MaGenCo


http://br.youtube.com/watch?v=nVcc_-G4K0E

Escrito por MaGenCo às 17h35
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AVISO !!!

AMIGOS E AMIGAS,

CONVIDO-OS, A PARTIR DE HOJE, DIA 3 DE NOVEMBRO DE 2008, A VISITAREM MEU NOVO BLOGUEhttp://magenco.blogspot.com  - NO QUAL DAREI CONTINUIDADE AO NOSSO AGRADÁVEL E FRUTUOSO PAPO. ESPERO, NESSA NOVA MORADA, CONTINUAR PRIVANDO DA COMPANHIA DE TODOS.

GRANDE ABRAÇO DO MaGenCo



Escrito por MaGenCo às 16h37
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OS CÃES SABEM A VERDADE

 

                                                          Claude Pasteur Faria

                                                      claudefaria@terra.com.br

 

 

         São quase 20 horas. Ao longe, ouço o espocar ritmado de foguetes. Devem estar anunciando a vitória do candidato Fulano no segundo turno da eleição para o cargo de prefeito. Da sacada do meu apartamento, vislumbro a aproximação de um cortejo insólito: um bando de crianças, ladeadas por adultos e cães, cantam a música que foi o carro-chefe da campanha do eleito; nos entremeios, os adultos riem, confraternizam e imprecam coisas terríveis (sei lá se verdadeiras) contra o candidato derrotado.

         – Viva o Fulano, soam quase em uníssono as vozes passantes, ao que os cães respondem com ganidos agudos e desconexos, como se lamentos fossem. Um arrepio percorreu-me de alto a baixo.   

         No ano em que Mário de Andrade escreveu Macunaíma (1928) eu ainda não havia nascido; quando Grande Otelo viveu a personagem no filme produzido por Joaquim Pedro de Andrade, em 1969, meus interesses de adolescente nem passavam perto do cinema de “gente grande”. Tomei conhecimento daquela obra modernista muitos anos depois, sem, confesso,  prestar a devida atenção ao seu conteúdo. Talvez tenha sido um erro. Talvez não.

         Ficou-me na memória, lá no fundinho dela, a falta de caráter da personagem, vivida pelo pequeno grande ator negro cuja vida foi marcada por várias tragédias. O pai morreu esfaqueado; a mãe era alcoólatra. Ator já consagrado, sua mulher matou o filho do casal, de seis anos, suicidando-se em seguida. Toda esta sólida cultura adquiri-a na Wikipedia.

         A personalidade depravada do índio Macunaima (somada às tragédias pessoais vividas por seu grande intérprete) bem retrata a verdadeira condição do povo brasileiro. Um povo tão sem identidade e sem vergonha na cara que - perdoem-me os patrulhadores de plantão - não tem mais conserto.

         A imprensa noticia que, numa cidade perdida no interior de um estado nordestino, os moradores estendem suas redes nos pórticos dos seus humildes casebres, sujeitando-se a persecução criminal pelo Ministério Público, com o intuito de apregoar aos candidatos, num macabro leilão, seus votos.

         Aqui, na capital de um dos estados mais desenvolvidos da federação, quase não há redes para se estender. Mesmo assim, corre de boca em boca que um voto não custa menos de dez reais, podendo chegar a cinquenta no segundo turno. É o que nos contam os que se candidataram mas não se elegeram, por falta de dinheiro. Sim, porque se o tivessem, os votos necessários teriam comprado.     

         As vozes daquela estranha procissão se perdiam ao longe, na escuridão que adentrava, e eu seguia refletindo sobre as verdades que o candidato eleito não pôde – e não pode - revelar aos seus milhares de acólitos que ainda estouram foguetes por toda a cidade. Verdades presentes em todas as campanhas políticas e administrações que se sucedem. Negociatas sem as quais ninguém se elege ou consegue se manter no poder. Intenções ocultas nas promessas utópicas de campanha. Inimagináveis crescimentos patrimoniais durante o exercício de mandatos eletivos. Acordos de alcova.

         Os candidatos derrotados no primeiro turno, que semanas antes bradavam com a força de seus pulmões que Fulano era ladrão e Beltrano, oligarca, mudaram de idéia rapidamente e desdisseram o dito. Bandeiras mudaram de mãos, mas as cores permaneceram as mesmas. Tudo em nome da “governabilidade”. Tudo em nome do povo e para o povo. Muito prazer: meu nome é Fulano Povo.

         Nossa gente brasileira não é mais que uma multidão de Macunaimas. Os candidatos Fulano Povo, Beltrano Povo, Sicrano Povo continuarão sendo eleitos e reeleitos ad aeternum. Todo e qualquer prefeito tem a obrigação de asfaltar ruas e construir escolas; mas também a de governar com ética e decência. Enquanto isto não for compreendido, ou assimilado, pelos eleitores, continuaremos subjugados a essa nova forma de coronelismo, na qual os votos carbonados transmudaram-se em teclas coloridas.

         No fundo, acho que, em termos de política, os cães sabem de muitas coisas que os humanos desconhecem. Um último ganido estridente fez-se ouvir ao longe. Fechei a janela da sacada e fui dormir.



Escrito por MaGenCo às 04h19
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“SER MÉDICO? NUNCA!”

 

Não li a respeito do percentual de médicos que têm filhos médicos, mas até prova em contrário, afirmaria que eles, hoje, são uma minoria.

Penso que, outrora, a escolha da profissão do pai era decorrência natural da emulação ou da convivência com a imagem positiva de uma atividade que, socialmente, impunha respeito, quando não, reverência, e propiciava imediato e duradouro retorno material.

Talvez, até, tenha sido assim em outros tempos, mas noto que na minha geração – ou a partir dela – o panorama parece estar mudando, seja porque a consideração despertada já não é a mesma, seja porque, com raras exceções e dependendo da especialidade escolhida, a medicina, nos moldes em que é praticada no atual regime assistencial brasileiro, há muito deixou de ser a profissão compensadora que era.

A meu ver, devem ter contribuído para essa guinada, de um lado, a pletora de profissionais a disputar um mercado de trabalho em que o alvo – que é o paciente – vê-se cada vez mais empobrecido e, de outro, uma inevitável baixa do limiar de escrúpulos que costuma comandar o egoísmo natural do ser humano na disputa por seu lugar ao sol.

Não há dúvida, também, de que, nos tempos mais recentes, a oferta indiscriminada de faculdades de medicina no Brasil – algumas de nível inferior às exigências mínimas que o Ministério da Educação e o bom senso recomendam para o ensino e o conseqüente aprendizado de um ofício tão complexo – levou ao atual descompasso.

Vale acrescentar o fato de que, nos “modernos” métodos de aferição de conhecimentos, adotados nos atuais exames vestibulares – baseados em respostas de múltipla escolha em que basta ao candidato assinalá-las com um “x”, e em que as provas não mais são corrigidas uma a uma, e sim, escrutinadas impessoalmente por um computador – os postulantes jamais usam a escrita cursiva e, muito menos, como era no meu tempo, são submetidos a exames orais em que o examinador podia, mesmo que superficialmente, avaliar, além da competência, a pessoa do futuro aluno e colega.

Seja por isso, seja por aquilo, o vestibular, em termos de filtro, mudou para pior. E a profissão médica como primeira escolha, também. Há até quem já pense na conveniência de se criar uma prova elementar de ética pessoal, idéia com a qual concordo sob todos os aspectos e por todos os títulos.

É bem verdade que as opções atuais são mais numerosas, permitindo aos jovens em idade de decisão uma variada gama de alternativas eventualmente mais promissoras.

Apesar disso, continua sendo o vestibular de medicina o mais concorrido em nosso meio. Mas as proporções estão mudando...

