MaGenCo


A RAZÃO DA REPUBLICAÇÃO DESTA FOTO É MOSTRAR A TEXTURA QUE CHAMEI DE "PALHA-DE-AÇO" OBTIDA NAS TRÊS CORES. A FOTO MOSTRADA OUTRO DIA, ALÉM DE SAIR COM AS LATERAIS TRUNCADAS, NÃO TINHA A MESMA NITIDEZ. O QUADRO, INTITULADO "RIBALTA FLAMENGA" É DE 1987. É UMA TÉCNICA MISTA SOBRE PLACA PRENSADA. EMBORA ABSTRATO, SUGERE UM F MAIÚSCULO, UMA BOLA, OVALADA PELA ANTIGA VELOCIDADE DO FLAMENGO DO ZICO & COMPANHIA, QUE GANHAVA TODOS OS TÍTULOS, E UM PALCO MUNDIAL ONDE AQUELA ORQUESTRA SINFÔNICA SE EXIBIA. COM AS DESCULPAS E O ABRAÇO CORDIAL DO MAGENCO.

 

 



Escrito por MaGenCo às 18h43
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O RADIOAMADOR

 

 

         Quando Marcos Gentile decidiu estudar medicina, teve de ir para fora; - ainda não havia faculdade em Florianópolis. Uma viagem de ônibus a Curitiba levava dez horas. Ou treze, quando chovia muito. Era uma epopéia. As estradas, estreitas e sinuosas, eram de chão batido e ficavam quase intransitáveis. Não raro, o ônibus atolava. Os rios, que eram atravessados de balsa, transbordavam. Quando não chovia, era uma buraqueira danada que, no mínimo, furava pneus ou quebrava molas. Chegava-se ao destino com o corpo todo dolorido. Até na uretra havia poeira. Era como desembarcar de uma diligência no faroeste bravio.

NOTA À PARTE: FOI O GRANDE JUSCELINO KUBITSCHEK QUE RESOLVEU ESSE DRAMA. Não o JK da Rede Globo; sim o verdadeiro... Dito isto, continuemos nossa história.

          A falta de recursos, entretanto, não se limitava a isso. As comunicações da época se resumiam às cartas para o noticiário de rotina e ao telégrafo para as emergências, tais como pedir reforço de verba para pagar o quarto da pensão ou reabastecer o farnel já reduzido. O telefone era uma anedota; a ligação demorava horas e, quando saía, depois de penosa espera, não se entendia quase nada. Celular era ficção científica; só o super-homem tinha. E Internet... nem ele...



Escrito por MaGenCo às 15h17
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        Mas seu pai era radioamador e tinha amigos por lá. Sempre atento aos imprevistos, conseguiu de um deles que lhe franqueasse o estúdio, chamado, na gíria da classe, de “Chaque”. Gentile o visitou pela primeira vez para se apresentar e agradecer a cortesia. Era um sábado; foi convidado para o almoço e, faminto, aceitou de bom grado. Aliás, já fora naquela hora de propósito...

E a partir daí, passou a freqüentar a casa nos fins de semana, quando se compensava da comidinha da pensão com uma suculenta macarronada italiana ou um churrasco bem temperado. Algumas vezes, mesmo sem necessidades imediatas, usou o chaque para falar com os velhos, que ficavam muito satisfeitos.

        O radioamador, entretanto, tinha um sério defeito: - odiava médicos.

E, para atenuar sua agressividade, cuja origem o estudante desconhecia, – talvez alguma experiência pessoal ou familiar desastrosa no passado, – ele sempre começava seus desabafos com a justificativa:

        - Note bem, o que eu vou dizer não é dirigido a você, que é apenas um acadêmico. Ainda não é médico. Portanto, não pode ficar ofendido. Mas essa é a pior classe que existe. Veja, por exemplo...

Escrito por MaGenCo às 15h16
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        E os ouvidos de Marcos eram bombardeados com as mais tenebrosas barbaridades perpetradas por médicos. Isso, para não falar nos comentários sobre o desmesurado enriquecimento de certos “carniceiros”, como chamava a todos. O aborto ilícito era outro de seus assuntos prediletos e citava os nomes dos “fabricantes de anjinhos” da cidade, que eram classificados, à moda olímpica, pela nobreza do metal de suas famosas curetas: ouro, prata e bronze.

        Afora isso, o radioamador era um excelente sujeito, cuja hospitalidade Gentile nunca teve ocasião de retribuir. Tinha duas filhinhas lindas, com cerca de 10 e 12 anos, figurinhas de Renoir, ambas retratadas em crayon pelo estudante, que, nas horas vagas, era um bom desenhista.

Bem, o tempo fluiu, e ele se formou. Foi para o Rio de Janeiro fazer sua residência e retornou a Floripa, onde se estabeleceu. Perderam, assim, o contato freqüente e, nas poucas vezes em que se viram, talvez pelo fato de já estar diplomado, o paranaense teve a delicadeza de se conter e não lhe contou mais suas histórias anti-médicas.

        Um dia, dez anos passados, esbarraram no calçadão da Rua 15. Gentile tinha ido a um congresso. Estreitaram-se num abraço efusivo e, depois de um papinho protocolar, veio o dito em voz baixa, meio contrafeito:

Escrito por MaGenCo às 15h14
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        - Marcos, meu rapaz, eu lhe devo uma explicação.

- Explicação?

- E um pedido de desculpas. Lembra-se de minha sistemática agressividade contra os médicos?

- Ora, todos temos o direito à livre expressão do pensamento.

- Mas não no meu caso. Não sei se foi castigo divino ou mero capricho da vida...

- Não estou entendendo, meu caro.

        - Minhas duas filhas, que você conheceu e até desenhou, casaram-se com médicos...

- Que bom!

- Que bom, não! Que ótimo! Nunca vi dois sujeitos tão íntegros. Trabalham como dois cavalos. Operam, dão plantões, atendem emergências todas as noites e estão sempre sorrindo... E o pior!: - não ganham um décimo do que merecem!

- Mas isto não é novidade. É nossa rotina e nosso fardo...

- Agora eu também sei! Mas só agora! Foi preciso essa dupla e feliz coincidência para que aprendesse a não generalizar. E quero me penitenciar por todas aquelas brutalidades que dizia contra sua classe.

Os dois amigos se abraçaram de novo, comovidos. Gentile voltou a Floripa, reconfortado. Só não imaginava que aquela seria a última vez. O radioamador morreria de infarto algum tempo depois.

E o médico, que, na época, já começava a sofrer suas primeiras desilusões, - que não foram as últimas..., - também criou ânimo novo e tocou a vida em frente.

 

            Mário Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 15h13
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INICIEI ESTE "OTORRINO SORRIDENTE" SEM MAIORES PRETENSÕES, MAS ELE ACABOU SE TORNANDO UMA DAS PEÇAS DE QUE MAIS GOSTO. ILUSTRA TAMBÉM UMA PAREDE DO MEU CONSULTÓRIO, AO LADO DO "LABIRINTO", MOSTRADO MAIS ABAIXO, COMO SE O ESTIVESSE EXAMINANDO. A FOTO REGISTRA A FASE EM QUE A PARTE NOBRE, A ALMA DA ESCULTURA, ESTAVA PRONTA, E SÓ FALTAVA ARREMATAR OS ARREDORES, ONDE SÃO VISÍVEIS OS GOLPES DE GOIVA. - O POLEGAR QUE PODE SER VISLUMBRADO À DIREITA, EM CIMA, É DE MINHA ESPOSA, ENQUANTO O SEGURAVA AO SOL TANGENTE DE UM ENTARDECER DE VERÃO, NA PRAIA. OBSERVE-SE O TAMANHO EXAGERADO DA ORELHA, O SETOR DA ESPECIALIDADE QUE SEMPRE ME EMPOLGOU MAIS. VALE COMO DOCUMENTO. OUTRO DIA, MOSTRAREI A PEÇA ACABADA. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 19h27
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Este entalhe, trabalho meu de 1978, esculpido em madeira de cedro-rosa - com o título atual de DELICATESSE - apresenta uma particularidade: se a imagem for invertida, tem-se a impressão, em consequência de um surpreendente efeito óptico, de que as reentrâncias se transformam em saliências. Por isso, ele está sendo mostrado em duplicata. O curioso é que, ao vivo e sob o mesmo ângulo de incidência da luz, o fenômeno não se repete. Abraços. MaGenCo

 



Escrito por MaGenCo às 09h36
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Relevo em madeira cedro-rosa, intitulado TRANSPASSES, medindo 40 x 60 cm. No momento, ele ilustra como fundo a tela do meu computador, estando os ícones distribuídos pela área ao redor, que recebeu uma textura granulosa diferente do miolo à custa de pacientes (e cansativas) microperfurações com estilete. O mesmo recurso foi aplicado no trabalho que segue, intitulado Labirinto, em que este detalhe, em função da nitidez da forto, é mais facilmente percebido. Foi esculpido em 1979. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 09h24
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Este entalhe em cedro-rosa, com 38 x 60 cm, intitula-se "LABIRINTO". Foi esculpido em 1978. Em virtude de aludir à anatomia do ouvido interno, só pode ser apreciado na posição em que se encontra. Os médicos, sobretudo os otorrinos, poderão distinguir aí os elementos que compõem o conjunto: o oval do tímpano, a cadeia dos ossículos (Martelo, Bigorna e Estribo), o triângulo luminoso, as janelas oval e redonda, o órgão de Corti (com suas colunas de células ciliadas internas e externas), as rampas vestibular e timpânica, a trompa de Eustáquio (ou tuba auditiva), o saco endolinfático, o aqueduto do caracol, as espiras da cóclea, os três canais semicirculares do aparelho do equilíbrio. O resultado é de uma fantástica harmonia estética e prova que a Natureza é exímia em produzir obras-de-arte. Abraços do MaGenCo 



Escrito por MaGenCo às 09h15
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O SABICHÃO

(Pequena peça)

 

           

(Cena I: - no consultório)

            - Seu filho precisa ser operado, dona.

            - Operado, doutor? - pergunta ela, assustada.

            - Das amígdalas e das adenóides... E ainda vai precisar de drenos nos ouvidos... - completa o médico, com serenidade.

            - Mas não há outro jeito..., sem operar?

            - Já fizemos várias tentativas..., mas ele não melhorou; continua com crises agudas freqüentes, dorme de boca aberta e já apresenta uma deformação na arcada dentária. Além disso, está ficando surdinho, não notou?

            - Preciso conversar com meu marido, o senhor compreende...(?)

            - Claro! Fique à vontade.

            Mãe e filho somem. Não retornam. E o otorrino fica pensando:

            “Decerto, o pai do menino não concordou. Vai ver, leu na Veja ou viu no Fantástico alguma reportagem contra...”

           

            (Cena II: - Na casa do paciente, alguns meses depois, toca o telefone. É a professora ligando pela segunda vez à mãe do menino)

            - Seu filho está cada vez mais surdo. Será que a senhora não percebe? Ele não acerta um ditado! O que está esperando para levá-lo a um otorrino?

            - Eu já levei, professora, mas ele indicou cirurgia...

            - E daí? - exclama a outra, perplexa.



Escrito por MaGenCo às 21h16
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            - E daí..., meu marido é contra. Diz que o tempo se encarrega de curar; que “hoje em dia não se opera mais isso”...

            - Seu marido é médico?

            - Não, mas...

            - Olhe, se eu fosse a senhora voltaria ao médico. Ou ouviria uma segunda opinião. Mas uma coisa é certa: seu marido não entende de medicina. E se o menino ficar surdo?

            - É, eu tenho medo disso... - confessa a mãe, preocupada.

            - Escute..., diga a seu marido que eu mandei dizer que ele não é dono do ouvido do filho... - adverte a professora.

            - Está bem..., vou conversar com ele de novo. Obrigada por seu interesse, Professora. Até outro dia.

            Perturbada, ela repõe, com olhar pensativo, o fone no gancho.

 

            (Cena III: - À noite, o casal no quarto, na cama)

            A pobre mãe, atormentada pela dúvida, não consegue pegar no sono e provocando uma conversinha de travesseiro, volta timidamente ao assunto:

            - João, a professora do Fernandinho telefonou de novo.

            - O que ela queria, desta vez? - pergunta ele, contrariado com a quebra de sua atenção na entrevista da TV.

            - Dizer que ele tá ficando surdo...

            - Surdo nada! Quando ele “qué”, ele escuta. Ela é que tá ficando doida - afirma o sabichão, aumentando o volume do aparelho para encerrar o diálogo. Mas ela insiste:

            - E se for verdade, João?

            Generosa e solidária, ela transmite o recado da professora. Usa, entretanto, o plural, assumindo, assim, metade da responsabilidade e acrescentando, com convicção, embora, ao mesmo tempo, com humildade:

Escrito por MaGenCo às 21h15
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            - Nós não somos donos do ouvidinho dele. Um dia, quando for adulto, ele pode nos culpar de não termos feito nada enquanto era tempo...

            - Deixa que eu dou um jeito nisso! - retruca o sabichão com rispidez, mudando de posição e elevando mais ainda o volume para dar um basta definitivo à conversa.

            Ela, sem alternativa, mas com a consciência até certo ponto aplacada, vira-se para o lado e trata de dormir, não sem antes avaliar os efeitos da discussão sobre o companheiro. É evidente, pela expressão, que o sabichão ficou preocupado com sua última advertência. Mas ele é "contra", e seu orgulho se revolta, embora a consciência o acuse.

            Acabou o programa do Gordo. Ele desliga o aparelho e vira-se para o outro lado. Custa, contudo, a pegar no sono; não consegue deixar de ouvir, através da porta entreaberta, a respiração ruidosa do filho que dorme no quarto ao lado. E pensa:

            “Será que esse raio dessa professora tem razão?”

 E finalmente dorme com a indagação na mente. Nem lhe ocorre pensar na razão do médico.

Ele é “contra médicos; eles só pensam em faca e em ganhar dinheiro...”

