento de dois enfartos, um sem-número de consultas e exames, visitas em casa de madrugada. São coisas que não têm preço...

         - Ah, esqueça! Mas... mudando de assunto, você continua comprando a loteria toda semana?

         - Claro! Já é um hábito..., um vício...

         - Há quanto tempo vem fazendo isso, Manecão?

- Eh, já perdi a conta... Uns vinte anos, no mínimo...

- E ainda não perdeu a esperança?

         - Não. Um dia eu ganho. É uma convicção íntima... Sei que parece meio burra, mas é muito forte...



Escrito por MaGenCo às 19h30
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         O cardiologista, impressionado, sentiu-se por um momento tentado a entrar em conjeturas de ordem filosófica acerca daquela absurda certeza, mas, pensando melhor, concluiu que não valia a pena aprofundar a análise, já que os fatos, fosse por puro acaso, fosse por algum estranho tipo de premonição além de sua esfera de conhecimento, a confirmavam, e achou preferível prosseguir de maneira vaga e casual:

- E se ganhar..., o que pretende fazer com tanto dinheiro?

         - Quer saber de uma coisa? Darei a metade a você... - afirmou Manecão num impulso genuíno, com a fisionomia séria e o ar mais compenetrado.

         O médico, ao ouvir a inesperada declaração do amigo, retesou-se de repente, soltou um grito abafado, levou a mão ao peito, pendeu para a frente, bateu com a cabeça na quina da mesa e tombou sobre o tapete. De seus lábios escorria em golfadas uma viscosa baba cor-de-rosa. Seu peito arfava, a respiração estertorava em roncos cavernosos. Os olhos, estampando uma expressão de supremo assombro, estavam revirados, a boca retorcida num ricto esquisito.

         Manecão, estarrecido, saltou da poltrona, abriu a porta que dava à sala de espera e gritou para a enfermeira:

         - Venha depressa! Deu um negócio nele!

Quando esta chegou, trazendo consigo, tirado às pressas da gaveta de sua mesa, um frasquinho com minúsculos comprimidos brancos que, em vão, tentou enfiar-lhe sob a língua, já era tarde; o doutor estava morto.

Sorte do Manecão, que não precisou dividir o prêmio...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 19h30
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O XARÁ

 

         Seu nome era João. E era também sua sina, sua cruz. Um problema intransponível de que não tinha como escapar. Via-se cercado de Joões por todos os lados. Não sabia mais o que fazer.

         - Como vais, Xará?

         - Bem, obrigado.

         - Gostaste da caninha?

         - Que caninha?

         - Aquela que te mandei.

         - Não sei de caninha alguma... - já respondia contrariado.

         - Mas meu empregado disse que entregou...

         - Onde? Quando?

         - Na barbearia..., mês passado, como tínhamos combinado...

         - Tô esperando até hoje...

         - Mas o barbeiro disse que te entregou...

         - Pra mim, não.

         - Tô te dizendo!

         - Ah, não enche o saco. Tá cheio de João por aí. Decerto ele entregou pra outro...



Escrito por MaGenCo às 22h56
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         E assim o nosso João ia sendo confundido com seus homônimos. Se, pelo menos, seu sobrenome fosse Junqueiro Guerra, tudo bem; João Junqueiro Guerra não deveriam existir dois numa mesma cidade; seria coincidência demais. Mas o problema adquiria contornos insolúveis no sobrenome: da Silva.

         O catálogo telefônico da modesta urbe onde ele morava, como é óbvio, não era dos mais volumosos e no entanto trazia, a cada ano, uma pilha crescente de Joões da Silva com mínimas variações nos sobrenomes maternos, via de regra reduzidos à primeira letra - S. (de Souza, Santos, Silveira), P. (de Pereira, Pinto e Pires), O. (de Oliveira), B. (de Batista e outros que tais), C. (de Carlos, Cândido), F. (de Francisco) e, finalmente, J. (de José). Só de “Silvas” continha 15 colunas; quatro páginas incompletas, para não exagerar. E o que era triste: - nosso João, para cúmulo do azar, não tinha sido registrado com o nome ilustre da família de sua progenitora, que era Bernhardt, de origem franco-alemã.