Todavia, o que se vê, como disse no início, é uma crescente desproporcionalidade entre candidatos que descendem de médicos e aqueles que provêm de pais não médicos.

E embora haja até casos raros de filhos-únicos que seguiram os passos do pai ou da mãe, temos, em nosso meio – e suponho que a amostragem valha para o Brasil – exemplos ilustrativos de tal fenômeno divergente, pois não tenho dúvidas de que está havendo um êxodo.

 

O fato é que esses pais, em geral bem-sucedidos e competentes, não sabem dizer por que ou nunca pensaram nisso. E, quando questionados, confessam, à-boca-pequena, que gostariam de ter um filho a quem pudessem transferir sua experiência e, até mesmo, sua antiga e tradicional “clientela”.

Eu e minha esposa também não tivemos filhos médicos. E olhem que eles são quatro – duplas de moças e rapazes, modéstia à parte, inteligentes e bem formados; e dariam, sem dúvida, bons profissionais da medicina.

A diferença, no meu caso, é que eu sei por quê. Sei, até mesmo, o momento em que os quatro tomaram a decisão de seguir outros caminhos. E esta é a historinha que quero contar hoje.

 

Era inverno. Plena madrugada de um sábado para domingo. Chovia e ventava forte. E eu estava gripado, com febre. Até adiara uma cirurgia na véspera. O telefone (único) tocou na sala. A campainha era estridente. Corro para atender...

- De onde? Eu nunca trabalhei nesse hospital! Nem sei onde estão os instrumentos!

Meus filhos, acordados pelo barulho, chegam, sonolentos, e espiam da porta do quarto.

- Mas doutor, o nosso médico não foi encontrado, e a paciente não está nada bem. A pressão está baixando! E o nariz cada vez sangra mais...

Em Floripa era assim naquele tempo - não havia plantão de especialistas. Muito menos em fins de semana. E o único otorrino da casa não fora encontrado. Talvez tivesse viajado...

O que fazer? Tive de assumir. Contrariado, vesti um capote e um chapéu. Quando já estava à porta, um deles, antes de voltar para a cama, exclamou, com toda a força da sua voz infantil:

- Isto não é profissão !!!

Hoje, eles são três advogados e um administrador de empresas. E foi ali, naquele momento e naquela madrugada, que decidiram não ser médicos... Tenho certeza!

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 22h42
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RESPOSTA A UM AMIGO CRENTE

 

Meu caro, continuas não me entendendo. Tenha ou não tenha a ver com fé ou religião, a escatologia, como proposto em sua definição, é um mero exercício de adivinhação. Ninguém pode escrever sobre o fim das coisas ou sobre o fim do mundo. Já te expliquei por quê. E isso é o que me interessa dizer. Por outro lado, 2+2 sempre serão 4, digas tu o que quiseres. Além disso, Lavoisier só não diz tudo pra quem não entende a profundidade abissal de seu pensamento, ou não quer entender. Nada se cria, amigo, por que a matéria e a energia sempre existiram no Universo incriado, eterno e infinito. O Universo é a própria existência, o Ser, o oposto do Nada. Assim como aceitas teu Deus como 'incriado', eu elejo meu Deus como o Universo em si. Não aceito o Deus criador das religiões, e isso é definitivo.

O que aconteceu ao longo do tempo foram meras transformações desses dois elementos cruciais - massa e energia. Ninguém pode aumentar ou diminuir a matéria universal ou seu contingente de energia; pode apenas transformá-la, como foi feito, por exemplo, com a fissão do átomo que gerou a energia para a explosão da bomba de Hiroshima e suas sucedâneas; como a queima do combustível do teu carro gera, por transformação (combustão), a potência (energia) do motor. Percebes agora? O Todo cósmico incriado - se quiseres, o Deus de Spinoza - é o que existe desde sempre e para sempre. E nesse Deus, até eu acredito sem preceitos de fé! Não acredito é no teu, com barbas, pai de Jesus e chefe de uma tríade inconcebível, o tal que teria ditado os 10 mandamentos – dos quais só se aproveitam 4 – a Moysés, outro tremendo mentiroso-vigarista, e dado margem ao desenvolvimento das religiões do Velho Testamento.

Meu equívoco não é o de 'aceitar as coisas como ditas', e sim, como pensadas por quem soube o que dizer, ao contrário dos profetas e dos papas, que diziam e dizem coisas sem o apoio da razão e da lógica, fundados na alegação de algo que nunca existiu, a chamada inspiração divina. Ou tu achas que repetir o absurdo conteúdo de dogmas inaceitáveis sem procurar ir fundo na análise dos mesmos não é pecar por credulidade e falta de senso crítico?

Eu aceito coisas ditas por quem pelejou para dizê-las e foi convincente no esforço de provar sua plausibilidade. Lavoisier fez isso, e eu o aplaudo sem restrições. Tanto é assim, que qualquer químico que repetir suas experiências em laboratório chegará às mesmas exatas conclusões. Já não posso dar o mesmo crédito a um velho ignorante que se tem na conta de infalível e diz que "Maria subiu ao céu em carne-e-osso". Já paraste para pensar nesse despautério? Então, faze o que me aconselhaste fazer: vai fundo nessa questão e verás que se trata de uma completa impraticabilidade - ninguém, nem por milagre, subirá ao céu em-carne-e-osso sem morrer por falta de oxigênio. A menos que disponha de uma espaçonave, é claro. Estúpido ou tremendo gozador é quem propõe um disparate desse porte. Tenho pena desse Pio XII, autor de tal façanha.

E, por favor, não me venhas com subterfúgios ou atenuantes, tais como 'sentidos figurados' e outras escapatórias estratégicas - ele foi, no mínimo, burro e imprudente ao cravar seu sinete sobre tamanho destampatório.

Está, portanto, provado que quem aceita coisas ditas sem cogitar és tu, e não eu. Não adianta, amigo. Não tens saída; ou admites as verdades verdadeiras da ciência ou estarás fadado a viver na crença de coisas ditas sem o menor propósito ou conteúdo. A escolha é tua. A minha já está feita...

 

           Mario Gentil Costa

 



Escrito por MaGenCo às 18h29
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A CARTA E O LIVRO

        

         Vez por outra, revendo meus arquivos no computador, topo com a cópia de uma carta endereçada e postada à moda antiga e descubro, ali registrados, ora velhos e bolorentos conceitos que já reformulei, ora idéias esquecidas que, refiltradas pelo meu senso crítico mais apurado, adquirem ângulos surpreendentes e despercebidos.

Essas eventuais voltas ao passado, que empreendo sem premeditar, me dão, ao constatar as transformações que sofri, a medida de um ou outro crescimento interior de certa valia e um sem-número de motivos para lamentar ocasiões em que melhor teria sido não escrever.

Um deles, que hoje deploro, foi sobre arte plástica, quando comecei a praticá-la por volta de 1972. Caí na asneira de escrever a respeito. Devo, com minha insensatez, ter passado ostensivamente meu próprio atestado de incompetência. Como meus conceitos mudaram! Como, depois disso, fiquei humilde! Eu era um tolo e não sabia... Pior que isso, era um tolo presunçoso... Felizmente, meus interlocutores levaram em conta minha inexperiência e se limitaram ao silêncio ou a discordar educadamente.        

É incrível como o tempo faz mudar as cabeças!

Bem à minha frente, na prateleira da estante, vislumbro outras velharias e, numa rápida olhada, alguns instrumentos de que outrora me servia para escrever: lápis, borracha, canetas de diversos tipos e idades, blocos pautados e sem pauta, papel carbono com que garantia minhas cópias e, num espaço maior, minha saudosa Remington 11, hoje coberta de uma tênue e quase imperceptível camada de pó doméstico que gosto de chamar de “pátina”.