 

***

 

            Mário Gentil Costa

            magenco@terra.com.br

Escrito por MaGenCo às 21h14
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ESTE TRABALHO, JÁ MOSTRADO UMA VEZ, VOLTA PARA COMPARAÇÃO COM O "ESTUDO" QUE APRESENTEI ABAIXO E ERA APENAS UM ESTÁGIO DE SEU DESENVOLVIMENTO. ACREDITO QUE, COM O ACABAMENTO, TENHA GANHO EM PORTE, BELEZA E COR. UM OBSERVADOR MAIS ATENTO PERCEBERÁ QUE TAMBÉM HOUVE MUDANÇAS DE FORMA NO CANTO SUPERIOR ESQUERDO. ABRAÇOS DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 19h53
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“PIERCINGS”

 

            É crescente o número de jovens com “piercings”, e vivo apontando os riscos desse costume quase tribal. Já atendi uma mocinha sem a metade do nariz, vitimada por um penduricalho, apelidado de ‘nostril’(= narina). Hoje, ela está no psicanalista, pois não há cirurgia capaz de reconstruir com perfeição a área destruída.

Tais despropósitos estão por todo lado. Até na úvula (campainha) vi uma argola pendurada e, repetindo a história acima, perguntei à vaidosa proprietária, que já trazia o lábio perfurado e uma esfera na língua:

            - Por que não tira tudo? Enquanto é tempo?

            Olhou-me, assustada. Terá adiantado? Duvido! 

            “A educação deve ser liberal”, dizem os modernosos.

            Só pais frouxos, por conformismo ou apatia, permitem tais caprichos. Jovens não têm senso crítico apurado, e uma voz firme deve impedi-los de lesar a própria saúde. Quando adultos, eles serão gratos pelas eventuais reprimendas recebidas, que terão servido para plasmar sua linha de conduta.

As cartilagens das orelhas e do nariz têm pouca vascularização e estão sujeitas a necroses por infecções destruidoras – “pericondrites”. Piercings em lábios e língua podem causar hematomas e infecções, além de agredir gengivas e dentes. Orifícios artificiais no nariz favorecem a penetração de germes devastadores. E, no ato inconsciente de coçar, esses pinos machucam o septo, que, perfurado, desafia qualquer cirurgião. Afora o risco de vírus talvez presentes em instrumentos manuseados por curiosos.

A televisão e a Internet são as fontes desse mau exemplo através da gentalha que serve de modelo para a idolatria da juventude incauta. E a esperança de que a escola eduque, enfraquece na convivência com colegas maiores, que exercem sobre os mais novos uma forte influência negativa.

Somente pais atentos podem zelar pelos filhos. Leitor(a), abra seus olhos! Diga-lhes que os valores da vida são a beleza natural, a educação e a competência.

 

Mário Gentil Costa

Médico e Ex-Prof. da UFSC

            magenco@terra.com.br

Escrito por MaGenCo às 08h02
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ESTE É O FLAGRANTE DE UMA ETAPA DA GESTAÇÃO DO QUADRO "FUTURO FÓSSIL", JÁ MOSTRADO OUTRO DIA. PARECEU-ME JUSTO MOSTRÁ-LO A TÍTULO DE "ESTUDO", A EXEMPLO DO QUE FIZERAM GRANDES MESTRES, POIS ELE ENCERRA AS BASES DO QUE VIRIA A SER A PINTURA DEFINITIVA, EMBORA COM CORES AINDA INDEFINIDAS. DE RESTO, ME AGRADA E PODERÁ MERECER A MESMA IMPRESSÃO DE ALGUM OBSERVADOR. ABRAÇOS DO MaGenCo 

 

 

 



Escrito por MaGenCo às 07h59
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A PACA FUJONA

 

Era um bar tradicional, onde, nos fins de tarde, reunia-se a fina-flor da intelectualidade para aquele aperitivo que antecede o jantar em casa ou com amigos. O dono, um português, era um grande cozinheiro. Entre os freqüentadores, havia um médico que fazia verdadeiros discursos sobre as conseqüências do excessivo consumo de bebida. Seus ouvintes não lhe davam muita atenção, mas um advogado, sempre presente, ficava a cada dia mais impressionado com o que ouvia. Era um inveterado dependente de álcool e não conseguia dominar-se. Começava a beber por volta das quatro da tarde e, ao fim da jornada, tinham de levá-lo em casa de táxi, quase inconsciente.

          Certa manhã bem cedo, o sol raiando e o bar ainda vazio, o médico – prévio acordo com o proprietário – trouxe uma paca a ser devidamente engordada para a futura comemoração do seu aniversário entre os amigos. Para que não fugisse, o animal foi preso no fundo do bar, num reservado descoberto, onde lhe seriam servidos os restos do consumo da casa.

Uma semana adiante, quando o advogado, primeiro freguês da tarde, acabava de dar o primeiro gole no quinto uísque, a paca escapou do laço mal feito em que fora atada e cruzou lentamente o salão em direção à rua.

O bebedor, que ouvira diversas vezes o médico discorrer sobre os sinais típicos do “delírio alcoólico” em que os viciados chegam a ter alucinações visuais, coçou os olhos e os abriu de novo. Lá estava ela, parada, na defensiva, fixando-o atentamente com seus olhinhos miúdos e, logo depois, fugindo rapidamente em direção à porta da saída, sem que mais ninguém mais notasse.

         O causídico, convencido de que já estava enxergando bichos inexistentes, chamou o garçom, pagou a conta e sumiu, espavorido. Retornando ao bar meses mais tarde, gordo e corado, foi logo abordado pelo médico que havia notado sua ausência prolongada e, com olho-clínico treinado, desejava cumprimentá-lo pela evidente melhora em seu aspecto geral.

          - E aí, meu caro? Por onde andou todo esse tempo?

          - Ah, doutor, o senhor tinha razão...

          - A respeito de quê?

          - Do delírio... Sabe que parei de beber?

          - Que bom! Folgo em saber. Mas como conseguiu?

          - O senhor há de crer que eu já estava começando a ver bichos?

          - Não me diga!

         - É verdade. E foi justamente neste bar. Eu estava aqui sentado, sozinho, exatamente nesta mesa, quando vi uma paca ali parada, olhando-me fixamente. Esfreguei os olhos e olhei de novo. Ela ainda estava ali. Dei mais uma boa esfregada. Ela havia sumido. Corri porta afora, fui para meu sítio e nunca mais bebi...

 

           Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h37
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E DIZER QUE TODOS OS NOSSOS PROBLEMAS, ALGUNS INSOLÚVEIS, ESTÃO CONFINADOS A ESTES CINCO PEDACINHOS DE TERRA HABITÁVEL... ACHO QUE É PORQUE, APESAR DAS CONQUISTAS DA CIÊNCIA, A HUMANIDADE AINDA NÃO APRENDEU A REGRA FUNDAMENTAL DA SOBREVIVÊNCIA: VIVER EM PAZ CONSIGO MESMA E EM HARMONIA COM A NATUREZA... TALVEZ SEJA PORQUE É GENTE DEMAIS PRA POUCO CHÃO... QUEM MANDOU ACREDITAR NA BALELA DO "CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS", O GRANDE SEGREDO DA DOMINAÇÃO DO PENSAMENTO CRÍTICO PELO OBSCURANTISMO. AGORA TEMOS TODOS DE ARCAR COM AS CONSEQUÊNCIAS DA ESTUPIDEZ MAJORITÁRIA. MaGenCo

 



Escrito por MaGenCo às 16h05
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PROFILAXIA DA SURDEZ

À memória do Prof. Rudolf Lang, de Porto Alegre.

 

O que é surdez?

                  É a redução ou a perda da capacidade de ouvir.

 

Quem tem?

         Até alguns anos atrás, o percentual de surdos no mundo “civilizado” era de cerca de 2%, ou seja, em cada 100 pessoas, duas eram (mais ou menos) surdas. Hoje, com os fatores ambientais da chamada “vida moderna”, esse número está crescendo assustadoramente. E o pior é que, entre as vítimas, é cada vez maior o número de jovens...

 

Limites do ouvido humano:

         Assim como o olho não suporta fixar diretamente a luz do sol, o ouvido também não está preparado para suportar excesso de som. Assim como a luz, o som é uma forma de energia física ondulatória, que se mede em decibéis (dB). O ouvido humano aceita, com pequena margem de tolerância, um limite máximo de 80 dB. Acima desse nível, dependendo da intensidade e do tempo de exposição, começa a haver danos ao ouvido.

 

Fatores causais ou predisponentes:

         O principal é a poluição sonora nas grandes cidades, incluindo hábitos e profissões geradoras de ruído excessivo. Isso acontece em fábricas ou ambientes de trabalho desprovidos de condições de proteção para os ouvidos. Entre os hábitos, o mais danoso de todos é a exposição abusiva dos jovens a sons e ruídos, em especial os de percussão, gerados pela chamada “música moderna”, produzida em ambientes fechados (Boates, quartos ou automóveis) ou mesmo abertos (os chamados Trios Elétricos). Exemplos: uma boate de roque bate-estaca, um sistema sonoro de carro com volume aberto ou um trio elétrico geram ruídos que variam entre 115 e 120 dB, ao passo que uma turbina de avião a jato gera 130 dB.

Escrito por MaGenCo às 06h51
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Quadro clínico (Sintomas)

         Começa com o chamado “Zumbido”. No início, ele ocorre logo após o período de exposição. O trabalhador sai da fábrica ou o jovem se afasta do som com os ouvidos zunindo, mas melhora com uma noite de sono. É o primeiro sinal de protesto do ouvido maltratado. Com a repetição, o sintoma se torna permanente, geralmente de tonalidade aguda. Numa segunda etapa, começa a surdez propriamente dita, que, de início, consiste em perder palavras no meio da conversação, ou seja, a pessoa escuta mas nem sempre entende o que escutou, principalmente em ambientes coletivos. O risco é ainda maior para aqueles que já têm casos na família, mas, a rigor, todos os que abusam do som se arriscam. Os danos são diretamente proporcionais ao tempo de permanência em contato com a fonte e inversamente proporcionais à distância em relação à mesma.

 

                  Diagnóstico                              

         O diagnóstico é feito por um exame simples, chamado Audiometria, que mostra uma curva gráfica com a medida exata do grau da perda auditiva.

 

Prevenção (Como evitar)

         A única prevenção que existe é evitar as causas citadas. No caso do trabalhador, é a proteção com equipamentos amortizadores adequados (existem leis que obrigam a seu uso). No caso do jovem curtidor de som, não há meios de proteção, exceto a redução do volume. Exemplo prático: - o som começa a ser agressivo quando produz cócegas no ouvido (“o som que coça”) e já é danoso quando vem acompanhado de dor (“o som que dói” - algiacusia).

 

Tratamento: - Não há! Esse jovem e esse trabalhador são futuros surdos...

 

Mário Gentil Costa

Ex-Professor de ORL da UFSC

magenco@terra.com.br>

 



Escrito por MaGenCo às 06h50
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ESTE FOI OSWALDO COSTA, MEU VELHO, MEU AMIGO E MEU HERÓI, FALECIDO EM 1978. DESENHEI-O A CRAYON EM 1981. COMO NÃO GOSTAVA DE SER FOTOGRAFADO, SÓ ME RESTOU A FOTO 3 X 4 DE SUA CARTEIRA DE IDENTIDADE. TIREI CÓPIAS EM XEROX PARA TODA A FAMÍLIA. ESTÃO ELAS EMOLDURADAS, OCUPANDO LUGAR DE HONRA NAS CASAS DE CADA UM DOS MEUS IRMÃOS. DEVEMOS A ESSE HOMEM - HUMILDE E SONHADOR - E À MINHA MÃE YOLANDA (QUE MOSTRAREI OUTRO DIA) TUDO O QUE CONSEGUIMOS NA VIDA, POIS FOI GRAÇAS A SEU ESFORÇO INAUDITO QUE NOS FORMAMOS OS QUATRO. NUNCA CONSEGUIMOS RETRIBUIR O QUE AMBOS FIZERAM POR NÓS, E O MÍNIMO QUE PODEMOS FAZER É CULTUAR SUA LEMBRANÇA IMORREDOURA COM AMOR E RESPEITO. GRANDE OSWALDO COSTA! SAUDADES DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 09h28
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PLANTÃO DA NOITE

 

         A história é verídica. A época: - novembro de 1961; o lugar: - Rio de Janeiro. O episódio: - durante minha residência, um plantão noturno no Pronto Socorro de Otorrinolaringologia e Broncoesofagologia do Hospital Souza Aguiar, na Praça da República. Lá fora, a noite carioca, quente e abafada. O burburinho da Central do Brasil, logo adiante. Lotações zunindo, bondes arrastando seu ronco plangente, ranger de freios e repicar de sinos anunciando a parada sistemática na esquina. Táxis, apressados furando sinaleiras e assustando os pedestres mais afoitos.

         De repente, um vozerio indistinto e afobado. Um tropel de passos na portaria da emergência.

         Uma mulher gorda e morena, já na meia-idade, entra arrastando pelo braço um ancião curvado, que, com uma toalha encharcada sob o queixo, estampa na face um intenso sofrimento. Uma baba elástica escorre das beiçolas entreabertas do coitado. E, com passos trôpegos, ele comprime a barriga num espasmo involuntário.

- Depressa! Depressa! Onde é o doutor dos afogados?

          - Dos afogados ou dos engasgados? – indaga o recepcionista com ar irônico, mas compenetrado.

Escrito por MaGenCo às 20h49
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- Não faz diferença. Onde está esse médico?

- Ali, naquela sala, madame.

         Interrompemos o papo e nos levantamos para o trabalho. Eu, assistente do plantão, me assusto. O colega, tarimbado, nem se altera; - já adivinha o que vem pela frente. E pergunta:

- Que foi que ele engoliu, dona?

- Um osso de porco.

         Primeiro, o interrogatório objetivo. Rápido. Eficiente.

         - Sofre do coração? Da pressão? Diabete? Alergias?

- Não, doutor. Até agora, não.

- Faz quanto tempo que comeu?

- Umas três horas.

- Depois disso, mais nada?

          - Ah, nóish demosh farofa, banana..., essash coisash...

- Há quanto tempo?

- Ainda agora, em casa.