         Em contrapartida, vingara-se nos filhos, um casal. Dera ao menino o nome de Bernardo e, à menina, de Bernarda. Só não pudera evitar os apelidos que a gurizada, adepta inconsciente da simplicidade e da síntese, logo lhes sapecara: um virara Nado, e outra, por questão de semelhança e bom-senso, Nada..., freqüentemente reduzidos, ambos, ao carinhoso diminutivo de Nadinho e Nadinha... 

         João Bernhardt da Silva era, portanto e por extenso, a denominação distintiva a que faria jus se tivesse sido registrado corretamente com o sobrenome da mãe. 



Escrito por MaGenCo às 22h54
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          A propósito, lembrava-se vagamente de ouvi-la contar que, entre os ancestrais da família Bernhardt, houvera, outrora, uma riquíssima atriz de teatro chamada Sara, mulher famosa e bela, espécie de diva dos palcos internacionais. Segundo o relato, Sara, em sua única temporada no Rio de Janeiro a convite do Imperador, viera acompanhada de um primo, que, perdidamente apaixonado por uma mulata carioca, decidira ficar no Brasil, originando-se, desse amor inusitado, uma prole cujo derradeiro descendente seria sua mãe. Essa era a versão que chegara, meio mal contada, até João da Silva...

         “Isso é coisa do passado” - dizia ele com fingida displicência quando perguntado, não conseguindo, todavia, ocultar um indisfarçado orgulho de suas raízes. De fato, no íntimo, não acreditava muito na veracidade da história materna; “um passado incerto, provavelmente sonhado por meus obscuros e expatriados ancestrais...” Era esta a desconfiança que o dominava, e que, infelizmente, não sabia expressar com palavras tão incomuns. Mas o pensamento, conquanto nebuloso, lhe ocorria na essência. E, de qualquer modo, não valia a pena dizê-lo em voz alta. Que ficasse a dúvida no espírito do interlocutor; isso já bastava para massagear seu humilde e calejado ego de João...

         Seu pai, que era José da Silva, bem que tentara transferir-lhe o título materno, mas, pouco lido e letrado, no balcão do cartório, no dia do registro, não fora capaz de soletrá-lo diante do escrivão, que, menos versado ainda, tratara de simplificar a coisa:

         - Olha, qué um conselho, seu José? Vamo deixá isso de fora; é muito complicado. Pra que arranjá confusão pr’a pobre da criança?

         - Tá certo. Despôs..., isso aqui é Brasil. De mais a mais, s’eu nem sei como se prenonceia..., pra que arranjá sarna pr’o menino se coçá. Vamo deixá assim mesmo: João da Silva tá bom; todo mundo entende...

         E João da Silva ficou sem o Bernhardt, que, de um jeito ou de outro, na lista telefônica, seria reduzido a um mero B. e, afinal de contas, não teria mudado muito a confusão, pois só de João B. da Silva, na cidadezinha havia 12 enfileirados, de acordo com o regulamento, numa suposta e estranha ordem alfabética de difícil explicação:

         Silva, João B. da

         Silva, João B. da

         Silva, João B. da

         Silva, João B. da

         ...........................



Escrito por MaGenCo às 22h53
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Não foram poucas as vezes em que se viu envolvido em dificuldades por causa do nome. Até com a polícia tivera de se haver certa feita, -”que não gostava de lembrar” -, quando foi confundido com outro João da Silva, procurado por um crime bárbaro que abalara a opinião pública e agitara a mesmice da pachorrenta comarca. Na ocasião, desfeita a dúvida após uma dolorosa via-crúcis de testemunhas, álibis, depoimentos e prisão preventiva que lhe renderam enorme aflição e uma úlcera no duodeno, procurou um advogado com o objetivo de conseguir suprimir o “da Silva” e substituí-lo por “Bernhardt.”

         “Aí, sim, nunca mais teria preocupações”... - foi o que pensou.