Nem é bom lembrar o trabalho que tinha na época para endereçar o que escrevia. Hoje, sem envelopes ou selos, sem o trabalho de passar pelo correio, entrar numa fila de tamanho imprevisível, acostumei-me, viciei-me mesmo, aos confortos da internet.

         E embora adepto e cultor entusiasta do diálogo vis-a-vis, em tese, considero a palavra escrita, que já andou a pé, em lombo de burros, a cavalo ou de trem; que já singrou oceanos em naus e caravelas e hoje o faz a bordo de aviões, um meio insubstituível de aproximar pessoas sem a desvantagem das interrupções, às vezes dispersivas, do pensamento sequencial.

E, em nome desta convicção, faço uso da mesma para não deixá-la morrer vítima indefesa do jugo da velocidade e da pressa obsessiva que ditam o ritmo vertiginoso do homem atual.

Assim era a antiga carta postal. Foi ela, ainda manuscrita, um dos veículos que, guardado ou escondido nos baús e nas estantes, nas velhas e fascinantes escrivaninhas de segredos e cobertura de esteira, em meio a traças e poeiras, garantiu, ao longo da história, a recuperação, o manuseio e o contato íntimo com o sentimento genuíno e a sabedoria de tantos pensadores que, através dele, expandiram sem pejos ou receios, numa espécie de monólogo quase confessional, o conteúdo de suas convicções mais profundas, que, do contrário, se teriam perdido no tempo.

         Por tudo isso, cultuo a carta assim como o livro, duas instituições em risco de extinção e que devem ser preservadas a qualquer custo, sob pena de assistirmos à completa desumanização das relações humanas.

         Com relação ao livro, prefiro e respeito mais os que têm certa robustez. Não gosto de livros muito finos; não têm lombada que possa ser lida e que os sustente de pé. Além disso, espremidos numa estante, desaparecem.

         Mas voltando à velha carta, de vez em quando, topo com uma delas na memória do computador e, quando dou por mim, descubro, ali registrados, ora velhos e bolorentos conceitos que já reformulei, ora idéias esquecidas que, refiltradas pelo senso crítico, adquirem ângulos surpreendentes e despercebidos.

         Palmas para a carta e o livro! Dois patrimônios da humanidade...

 

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 11h20
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LONGEVIDADE E IMORTALIDADE

 

A longevidade é meta prioritária de todos os humanos. Ninguém quer morrer cedo, e, embora o paradoxo, ninguém quer ser velho ou aceita sem protestos os sinais do envelhecimento. A aparência jovem – ou seus simulacros – comanda as preocupações e determina ou justifica qualquer sacrifício. Daí tanto campo para as técnicas cirúrgicas de rejuvenescimento, tais como os liftings, os botoxes, as lipoaspirações, os silicones, as plastias em geral. Mesmo que isso envolva riscos e já tenha resultado em óbitos, vale tudo na luta inglória contra os inexoráveis estragos do tempo.

São raros os testemunhos de gente famosa que se recusa a essas práticas, como o de um certo ator, que, diante da cautelosa sugestão de uma fã ou de uma repórter, teria declarado ser contra tais artifícios por considerar cada uma de suas rugas – que de fato não são poucas – uma medalha adquirida em sua guerra pela sobrevivência. Admirável!

  A ânsia pela vida longa cresce diante da constatação de que algumas espécies, tanto na fauna quanto na flora, são capazes de viver séculos. Afinal, por que só a gente – que se tem na orgulhosa conta religiosa de ser a obra favorita da “criação” – tem de pagar o preço de uma morte comparativamente precoce, se até um estúpido molusco pode viver 400 anos, como foi divulgado recentemente. Para se ter idéia do quanto essa concha, chamada Quahog, já viveu, basta lembrar que é contemporânea de Shakespeare.

Isso, por acaso, é justo? Pode até não ser, mas parece ter explicação científica. Segundo as conclusões do pesquisador Leonard Hayflick, o envelhecimento decorre do desgaste no metabolismo celular. Um ser vivo permanece saudável enquanto suas células conservam a capacidade de se reproduzir à perfeição. E esse fac-símile decai com a seqüência da repetição. Seria, em analogia exagerada e grosseira, como se sucessivas cópias-carbono servissem de matriz para o similar subsequente; as imperfeições serão crescentes e inevitáveis. De resto, o número de vezes que uma célula pode replicar-se é programado por seus genes.

Além desse fator genético, a duração de cada ser depende da intensidade com que ele consome suas reservas de energia, ou seja, quanto mais intenso esse metabolismo, mais curta será sua vida. Um exemplo ilustrativo é o beija-flor, que, para sustentar-se parado no ar, bate as asas noventa vezes por segundo e, para isso, consome uma média de 6.000 calorias diárias. Pois bem. O preço que ele paga pelo privilégio dessa façanha de beleza plástica incomparável é viver a média de dois anos, ao passo que um canário, que se contenta em cantar, vive vinte, e um papagaio, que se dedica a repetir gracinhas e palavrões, pode chegar aos oitenta. Já a baleia, que tem energia calórica de sobra, chega facilmente aos 100 anos. Mas a regalia maior – ou mais injusta – coube a uma tartaruga chamada “Harriet”, levada por Charles Darwin das Ilhas Galápagos para a Inglaterra, e que faleceu no ano passado aos 175 anos. 

Tudo isso aponta para um aparente erro estratégico que os humanos cometem ao priorizar o rendimento máximo nos esportes competitivos. Ficará a cargo do futuro, provar que as atuais gerações de gloriosos medalhistas olímpicos, maratonistas e similares viverão menos. Tudo faz crer que a atividade física, praticada moderadamente e sem objetivos de bater sempre os recordes anteriores – como se o ser humano não conhecesse limites – é o segredo da longevidade sadia.

As reações químicas intracelulares, através das quais o organismo humano sintetiza energias, também produzem os chamados radicais-livres que levam à oxidação celular e, em conseqüência, ao envelhecimento do corpo.

Existe um outro aspecto pouco cogitado, por remeter a indagações de ordem mais filosófica que biológica, como se, por detrás de tudo, prevalecesse um determinismo ontológico de ordem cósmica: “No estágio atual da evolução, o ser vivo, cumprindo inconscientemente as leis imutáveis do Ciclo de Krebs – nascer, crescer, reproduzir-se e morrer – preserva-se saudável até o período em que se reproduz e assegura a permanência de sua espécie. Depois disso, por mais que lute e resista, ele, como indivíduo, entra num lento processo de falência orgânica até o momento de ceder espaço ao seu sucessor. Assim é a vida, por mais que as religiões e seus arautos nos acenem com perspectivas de sobrevivência eterna. Esta é minha honesta maneira de ver. E vale para todos, inclusive para os vegetais.

 

Por fim, foi encontrada no Brasil uma árvore, o Jequitibá-Rosa, que já completou 3000 anos. Quando Cristo pisou o planeta, ela já contava 1000. Mas como não existe imortalidade, ela também morrerá...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 23h26
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FUTEBOL

“o mais difícil e belo de todos os esportes”

 

Em tradução literal, “futebol” é “jogo de bola com o pé”.

É um esporte praticado entre dois grupos que se servem dos pés, do peito e da cabeça para marcar pontos, movimentando uma bola em direção à meta adversária.

          

         O futebol, como é conhecido hoje, foi trazido para o Brasil em 1894 pelo brasileiro Charles Miller, filho de ingleses, que desembarcou em São Paulo com duas bolas de couro e um conjunto de regras aprovado na Inglaterra. Promoveu o primeiro jogo em abril de 1895. A iniciativa pegou, e o resultado disso todos nós conhecemos:

 

Nenhum esporte no mundo desperta tanto entusiasmo popular.