- Há quanto tempo? – insiste o médico.

- Ah..., maish de meia hora, doutor.

           - Então, o estômago está cheio. Faça um analgésico com antiespasmódico na veia e, enquanto isso, vou pedir um raio X – determina o plantonista à enfermagem.

Escrito por MaGenCo às 20h47
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           O paciente está mais tranqüilo, deitado na maca em posição quase fetal, observando, com olhos arregalados e aflitos, o movimento na emergência. A salivação diminuiu. Mas a toalha continua de prontidão junto à boca. A mulher, sentada ao lado, afaga-lhe as mãos. Ninguém diz nada. A chapa mostra o corpo estranho opaco, atravessado no terço inferior do esôfago. O barulho lá fora continua. A noite avança. Já é madrugada. Nesse intervalo, outros casos vão chegando. Tudo rotina.     

            E o velhinho espera. Três horas depois, é chamado o anestesista.

            Uma indução superficial. Um cheirinho..., e o homem dorme. O esofagoscópio de Chevalier-Jackson é passado com facilidade. O osso espetado, que espio através do estreito orifício num relance, - pois não se pode perder tempo -, cede a uma magistral manobra de pinças e salta fora na ponta do tubo, gotejando a baba pegajosa. Expectativa. O homem acorda. Daí a uma hora, é liberado. Uma ambulância o leva para casa, lá na Pavuna. O dia amanhece. O calor já ferve. Os médicos, cansados, vão embora. E eu, sem pregar olho, vou para o ambulatório da Clínica Prof. José Kós, numa rua próxima. Tempo só para um banho e um café.

            “O que é a juventude!”

Escrito por MaGenCo às 20h44
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            .............................................................................

            - Hei, de quem é esta dentadura? – pergunta o médico substituto, assumindo fresquinho o plantão, enquanto faz sua habitual inspeção no ambiente.

            - Ah, é do velhinho atendido de madrugada – responde o atendente, cujo turno termina mais tarde.

- Qual era o nome dele?

          - Nome? Deixa ver. (Barulho na pilha de papeletas presas ao gancho de uma prancheta) - Não tem. Ele entrou direto. Esqueceram de fazer a ficha. E agora?

- Agora? Joga no banco! Se ele voltar...

                   “O banco” era uma caixa de madeira, espécie de gavetão com tampa, onde eram jogadas as dentaduras esquecidas. Algumas já faziam aniversários, pois seus proprietários nunca haviam voltado para buscá-las.



Escrito por MaGenCo às 20h42
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Mas o velhinho voltou, dessa vez lépido, puxando a matrona pela mão.

- Vim buscar minha dentadura, dona! – anuncia, com os lábios murchos e os olhinhos miúdos.

- Quando o senhor foi atendido?

- Há três dias, de madrugada.

- Qual é seu nome?

- Áureo Colmilho

“Que sobrenome esquisito!” – cogita a funcionária, que emenda, em voz alta: - Não estou achando sua ficha, “seu Colmilho”.

- Ah, eu entrei muito depressa. Decerto esqueceram de fazer.

- Então, deve estar no banco...

- Banco...? Que banco?

- O banco das dentaduras, “seu Colmilho”. Ali..., naquela caixa.

          Ele não tem dúvidas. Escarafuncha no volumoso acervo de dentuças encardidas e desbotadas, faz com a boca e as bochechas as mais singulares e surpreendentes caretas enquanto “prova” diversas peças, que não “servem”... Uma após outra, devolve-as com displicência ao banco e acaba achando uma que “serve”... (sic)

         - T’aqui ela, a excomungada! – brada, com olhar fascinado e pontiagudo.

         Esboça então um sorriso maroto, onde despontam, a cada lado, dois caninos dourados e lá se vai, todo lampeiro.

Até hoje não se sabe se “serviu”, mesmo, ou se prevaleceu a cobiça pelo ouro.

Mas uma coisa é certa: - ninguém lhe questionou a propriedade...

 

***

 

Mario Gentil Costa 

         (magenco@terra.com.br)



Escrito por MaGenCo às 20h38
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Escrito por MaGenCo às 21h57
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GENTE, NA SEQUÊNCIA, ESTOU APRESENTANDO UM TRABALHO ANTIGO - UM DOS PRIMEIROS, DE 1974 - INTITULADO 'PRECE'. DESCUBRAM, SE DESEJAREM, A FIGURA ESTILIZADA DE UM MONGE EM ATITUDE DE ORAÇÃO. É A TÉCNICA DO ESGRAFITO, QUE PRATIQUEI NO INÍCIO. MEDE, MAIS OU MENOS, 37 x 35 CM. O MEIO É UMA PLACA PRENSADA, E A TINTA BÁSICA É ACRÍLICA. OS TRAÇOS FORAM EXECUTADOS COM ESTILETE DE CIRURGIA DE OUVIDO. MaGenCo

Escrito por MaGenCo às 21h55
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CHEFOSE, DOENÇA INCURÁVEL...

 

        Há tempos venho testemunhando o certo e o errado em torno dessa figura tão destacada em qualquer setor da atividade humana: - o líder. Palavra importada que significa guia, condutor e chefe, vem do verbo inglês "to lead", igual a guiar, conduzir, chefiar.

Chefiar pessoas, coisa que poucos sabem fazer e muitos pensam que sabem, é tarefa que exige, além de competência, uma coisa rara: o talento.

Esforço, bom senso e honestidade de propósitos ajudam, mas é o talento que faz a diferença. E este não se compra, não se toma emprestado. É genético. Talento é como "samba; não se aprende na escola".

Contudo, se tê-lo é uma vantagem, o contrário não constitui demérito. Confessar incompetência para traçar um círculo – e muita gente o confessa sem pejo – é apenas admitir ausência de talento para o desenho, lacuna que não compromete ninguém.

Por analogia, não ter talento para chefiar não é desdouro. Por que, então, certas pessoas têm vergonha de recusar cargos de chefia? Pior: por que lutam por eles?

Trata-se, a meu ver, de uma doença incurável que chamaria de "CHEFOSE" – a mania compulsiva de ser chefe. Esse doente, a rigor, sofre de excesso de autoestima e falta de autocrítica – um quadro, portanto, gravíssimo. Ou é “um maníaco ou um tolo – como disse Bernard Shaw – do homem que não reconhece seus limites".

O “chefósico” pode ser de dois tipos: um, o forte, que goza com o uso da autoridade, manda e desmanda a esmo, não planeja, aceita desafios sem saber como vencê-los, gosta de assumir méritos alheios, sufoca toda liderança que lhe ameace a hegemonia e só está à vontade se cercado de hipócritas e medíocres que o adulem à exaustão e a quem possa tratar com arrogância.

O outro, o fraco, sem autoridade, incompetente, que deixa todos à vontade, carece de criatividade, é negligente, delega tarefas sem critério de escolha, transfere decisões a subalternos que o desmoralizam. Torna-se logo uma figura patética.

A verdade triste é que “a maioria das pessoas vive esmagada sob o conflito entre o desejo de ser ou parecer importante e a terrível certeza de não ter importância alguma.” E o poder, por menor que seja, é um vício que, num paradoxo distributivo, exerce mais atração justamente sobre aqueles que estão menos talhados para exercê-lo. Assim é na política, terreno onde vicejam, qual praga daninha, os enfatuados cuja mórbida obsessão pelo mando chega a ser trágica. Assim ocorre em todos os escalões da administração pública.

Na prática da Medicina, os médicos cada vez mais se agrupam. Surge, então, a figura do chefe. Não caberia aqui citar nomes admiráveis; que os há. Muito menos nomear seus opostos.

Mas resta o sonho de que a tecnologia do terceiro milênio nos presenteie com um instrumento de precisão – o chefômetro – que dê, em unidades específicas, o teor de chefose que acomete os impostores, ávidos por liderar a qualquer custo para alimentar seu ego mal estruturado...

 

Mário Gentil Costa

Médico e Ex-Prof. da UFSC

magenco@terrra.com.br



Escrito por MaGenCo às 21h52
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CARL SAGAN

 

     É curioso, mas, ao longo da vida, tive amigos que nunca vi de perto. Pessoas que povoaram meu imaginário e ocuparam, de forma mais concreta do que muitas com quem convivi a curta distância, um lugar de destaque em minha galeria de preferências afetivas, como se fossem meus íntimos conselheiros.

         Isto aqui é uma espécie de despedida tardia de uma delas. De fato, desde 1996, quando soube da morte de Carl Sagan, senti que um pedaço de mim morria junto. Nossa convivência começou quando assisti, pela televisão, à sua série documental COSMOS, cujo livro li com sofreguidão e pasmo.

Sofreguidão pela copiosa oferta de conhecimento que me proporcionou. Pasmo pela coragem de derrubar crendices e pelo desejo puro de explicar o mundo-universo em que vivemos; de trazer a público uma mensagem de bom senso e de fé na ciência como único meio de desafiar idolatrias impostas por oráculos carregados de superstição e, assim, levar nosso cérebro a pensar com independência.

        Carl Sagan foi um dos maiores e mais honestos pensadores do século XX, capaz de ombrear na história com imortais como Epicuro, Descartes, Galileu e outros.

        A leitura de seu último livro – Bilhões e Bilhões (Uma reflexão sobre a vida e a morte na virada do milênio) – me convenceu de que ele merecia ter vivido essa data, ao contrário de tantos que viveram no século XX sem, ao menos, merecer ter nascido e cujos nomes não cito para não comprometer a higiene destas linhas.

        Os que acreditam em destino dirão que terá chegado sua hora. Como se existisse algum tipo de pré-determinismo sobrenatural que marcasse a priori as datas de nascimento e morte dos seres humanos. O que existe, de fato – e era isso que Carl Sagan defendia – é uma função aleatória, a Lei das Probabilidades, que preside a toda a fenomenologia cósmica de forma impessoal e não linear.

       Li toda sua obra publicada no Brasil. E tenho-a guardada numa espécie de galeria de honra. Só escreveu coisa instrutiva e edificante, preocupado, sobretudo, com o ser humano, com a vida e, num sentido mais amplo, com a Natureza e o Universo. Eis os livros que tenho: - Civilização Cósmica, Os Dragões do Eden, O Romance da Ciência (Brocca's Brain), Cosmos, Contato, Pálido Ponto Azul, O Mundo Assombrado pelos Demônios e, por fim, seu livro póstumo Bilhões e Bilhões.

Em todos, sobressai a preocupação constante com a busca da verdade e a franqueza em divulgar, sem receio de criar antipatias, suas opiniões fundamentadas sobre como encarava e devastava as bases do misticismo organizado.

Também aí ele concordava com  Einstein, cuja crença filosófico-científica se fundava nas evidências da lógica e, nunca, em verdades dogmáticas e reveladas.

Ambos tinham em comum, assim como despretensiosamente procuro eu mesmo ter, uma reverência ontológica quase religiosa pelo Universo como manifestação concreta e visível de um todo incriado, infinito e eterno no espaço e no tempo.

Grande Carl Sagan!

 

Mário Gentil Costa

magenco@terra.com.br



Escrito por MaGenCo às 21h47
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INVERNO EM FLORIPA. O GORDINI, EU E A PONTE HERCÍLIO LUZ. - AO FUNDO, A PARTE CONTINENTAL DA CIDADE, CHAMADA "ESTREITO". - FOTO TIRADA EM JULHO DE 2005. - ABRAÇOS DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 21h35
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  Esta era a minha carranca antes do bigode. Na tentativa de driblar as perdas inexoráveis do tempo, decidi removê-lo. Os resultados, ainda assim, não foram satisfatórios, já que a careca aumentou e algumas pelancas, até então despercebidas, se somaram às que já existiam. Resultado: um completo desastre. Abraços. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 21h19
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I WOULD LIKE  TO LET MY FOREIGN VISITORS KNOW THAT I CAN READ AND WRITE IN ENGLISH. OR SPANISH AS WELL.

SO, DON’T HESITATE TO SEND ME YOUR EVENTUAL COMMENTS, MAINLY ABOUT MY PAINTING AND SCULPTURE (WOOD-CARVING).

OF COURSE, IF YOU DON’T SPEAK OR UNDERSTAND PORTUGUESE, MY WRITTINGS WILL NOT BE AVAILABLE TO YOU.

CONSIDERING MY NATURAL AND INEVITABLE LIMITS, I WOULD ONLY ASK YOU TO AVOID RARE OR UNUSUAL WORDS.

SO, DON’T BE AFRAID. WRITE ME! IT WOULD BE A GREAT PLEASURE TO CHAT WITH YOU ALL. THANK YOU VERY MUCH !!!

MARIO GENTIL COSTA = MaGenCo (http://magenco.blog.uol.com.br)



Escrito por MaGenCo às 21h15
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“O BRASIL ESPERA...”

 

        “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. É provável que a imensa maioria dos brasileiros alfabetizados conheça esta frase ou já a tenha ouvido da boca dos professores de história. Mas refresquemos nossa memória: ela foi pronunciada em 11 de junho de 1885 pelo Almirante Barroso, a bordo da Fragata Humaitá, por ocasião da Batalha do Riachuelo na Guerra do Paraguai. Seu significado de então não nos interessa agora. É coisa de um passado que, a mim em particular, não orgulha nem engrandece por uma série de razões que não caberia nem interessa discutir aqui.

        Mas ela ficou registrada em nossas memórias remotas e, mais do que nunca, continua tendo um significado fundamental para o destino de nós todos como povo, como sociedade e como nação.

        A última vez que a ouvi, foi pronunciada num leito de hospital por um dos brasileiros mais patriotas que tive o privilégio de conhecer: meu sogro Alpheu Ferreira Linhares (1904-1986). Vitimado por um AVC hemorrágico, ele, a meu pedido e com lágrimas nos olhos, pronunciou-a quase à perfeição. Aquilo me espantou, pois o homem estava quase afásico. Só emitia roncos desconexos. Paulo Sá, o colega que o atendia, me explicou que “algumas frases automáticas, dessas mais curtas, que estão impregnadas na memória de cada um, podem ser ditas apesar da afasia”. Então, meus amigos, ela estava lá, fincada até o fundo no patriotismo de um brasileiro que, aos 16 anos, aumentou a idade para lutar como soldado voluntário na primeira grande revolução institucional do século XX. E, ao lado de Juarez Távora, Eduardo Gomes, Olímpio Mourão Filho, Estilac Leal e outros, esteve presente em todas as outras até 1932.