         Mas a resposta veio rápida e terminante:

         - Não é possível, seu João. No máximo se poderia acrescentar o Bernhardt, mas no meio. Não se pode remover o nome paterno... Além disso, o senhor nem imagina a trabalheira de mudar toda a sua documentação...

         - Quer saber de uma coisa, doutor? “Não se pode” porque eu sou pobre... - foi o “despacho despachado” com que João, já aborrecido, encerrou o assunto.

         O advogado tratou de calar-se; sabia que, no fundo, aquela era uma verdade indiscutível. Entretanto, sem perspectiva de uma compensação financeira adequada, sufocou a consciência e não se animou a enfrentar um processo tão complicado.

         E a última palavra, como sempre, ficou para o João, que, diante do silêncio embaraçado do causídico, declarou em plena barbearia, alto-e-bom-som, para que todos ouvissem:

         - Não tem importância, doutor. Quando eu ganhar na loteria, resolvo essa parada num instante...

         E, de barba feita, virou-lhe as costas e saiu, assobiando uma modinha popular que estava em voga na estação de rádio. Entrou na loja ao lado, que era um misto de engraxataria, cigarraria e casa lotérica, mas, como não tinha motivos para acreditar na sorte e estava quase sem dinheiro, limitou-se a comprar cigarros e lustrar suas surradas botinas. O tempo passou, e ele se esqueceu do assunto.



Escrito por MaGenCo às 22h52
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         Um dia, o nosso pobre João da Silva, que, apesar da humildade hereditária, era um cidadão honesto e cumpridor dos seus deveres, foi chamado a um dos dois bancos da cidade, onde mantinha uma modesta conta. E o gerente, que não queria perder fregueses, - já não muito numerosos na redondeza -, declarou, escolhendo as palavras:

         - Pois é, meu caro. Estamos com este pequeno problema: seu cheque ultrapassa o saldo. Vai depositar a diferença ou quer fazer um papagaio?

         E estendeu-lhe o papel. João, assustado, respondeu, antes de lê-lo:

         - Este cheque não foi assinado por mim, doutor.

         - Como não? Tem sua assinatura...

         - Deixe ver. Tá parecida, mas não é minha... - respondeu ele, depois de olhar demoradamente.

         - Está vendo? A numeração do talão confere...

         - Decerto me roubaram...

         - E como não deu pela falta?

         - Ah, eu quase não uso isso. Pago tudo com dinheiro...

         O gerente, contrafeito e já antevendo dificuldades, retrucou com cautela, pois conhecia seu pavio curto:

         - Seu João, não me leve a mal, mas o senhor poderia assinar seu nome aqui neste rascunho? Só para a gente comparar? Afinal, se o talão é seu...

         João, a contragosto, tomou a caneta esferográfica que lhe era oferecida e assinou, devagar e cuidadosamente, para não cometer erros: João da Silva.

         O leitor, acostumado a assinar seus cheques com a rapidez e a desenvoltura automáticas de pessoa instruída que é, há de convir em que é bem mais fácil imitar a assinatura de um semi-analfabeto, - que, a rigor, não passa de um garrancho escrito com lentidão e incerteza -, do que sua bela e floreada firma, da qual tanto se orgulha.



Escrito por MaGenCo às 22h52
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         E um clima de dúvida, cruel e impiedosa, cristalizou-se no ar. Mas João, que, apesar de tudo, zelava por seu nome corriqueiro, logo solucionou a questão e, olhos fitos no gerente, declarou orgulhosamente:

         - Tô vendo que não acredita em mim, doutor. E já que é assim, vou pagar. Se o cheque era meu...

         - Sinto muito, mas o senhor compreende. Sou apenas um gerente...

         - Eu sei que a responsabilidade é minha - repetiu com a maior dignidade, emendando com indisfarçada resignação, sem deixar, todavia, de imprimir à voz uma velada inflexão crítica: - O banco é que não pode perder... Nunca!

         - Isso é praxe, seu João. Não sei o que dizer...

         - Então não diga nada. Só queria lhe pedir um favor...

         - Pois não! Estou às suas ordens...

         - Encerre minha conta.