Nenhum atrai tantas multidões e provoca tanta paixão.

 

Os primórdios do futebol, todavia, não são ingleses; - são chineses. Tudo parece ter começado 2500 anos a.C., embora a primeira publicação conhecida, de regulamentos de um jogo de bola com os pés, tenha surgido em 206 a.C., também na China. Seu objetivo era o aprimoramento físico para fins militares.

Mais tarde, em 150 a.C., surgiu na Grécia um esporte precursor do futebol, o episkuros, transportado mais tarde para a Itália pelas legiões romanas vencedoras. Daí surgiu o cálcio, nome até hoje adotado pelos italianos, que também o levaram à Grã-Bretanha, onde adquiriu o nome de soule e, mais tarde, de soccer.

 

A brutalidade posta em campo era tamanha, que, não raro, resultava na morte de contendores. Preocupado, o rei Eduardo II promulgou lei proibindo sua prática em 1314. A repressão, todavia, não impediu que o jogo continuasse. Eduardo III confirmou-a em 1349. Também não houve resultado. Diante da teimosia popular, o esporte, que até então permitia rasteiras, socos e outros golpes desleais e perigosos, foi submetido a uma primeira regulamentação, apesar da sistemática resistência dos reis até o fim o século XVIII.

Só no começo do XIX, com a atenuação da violência, a preferência dos ingleses pelo esporte prevaleceu. Rapidamente, o jogo foi adotado por escolas e universidades. O primeiro regulamento oficial, aprovado e homologado em 1846, partiu da Universidade de Cambridge. Até então, era permitido o uso simultâneo das mãos e, só em 1863, os partidários do futebol, praticado apenas com os pés, o peito e a cabeça, fundaram a Football Association.

A reação de alguns inconformados com tal limitação deu origem à Rugby Association, que mantinha o uso das mãos e deu origem ao chamado “Football Americano”, que, de futebol, tem apenas o chute inicial, mesmo assim praticado com um objeto oval – e não esférico – “apelidado” de bola. De resto, é uma carnificina, uma verdadeira batalha campal, praticada com elmos, ombreiras e capacetes cujo objetivo é assegurar a sobrevivência de brutamontes deselegantes.

        

O entusiasmo pelo verdadeiro futebol em todo o mundo levou à criação da Federação Internacional de Football Association (FIFA) em 1904, e o primeiro jogo entre nações ocorreu entre Escócia e Inglaterra em 1905. 

         E também levou os americanos, que inventaram aquele arremedo e não engolem a preferência do resto do mundo, a praticá-lo.

         Resta esperar que, eficientes como costumam ser em quase tudo, eles não adquiram a ginga e o parangolé brasileiros. E é provável que não, a julgar pela sistemática dificuldade que têm os ingleses – e os europeus em geral – de vencer os sulamericanos.

Sim, porque, a meu ver, o maior clássico mundial é disputado entre Brasil e Argentina, os dois países que praticam o melhor futebol. Esta é minha opinião.

 

Para finalizar, até onde me consta, modernamente, o futebol é o único jogo de bola que não permite o uso das mãos, exceção feita ao goleiro ou na cobrança de laterais. 

E, como os pés, o peito e a cabeça são órgãos rudes, desprovidos, do ponto de vista gestual, de habilidades inatas, o futebol é, a meu ver, o esporte mais difícil de praticar, ou seja, aquele exige mais destreza, mais precisão e maior talento.

 

Ouso afirmar, abstraindo preferências pessoais, que não existe, nem mesmo na dança, nenhum movimento de expressão corporal mais perfeito, mais plástico, mais reflexo, mais elegante, mais harmonioso do que um drible desconcertante, um gol de bicicleta nas alturas, um passe em profundidade, uma tabelinha triangulada, uma matada no peito em pleno ar, uma cabeçada certeira e fulminante, tudo isso feito sem as mãos, com o improviso da mais pura criatividade, sem a música, sem o ritmo e sem as coreografias treinadas à exaustão, em que cada um dos executantes sabe, de cor e salteado, o que vai fazer no passo seguinte.

 

O futebol, ao contrário, é improviso. E o craque é um genuíno repentista.

O futebol é criatividade, é inteligência espacial, é magia.

O futebol bem praticado é inigualável. É arte coreográfica pura.

 

E, para render minha homenagem às mãos, que afinal usamos tanto a vida inteira, confesso meu espanto e presto meu irrestrito aplauso a um goleiro que voa, com a mão espalmada, para tirar com a ponta dos dedos, no último minuto, uma bola da gaveta...

 

Mario Gentil Costa

 



Escrito por MaGenCo às 09h45
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A BELEZA DA DÚVIDA CARTESIANA

 

Não devemos confundir filosofia com teologia, escatologia e telefinalismo.

Tenho um dicionário de Francisco Silveira Bueno – em 9 volumes – muito superior ao Aurélio, que diz textualmente: "Escatologia = estudo do que acontecerá depois do fim do mundo".  Pode alguém imaginar maior adivinhação que esta? Alguém, algum dia, seria capaz de fazer afirmações em torno disso? Só mesmo delirando. Mesmo porque não há, sendo o mundo visto como o Universo, a menor probabilidade de que tal venha a acontecer. O Universo nunca terá fim. Por que é infinito. A única coisa que vai acontecer com absoluta certeza é o fim da vida no planeta Terra. E esse evento só poderá ocorrer de três maneiras: uma – a mais provável – por motivos astrofísicos, quando o Sol queimar sua última molécula de hidrogênio e se transformar – como de fato é previsto (e não adivinhado) pela ciência – numa gigante-vermelha que englobará e incinerará todos os planetas interiores (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte), fato que já aconteceu com outras estrelas, Antares incluída. Outra hipótese desastrosa seria o eventual choque com um meteorito de grandes proporções, uma colisão acidental de astros. E a última – que depende do comportamento humano – se a humanidade se autodestruir num conflito nuclear de proporções planetárias. Isso, sim, dizimaria  a espécie humana e a maior parte da vida animal e vegetal na superfície. Pronto! Está dito o que a ciência sabe, prova e garante.

O resto, escatologias à parte, é chute de gente que nada sabe e gosta de praticar adivinhações. É conversa-fiada de ignorantes presunçosos, incluídos aí todos os papas, teólogos e profetas bíblicos. Não há a menor possibilidade de essa gente ter qualquer razão em suas previsões místicas. Acho que isso basta para separar os alhos dos bugalhos. A única ferramenta de que dispomos para estudar essa fenomenologia é a ciência.

Mencionei os dogmas de propósito, justamente por tê-los na conta das afirmações mais infundadas e descabidas de que é capaz um papa ou um desses escatólogos atrelados aos ditames da fé organizada. Nada disso tem apoio na razão ou na lógica. Apesar dessa carência, há pessoas ingênuas que lhes dão crédito irrestrito. E não exagero nas minhas afirmações, todas admitidas pelos maiores luminares do saber científico. Em contrapartida, o que dizer da virgindade de Maria e da infalibilidade do papa? Isso não é afirmar categoricamente? Então, o que é? Como pode um papa afirmar coisas que o bom senso rejeita e, ainda assim, questionar o que afirmam aqueles que têm a razão e a lógica como pilar de sustentação? Qual dos dois merece credibilidade? O profeta, que previu absurdos que jamais se realizaram? O papa, que se diz iluminado pelo espírito santo e, em nome dessa falácia, se autodenomina infalível? Ou o cientista que se utiliza da física, da química ou da matemática para, depois de muito desgaste mental e anos de cálculos e profundos estudos, fazer previsões fundadas em raciocínios e testes confirmados em laboratório? Como foi que Galileu provou a tese da igualdade da velocidade da queda dos corpos no vácuo? Rezando? Por inspiração divina? Como foi que Lavoisier chegou à estupenda conclusão que o levou à lei da conservação da matéria e da energia em todo o Universo (Natureza)? Terá sido através de revelações místicas, vindas diretamente do além? Isso, sim, essas leis imutáveis mereceriam o rótulo de dogmas. Mas dogmas documentados, límpidos, claros, insofismáveis, indiscutíveis, que se repetem e confirmam a cada teste, dia-após-dia, ano-após-ano.