        Toda esta arenga tem o objetivo puro e simples de levantar um questionamento: “Se a frase de Barroso está lá, tão fundamente enraizada em cada um de nós, por que quase ninguém a leva a sério?”

Não me refiro aqui ao cidadão comum, o brasileiro humilde, trabalhador, sofrido e sofredor como eu ou você, sem qualquer poder de decisão. Esse, melhor ou pior, faz o que pode. Refiro-me, isso sim, àqueles que têm-a-faca-e-o-queijo-na-mão: nossos dirigentes; os que fazem as leis; os que as interpretam; os que deveriam fazê-las cumprir, enfim, os que ostentam na mão as canetas poderosas e vicejam “no palco das grandes decisões nacionais”, como bem disse e lavrou no mármore do seu memorial o saudoso e eterno Juscelino Kubitschek de Oliveira.

        É incrível o que estamos vendo acontecer neste país. Será que essa gente insensível, em algum instante do seu dia-a-dia, no recolhimento das suas noites de inevitável introspecção, recorda a frase de Barroso?
Será que tem remorsos ou pesadelos? Acho que não. Porque é impossível, humanamente impossível tanto cinismo, tanta desfaçatez, tanta desonestidade, tanto egoísmo, tanta corrupção, tanto crime-de-lesa-pátria.


Escrito por MaGenCo às 19h56
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A cada dia que passa, somos bombardeados com revelações de fatos que envergonhariam a qualquer pessoa minimamente brasileira, decente e bem-intencionada. E o pior, o mais inacreditável não é isso. Essa escumalha de traidores e bandidos-de-colarinho-branco é, justamente, a melhor aquinhoada porque decide os próprios salários e vantagens adicionais, além de estabelecer as regras fixas e castradoras que o povo desassistido deve cumprir. E fica valendo o ‘cumpra-se'; menos para eles.

Não creio em profecias, mas um analista político, um historiador, um sociólogo ou um professor de direito saberiam, melhor que eu, estender e avaliar com bases no passado os terríveis e devastadores desdobramentos, até mesmo os perigos institucionais que se anunciam, a continuar essa baderna como está. Eu não sei; só sei sentir. E temer...

        Já lhes ocorreu, meus amigos, o que esses senhores todo-poderosos, com-toga ou sem-toga, poderiam fazer pelo bem-comum se se unissem para, digamos por dez anos – que passam tão depressa... – cumprir e fazer cumprir, em conjunto e em particular, o que recomenda e subentende a frase do Almirante Barroso?

        Ninguém seguraria este “gigante adormecido”, que é dono da maior costa pesqueira do mapa-mundi, do maior rebanho, da mais copiosa bacia hidrográfica quase toda navegável, da maior floresta, do solo mais fértil, do mais fecundo subsolo, das mais substanciosas riquezas extrativas, dum manancial energético não poluente de causar inveja a todos os países do ocidente, duma topografia variada que propicia, numa mesma hora, climas e temperaturas das quatro estações do ano e serve de berço e morada à mais diversificada fauna-flora da Terra.

        Pois “quase” todos esses cavalheiros – já que a regra admite a exceção – raciocinam e agem como se fossem imortais, como se fossem ficar-pra-semente, como se não fossem morrer - alguns até muito em breve..., a julgar por suas respectivas idades. Ou então sua idéia de imortalidade e sua ambição por honrarias fúteis e bens materiais são tão exacerbadas, tão obsessivas, tão paranóicas, tão psicopáticas, tão megalomaníacas, que eles sonham – como faziam os faraós do Egito – em carregar tudo, fortuna, glórias, medalhões e poder, para suas tumbas. Só lhes falta erguer suas pirâmides...

        Cogitaria algum desses homens públicos de visão curta e autoestima mórbida que está desperdiçando a única oportunidade que lhe resta de deixar a seu povo um legado imorredouro de atos, atitudes e ações humanísticas que – esses sim – o elevariam ao exclusivo pódio da genuína imortalidade, como aconteceu a alguns poucos dos seus antecessores ao longo da nossa história?

Acho que não. Eles não são ‘brasileiros que cumprem seu dever’; são doentes mentais...

 

        Mario Gentil Costa – Floripa – SC

        magenco@terra.com.br  -  http://magenco.blog.uol.com.br



Escrito por MaGenCo às 19h54
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ESTE QUADRO, CHAMADO "RIVIERA ITALIANA", É UMA MERA REPRODUÇÃO. O ORIGINAL É DE UM PINTOR ITALIANO CUJO NOME EXATO NÃO RECORDO NO MOMENTO; ALGO PARECIDO COM 'MEZA" OU 'TEZA". MEDE 30 X 35 CM E FOI PINTADO SOBRE UMA PLACA-PRENSADA, COBERTA DE TELA, EM TINTA ACRÍLICA. MEU OBJETIVO ERA SIMPLESMENTE TREINAR. JUNTAMENTE COM OS DOIS FIGURATIVOS ABAIXO, É EXPOSTO AQUI EM HOMENAGEM A MEU QUERIDO AMIGO PROFESSOR E ESCRITOR MANOEL CARDOSO, DE SÃO PAULO, QUE, ALÉM DE SE CORRESPONDER COMIGO HÁ ANOS, FREQUENTA ESTE BLOGUE QUASE TODO DIA. MaGenCo 



Escrito por MaGenCo às 19h52
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PINTEI ESTA TELA, INTITULADA "O PENSADOR", COM RESTOS DE TINTA ACRÍLICA QUE SE MISTURAVAM, DESORDENADOS, SOBRE A PALETA NUM FIM DE TARDE. MEDE APENAS 20 X 24 CM E, EM VISTA DESSA ESCASSEZ DE PORTE, CONTA COM UM VASTO PASSE-PAR-TOUT, QUE LHE CONFERE A RESPEITABILIDADE COMPATÍVEL COM O PERSONAGEM, POIS UM PENSADOR SEMPRE MERECE DESTAQUE, EM ESPECIAL SE OSTENTAR UM CACHIMBO E CONSEGUIR ESPETAR O OLHAR AZUL NO HORIZONTE DO IMAGINÁRIO, ALHEIO A TUDO O QUE O CERCA. REPAREM NESTE DETALHE. ABRAÇOS DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 17h45
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O REFLEXO NA VITRINA

 

         Estava eu parado, distraído, a olhar os títulos na vitrina de uma livraria, quando alguém se postou a meu lado. Até aí, nada demais; é normal duas pessoas estranhas estarem juntas por alguns momentos diante de vitrinas.

         Com a visão periférica e pelo reflexo do vidro, notei, entretanto, que a pessoa olhava para mim. Passado um instante de certo constrangimento, prevaleceu a curiosidade e me virei para ver se era alguém conhecido. Não era. Mesmo assim, dei-lhe um bom-dia protocolar e já ia voltar minha atenção aos livros, quando fui surpreendido pela inoportuna interpelação:

         - Não diga que não está me conhecendo!

Escrito por MaGenCo às 17h27
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         Era uma velhota, toda maquiada e repuxada, seca como um bacalhau, a me olhar de um modo gaiato. Contrafeito, fui obrigado a retrucar:

         - A senhora me perdoe, mas, de fato...

         - Pois eu logo o reconheci. Você não mudou nada!

         - Em quanto tempo? – indaguei, para ter uma idéia.

         - Ah! Muitos anos! Nem me atrevo a dizer quantos.

         - E eu não mudei nada? É bondade sua.

         - Pois não mudou. Pode crer.

         - Obrigado, mas ainda assim...

         - É. Uma coisa mudou mesmo: sua memória. Então, não se lembra de sua ex-namorada?

         Ex-namorada? - pensei, assustado. Aquilo só podia ser um pesadelo. Jamais eu teria namorado uma... - Mas antes que me visse forçado a arriscar um nome, ela completou, abrindo o sorriso branco e postiço:

         - A Ritinha!

         - Não é possível! - exclamei, com indevida sinceridade, tratando logo de emendar: - Você é a Ritinha? Aquela que morava ao lado do colégio?

         - A própria! - confirmou com um trejeito dengoso, ajeitando o cabelo com ares de peruca e armado em ondas caprichadas. - Passei todos esses anos no Rio. Fiquei viúva e, como não tenho filhos, resolvi retornar à terrinha. Saudades dos velhos tempos - acrescentou.

         - Olhe, Ritinha, desculpe, mas, com toda a honestidade, eu jamais...

         - Eu estou tão velha assim, é? Foi por isso que não me reconheceu?

         Perguntinha cretina, que me deixou mais sem jeito ainda. A resposta era óbvia, mas impraticável. Havia, entretanto, um detalhe salvador que me permitia sair pela tangente, e não perdi tempo:

         - Não! Não é isso! É que você não era loura...

         - Ah, a gente tem de lutar contra os estragos do tempo. Oxigenei os cabelos, fiz umas plastiquinhas aqui e ali, você sabe...

         - É, vocês, mulheres, têm esta vantagem. Fazer plásticas, pintar os cabelos... Ao passo que nós...

Escrito por MaGenCo às 17h25
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        Enquanto emitia este brilhante comentário, me transportei ao passado e revi a antiga namoradinha, linda, toda certinha, de uma beleza estonteante, que, na ocasião, parecia eterna. E me assustei quando a ouvi perguntar, com a voz estridente:

         - Por que não pinta os seus também?

         - Se eu quase nem tenho o que pintar, menina...

         Note-se o detalhe do “menina” -, hipócrita, porém diplomático, para atenuar o lapso anterior.

         - Então faça implante, use uma peruca...

         - Você tá brincando! Eu? De peruca? Nunca!

         - E por que não? Tanto homem usa...

         - É, mas eu não uso. Acho ridículo.

         - Tudo bem. Pra mim, não faz a menor diferença. Continua atraente, como nos velhos tempos... - acrescentou.

- Você também, Ritinha - falei apenas para retribuir, como mandava a boa educação.

Pois foi aí que me estrepei, quando ela insinuou, com inflexão inconfundível:

-   Depois deste elogio, sou forçada a lhe dar meu endereço. Aqui está. Faço questão de vê-lo de novo. Ligue pra mim, venha a meu apartamento para botarmos os assuntos em dia... Que tal?



Escrito por MaGenCo às 17h24
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         - Quem sabe? - foi a resposta vaga que me ocorreu para escapar da cantada. Estendi a mão com evidente incerteza, e ela, notando a indecisão do gesto, perguntou:

         - Você é casado, não é?

         - Sou, Ritinha. Por quê?

         - Não, por nada. Ligue, mesmo assim. Afinal, ex-namorados não podem bater um papo?

         - Claro! Claro que sim - concordei, com entusiasmo forçado.

         Peguei o cartãozinho, agradeci, disse que já estava atrasado para um compromisso e tratei de dar o fora. Na verdade, não tinha aonde ir. Acabei no barbeiro. E, pelo caminho, vim pensando: - Como o tempo é implacável. É incrível o que fez com a pobre da Ritinha.

         O encontro me deixara deprimido. E, para completar a terrível impressão, meu Eu, sentado do outro lado do espelho da barbearia, reparava com olhar crítico minhas rugas, minhas pálpebras cansadas, minha calvície e me perguntava, com um sorriso cínico:

         - Só com ela...?

***

         Mario Gentil Costa

         magenco@terra.com.br



Escrito por MaGenCo às 17h19
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PINTEI ESTE TRABALHO EM 1988. INTITULA-SE "RUÍNAS". É ACRÍLICA SOBRE TELA. LEMBRO QUE, NA OCASIÃO, MINHA PRINCIPAL PREOCUPAÇÃO FOI SOLTAR O PINCEL, DEIXAR OS ACASOS ACONTECEREM E APROVEITÁ-LOS SEM MAIORES RETOQUES. EM ALGUNS PONTOS, PENSO TÊ-LO CONSEGUIDO. A SUJEIRA APARENTE EM ALGUNS PONTOS É DECORRÊNCIA DO TEMPO, POIS LÁ SE VÃO QUASE 20 ANOS. SE FOSSE OBRA DE UM MESTRE, SERIA CHAMADA DE 'PÁTINA', DESIGNATIVO MUITO MAIS NOBRE. REPAREM NA POSTURA ENSIMESMADA DO HOMEM SENTADO NA PEDRA, CACHIMBANDO. EM QUE ESTARÁ ELE A MATUTAR, ALI SOZINHO? TALVEZ EM NADA... ABRAÇOS DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 16h12
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“FOCO INFECCIOSO”

 

         Sou do tempo em que o "brilhante" diagnóstico em epígrafe, feito com a maior convicção e aceito por médicos e familiares sem a menor contestação, encerrava o assunto e dirimia as últimas dúvidas que restassem em torno dos mais variados sintomas e queixas clínicas de pacientes de qualquer idade.

         Desde o famigerado "reumatismo" com suas mais fantasiosas manifestações, até a enurese noturna, que tanto angustiava as mamães; desde a asma recidivante até a incômoda unha encravada que teimava em renascer torta, tudo era englobado nessa engenhosa síntese do raciocínio clínico.

         De um lado, desânimo, indisposição, insônia, gagueira e palidez...; palpitações, calvície precoce, enxaqueca e calo arruinado de outro..., tudo isso era um prato cheio, uma chancela, um anátema que, invariavelmente, selava o destino da vítima: a sala de operações, para a realização "urgente" da amigdalectomia redentora e onipotente.

         Era um modismo, como tantos outros que atravancaram o progresso da medicina, assim como foi, durante décadas, a famosa "apendicite crônica", que, na época em que a tanga sumária ainda não era instituição nacional obrigatória, tanta cicatriz deixou na pele imaculada de tantas jovens barriguinhas brasileiras.