         - Mas seu João, por favor... Não era isso que eu pretendia. Parece que não me entendeu...

         - Não, eu entendi perfeitamente.

         - Eu apenas...

         - Eu compreendo, doutor. Mas prefiro assim.

         O gerente, sem outra escolha, calou-se, e ele saiu de cabeça erguida. Ao chegar à rua, enfiou inconscientemente a mão no bolso à procura de cigarros. Não sobrava um. E estava louco para fumar. Entrou na cigarraria. Comprou um maço. Deu uma profunda tragada. Já ia saindo, quando, de repente, através do vidro, viu um colorido bilhete da Loteria Federal, cujo número, no jogo do bicho, corresponderia ao do burro. Não conseguiu desgrudar os olhos do mesmo. E, num impulso imperioso, comprou-o inteiro com o último dinheiro que lhe restava.

         No dia seguinte, estava rico. A notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora. João da Silva, como num passe de mágica, era a figura mais ilustre, o potentado da cidade. Alugou o salão do clube e ofereceu uma festa a que compareceram, obsequiosos, o vigário, que estava na campanha do tijolinho para elevar, ainda mais alta, a torre da matriz; o neutro e isento delegado, que, “cumprindo seu dever...”, o prendera sem provas por suspeita de assassinato; o advogado que não quisera defendê-lo nem ajudá-lo a trocar de nome; o João da caninha, trazendo-lhe, de presente, um genuíno conhaque francês V.S.O.P.; os dois ansiosos gerentes de banco; o ilustre presidente do partido da situação oferecendo-lhe uma candidatura nas próximas eleições; o prestativo e filantrópico representante da LBV; o virtuoso e desapegado pastor da Igreja Universal do Reino de Deus; Sua Excelência, o prefeito, que, em vibrante discurso, lhe acenou com o título de cidadão benemérito e o nomeou seu assessor especial; e um sem número de “novos e espontâneos amigos”...



Escrito por MaGenCo às 22h51
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         E tudo mudou rapidamente. Inclusive seu nome, que, graças ao empenho “desinteressado” de outro advogado, recém-chegado à comarca, era agora irreconhecível. Até a nova lista telefônica, “já no prelo, mas, felizmente, ainda em tempo hábil...”, segundo declararam seus responsáveis, foi compreensiva e imediatamente alterada e agora anunciava, em negrito maiúsculo:

         BERNHARDT, JOÃO DA SILVA (Por extenso e contrariando a praxe, em homenagem póstuma a seu pai, cuja intenção, afinal, fora ingênua e pura).

         Toda sua imensa fortuna foi parar no banco concorrente. É supérfluo dizer que o gerente do primeiro, que lhe cobrara o cheque indevido, foi substituído e sumiu; e que o antigo advogado deixou a cidade com destino ignorado...

         Quanto ao João, sabe-se que “tá nas Oropa..., numa tal de Paris”..., aonde foi escarafunchar seu propalado parentesco com Sara Bernhardt. E, a se confirmarem as notícias divulgadas com exclusividade no matutino local, era tudo verdade...

         De acordo com um sensacional furo de reportagem, estaria em jogo, além de uma vultosa e inesperada herança - pois a artista tivera apenas um filho que morrera em seguida sem deixar descendentes - um verdadeiro título de nobreza, um baronato com palacete, brasão e tudo, de modo que é mais que provável que novas mudanças - de simples Bernhardt para von Bernhardt - tenham que ser introduzidas nos registros do cartório, na documentação correspondente e na lista telefônica seguinte..., que, das páginas B, transferiria prazerosamente” nosso João para as páginas V, figurando, então, também em negrito, dessa vez em letras góticas:

        VON BERNHARDT, JOÃO DA SILVA.

         Segundo declarações antecipadas do prefeito em entrevista dada à estação de rádio local, a legitimar-se tão auspiciosa perspectiva, nada disso constituirá problema...” Repetindo as franciscanas palavras do mandatário, ouvidas por toda a população no sistema de alto-falante da praça da matriz, “é dando que se recebe, e a comunidade está sempre aberta ao diálogo...”