A diferença entre esses gênios e os papas está na tríade grega dos teoremas: hipótese, tese e demonstração. Peça-se a um papa para demonstrar um único de seus dogmas. Claro que ele nunca será capaz de fazê-lo. Se pedíssemos a Pio XII uma justificativa racional para o dogma da "subida de Maria ao céu em-carne-e-osso", teríamos uma resposta convincente? Jamais!

No entanto, a maior prerrogativa dada ao cérebro humano foi questionar em busca da compreensão. Foi graças a esse maravilhoso recurso intelectual da dúvida cartesiana que a ciência nos ajudou a compreender o que sabemos e que, por azar, ainda é tão pouco. Mas é o máximo que podemos ostentar, com a imensa vantagem de que iremos compreendendo cada vez mais, desde que não nos deixemos enganar por escatólogos e teólogos e dediquemos toda a atenção ao que nos dizem os postulados que provêm dos esforços fundados na razão.

Então, fica assim: 2+2=4 e a lei de Lavoisier sempre serão verdades, ao passo que afirmações de fé, que lidam com o além, sempre serão conceitos sem sustentação. Crer é aceitar passivamente, mas não é compreender. Que cada creia no que quiser - até mesmo em dogmas extravagantes - desde que guarde consigo sua crença e não queira impô-la a ninguém. Porque se a crença é livre, a descrença também é...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 10h18
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TELEFINALISMOS

 

Há gente que gosta mesmo de polemizar. Tenho um amigo que não faz outra coisa. Chamemo-lo de “H”. Está sempre me provocando, nem que seja para defender o indefensável. Eu tento evitar, mas ele não me deixa. Então, vamos lá:

H, tudo o que existe (matéria, coisa terrena) é um ser (unidade). Dois seres são duas unidades. Ninguém está falando de supremacia (ser supremo). Basta existir para ser um ser, seja ele um animal ou uma pedra (inanimada). Claro que existe uma vasta escala de níveis, de superiores a inferiores e, nessa escala, uma graduação e, em matéria de complexidade ou importância, o ser humano está no topo da escala zoológica, mas nada disso o torna obrigatoriamente eleito exclusivamente por Deus para uma destinação transcendental que é negada aos demais.

A grande e única diferença está na capacidade de seu cérebro, aliás, o autor dessa auto-destinação egoísta que nega aos demais, incapazes de abstrair, o mesmo direito de sobrevivência. Não existe, portanto, esse telefinalismo, a menos que se não lhe atribua origem sobrenatural. Se existe algum telefinalismo arquetípico, ele se insere na Natureza em si mesma. Afinal, por que negar ao macaco, que é o segundo em complexidade, os mesmos direitos? 

Em suma, seja paleontologia, seja teologia, tudo são hipóteses, e se a primeira não prova nada, muito menos o faz a segunda. Nunca se disse que a Natureza produziu o homem do nada; este é produto da evolução biológica, como o são todos os demais seres vivos. Concordo com a idéia de que tudo que existe tem uma razão de ser, mas esta razão está explicada em si mesma. A busca do aperfeiçoamento num nível consciente é inerente ao poder de pensar e de abstrair, recursos exclusivos do ser humano. Daí a filosofia e, paralelamente, a fé que serve de substrato e matéria-prima às religiões organizadas.

A busca do aperfeiçoamento também é conseqüência direta disso, inclusive na ciência. Afinal, esta deriva diretamente do poder desse cérebro capaz de questionar. Se a evolução tivesse parado nos primatas antropóides, não existiriam conjeturas racionais, e, muito menos, religiosas. Pode-se afirmar sem medo de erro que o simples uso da razão levaria inevitavelmente o homem a desenvolver sua ciência, e foi graças a esse poder que ele desvendou tudo o que conhecemos, inclusive a matemática. Puro exercício cerebral. As abstrações da fé também são conseqüências dessa ânsia de explicações e de respostas às nossas dúvidas. E a diferença básica entre essas duas vertentes se funda, de um lado, na busca de respostas para a fenomenologia que nos cerca, e de outro, na esperança de sobrevivência, por sermos o único animal que lembra o passado (memória) e aprendeu a intuir a própria morte. Se o macaco e os demais a intuíssem, teriam igualmente inventado a fé e as religiões que prometem a vida eterna, embora não a garantam de forma alguma. 

Portanto e por tudo isso, somos apenas os animais mais competentes, mas nunca os mais dignos de uma suposta prerrogativa divina rumo à eternidade. É assim que eu penso.

 

Mario Gentil Costa

 



Escrito por MaGenCo às 09h41
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"A MULHER DO CACHIMBO"

 

O Senadinho é, de longa data, o ponto de convergência do dia-a-dia em Floripa. Ali circula gente da mais variada extração e competência. Ali, em dois turnos regulamentares de repartição pública, assinam o ponto centenas de machos-classe-média, aposentados de todos os matizes e procedências; magros, gordos, moços, velhos, grisalhos, carecas e demais exemplares da fauna urbana, entretidos em bate-papos que discutem e resolvem todos os problemas nacionais e internacionais. Por ali transitam estudantes, comerciantes, comerciários, turistas, políticos, demagogos, tratantes, propagandistas, palhaços, pernas-de-pau, mentecaptos pregadores da bíblia, jornalistas, jornaleiros, cegos, cambistas, vendedores de loteria, além dos inefáveis “anotadores zoológicos a serviço do povo”, eufemismo bem-humorado com que se identificam os agentes do jogo-do-bicho.

Aos sábados, o local é ‘abrilhantado’ com desfiles de bandas de música da mais inimaginável origem. Mágicos e cômicos abrem clareiras e atraem círculos de curiosos para apresentar seus números em troca de contribuições espontâneas. Vez por outra, com idêntico propósito, surgem em determinado ponto, trepados em pedestais de madeira, figuras exóticas, vestes e corpos pintados até os olhos de uma tinta cor de bronze ou cimento, assumindo posturas de estátua em absoluta imobilidade a ponto de nem piscar. Até sua respiração é imperceptível.

Ali se joga dominó, damas e xadrez em mesas e banquetas de concreto, cobertas de caramanchões especialmente projetados. É também ali que desfilam mendigos da mais diversificada cepa, e muitos desses marcaram época pela assiduidade e pela atipia.

Referência especial deve ser feita ao saudoso e folclórico Job Maluco, um pobre-diabo de pouquíssimas luzes, que, munido de poderoso megafone, ganhava seus trocados enaltecendo as vantagens oferecidas por algumas lojas da redondeza, sobretudo as Casas Pernambucanas. Conta-se que, certa vez, Job, alvo sistemático da provocação de moleques gozadores, esquecendo-se de que sua voz ecoava no alto-falante, respondeu ao chiste insultuoso com a imediata execração da honra da genitora do ofensor, lapso que lhe rendeu a perda irrevogável do patrocínio da aludida instituição. Enfim, somados mortos e esquecidos, inumeráveis personagens marcaram época no local.