Escrito por MaGenCo às 21h13
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         Note-se, a bem da verdade e da justiça, que a maioria dos médicos - à falta de maior embasamento e sujeita aos empirismos da época - indicava o tratamento cirúrgico com a melhor das intenções e com o fito exclusivo de solucionar o problema do paciente; não era "para ganhar dinheiro", - como, à primeira vista, hão de pensar alguns leitores... - não! Havia, acima de tudo, a crença em torno do conceito. Disso não tenho a menor dúvida.

         O mais genuíno exemplo dessa pureza de intenções..., dessa lisura de propósitos..., dessa absoluta isenção de ânimos..., eu mesmo testemunhei quando era residente, naquele saudoso período em que "vibrava" quando era escalado para operar os casos que a chefia indicava.

         Ao final do expediente do ambulatório, fui procurado por um colega do corpo clínico que, entre outros vínculos empregatícios, era o responsável - pago por mês! - pelos problemas de otorrinolaringologia de um conhecido clube de futebol do Rio de Janeiro. E essa foi, segundo recordo, a essência do diálogo surrealista que trocamos em pleno cafezinho do hospital:

         - Mário, você gostaria de operar um time de futebol?

         - Não entendi - respondi, surpreso.

         - Um time de futebol é um time de futebol, ora bolas...; sem tirar nem pôr... - foi a explicação que me deu.

         - Um time inteiro? - estranhei.

         - É claro! Onze..., do goleiro ao ponta-esquerda...

         - Mas por quê? - indaguei, incrédulo.

Escrito por MaGenCo às 21h12
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         - Foco infeccioso... - foi a resposta sucinta e peremptória.

         - O time todo está com foco? - insisti.

         - Eu acho que sim...

         - Você examinou todos?

         - Não..., mas não pode ser outra coisa...

         - Acho que não estou entendendo de novo...

         - Bem..., o problema é o seguinte: o time só agüenta o primeiro tempo... e perde o jogo no segundo...

         - Mas isso não seria questão de um mau preparo físico?

         - Pois é justamente isso... - argumentou. - O foco tira o preparo físico..., e o time perde...

         Desisti de questionar. Além de ávido por praticar, eu era um simples residente e não me cabia discutir indicações. E respondi sem vacilar:

         - Então manda!

         Operei o time todo. Três por dia, com anestesia local. Em uma semana, tinha "traçado" os onze. Ainda hoje me lembro dos seus nomes. Daria a escalação agora, de memória. E embora um deles tenha ido parar na seleção, onde chegou a atuar algumas vezes, não adiantou grande coisa; o time continuou perdendo...     

         Mais uma preciosa lição da vida: aprendi, de uma vez por todas, que mesmo com o "foco infeccioso" devidamente tratado, não se consegue transformar pernas-de-pau em craques de futebol... Caso contrário, eu seria o primeiro a me oferecer para operar o atual time do Flamengo, que não ganha de ninguém...

         E juro que o faria de graça!...

 

Mário Gentil Costa

magenco@terra.com.br

          



Escrito por MaGenCo às 21h10
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ESTE QUADRO, QUE JÁ TEVE VÁRIOS NOMES, INTITULA-SE AGORA "RIBALTA RUBRO-NEGRA". É UM ABSTRATO EM TÉCNICA MISTA SOBRE PLACA PRENSADA. AS LUZES DO PALCO ESTÃO ILUMINANDO A BOLA, OVALADA PELA VELOCIDADE QUE O FLAMENGO JÁ TEVE QUANDO ERA CAMPEÃO DO MUNDO... ALIÁS, FLAMENGO QUASE RIMA COM MAGENCO 

 



Escrito por MaGenCo às 16h16
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O MOTO-BOY


 

O sinal estava vermelho; parei. Chovia. De repente, surge a meu lado um moto-boy, que freia, roncando. Sua viseira estava erguida e pude distinguir-lhe as feições jovens. Baixei o vidro do carro e lhe disse:

- Escute: eu sou médico e gostaria de lhe dar um conselho...

Ele me olhou, surpreso, e concordou em ouvir. E eu prossegui:

         - Evite erguer sua viseira no trânsito. Sabe por quê?

Ele meneou a cabeça. Dava tempo de sobra, e eu emendei:

         - Na velocidade em que vocês andam, um inseto em pleno vôo pode penetrar no seu olho e deixá-lo cego...

- Se eu não levantar esta porcaria, com esta chuva não enxergo quase nada... – ele argumentou, cheio de razão.

Mas eu não desisti:

         - Saiba que os insetos são atraídos pela luz do seu farol. Proteja-se, diminua a velocidade na chuva para reduzir o perigo. É melhor enxergar menos do que ficar cego...

          Ele ignorou esta última observação e respondeu:

          - Se eu andar devagar, não produzo; se não produzir, não ganho.

          Senti o drama. Mas insisti:

          - Use, então, uns óculos pequenos, sem grau. Isso pode fazer a diferença.

- Muito obrigado, chefe – ele agradeceu, sem outros argumentos.

- E tem mais: diga a seus colegas para fazerem o mesmo!

          - Valeu, chefe – foi sua maneira singela de encerrar o papo.

Escrito por MaGenCo às 12h33
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O sinal abriu. Sentindo-se observado, ele baixou sua viseira, como eu sugerira, e arrancou. Mas logo adiante ergueu-a de novo, embora tivesse reduzido a velocidade. Íamos na mesma pista, e acabei por ultrapassá-lo.

Notei, pelo retrovisor, que continuava desprotegido. Outro sinal fechou. Quando viu que eu parava, tratou logo de baixá-la para se enfiar a meu lado. O sinal abriu, e ele acelerou. Quando achou que estava fora do meu campo visual, não perdeu tempo: ergueu-a outra vez e lá se foi em disparada.

 

Fico torcendo para que nada lhe ocorra, hoje ou amanhã. Afinal, estar em rota de colisão com um inseto voador não é coisa de todo dia. Mas já soube de casos semelhantes. E cada vez que isso acontece, instala-se uma tragédia pessoal que não tem solução. O olho vazado derrama seus líquidos internos, murcha, e sobrevém a cegueira irreversível.

 

Já fui motoqueiro, mas, por necessidade, sempre usei óculos. E vivi a experiência uma vez, quando uma pequena carocha, dessas que têm uma carapaça dura, esborrachou-se contra a minha lente. Foi aí que aprendi a lição; mas ela está implícita nas regras do bom senso e, talvez, nos livros especializados em regras de segurança no trânsito.

Só que eles não lêem livros. Os patrões, por sua vez, ignoram o risco ou não se lembram de orientá-los.

E, sobretudo, antes de tudo e acima de tudo, ‘a entrega da mercadoria tem de ser rápida’. É a lei do mercado...

 

         Mário Gentil Costa

magenco@terra.com.br

 



Escrito por MaGenCo às 12h31
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PREZADO(A) AMIGO(A), SE TIVER PACIÊNCIA E INTERESSE, LEIA TAMBÉM OS COMENTÁRIOS; ALGUNS SÃO MUITO PERTINENTES E ILUSTRATIVOS, ALÉM DE APROFUNDAREM A ESSÊNCIA DOS TEMAS ABORDADOS. TALVEZ, ASSIM, VOCÊ SE ANIME A DEIXAR TAMBÉM OS SEUS. NÃO SE ESQUEÇA DE QUE OS COMENTÁRIOS  SÃO O COMBUSTÍVEL QUE MANTÉM ACESA A CHAMA DOS BLOGUEIROS. "BLOGUE SEM PARTICIPAÇÃO ESTÁ FADADO AO FRACASSO"... ABRAÇÃO DO MaGenco

Escrito por MaGenCo às 09h18
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AMIGO(A)S, VEJAM SE NÃO TENHO RAZÃO NO QUE SUGIRO ABAIXO. REPAREM NO PESCOÇO LONGILÍNEO E NA SEMELHANÇA OVALADA DOS TRAÇOS DO ROSTO. TÁ NA CARA QUE MODIGLIANI FREQUENTOU BOTTICELLI. E O FEZ MUITO BEM, PORQUE ESTE QUADRO É DE UMA BELEZA RARA. DIZER QUE UM ARTISTA DESSE PORTE MORREU COM POUCO MAIS DE TRINTA ANOS. QUE PENA! POR ISSO TRATO DE HOMENAGEÁ-LO AQUI. ABRAÇOS DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 09h55
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ESTE DETALHE DE "O NASCIMENTO DE VENUS", UMA DAS OBRAS-PRIMAS DE SANDRO BOTTICELLI, EVIDENCIA SOBRETUDO SEU ESTONTEANTE IDEAL DE BELEZA FEMININA. DESCONFIO DE QUE SERVIU DE PADRÃO PARA ALGUNS PINTORES DO FIM DO SÉCULO XIX, ENTRE OS QUAIS APONTARIA, EM PRIMEIRÍSSIMO LUGAR, O GRANDE E SOFRIDO AMADEU MODIGLIANI, CUJOS LONGOS PESCOÇOS DEVEM TER SIDO EXTRAÍDOS DAÍ. ESTE É O QUADRO QUE O SANDRO BOTTICLELLI BRASILEIRO, NARRADO NO CONTO ABAIXO, JAMAIS SABERIA IGUALAR. ABRAÇOS DO MaGenCo

 



Escrito por MaGenCo às 19h11
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NOME NÃO BASTA

 

         Marcos Gentile, médico, atendia no consultório uma senhora do interior do Estado, mulher de seus quarenta e cinco anos. Ao dar com o sobrenome Botticelli no cabeçalho da ficha de identificação, ele não se conteve e, num impulso, sugeriu-lhe, à guisa de comentário, com um sorriso velado:

         - A senhora deve ser parente do Sandro...

         - O senhor conhece o meu filho?

         Gentile não foi capaz de esconder um ar de espanto. Então, aquela modesta senhora tinha um filho chamado Sandro. Um legítimo Sandro Botticelli! Que coincidência!

         - Não conheço seu filho - conseguiu dizer, com a expressão ainda abismada.

         - Então, como adivinhou?

         - Eu me referia a outro Sandro...

         - Que eu saiba, não tenho nenhum outro parente com este nome...

         - Pois trate de averiguar - ele brincou e emendou, com ar reticente: - Tenho quase certeza de que o Sandro a que me referi deve ter sido seu parente...

         - Mas que raio de Sandro é esse, doutor?

         - O Sandro Botticelli, senhora!

         - O senhor está enganado. Nunca existiu outro Sandro Botticelli... Nós somos os únicos Botticelli do Brasil, e eu conheço todos.

         - Não só existiu como ainda existe. Ele é um imortal...

         - Imortal? O que quer dizer com isso?

         - Sandro Botticelli é imortal... - repetiu o médico, com absoluta segurança.

         O olhar da mulher era de completa perplexidade, quando ele acrescentou:

         - Procure informar-se...

Escrito por MaGenCo às 18h35
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         Passaram alguns meses, e, uma bela tarde, irrompe a própria no consultório com um pacote debaixo do braço e um papel na mão.

         - Doutor, como eu fui estúpida! Veja isto! - exclamou, abrindo um envelope e expondo a folha que continha.

         Gentile ia começar a ler, quando ela arrematou:

         - O senhor há de crer que o seu Sandro era mesmo meu parente?

         - Não me diga! - ele exclamou, fixando-a e tirando os óculos, num gesto inconsciente.

         Ela, de fato, não poderia avaliar a genuína surpresa que o dominava, pois, no fundo, tudo não passara de um mero palpite.

         - Fui a Florença! E fiquei sabendo de tudo! Como eu era ignorante! Todos os Botticelli são parentes, doutor! Só existe um tronco! E tudo começou com ele! Seu nome verdadeiro era Alessandro Filipepi. Botticelli era apenas um apelido, mas, com o tempo, através da arte, ficou tão famoso que foi adotado e transmitido a todos os descendentes. E veio acabar aqui..., em Santa Catarina...

         - Como este mundo é pequeno! - observou Gentile, aduzindo: - Pois não é que eu tinha razão?

         - Não só tinha razão como mudou a minha vida e a da minha família!

         - Não estou entendendo...

         - Já ouviu falar no Commendatore Enzo Botticelli?

         - Não, senhora. Nunca.

         - Esse cavalheiro, que eu visitei, é descendente direto do pintor. Ele confirmou a vinda de um tio-avô para o Brasil no século passado. E virá em breve a Santa Catarina, só para conhecer minha família... O senhor imagina o que isso significa? Pro meu filho?

         - Não..., não sou capaz de imaginar...

         - O Sandrinho é pintor! E sempre quis fazer Belas Artes!

Escrito por MaGenCo às 18h35
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         - Que ótimo! E o tal Comendador serviria como...(?)

         - ...Seu protetor, é claro! E meu menino pode realizar seu sonho em Florença! Imagine, doutor! - ela completou.

         - Agora eu posso imaginar. E fico muito feliz - observou Marcos, com uma só preocupação na mente, que se traduziu na pergunta: - E o seu menino é talentoso?

         - Ah, isso eu não saberia lhe dizer. Sou mãe. Portanto, sou suspeita. Mas acho que sim... De qualquer maneira, o homem é um profundo conhecedor de arte... Tem, numa galeria em seu palácio, vários trabalhos do primo Sandro... Eu vi... com estes olhos...

         Com que então, ela já estava chamando o gênio de primo. Quanta familiaridade! - foi o pensamento invejoso que ocorreu ao espírito do médico e o levou à observação perfunctória:

         - A senhora não sabe como tudo isto me deixa satisfeito...

         - Pois eu vim aqui apenas para lhe dar estas notícias e agradecer o que fez por mim.

         - Ora, eu não fiz nada... - confessou ele, com modéstia, pensando nos inesperados desdobramentos de sua brincadeira extravagante.

         - E, para provar minha gratidão, lhe trago de presente um quadro do meu filho...

         Ato contínuo, começou a desembrulhar o pequeno pacote, estendendo o trabalho sobre o tampo da mesa. Curioso, Gentile espichou-se e deu com uma obra que não lhe pareceu das mais promissoras. Uma pintura modesta, sem qualidade. O desenho era pobre, desprovido daquilo que distingue o verdadeiro talento. O colorido exagerado. A tinta empastada. Tudo era abaixo de medíocre.