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 22h50
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ATAQUE DE BICHA

 

         Houve época em que ia com alguma freqüência à Barra da Lagoa, quando os filhos eram pequenos e ainda não escolhiam seus caminhos. E numa dessas idas, acabei topando com uma experiência insólita e embaraçosa: um ataque de bicha...

         O carro estava cheio - eu, minha mulher, três filhos pequenos, meus sogros e a mãe de minha sogra, uma velhinha gorda e simpática. Eram, ao todo, oito pessoas dentro de um Gordini. As crianças, naturalmente, iam no colo dos adultos.

         O caminho era o mesmo de hoje, mas sem asfalto. Primeiro, o morro cheios de curvas e despenhadeiros. Depois, contornando a Lagoa e tomando à esquerda, um segundo morro. E lá fomos nós, subindo e descendo.

         Quando saltamos, mal eu tinha iniciado alguns passos pelas cercanias - e todos faziam o mesmo de forma desordenada, curtindo, cada um à sua maneira, a paz e o silêncio do lugar - comecei a ouvir uns gritos ao longe. Não sabia de onde vinham. Era um choro angustiado e muito alto, como o de alguém com muita dor. Daí a pouco, tudo silenciou.

         Quando menos esperava, surgiu de dentro do mato, caminhando por uma trilha estreita que desaparecia entre as árvores, uma mulher já de certa idade, carregando nos ombros uns galhos de folhagem. Quando nos viu, parou, cobriu a testa com a mão para proteger os olhos do sol e permaneceu em atitude de curiosa observação. Então, como manda a boa educação, resolvi cumprimentá-la:

         - Bom dia!

         - ...dia - respondeu, singela, como fazem, aliás, essas pessoas de origem açoriana que vivem no sítio.

         Como não disse mais nada, fiquei calado e desviei a vista. Ela aproximou-se, parou e, de repente, falou em minha direção:

         - O senhô, por acaso, é dotô?

         Só podia haver uma explicação para tal pergunta: um adesivo plástico no pára-brisa, com a cruzinha da medicina.

         - Sou, sim, por quê?

         - Ah, dotô, foi Deus que mandou o senhô aqui!

         - Por que diz isso?

         - O senhô não ouviu uns grito de pessoa chorando?

         - Ouvi, sim. Que era aquilo?

         - É lá em casa. O meu filho. Ela tá assim desde onte. Eu já não sei mais o que fazê. Vim buscá essas erva pra fazê um chá, mas já sei que não vai adiantá quás nada. O pobrezinho tá se torcendo de dô. O senhô não podia dá uma olhada nele?

         - Claro. Onde é a casa?



Escrito por MaGenCo às 11h01
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         - Por aqui. Pode me acompanhá. É logo ali... - E ela apontou para a vereda de onde viera. Segui atrás, dizendo a meu pessoal:

         - Eu não demoro.

         O caminho era tortuoso e estreito, uma verdadeira picada. Em certos pontos, era até escuro, coberto por uma espessa vegetação de galhos entrelaçados, alguns tão baixos que obrigavam a gente a se curvar.

         - Isso é uma picada, não é? - perguntei.

         - É, sim, dotô.

         - E onde fica a casa? No fim da picada?

         - É, dotô. Tá com medo?

         - Medo de quê, dona?

         - Da picada, ora.

         - Se não for de cobra...

        

         Seguimos até um pasto onde uma porca, uma vaca e meia dúzia de galinhas conviviam pacificamente fuçando o chão. Do lado oposto, uma casinha branca, de alvenaria. Ela dirigiu-se para lá, e eu a segui.

         - É aqui, dotô.

         Arriou o molho junto à parede da casa, esfregou uma mão na outra e, em seguida, me convidando, abriu a metade inferior da porta:

         - Faz favô de entrá, dotô, e não repare..., é casa de pobre.

         Num quartinho acanhado, no fundo do corredor, um rapaz franzino, dos seus dezessete anos, contorcia-se em posição fetal, comprimindo o ventre com as mãos. Não chorava, mas estava pálido, e seus olhos, quando deram comigo, tinham uma expressão de grande sofrimento. Sentei-me à beira da cama e disse:

         - Bom dia. Eu sou médico. Onde está doendo?