Entre os atuais, destaca-se a presença quase indefectível de uma mulher maltrapilha, sem dúvida, portadora de um sério desconto mental, a julgar pela expressão aparvalhada do olhar e pela total sem-cerimônia com que ergue a saia e se agacha para urinar em plena rua. Seu sorriso inconseqüente e abstrato, quase sempre armado, é boçal e atoleimado. Seu vocabulário é chulo. E curtíssimo; não deve conhecer mais de cem palavras básicas. Não raro, se solicitada por algum vagabundo, ergue a blusa e mostra – com injustificado orgulho – as tetas gigantescas, caídas até o umbigo. Cansada, não vacila – estira-se num dos bancos de madeira do local e puxa longos roncos como se estivesse em casa, usando como travesseiro uma sacola imunda onde guarda seus apetrechos de sobrevivência, entre os quais desponta um velho cachimbo com que, nos intervalos, dá profundas baforadas. Suas feições grosseiras lembram uma inqualificável mescla de bugre com mameluco. Seus cabelos não tem mais penteado; são um emaranhado seboso. Não deve ser velha. Diria que regula pelos 50. Imagino, à falta de melhor juízo, que não tome banho há meses, quiçá anos. Acho que nem tem onde morar...

Alguém saberá seu nome? Acho que ninguém. Vive de moedas que lhe doam alguns ‘provedores’ mais caridosos, a quem estende a mão sem nada dizer. Um ruído gutural vale como agradecimento. Alimenta-se de migalhas. Até onde me consta, nem apelido tem – coisa rara em Floripa. Documentos, então, nem pensar. Por isso, resolvi chamá-la “A Mulher do Cachimbo” e até hoje – mistérios insondáveis do metabolismo humano – não entendo como pode sobreviver em meio a tanta penúria...

Escrevi tudo isto para confessar que também passei a obsequiá-la com algum dinheiro miúdo. É mera questão de gratidão. E sabem por quê? Pelo simples fato de que, certo dia, quis acender um cigarro e não tinha fogo. Os amigos presentes, tampouco. Mas a mulher do cachimbo, que, ali ao lado, jazia em seu prazeroso e merecido decúbito lateral, percebeu minha carência e, num salto prestativo, surgiu diante de mim com o providencial isqueiro já aceso.

Mais uma lição da vida: jamais subestimar os préstimos, a serventia e a urbanidade inata dos humildes...

 

Mario Gentil Costa   



Escrito por MaGenCo às 09h24
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“ESSA BOLA...”

 

Quando iniciei este blogue, em janeiro de 2006, destaquei, como todos podem ver na coluna ao lado, minha temática preferida. Lá está escrito: arte, cultura, livros, automóveis antigos e futebol. Hoje, transcorridos mais de dois anos, acrescentaria “crítica” a esse rol. Mas vou deixar assim, pois acho que, na palavra “cultura”, isso está subentendido. Só não abordo política porque não tenho competência e, em última análise, não me sinto atraído por ela, ao menos nos moldes em que vem sendo praticada no Brasil.

Do futebol, esporte que sempre me fascinou, tenho falado pouco – ou menos que do que gostaria. Mas há ocasiões em que me vejo forçado a dar meu pitaco e, sempre que posso, com certa veemência, como fiz no artigo abaixo “A Moda Galvão Pegou Mesmo”. Foi uma crítica que considero justa, válida e procedente – eis que fundada em evidências – mas que, para minha surpresa, não despertou maior interesse. Terá sido porque a maioria dos que me visitam não gosta de futebol?  

Hoje, assistindo ao jogo Flamengo x Internacional, topei com um narradorzinho do pay-per-view cujo nome faço questão de ignorar e que, atrelado à norma vigente e sem autocrítica ou originalidade – como a maioria – usa e abusa da locução ‘Essa Bola”.

Será que estou ficando impertinente, obcecado por detalhes insignificantes, ou esse costume esdrúxulo está, de fato, se transformando em nova praga “galvano-buênica”? Onde já se viu substituir sistematicamente “a bola” por “essa bola”. O que quer dizer “essa bola”? Reparem vocês, leitores, se, na maioria das vezes, a expressão cabe ou se justifica. Da maneira como eles falam, tem-se a impressão de que a bola do jogo não é uma só – é “essa” e não “aquela” outra.

Claro, há instantes em que a expressão é válida, mas esses cretinos não sabem fazer a distinção; usam “essa bola” da maneira mais indiscriminada e contribuem – pois a TV é a única escola que o povão freqüenta com assiduidade – para sacramentar mais um vício na linguagem já tão mal usada em nosso meio.

Se nunca repararam nesse mau-uso, nesse abuso, passem a fazê-lo com especial atenção e depois me digam se não tenho razão; se estou sendo rabugento e ranzinza.

Poderia estender-me aqui com uma avalanche de exemplos dessa lamentável deturpação lingüística, mas cansaria o leitor e não seria didático. Prefiro afirmar que “essa bola” não existe...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 22h30
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ESCREVER NÃO É FÁCIL

 

            Escrever sempre me fascinou, fosse pelo componente criativo do ato, fosse pelo fantástico poder de registrar idéias. Mas escrever diferente de como faz a maioria - que usa a escrita da mesma forma como fala - é algo ao alcance de poucos.

Escrever com correção e estilo, com leveza e graça, uma crônica, um conto ou um romance, constitui um incrível desafio. E quem não acreditar, que experimente; trata-se de uma encarniçada batalha.

Até hoje, não consigo escapar de um desconfortável mal-estar ao encontrar tanta dificuldade na busca desse privilégio.

Há algum tempo, li com surpresa e alegria uma entrevista com alguns notáveis, unânimes em confessar que o ato de escrever, para eles, representa uma guerra sem trégua contra as palavras, que, assim como fazem comigo, do mesmo modo lhes fogem nos momentos cruciais.

À primeira vista, parece incrível que seja assim. Mas é. É, porque se trata de um esforço de imaginação, como compor música, pintar um quadro ou esculpir um mármore. Daí por que uma folha de papel, uma partitura, uma tela em branco ou uma pedra bruta, ávidas por nutrir-se de palavras, notas, cores ou formas, são, talvez, a mais formidável provocação dirigida ao cérebro humano.

Sempre que leio qualquer texto saído da pena de um autor talentoso, me convenço de quão penosa tarefa é essa de extrair de acontecimentos aparentemente banais aquele misterioso vínculo com o inusitado, aquela insuspeitada carga de significância, aquele toque de singularidade, aquele imprevisto sopro de drama ou de comédia que se esconde nos bastidores do corriqueiro. Esse fantástico senso de aproveitamento não deveria ser, todavia, privilégio de tão poucos.

Ilusão, quimera ou fantasia, venho, por todos os meios, perseguindo esse insondável segredo de como extrair do cotidiano sua índole inexplorada; de como focar meus sensores nos cernes do trivial.

Basta – como se isso fosse pouco - saber dar forma e corpo a um texto fluente, enfileirando idéias capazes de prender o interesse do leitor impaciente de nossos dias, viciado na mera síntese de um linguajar que está se transformando num informe sucinto, quase telegráfico.

Em suma, é hercúlea a missão de converter uma página em branco no suporte das obras-primas que dão sentido à arte de escrever.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 23h36
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A MODA “GALVÃO BUENO” PEGOU MESMO

 

 

          Minha mulher diz que estou com idéia-fixa, obsessão ou implicância. Outros, avessos a discussões, se calam, mas parecem concordar. O fato é que não suporto esse modismo estúpido, inventado pelo inefável Galvão Bueno e transformado em padrão global nas transmissões de futebol.