Escrito por MaGenCo às 18h34
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         O fato é que ele, desde criança, fora dado ao desenho e, na maturidade, dedicara-se à pintura, embora amadorística. Numa autocrítica honesta, sabia, contudo, que teria atingido um nível mais que razoável se tivesse levado a coisa a sério. A medicina, todavia, o absorvera tanto que não sobrara tempo ou aquela energia extra que faz alguém desenvolver com o mesmo empenho seus eventuais pendores sufocados, já não bastasse o esforço que despendia no seu louco desejo de ser também um arremedo de escritor.

         E naquele instante crítico, não sabia o que dizer, pois notou que ela aguardava sua opinião com a ansiedade de quem se vê diante uma sentença irrevogável.

         O que fazer? - pensou. E saiu com a evasiva:

         - Bem..., eu não sou a pessoa indicada para opinar. Quem sabe... a senhora procura um professor da nossa escola de artes?

         - Parece que não gostou, doutor...

         Nova saída pela tangente:

         - Veja bem. Numa situação assim, não me parece justo precipitar julgamentos contra ou a favor. Tanto minha aprovação como o oposto poderiam estar errados. Nas questões de arte, não basta gostar. Isso é muito subjetivo. Existem aspectos, numa obra, que têm valor próprio, intrínseco, independente de gosto pessoal. E, nesse aspecto, eu não saberia dizer se...

         - ...Se ele tem talento ou não...

         - Mas vamos torcer para que o Comendador aprove. De qualquer modo, fico agradecido pelo presente, que vou guardar com todo o carinho.

         A honestidade não lhe permitiu dizer mais, embora quisesse. E viu que ela havia murchado. Notou seu embaraço e emendou um comentário que, logo em seguida, lhe soou pior ainda:

Escrito por MaGenCo às 18h33
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         - De resto, mesmo que isso não leve a nada, a senhora terá conhecido suas origens, o que também não deixa de ser importante... Eu, pelo menos, valorizo muito esse aspecto...

         - De fato, doutor. Isso também é importante. Mais uma vez, muito obrigada. Admiro sua franqueza. E volto a afirmar meu reconhecimento pelo que fez por nós.

         Cumpridos os protocolos restantes, ela saiu, e Marcos Gentile se viu sozinho e acabrunhado. Uma sensação incômoda ocupava seu subconsciente e, escrupuloso, talvez porque já conhecesse seu conteúdo, relutava em permitir que se convertesse em pensamento. Mas ele veio à tona, da forma mais imperativa e egoísta, constrangendo-o por inteiro:

         Que pena que eu não me chamo Marcos Botticelli...

         Sobreveio-lhe, todavia, uma segunda constatação, dessa vez mais impessoal e, talvez, mais justa e consistente:

         O Sandro Botticelli brasileiro herdara apenas o nome, mas, pelos insondáveis caprichos do genoma, não fora brindado com a genialidade de seu famoso primo italiano. Entretanto, ficaria por conta do futuro uma esperança:

"Quem pode negar que um gene recessivo esteja dormitando em Santa Catarina e, um dia, se torne dominante em algum novo Sandro Botticelli?"

 

***

 

Mario Gentil Costa

         magenco@terra.com.br

Escrito por MaGenCo às 18h32
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ESTA É A MINHA CORUJA-LEITORA, DESENHADA EM 1988. DURANTE ANOS, FOI O SÍMBOLO DO CENTRO DE ESTUDOS DO HOSPITAL ONDE TRABALHEI. COM MINHA APOSENTADORIA, COMO QUASE NINGUÉM LHE PRESTAVA ATENÇÃO, DECIDI APOSENTÁ-LA TAMBÉM. HOJE ELA ORNAMENTA MEU CENTRO DE ESTUDOS DOMÉSTICO E É MUITO MAIS PRESTIGIADA. ALÉM DISSO, ILUSTRA O CABEÇALHO DO JORNAL LITERÁRIO DE UM AMIGO E, A BORDO DESSE VEÍCULO, CIRCULA POR TODO O BRASIL. O OLHAR ESTRÁBICO SIMBOLIZA SUA OBSESSÃO PELA LEITURA. GOSTO MUITO DE TÊ-LA CRIADO. ABRAÇOS DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 20h01
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O VELHINHO E A VELHINHA...

(Sonho ou Pesadelo?)

 

A velhinha de oitenta anos dormia placidamente na madrugada fria quando acordou, assustada. Na escuridão do quarto, debaixo dos cobertores, o velhinho, de oitenta e cinco, se sacolejava todo e emitia uns ruídos fora do comum. Claro, ela não via; só escutava e sentia a cama estremecer. Pensou que ele estivesse tendo um mal súbito e, preocupada, não titubeou: tocou-lhe o braço, com toda a cautela, perguntando.

- O que é que tu tem, meu velho?

- Tô tendo um sonho erótico...! – ele, desprevenido, confessou quase gritando, a voz estranhamente rouca.

- Tás tendo ou já tiveste?

- Tava tendo! Por quê tu foi me acordá, mulhé? – foi o protesto involuntário do homem.

- Sei lá! Fiquei assustada. Parecia um ataque...

- Que ataque, mulhé?

- E como é qu’eu ia adivinhá? Podia sê uma convulsão...

- Convulsão? Eu tava era sonhando. E tava tão bom... – ele lamentou.

- Mas acabou?

- Mas é claro! Com’é que não ia acabá..., se tu interrompeu...

- Que pena!

- Que pena por quê?

          - Ora, porque se ainda não tivesse acabado, a gente podia aproveitá o restinho...

Escrito por MaGenCo às 19h50
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- Tu tá maluca, mulhé? Quem somo nós pra isso? Ah, ah, ah – foi o riso amargo e conformado do pobre homem.

- Ué, se tu pode, eu também posso.

- Podes o quê?

- Sonhá junto, ora essa.

- Tu não te enxerga, véia? Onde já se viu?

- E que barulho era aquele? – ela indagou, desviando de propósito o rumo da conversa.

- Barulho? Não ouvi barulho nenhum...

- Tavas fazendo uns ronco tão esquisito...

- Ah, sei lá. Decerto era do sonho...

- Então me conta!

- Se eu não escutei nada...

- Mas não é o barulho! É o sonho! Me conta!

- Tás doida, véia?

- Doida por quê? Que mal tem?

- E pra quê tu qués sabê?

- Pra sonhá acordada, ora...

- Eeeh..., o que que há contigo, minha véia? Tô te estranhando... Mulhé não sonha com essas coisa...

- Quem que te disse?

- É o que todo mundo diz, ué...

          - Pois fica sabendo que todo mundo sonha... – ela entregou.

Escrito por MaGenCo às 19h49
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E ele não pegou mais no sono. Nem ela. Um sabia que o outro estava acordado, mas ninguém falava. Até que, passados uns dez minutos, ele perguntou, ressabiado:

- Tu também sonha com isso?... De verdade?

Ela, então, com medo de se complicar, declarou:

- Eu tava brincando, velho. Mas me conta!

- Não me lembro mais...

- Mentira tua. Lembras, sim. Tu que não qués contá...

- Eu tenho vergonha. Não sei contá essas coisa...

- Sabes, sim. Tu que não qués qu’eu saiba...

- Saiba o quê?

- Que tu sonha com isso...

- Ah, não aborrece, mulhé. Não tenho culpa. Eu tava dormindo...

- A gente só sonha o que pensa – ela sentenciou, acrescentando – Eu li numa revista, que falava num tal de Freude, ‘que o sonho é um desejo não realizado’...

- Já não basta tua filha? E tuas neta? Andas lendo essas porcaria também, é?

- Que porcaria?

         - Essas sacanage...

Escrito por MaGenCo às 19h47
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- Mas não era sacanage! Era uma reportage séria...

- Reportage séria? Nessas revista feminina que só fala de sexo? Isso é sacanage. Pôca vergonha, é o que é..., pra aumentá as venda...

- Pôca vergonha é um velho como tu tê sonho erótico. Fazê..., que é bom..., há tempo que não faz... – foi o protesto incontido da velhinha.

- Mas como é qu’eu vou fazê, mulhé, s’eu não consigo mais?

- E pra que serve esses comprimido moderno? Não é pra isso?

- Não adianta! Eu já tô muito véio... não consigo...

- Mas consegue no sonho... Isso é qu’eu não entendo – ela argumentou.

- Já te disse qu’eu não sei explicá, mulhé.

- Não vem com essa, não, véio. Tu és um fingido...

- Eu? Um fingido? Eu? 

- Vai dizê que tu nunca deste o teus pulinho...?

- Eu? Tás louca, mulhé? Sempre fui um home sério...

- Pra cá co’essa lorota... Com’é que tavas pulando?

- Qués sabê mesmo, minha véia?

- Quero! – ela confirmou, depressa, imaginando que ele resolvera abrir o jogo.

- Isso não é conversa pra dois véio... Vamo dormi, qu’é melhó...

 

E não pregaram olho o resto da noite. De manhã, no café, estavam encabulados, contrafeitos. Não se encaravam com a simplicidade de costume. Um silêncio embaraçoso, quase cúmplice, pesava no ar. Era como se nada tivesse acontecido. O tempo passou, e nenhum dos dois tocou mais no assunto.

E apesar de se conhecerem tão bem...; de serem como dois livros abertos...; de não terem segredos um com outro..., a velhinha nunca soube se o velhinho voltou a sonhar, porque ele nunca mais se sacudiu...

 

Mário   Gentil   Costa

magenco@terra.com.br

 



Escrito por MaGenCo às 19h43
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Este quadro, intitulado "RAPSÓDIA", foi pintado em homenagem ao grande compositor húngaro Franz Lizst (amigo de Chopin). Mede 42 x 70 cm. A dupla assinatura sinaliza que pode ser visto nas posições sugeridas, embora eu o prefira como está. É um esgrafito em técnica mista, que agrega tinta acrílica, crayon, lápis-cera e pastel. Os traços claros foram obtidos à custa de incisões e raspagens com bisturi e estiletes de cirurgia de ouvido. A reta inclinada, no sopé da imagem, foi feita com régua. Em compensação, as curvas são todas à mão-livre. A data atípica de 1975-1987 traduz o intervalo de 12 anos entre o princípio e o fim do trabalho. Decorreu de dúvidas pessoais acerca dos jogos cromáticos empregados e até mesmo de um insuperável ânimo de alcançar a perfeição. Finalmente, para não incorrer no propalado erro do "diabo, que tanto mexeu no olho do filho...", decidi dá-lo por terminado. E assim ficou. Ocupa até hoje uma parede do meu quarto. Abraços do MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 09h05
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FÉ DEMAIS

 

Eu tinha 15 anos e vivia sob o jugo da influência do meu avô, católico intransigente, e dos padres jesuítas do Colégio Catarinense. Ali, durante o curso ginasial, assistira a maçantes aulas de uma disciplina intitulada “Apologética Religiosa”, fundamentada num manual que os alunos eram obrigados a decorar e que ostentava na capa o ambicioso título “As provas da Existência de Deus”.

Nessa época, na igreja que eu freqüentava, havia um padre, tido como muito culto e muito devoto, que certa vez, numa conversa informal, me fez a pergunta que, por assim dizer, determinaria os rumos da minha conduta definitiva:

- Por que você crê em Deus?

         Confesso que, à época, eu vinha sendo assediado por questionamentos que me tiravam o sono. Os impulsos naturais da idade, com seus anseios inadiáveis, me tiravam a paz de espírito, e eu vivia esmagado sob o peso das medonhas conseqüências do pecado e do implacável castigo eterno. Mesmo assim, afirmei sem maiores cogitações:

- Porque Deus é obrigatório.

         Notei-lhe a expressão de espanto e, ao mesmo tempo, de satisfação, quando emendou outro por quê(?). E eu completei:

- Porque o universo não pode existir por si mesmo. Todo efeito tem sua causa... 

Era evidente sua decepção, como se esperasse de mim uma resposta mais inteligente, mais elaborada. Tal reação, entretanto, servira para me despertar a curiosidade. E passei a analisar minha resposta irrefletida. Mas acabei sepultando as dúvidas por algum tempo, até que, aos 18 anos, me mudei para outra cidade, a fim de fazer meu curso de medicina. E ali, de tanto meditar sobre a terrível questão, tive, plena madrugada, o estalo que mudaria minha vida: a lei da causalidade, vista em sua essência, exigia outro Deus para criar Deus. E assim por diante, numa espécie de regressão infinita. Por que, então, não concluir que o universo sempre existira e dispensava um criador? O universo era o ser, a existência em si, o contrário do não-ser, do nada. Pronto! Como pudera ser tão ingênuo? Ainda assim, me congratulei pela descoberta definitiva. Enxergava agora um horizonte, uma perspectiva, um ponto de fuga. Muito mais lógico. Muito mais justo. E passei a ter mais respeito por mim mesmo. Sobretudo, aquela luz iluminara meu caminho e me livrara, de uma vez por todas, dos maus presságios da minha vida ‘pecaminosa’. Estava estabelecido, de forma irrevogável, meu rompimento com o Deus Criador ‘obrigatório’.

De imediato, sem que meus pais soubessem, parei de freqüentar igrejas. E possuiu-me uma inefável leveza interior, nunca antes experimentada.

Nas férias imediatas, procurei o dito padre e lhe comuniquei a grande revelação. Qual não foi minha surpresa, minha absoluta estupefação, quando, despindo-se por instantes das conveniências que sua condição de pregador religioso aconselhavam, ele exclamou, sem querer:

- Puxa, minha idéia, desde aquele dia, era de que você tinha mais fé do que eu...

Apesar dessa confissão, ele continua sendo padre. E isso eu nunca entendi nem perdoei...