         - Sinto muita dô aqui.

Ele indicou um ponto alto do abdome, logo abaixo da junção das costelas, que os médicos denominam apêndice xifóide. É a base do osso esterno.

         - Deixe ver. Vire-se de barriga para cima e estique as pernas.

         - Assim dói muito! - ele protestou, gemendo.

         - É só um instante, para examinar.



Escrito por MaGenCo às 11h00
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         Eu sou um otorrinolaringologista; quase nada entendo de barriga. Mas tinha de fazer alguma coisa, pelo menos fazer de conta. À palpação, não cheguei a qualquer conclusão. Podia ser tanta coisa...

         O que fazer? Fiquei ali, observando e fazendo algumas perguntas que pudessem auxiliar meu raciocínio e procurando relembrar as antigas noções clínicas sobre dor abdominal. Verifiquei que não havia febre. Havia, isso sim, dor, sudorese, palidez, náuseas e vômitos.

         De repente, começou uma nova crise. O garoto se torcia todo e vomitava, num urinol, um líquido bilioso. Algo precisava ser feito. Do contrário, de que valia minha presença ali?

         - Existe alguma farmácia aqui perto, dona?

         - Aqui não tem nada, sinhô!

         - Então, vou ter que levá-lo para a cidade, para o hospital...

         - Tá bem, dotô. O que se há de fazê...

         Enquanto durou a conversa, a dor aliviou. E antes que voltasse, era melhor agir.

         - Onde está seu marido?

         - Ah, ele tá no mar... pescando.

         - Vou deixar meu endereço e telefone. Logo mais, de tarde, ele desce e me procura. Certo?

         Foi um trabalho carregar o mocinho pela picada. Felizmente, ele era miúdo, porque quase tive de transportá-lo nos braços. Ela procurava ajudar, mas, naquele caminho apertado, não conseguia ser de muita valia.

         Trabalho maior, contudo, foi arranjar espaço para ele dentro do Gordini. Espreme daqui, espreme dali, até que conseguimos encaixá-lo no canto direito do branco traseiro. Todo mundo “acomodado”, dirigi-me à mãe que, aflita, olhava o filho através da vidraça.

         - Se tivesse lugar, eu levaria a senhora também, mas aqui não cabe nem mais uma mosca - justifiquei.

         - Deus há de lhe pagá, dotô - foi o que a ouvi exclamar, enquanto arrancava.

         Minha preocupação mais imediata era subir, com tanto peso, aquele morro empinado. Por sorte, havia, antes, uma longa reta, de modo que pude acelerar bem o motor. E consegui. Carrinho macho! Só restava o “morro das sete curvas”, mas esse, apesar de tudo, era mais suave.

         Pelo caminho, eu vinha imaginando o que seria melhor fazer com o rapaz que, felizmente, vinha quieto e encolhido ali atrás. Era domingo, e, naquele tempo, não havia clínicos de plantão; teria de tirar algum de casa, em hora de almoço...



Escrito por MaGenCo às 10h59
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Ninguém falava durante o trajeto. Até as crianças, de habito tão tagarelas, inconscientemente respeitavam a dor do menino ou, então, estranhavam a presença de um desconhecido no carro.

         Chegando em casa, resolvi examiná-lo de novo antes de subir ao hospital. “Por que não tentar um Baralgin na veia e um Dramin via oral?” Isso eu tinha em casa, e mal não poderia fazer. Foi o que fiz e, enquanto aguardava o efeito, fui tomar um banho. Quando acabei, fui vê-lo. Dormia, relaxado e tranqüilo, e não achei conveniente despertá-lo, pois, decerto, tinha passado mal a noite. Acordou lá pelas três horas e tomou, sem dificuldade, uma canja especialmente preparada. Não teve náuseas nem vômitos. Estava sereno, até mesmo alegre, brincando com as crianças que, curiosas e já mais à vontade, volta-e-meia iam vê-lo deitado. Era um mocinho simpático e muito comunicativo.