Simplesmente, não agüento mais ouvir, durante os jogos do campeonato brasileiro, seja da série A, seja da B, a repetida contagem de pontos e a correspondente classificação em que se situa cada um dos times que faz um gol e fica em vantagem temporária no marcador.

         As partidas mal começaram, e basta um gol em qualquer lugar do Brasil para jorrar sobre meus tímpanos indefesos essa aritmética temporária e inútil.

“Com esse gol, o time “x” tal está subindo para o G-4”.

“Com esse gol, o time “y” está indo para o rebaixamento”.

Não raro, o adversário empata o jogo em seguida, e todo o cálculo é refeito com a maior cara-de-pau.

Esses imitadores baratos, que seguem qualquer idiotismo por não terem originalidade e não saberem como encher sua lingüiça acham que, para garantir a audiência, o essencial é manter-se falando, mesmo que sejam baboseiras; ainda não se aperceberam de que tais estimativas parciais, em vez de despertarem a atenção e o interesse do ouvinte-telespectador, só servem para abusar de sua paciência, não bastasse, com raras exceções, a incompetência da transmissão em si.

Sei que não podemos viver de saudades do passado e que quase não temos locutores do peso dos de outrora. Há muito que perdemos um Jorge Curi, um Pedro Luiz, um Fiori Gigliotti, um Geraldo José de Almeida ou um Waldir Amaral. Infelizmente, o grande Doalcey Bueno de Camargo, da Tupi-Rio, está aposentado. Há anos, em nosso meio, não contamos mais com um Fernando Linhares da Silva, padrão da nossa radiofonia esportiva.

Mas não acho justo o que faz a maioria dos seus sucessores, ao tripudiar sobre a paciência do público e submeter seus momentos de lazer a esse tipo de desconsideração.

Que irradiem as partidas no que elas têm de mais precioso, ou seja, a descrição precisa da seqüência de um lance, sobretudo no rádio, de modo a alimentar a imaginação do ouvinte; que façam comentários técnicos e táticos ao longo do jogo, críticas agudas e bem-humoradas sobre o desempenho desse ou daquele jogador, em suma, conceitos e opiniões diretamente ligadas ao futebol em si.

Mas, por favor, não massacrem as pessoas com esses lugares-comuns que são a confissão tácita da falta de enxerto e do despreparo para assumir um microfone.

Será que ninguém, até hoje, descobriu que Galvão Bueno, por mais prestigiado e badalado que seja, nada tem a ensinar às novas gerações? E ainda vão imitar justamente seus piores vícios?

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 23h13
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A QUINTA DIMENSÃO

 

 O Tempo, segundo Einstein, é a quarta dimensão do espaço. Trata-se de uma grandeza relativística, capaz de curvá-lo na velocidade da luz e até gerar buracos negros. Ele não passa; simplesmente aí está..., como estão as outras três que, há mais de dois milênios, foram enunciadas por Euclides e incorporadas definitivamente aos fundamentos da geometria clássica.

            Ao contrário do comprimento, da largura e da altura, ele não é percebido fisicamente pelos nossos sentidos. Olhamos ou tocamos um objeto e, imediatamente, somos capazes de lhe determinar, mesmo a grosso modo, a forma, o tamanho, a cor, a consistência. O Tempo, dir-se-ia que é ultra-sensorial. Temos, quando muito, uma vaga consciência de sua presença a nosso redor. É tão relativo que parece arrastar-se quando vivemos momentos difíceis; voa célere, todavia, se a ocasião é prazerosa. Olhado de frente, se nos afigura como futuro. Visto de costas, já é passado e se perde nas brumas do horizonte da memória. Em sua essência presente, contudo, não passa do instante.

            Medimo-lo convencionalmente ao observar a aparente regularidade dos movimentos do Universo mais próximo..., como o nascer do Sol, as fases da Lua, as estações do ano, as horas do dia... Mas esse é apenas o nosso Tempo..., o Tempo humano..., um mero calendário antropocêntrico..., quase um artifício..., tão relativo, que logo ali..., em Júpiter..., cuja rotação dura dez horas das nossas..., cuja translação dura doze anos dos nossos..., de nada mais vale como relógio cósmico.

            Nosso Tempo é todo ele composto de momentos que se sucedem entre duas colossais perspectivas: o passado que passou e o futuro que virá. É o presente..., algo sem dimensão..., como um ponto geométrico que só existe na imaginação.

            O passado está na idéia que acabo de expressar; o futuro, na que virá em seguida. E entre os dois estamos nós, caro leitor..., eu e você..., vivendo, um após outro, os nossos momentos...

            O passado é, simplesmente, uma lembrança..., alegre, triste ou inexpressiva..., que ficou ou se perdeu. O futuro é o que será..., um misto de esperança, medo ou indiferença..., mas, de qualquer forma, uma expectativa..., uma incerteza..., uma interrogação.

            E assim vive o ser humano, de momento em momento, sufocado entre duas verdades imutáveis: a que foi e a que virá. Ele pensa que se autodetermina..., que tem livre arbítrio..., ignorante e esquecido de que está sempre ao sabor do acaso..., esse mesmo acaso que, tola e vaidosamente, resolveu chamar de "destino", como se além do Caos Universal, que regula e organiza tudo, houvesse realmente algum tipo de predeterminismo individual...; como se fosse ele..., exclusivamente ele..., - o homem -, a figura indispensável e central do espetáculo.

            Seu poder de decisão é mínimo..., quase nulo. Pouco maior que o de uma folha solta ao vento, que flutua e dança ao léu sem saber aonde vai cair no momento em que se extinguir a energia que a embala. E quando isto acontece, o que resta, em última análise é nada mais que a Verdade..., a Verdade do que foi..., do que é..., do que será...  A Verdade..., uma estranha e insondável espécie de quinta dimensão..., que é eterna, imutável...; que interage com o Tempo na síntese total.

            Muito antes de que o pensamento humano existisse, ela, a Verdade, já existia, e quando a humanidade, como substância, desaparecer ou se transformar em massa ou energia - como descobriu Lavoisier e, de fato, acontece a todas as formas de vida evolutiva - a Verdade continuará existindo no Espaço e no Tempo como atributo imanente do Todo.

            A Verdade..., essa sim..., é preestabelecida por ser eterna..., ao contrário da mentira, da falsidade, da traição..., que nasceram com o homem..., geradas na sua própria imperfeição; com este mesmo homem que se dizendo "criado à imagem e semelhança de Deus"..., é o único animal que mente e que trai.

            A Verdade é filha da Ética..., da Lógica..., nunca da força ou da autoridade. Ela é sinônimo da perfeição estética. O fato só acontece para confirmá-la e, mesmo que não aconteça..., que não seja registrado..., ela sempre prevalece, ou encerrada em si mesma..., em sua essência..., ou dentro da consciência de cada indivíduo, num plano mais humano. Mas ela é uma só; é o ideal pleno a que todos aspiram sem jamais alcançar.

            Daí o imenso desafio que depara o homem: a busca e o encontro da Verdade. Irremediavelmente condenado a viver o seu momento fugaz..., preso e contido entre o passado e o futuro, e, o que é pior, reprimido por suas próprias limitações e cada vez mais deslumbrado, a procurar em vão o entendimento do infinito e do eterno..., ele se vê sufocado diante da Verdade que sabe que existe e não é capaz de absorver, rendendo-se, finalmente, à única alternativa que lhe sobra: a crença.

            Vez por outra..., de quando em quando..., a Natureza, que se autorregula com a sabedoria ingênita de que só Ela é capaz..., deixa nascer um gênio para dar um salto adiante. Tal indivíduo..., que infelizmente é muito raro..., gravita numa órbita escassamente povoada, habitada exclusivamente por iniciados escolhidos, cuja tarefa primordial é a gradativa elevação do homem, a fim de torná-lo merecedor dos privilégios de que desfruta entre os animais da Terra.