 

Mário Gentil Costa

         magenco@terra.com.br

Escrito por MaGenCo às 20h27
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GENTE, DEPOIS DO QUE ANDEI FAZENDO (APRONTANDO) ONTEM NO BLOGUE, DEVO A TODOS DUAS JUSTIFICATIVAS: A PRIMEIRA É O DESACERTO DO LINDO RELÓGIO QUE, NO MOMENTO – 09,20h DE UMA ENSOLARADA MANHÃ DE DOMINGO EM FLORIPA - ESTÁ MARCANDO 03,22h, QUE NEM IMAGINO SE SÃO DA TARDE OU DA MADRUGADA. E O PIOR É QUE NEM SEI COMO ACERTÁ-LO, PORQUE O AMIGO ALUÍZIO AMORIM – http://oquepensaaluizio.zip.net - QUE TÃO GENTILMENTE SE OFERECEU PARA INSTALÁ-LO, NÃO ESTÁ AQUI NO MOMENTO. I’M SO SORRY !!

A SEGUNDA É A INTRODUÇÃO – SONHO ANTIGO - DO BELO E PULSANTE DISTINTIVO DO FLAMENGO, MINHA RELIGIÃO. COMO JÁ AFIRMEI EM CERTA OCASIÃO, SEI QUE POSSO DESAGRADAR A UMA MINORIA INSIGNIFICANTE, MAS, PELAS REITERADAS PROVAS QUE AS PESQUISAS MOSTRAM, RECEBEREI MAIS APLAUSOS DO QUE VAIAS. PORTANTO, ESTÁ JUSTIFICADA A IDÉIA. AVISO: SE O DISTINTIVO NÃO ESTIVER À VISTA NA ÁREA LOGO ABAIXO DE 'OUTROS SITES', BASTA QUE SE DÊ UMA AJUDINHA COM A SETA DO MOUSE, E ELE SE ABRIRÁ POR INTEIRO. E QUANTO MAIS SE MEXE NELE, MAIS ELE PULSA ATÉ FICAR INTEIRAMENTE DOIDÃO... É UM BARATO. EXPERIMENTEM!!

E NÃO DEIXEM DE ME VISITAR POR CAUSA DISSO, JÁ QUE OUTRAS COISAS MENOS CONTUNDENTES VIRÃO POR AÍ. GRANDE ABRAÇO DO MaGenCo

Escrito por MaGenCo às 08h37
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Este meu trabalho, de 29 x 47 cm, se chama "IMPROVISO-FANTASIA" em homenagem a Frederic François Chopin, autor da fabulosa peça musical para piano que leva o mesmo nome. Técnica mista sobre placa prensada, foi pintado em 1987. A base é tinta acrílica, mas foram usados sobrepostos de crayon e lápis-cera para obter brilhos, sombras e relevos. Está aqui a meu lado, ocupando a parede mais nobre do meu escritório e já serviu de inspiração em diversos momentos em que minha criatividade estava em baixa.  Abraço do MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 16h57
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SEGUNDA VIA

 

Esta é a reprodução de um e-mail que acabo de endereçar a uma amiga visitante do bloque em resposta a seus questionamentos de como ‘se entende’ a arte abstrata. Sinto-me à vontade para contar o milagre, já que não estou revelando o nome do santo, porque, a meu ver, o assunto é de interesse geral.

 

Cara Amiga,

Como me propus, aqui estou para tentar responder a seus questionamentos. Em primeiro lugar, como sugeri na resposta dada a seu comentário no blogue, qualquer pintura existe para despertar, em primeira instância, emoção e, se possível, compreensão.

Na arte figurativa, esses dois aspectos podem até ser simultâneos, pois ela, em geral, parte de imagens existentes no mundo ao redor; na pintura abstrata, todavia, a compreensão é totalmente desnecessária, já que se baseia em cores, traços e formas que, em princípio, nascem da sensibilidade estética do autor, que é uma condição totalmente subjetiva. O abstracionista não se compromete com nomes ou definições. Procura, apenas, expressar seu mundo interior e desde que consiga produzir o belo com equilíbrio e harmonia já alcançou seu objetivo.

          No quadro em apreço, - intitulado Amadeus - essa meta eu acho que consegui, pois você gostou. Claro, no caso específico desse trabalho, procurei criar formas que aludissem à música e, para isso, sugeri, com total liberdade, claves de fá e de sol, teclados, notas e instrumentos musicais, ritmos, enfim, idéias correlatas. Mas continua sendo uma obra abstrata, sem compromisso com imitações da natureza.

          Esta é uma regra básica em toda criação livre: não se ater a fórmulas pré-estabelecidas no mundo físico que conhecemos a olho-nu. Mesmo assim, como afirmo na crônica que estou anexando, a natureza que vemos esconde formas que aparentemente seriam abstratas; são aquelas que compõem o universo macroscópico e microscópico que a vista humana desarmada não percebe. É o caso de uma explosão estelar ou de uma colisão intergalática produzindo imagens tão deformadas que simulam um imenso borrão colorido; é o caso de um tecido humano deformado por um câncer, observável apenas ao microscópio. Ambos, quando vistos, - respectivamente ao telescópio e ao microsópio - simulam uma completa desorganização e, apesar disso, fazem parte da realidade viva.

Escrito por MaGenCo às 21h45
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Sem querer parecer mórbido no exemplo dado acima, asseguro-lhe, como médico, que existem tumores malignos capazes de produzir maravilhosas combinações cromáticas; capazes, em suma, de simular as mais grandiosas obras de arte abstrata. Cito como exemplo disso, algumas criações casuais do grande e inimitável abstracionista nipo-brasileiro que foi Manabu Mabe, cujas manchas tornaram sua arte imortal.

Então, de uma vez por todas, basta você aceitar estes postulados para perceber que enxergamos apenas uma ínfima parte do mundo real, e o invisível é o que predomina tanto no macro quanto no micro-universo.

Pois é esse invisível que procuro explorar e imaginar com minhas formas, traços e cores. É esse mesmo invisível que o compositor procura sintetizar nas melodias e nos acordes de sua música. Aliás, neste caso em particular, cabe um argumento extremamente ilustrativo: a música, assim como a pintura abstrata, não existe para ser "entendida"; existe para ser "sentida". Se ela agrada ao ouvinte, valeu; se não agrada, não valeu. Acho este exemplo definitivo e irretrucável.

Agora, se tiver paciência, leia o que escrevi há muitos anos, justamente no intuito de transmitir àquelas pessoas que ainda não despertaram para essa realidade o que eu penso que seja a verdade no infinito mundo do abstracionismo.

Esperando ter sido capaz de convencê-la da validade dos meus argumentos, fico à sua disposição para continuar discutindo o assunto.

Muito obrigado, mais uma vez, por sua visita e, convidando-a a que volte a visitar meu blogue, que estará em contínua renovação, dou-lhe parabéns por sua curiosidade. Pois foram a curiosidade e a dúvida sadias que promoveram o progresso do intelecto; não foi a fé...

Cordiais saudações do Mario Gentil Costa 

 



Escrito por MaGenCo às 21h44
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ABSTRACIONISMO

(Como “entendê-lo”)

 

          Imagine, caro(a) leitor(a), uma pintura abstrata. Qualquer uma. Há quem a condene de imediato; quem não a aceite como legítima manifestação artística. São aqueles apreciadores que têm a visão estereotipada em fórmulas ou definições estabelecidas no ambiente físico conhecido. A eles, exclusivamente, dirigimos esta breve e despretensiosa mensagem:

        "Arte Abstrata", em seu caráter mais genuíno, define todo trabalho criativo que seja despojado de figuras ou formas alusivas ao mundo macroscópico que nos rodeia.

        O abstracionismo, por assim dizer, rejeita a imitação de modelos exteriores, concentrando sua força na pura expressão da sensibilidade introspectiva do artista, que, alheio a influências objetivas, procura exprimir, com manchas, traços, formas ou cores, seu subjetivo senso de beleza qual simples secreção de emoções, como faz o compositor ao produzir música com sons.

        Por casual analogia, são sete as cores da luz branca polarizada no arco-íris, assim como sete são as notas musicais; caminhos paralelos, caminhos irmãos. Ambos, respectivamente, chegam, através da visão e da audição, a um destino comum: - a nossa sensibilidade estética.

        Não gostar de um determinado quadro, abstrato ou não, equivale a não gostar de uma determinada música; é um direito que assiste a qualquer um de nós. Diferente, contudo, é não gostar aprioristicamente de abstrato algum. É o mesmo que não gostar de música alguma, o que configura, indubitavelmente, uma aberração, uma brutalidade, pois uma bela combinação de formas e de cores é perfeitamente capaz de produzir efeitos agradabilíssimos ao olhar do espectador sem preconceitos.

Escrito por MaGenCo às 21h29
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        É contraditório o fato de que pessoas que exigem nomes para todos os bois são, muitas vezes, as mesmas que, diante da padronagem de um tecido destinado ao vestuário feminino, não vacilam em escolhê-lo justamente por aplaudir sua harmonia cromática.

        Deplorável, portanto, se torna a recusa quando justificada na absurda exigência de “entendimento" e de significados, fatores absolutamente desnecessários nesse contexto. Da mesma maneira, se nos basta sentir a graça pura da boa música, mesmo sem títulos, deve bastar-nos sentir o encanto de uma bela pintura abstrata.

       Prosa ou poesia, essas sim, temos de entender e sentir, visto que, servindo-se da palavra, nos transmitem uma mensagem que se define em sua acepção verbal.

       A julgar pelo raciocínio dos habituais detratores da arte abstrata, a aparente deformidade existente na imagem desorganizada de uma explosão estelar a milhares de anos-luz, quando vista de um telescópio espacial, não faria parte da realidade.  Mas ela gera, por vezes, surpreendentes e fantásticas combinações estéticas, não obstante ser a própria Natureza o seu autor. A mesma Natureza, que, em sua ilimitada vastidão cósmica, de todo fora do nosso alcance e da nossa compreensão, nem por isso deixa de ser uma infinita e abstrata obra da existência.

 

       

          Mário Gentil Costa

        Médico e Ex-Prof. da UFSC

        magenco@terra.com.br

 



Escrito por MaGenCo às 21h28
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Ainda comemorando o 250º aniversário do nascimento do grande Mozart, reapresento-lhes este meu trabalho em técnica mista, intitulado "AMADEUS" e pintado na época em que passou no Brasil o filme que conta a história de sua curta, tumultuada e produtiva existência. Mede 47 x 71 cm, e o meio é uma placa prensada. Olhando-o com atenção, talvez possam 'ouvir' as passagens saltitantes da Sinfonia nº 40 que se embutem nos ritmos, nas formas e nas cores. Abraços do MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 11h02
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CRER-PARA-VER

 

         A lenda nos conta que Tomé precisou ver para crer. E ainda fez questão de tocar nas chagas do Cristo. O mesmo, em princípio, nos ensina a ciência. Tal pragmatismo, contudo, pode não ser a postura ideal. O fato é que nem sempre encontramos explicação convincente para certas evidências.

Estou convencido de que, em determinadas circunstâncias e com a devida cautela, deveríamos inverter os verbos: em vez de “ver-para-crer”, adotarmos a ordem inversa; “crer-para-ver”. Seria o caso de estarmos abertos a hipóteses que a ciência ainda não esclareceu para não corrermos o risco de, por puro preconceito, passarmos ao largo de fenômenos que o futuro explicará, condenando-nos ao ridículo.

         Isso aconteceu com o “poder católico oficial”, que qualificou de hereges gênios como Giordano Bruno ou Galileu Galilei. Pois o castigo não tardou: - eles são imortais, e ninguém hoje sabe o nome dos zelosos guardiães da verdade vaticana da época.

         Também dentro da medicina, um ecletismo bem dosado é recomendável.

         Diz-se que não há doenças incuráveis, e sim, doenças que os médicos não sabem curar. Assim sendo, ao invés de repudiarmos certos empirismos que desafiam nosso orgulhoso entendimento, acrescentemos um “ainda não sabem a essa afirmação galhofeira e estaremos abrindo uma porta ao futuro.

Escrito por MaGenCo às 20h17
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Qualquer médico que atue em hospitais já ouviu diálogos como os que seguem:

         - Semana passada, perdi um paciente da maneira mais absurda. Não me conformo...

         - O que foi que aconteceu?

         - Ah, rapaz, uma herniazinha inguinal “de estimação”..., dessas que se opera preventivamente...

         - E de que ele morreu?

         - Pois aí é que está..., eu não sei... Fez uma parada cardíaca e não voltou. O mais estranho foi o que ele me disse na véspera da cirurgia: “Doutor, eu sempre tive muito medo de faca. Vou me operar porque minha mulher vive dizendo que uma hérnia pode ‘estrangular’ e causar um problema maior. Mas tenho um mau pressentimento...” Arriscou e, simplesmente..., morreu. Você é capaz de explicar?

         - É..., explicar eu não sei. Mas li, em algum lugar, que existem dois tipos de pacientes: os “morredores” e os “sobrevivedores”. Já tive um caso oposto ao seu. Uma cirurgia de alto risco, mas inadiável. O paciente, cheio de complicações, teoricamente, não teria grande chance de suportá-la. Abri o jogo com a família e com ele próprio. Sabe o que me disse?: - “Doutor, não tem problema. Pode operar sem receio. Eu saio dessa!” Operei e não deu outra. Ele, simplesmente, tirou de letra. Está vivo até hoje. Você é capaz de explicar?

         Pois é bem assim, minha gente. Ninguém explica. Como entender um paradoxo desses? Onde estará situado o misterioso “fator” que diferencia os dois extremos? Será ele químico? Será psíquico? Ou será psico-químico...?

         Mas por favor, caro leitor, não rotule tais singularidades! Muito menos lhes atribua origens sobrenaturais. Espere! Um dia, como sempre aconteceu, esse mistério será incorporado ao acervo da ciência.

 

Mário Gentil Costa

magenco@terra.com.br



Escrito por MaGenCo às 20h15
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Este é o famoso "Nu Descendo Escada" (Nude Descending Staircase), de Marcel Duchamps. Com certeza, é da mesma época do "Menino Triste", mostrado mais abaixo, e indiscutivelmente superior. Vejo-o como um trabalho  cubista. Representaria os passos de sua modelo descendo os degraus do mezanino (onde o artista dormia?) em direção ao ateliê. Parece uma sequência cinematográfica. Sua obra-prima. Esta, pelo menos, é a opinião do MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 18h45
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I WOULD LIKE  TO LET MY FOREIGN VISITORS KNOW THAT I CAN READ AND WRITE IN ENGLISH. OR SPANISH AS WELL.