         Por volta das cinco da tarde, chegou o pai, cidadão dos seus quarenta e cinco anos, baixo, rijo e queimado do sol, pele curtida, bastos cabelos crespos já encanecendo nas têmporas. Um homem simples, bem vestidinho, asseado e muito respeitoso.

         - Boa tarde, doutor. Eu sou o pai do Zeca. Vim saber como ele tá.

         - Boa tarde, meu caro. Ele está bem. Ao invés de levá-lo direto ao hospital, eu resolvi observar mais um pouco e fiz uma injeção na veia. Depois disso, para minha surpresa, ele não se queixou mais e talvez nem seja preciso fazer mais nada. Pretendo deixá-lo em observação até amanhã. Se continuar assim, pode vir buscá-lo de tarde. Quem sabe?

         - O senhor tá dizendo que ele vai dormir aqui?

         - Ué? E por que não?

         - Ah, doutor, isso é demais. Não tem cabimento.

         - Não tem cabimento por quê? Não se preocupe; este quarto está vago. E tem a vantagem de eu estar por perto, se, por acaso, for necessário levá-lo ao hospital durante a noite... Já pensou..., trazê-lo de novo daquela lonjura?

         - Nesse caso, se o sinhô acha melhó, eu tô de acordo. Então, já vou indo. Amanhã, ‘dispôs’ do almoço, eu tô aqui. Só não sei como agradecê...

         - Ora, não se preocupe com isso. Não tive trabalho algum. Foi só uma carona e uma injeção. E, de qualquer jeito, eu não tinha de voltar para a cidade?

- Tudo bem. Então, até amanhã, se Deus quizé. E tu, Zeca..., vê se não vás arranjá mais coisa pra incomodá o dotô, hein? Até amanhã...

- Bença, pai.

- Deus te abençoe, mo filho.

         O resto do domingo foi de paz. Para manter o efeito, acrescentei umas gotas do mesmo medicamento, e o paciente dormiu a noite toda. Acordou bem disposto, foi alimentado com chá, torradas e outra canja. Saí para trabalhar cedinho e, quando voltei para o almoço, já o encontrei levantado e contente. Às duas horas, veio o pai que, depois de muitos agradecimentos e promessas de gratidão imorredoura, carregou-o consigo de volta à Barra da Lagoa.



Escrito por MaGenCo às 10h58
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         Na ocasião, contou-me que trabalhava embarcado num desses navios pesqueiros que percorrem a costa sul do Brasil, já tendo, então, conhecido todos os portos do país até o Rio de Janeiro, e que, dois dias depois, estaria de partida para mais uma viagem que duraria cerca de dois meses. Mas que não se esqueceria de mim...

         Três meses passaram e já me esquecera inteiramente dos dois personagens. Um belo dia, bate à minha porta o nosso marinheiro-pescador, trazendo uma enorme caixa de isopor, cheia até a boca de belíssimos camarões cor de pérola e do tamanho de uma pistola.

         Com aquela raridade, preparamos um delicioso jantar, para o qual convidamos alguns amigos. Durante o encontro, contei-lhes detalhadamente o sucedido, e um deles, que hoje é famoso cirurgião, até comentou, brindando:

         - Esse quadro sugere ascaris no colédoco. Da próxima, você pode ir me pegar lá em casa até de madrugada. Por um camarão desses, eu faço qualquer sacrifício...

         Até que não seria má idéia, pois uma vez tinha dado certo, mas se voltasse a acontecer, seria indispensável chegar a um diagnóstico de certeza. E isso eu, como otorrino, não havia conseguido, embora a hipótese levantada fosse a mais provável.

Colédoco é um canal das vias biliares onde podem alojar-se vermes da espécie Ascaris lumbricoídes. A dor causada costuma ser fortíssima. É isso que o povo chama de “Ataque de Bicha”.       

Mas para sorte do Zeca e azar do amigo cirurgião, nunca mais aconteceu. Pelo menos, que eu saiba... Mesmo assim, continuei ganhando camarões e peixes raros que, somados, já ultrapassavam em muito o valor do serviço que