SO, DON’T HESITATE TO SEND ME YOUR EVENTUAL COMMENTS, MAINLY ABOUT MY PAINTING AND SCULPTURE (WOOD-CARVING).

OF COURSE, IF YOU DON’T SPEAK OR UNDERSTAND PORTUGUESE, MY WRITTINGS WILL NOT BE AVAILABLE TO YOU.

CONSIDERING MY NATURAL AND INEVITABLE LIMITS, I WOULD ONLY ASK YOU TO AVOID RARE OR UNUSUAL WORDS.

SO, DON’T BE AFRAID. WRITE ME! IT WOULD BE A GREAT PLEASURE TO CHAT WITH YOU ALL. THANK YOU VERY MUCH !!!

MARIO GENTIL COSTA = MaGenCo (http://magenco.blog.uol.com.br)



Escrito por MaGenCo às 16h02
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Este entalhe chamado ÂNFORA, é da época do de baixo (1977). E do mesmo tamanho. A madeira era melhor; por isso, o produto saiu mais perfeito. Pasmem! Ele ultrapassou as fronteiras brasileiras, já que foi parar em Portugal, onde morava um sobrinha. Nada como o privilégio de ser um artista "internacional". MaGenCo  



Escrito por MaGenCo às 12h21
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O MENINO QUE TEIMA EM EXISTIR DENTRO DE MIM

        

Eu era um garotinho quando terminou a Segunda Guerra Mundial. Lembro-me, como se fosse hoje, das fotos dos jornais e das revistas estampando, em preto-e-branco, o retorno glorioso dos soldados brasileiros que haviam lutado na campanha da Itália. Um desses era meu primo Hildebrando, que, ao chegar, desfilou de muletas pelas ruas da cidade com a perna esquerda envolta em gesso, conseqüência do estilhaço de um disparo alemão na tomada do Monte Castelo.

         A altiva figura do vencedor, vista assim de perto, deixou-me fascinado e, por um insondável mecanismo de conversão que perdurou até a adolescência, toda perna gessada que cruzasse meu caminho tinha o poder de um sortilégio fugaz que repetia o passado, como se fosse o troféu de guerra de um novo herói.

         Aquela maravilhosa envoltura branca me parecia o requinte, a culminância da glória. Invejava o prazer de poder escrever coisas naquela armadura, - marcar datas, desenhar caricaturas, receber autógrafos dos amigos e familiares que me rodeassem. Devia ser uma alegria poder guardá-la como um estandarte conquistado a duras penas nos campos de batalha. Mas nunca fui para a guerra e jamais quebrei um único osso. Em virtude disso, amarguei, naquele curto período da vida, um inconfessado desapontamento.

         Lembro que, certa vez, de tanto pensar no desejo reprimido, vivi a tentação de provocar uma fratura, já que não tinha a “sorte” de sofrê-la. Mas me faltou coragem. Tive medo da dor. Ocorreu-me, então, a idéia de convencer um ortopedista a instalar-me numa perna aquela esplêndida peça. Já me via manquejando pela praça, com a bengala de castão de prata que pertencera a meu avô. De novo desisti quando cheguei à conclusão de que o médico se recusaria, e de que meus pais, mesmo sem ser supersticiosos, não concordariam com a molecagem.

 

 



Escrito por MaGenCo às 10h23
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         O disparate foi, aos poucos, sendo sepultado nos porões da memória. Anseios mais robustos e inadiáveis, novas prioridades, encantos mais justificados e consistentes foram tomando forma e substância em meu espírito e ocupando por completo o espaço restante. E acabei por sufocar os devaneios da idade. Os anos passaram, veio a maturidade, vieram os cabelos grisalhos, e o fato é que nunca tive ocasião de ostentar aquela vistosa medalha de guerra que tanto havia excitado a minha fantasia.

 

         Dia desses, penetrando, como um sonâmbulo, as teias desse jazigo de reminiscências, vi-me a remexer as sucatas do tempo e, vasculhando a esmo, desencavei, de uma prateleira coberta por espessa camada de bolor e de poeira, meu sonho estapafúrdio.

 

         Pude até racionalizá-lo. Mas o engraçado é que até hoje, quando deparo, nas ruas ou no hospital onde trabalho, com uma perna gessada e uma muleta, volto a sofrer, nem que seja por instantes, os efeitos retardados da minha frustrada extravagância juvenil.

 

São esses, decerto, os ecos do imaginário daquele menino que teima em existir dentro de mim...

 

Mario Gentil Costa – Floripa

         magenco@terra.com.br

 



Escrito por MaGenCo às 10h22
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Deste resto de madeira de cedro que ia ser desprezado pela baixa qualidade - como se pode ver pelas imperfeições - tentei produzir algo que prestasse. Saiu isto que aí está; uma forma ovalada abstrata a que, à falta de melhor idéia, dei o nome de BÓCA. Para quem nunca o ouviu, este termo típico dos velhos tempos da Ilha de Santa Catarina significava a depressão que se cavava no chão de areia para jogar bola de gude, o inocente folguedo da minha infância. Por isso, ninguém deve estranhar o acento agudo no "ó". É Bóca mesmo. Ou Bòquinha, para os mais íntimos. O que fica ao redor da mesma serve apenas para preencher o espaço restante na placa. Grande abraço do MaGenCo  



Escrito por MaGenCo às 10h13
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“O MENINO TRISTE”

 

Amigos e amigas, finalmente posso presenteá-los com a visão do quadro “Jovem triste em um trem”, de Marcel Duchamps. Vejam-no logo abaixo.  

Como, em minha memória, o nome era ‘Menino Triste” – por sinal, muito mais bonito – procurei-o em vão durante anos. Já havia desistido, quando um certo Tomás, por acaso, acessou meu segundo blogue http://magenco.zip.net e soube dessa minha busca.  Espontaneamente, ele, que tem talento de detetive, decidiu me ajudar. E depois de uma pesquisa que lhe deve ter consumido a paciência, acabou descobrindo o fio-da-meada e me oferecendo essa foto magnífica. Em homenagem à sua solidariedade, Tomás tem, a partir de hoje, o endereço de seu blogue - http://tagonza.zip.net - inserido em minha coluna de favoritos. Muito obrigado, amigo!

        Chamo a atenção de todos para uma particularidade extraordinária: a tristeza se espalha por todo o quadro. Com a atenção redobrada – sobretudo olhando mais de longe – é possível entrever-se ali, em meio à multiplicidade de traços e formas que dão a impressão de movimento da figura vertical que representa o personagem do título, uma série de carrancas entristecidas, que dão à obra o seu real valor criativo. Vale a pena tentar identificá-las. Há ali, no mínimo, meia-dúzia. Que eu tenha visto. Trata-se, a meu ver, de um desafio subliminar que só um mestre é capaz de propor...

        MaGenCo 

 



Escrito por MaGenCo às 09h48
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Este quadro de Marcel Duchamps se chama "Jovem triste em um trem". Amanhã, postarei um comentário mais extenso acerca do mesmo. Grato. MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 20h55
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A TRILOGIA DA ARTE

 

Arte é toda criação estética que excita as faculdades sensoriais e intelectuais. É inerente ao ser humano e existe desde o tempo das cavernas. Manifesta-se por diversos meios de expressão, entre eles, a literatura, a música, as artes visuais e suas respectivas subdivisões.

O pintor suíço Paul Klee dizia que “a arte não imita o visível; cria o visível”. Isso significa que o compromisso do pintor é com ele mesmo e não com a realidade ao redor. Caso do abstracionista, que imagina formas inexistentes, mas válidas como ideais do belo. 

A diferença básica entre as artes está, entretanto, nos sentidos visados: a música estimula a audição; já a pintura estimula a visão. Ambas se apóiam em pilares próprios: as notas musicais e a forma-cor, que, antes de entendidas, têm de ser sentidas.

Já a literatura se apóia na palavra, que é um símbolo tradutor de idéias e pensamentos e contém, uma vez conhecida a língua em que é falada ou lida, um significado a ser compreendido pelo ouvinte ou pelo leitor. Assim, o literato não tem a liberdade do compositor e do pintor (definição de Paul Klee, acima), ou melhor, esta lhe é dada, no aspecto artístico-criativo, desde que obedecidas normas de grafia, concordância e pontuação. Em suma, o escritor está preso a compromissos que redundam na comunicação racional e se os desobedece além dos limites, com ou sem intenção, torna-se um incompreendido.

Esta é a defesa de uma tese que tem sido motivo de discussões tidas com defensores da total liberdade literária, que faculta aos “escritores modernos” o direito de subverter tudo o que está estabelecido como a maneira correta de escrever.

O texto jornalístico, embora seco e sucinto – por isso mesmo não artístico – é o único que resiste, hoje em dia, a essa tendência liberalista. Nele, a informação tem de ser clara e objetiva porque o alvo do jornal é o leitor comum. Já o livro, destinado a uma minoria mais intelectualizada, pode e deve, no entender desses liberais, ser o ilimitado campo experimental do escritor. E, em nome dessa liberdade – para mim, “libertinagem criativa” – surge uma corrente de falsos artistas da palavra, que, sob o argumento de que a língua é dinâmica – e para se distinguirem no quesito “originalidade” – subvertem a linguagem de maneira tendenciosa, transferindo ao leitor a hercúlea tarefa de entendê-los.

         Em nome dessa falácia, estamos assistindo a uma campanha de desmonte de postulados intocáveis. Alguns, não raro por incompetência, chegam a desprezar a pontuação como coisa inútil; iniciam períodos com minúsculas; ignoram os princípios da concordância, oferecendo a suas vítimas incautas uma narrativa que, em certos casos, fica ininteligível. São modismos que, a meu ver, se encarregarão de destinar esses autores ao progressivo desprezo.

Em suma, tudo é arte, mas, ao contrário de sons e formas, que nos basta sentir, a palavra – que é símbolo da razão – tem de ser entendida.

 

         Mário Gentil Costa

mageno@terra.com.br    

 



Escrito por MaGenCo às 08h45
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Pintei isto em 1977. Chama-se FLAGRANTE VERTICAL. Mede 30 x 30 cm. Trata-se de uma dupla placa prensada, ou seja, a área trabalhada (lado liso, recortado, fazendo sombra) repousa sobre um quadrado rugoso do mesmo material. A técnica é o esgrafito e a tinta básica é acrílica. Nunca foi emoldurada nem exposta e, pra ser honesto, nem sei por onde anda. Sei que a embrulhei para evitar arranhões e escondi em alguma prateleira, quem sabe entre livros. Se quiser reencontrá-la, terei de penar um bocado. Mas valeria a pena. Talvez minha esposa ajude nessa busca. Obs.: o quadro não está amputado. Seus limites são aí mesmo. Fim inesperado, como um bom conto... Também vale de ponta-cabeça. Tanto que assinei no miolo, nos dois sentidos. Será que alguém vai achar? Abraços. MaGenCo 



Escrito por MaGenCo às 20h32
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HIDROTERAPIA

 

Água é o melhor remédio para a sede – e para a saúde.                                              

Refiro-me a água filtrada e sem gás. A propaganda enganosa diz que a alternativa é uma borbulhante cerveja de colarinho branco. Mentira! Cerveja é álcool, que desidrata e vicia. Refrigerantes também viciam. E têm ingredientes corantes artificiais. Apenas sucos de frutas naturais, feitos em casa, substituem a água. Dito isto, pergunto se você, leitor, bebe bastante água. Se bebe pouca, sob a alegação de quem não tem muita sede, também urinará pouco. E uma urina forte, carregada, é sinal de desidratação. A urina normal é clara, porque é diluída pela água.

         Seu corpo tem cerca de 70% de água – mais que a metade de você, portanto. E ela está em todos os lugares do organismo. É seu melhor lubrificante. Através do sangue, ela transporta os nutrientes, elimina as toxinas pelos rins e pelo suor. Além disso, ajusta o metabolismo geral. Distribui as vitaminas, os sais minerais, as proteínas e os carboidratos. Carrega os hormônios masculinos e femininos. Produz maior quantidade de esperma e propicia uma ejaculação mais vigorosa. (A propósito, é interessante como esta última informação surpreende os pacientes jovens, que ficam de olhos arregalados. E as razões são compreensíveis...)

Mas os benefícios da água farta não param por aí: ela umedece as vias aéreas, evita rinites, sinusites, bronquites e ainda aumenta o fôlego nos esportes. Umedece as cordas vocais e dá qualidade à voz. Facilita a absorção dos medicamentos. Transporta os anticorpos. Garante a saliva e as lágrimas. Protege as gengivas e evita as cáries. Hidrata a pele, ao contrário dos hidratantes comerciais, que na verdade quase nada hidratam. Isto porque a água vem por dentro, pelo sangue, enquanto esses cremes, que vêm de fora, secam rapidamente ao vento e ao sol.

         Não bastasse isso, a água ajuda a digerir os alimentos; amolece o bolo fecal, protegendo da prisão de ventre, das hemorróidas e até do risco de câncer no intestino. Higieniza o organismo como um verdadeiro banho interno. E a vida veio da água – ou você acredita em Adão e Eva?

Por fim, ela reduz câimbras nos esportes. Aumenta a força e a elasticidade muscular. Acelera a cicatrização de ferimentos. Melhora o sono, a memória e a concentração. Sua falta desvitaliza os cabelos e apressa a calvície, (outro dado que desperta interesse em todos). Como é dito popularmente, ela “afina o sangue” que alcança os últimos capilares e energiza os neurônios que lhe conferem uma mente mais brilhante.

- Mas cerveja não tem água? – você perguntaria.

         - Tem, mas a diurese que resulta de sua ingestão é falsa; o álcool é um tóxico e precisa ser eliminado. Em vista disso, deve-se beber cerca de dois litros de água a cada 24 horas, ou seja, 10 copos, tomados a intervalos.

         - Terei de acordar no meio da noite pra beber?

         - Não, meu caro, pra fazer xixi... Mas garanto que vale a pena...

 

Mário Gentil Costa

magenco@terra.com.br

 



Escrito por MaGenCo às 20h13
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