            O gênio é o embaixador da Verdade. Mas..., lá no íntimo..., ele também sabe... por uma incômoda e indisfarçável intuição..., que, por mais que avance em sua busca incessante..., a Verdade Final..., aquela que existe por si mesma e independe das nossas crenças..., a Verdade Verdadeira..., fugidia como a linha do horizonte..., sempre estará além do seu alcance.

           

           

Mario Gentil Costa - 1994.

           



Escrito por MaGenCo às 22h28
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CHATOMETRIA

 

 Há dois tipos de chato: o inseto, que se elimina com inseticidas; e o humano, que é, em si, a personificação de uma doença chamada ‘chatice’. Esta pode se apresentar sob as formas crônica ou aguda, sendo primeira a mais comum (e incurável), e a segunda, sua crise ou surto.

O agente causador é um artrópode pediculídeo, ectoparasito hematófago com habitat preferencial na região pubiana e que, em casos severos, pode migrar para outras áreas pilosas, tais como axilas, sobrancelhas, barba e bigode; se as houver...

Seu nome científico é “Phtirius pubis”. O vulgo pode chamá-lo de “piolho-das-virilhas ou piolho-dos-soldados”, primo-irmão do piolho da cabeça – o Pediculus capitis. Ambos são chatos porque obrigam o portador a coçar-se em ritmo paroxístico nos momentos e lugares mais impróprios...

          Do chato, portanto, surgiu a ‘chatice’, moléstia exclusiva do ser humano; o portador é sempre chato. De modo inescapável. Sistemático. Absoluto. Contumaz. Reincidente.

 

         Das centenas de alcunhas que o chato admite, citarei apenas algumas para não me tornar eu mesmo um chato.

Na linguagem castiça, o chato é o “Maçante, enfadonho ou cacete”. Na mais vulgar, é o mala, o sarna, o cricri, o grude e o famoso ‘de galocha’. São subtipos comuns do chato: “o morrinha etílico (dispensa descrição), o irresistível (campeão das conquistas amorosas), o confidencial (fala ao-pé-da-orelha), o sabichão-garganta (exagera vitórias pessoais), o pregador (sempre a impor sua fé), o cutucador (cutuca as costelas do interlocutor), o chafariz (cospe e respinga ao falar), o poliqueixoso (sofre de tudo; os médicos logo o reconhecem), o obequioso (sempre pronto a ajudar, ainda que não solicitado), o engraçadinho (de cujas piadas ninguém ri). Por fim, o chato-de-largo-espectro, que não é nada disso, mas é chato sempre, faça o que fizer, diga o que disser.

 

         Quem não conhece algum chato? Faz parte da vida em comunidade. Mas tudo tem limite. Chega um momento em que, mesmo com toda a paciência, não dá pra agüentar. Urge, então, dar o fora para não explodir.

Por sorte, sou dono de um chatômetro de alta precisão, sensível aos mínimos indícios da chatice: a voz, a risadinha, a gesticulação, a solicitude com que tira uma caspa inexistente da minha lapela ou me ajeita o nó da gravata e me aperta o colarinho, o contorno geral, sei lá... Num instante, faço meu diagnóstico e começo a preparar a retirada estratégica. Quando dá... Quando não dá, fazer o quê?         

O chato é um lutador infatigável, persistente, ou seja, o chato é um forte. Sabe que é chato, mas faz uma força danada para não sê-lo. Só não consegue porque desconhece a fórmula e, quanto mais tenta, mais chato fica. Ele é um exímio abridor de clareiras, que esvazia qualquer rodinha. Enfim, o chato é um antígeno; seu destino, seu fardo é criar anticorpos...

Pode-se medir o chato pela constância com que é visto sozinho ou acompanhado de um cachorrinho na coleira. Mas cuidado! Ele está sempre caçando. Bobeou, ele ataca. E, por uma compulsão insuperável, começa logo a agir.

Esse triste espécime, claro, não tem amigos, e se consola seguindo os passos aleatórios e as paradas contingenciais de seu cão. Itinerário, que é bom, ele nunca tem; é feito de-poste-em-poste. E em nome da profilaxia das doenças circulatórias, ele caminha, caminha... horas-a-fio, sempre atento à perspectiva de grudar em alguém.

 

Certa vez, um chato me abordou num velório com missa-de-corpo-presente. Não pude escapar. Em vez de louvar as virtudes do defunto – que as tinha em profusão – ele enfiou três perguntas descabidas, pronunciadas alto-e-bom-som e precedidas de uma leve cotovelada na minha costela:

- Mas que prazer, Mario!

      - Como vai? – respondi, cauteloso, aproveitando a austeridade da circunstância para não sorrir.

- Vou bem. Aliás, sempre vou muito bem. A propósito, que achas da campanha do Corinthians?  

- Não ligo a mínima pro Corinthians – retruquei, peremptório, embora baixinho, como obrigava o protocolo.

- Ah, tudo bem. Então, que opinas sobre o assassinato do Kennedy? Foi o Lee Oswald mesmo?

          - Isso aconteceu em 1963... – observei em tom grave e monocórdio.

- Até hoje persistem dúvidas...

- Ora, por favor...

O saco estava enchendo, e ele voltou à carga:

          - Tudo bem, tudo bem. Nesse caso, me responde: quem vai ser eleito?

         Já notaram que quase todo chato é um perguntador? Acho que sei por quê: ele raramente tem respostas...

Pronto! Enchi e o convidei a sair. Lá fora, o saco estourou:

         - Você acha que o momento recomenda esta conversa? Estamos num velório, cara...

         - Desculpa, não fiz por mal.

         - Tudo bem. Agora, com licença. Vou voltar pr’a igreja.

         - Claro. Fique à vontade.

        

Assim, com esse destempero, me livrei desse Pthrius pubis. Hoje, ele não me aborda mais. Mesmo assim, pra me garantir, basta avistá-lo de longe e já trato de me desviar e passar ao largo...

        

         Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 17h01
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SONHO OU PESADELO?

 

A velhinha de oitenta anos dormia placidamente na madrugada fria quando acordou, assustada. Na escuridão do quarto, debaixo dos cobertores, o velhinho, de oitenta e cinco, sacudia-se todo e emitia uns ruídos fora do comum. Claro, ela não via; só escutava e sentia a cama estremecer. Pensou que ele estivesse tendo um mal súbito, e preocupada, não titubeou: tocou-lhe o braço, com toda a cautela, perguntando.

- O que é que tu tem, meu velho?

- Tô tendo um sonho erótico...! – ele, desprevenido, confessou quase gritando, a voz estranhamente rouca.

- Tás tendo ou já tiveste?

- Tava tendo! Por quê tu foi me acordá, mulhé? – foi o protesto involuntário do homem.

- Sei lá! Fiquei assustada. Parecia um ataque...

- Que ataque, mulhé?

- E como é qu’eu ia adivinhá? Podia sê uma convulsão...

- Convulsão? Eu tava era sonhando. E tava tão bom... – ele lamentou.

- Mas acabou?

- É claro! Com’é que não ia acabá..., se tu interrompeu...

- Que pena!

- Que pena por quê?

- Ora, porque se ainda não tivesse acabado, a gente podia aproveitá o restinho...

- Tu tá maluca, mulhé? Quem somo nós pra isso? Ah, ah, ah – foi o riso amargo e conformado do pobre homem.

- Ué, se tu pode, eu também posso.

- Podes o quê?

- Sonhá junto, ora essa.

- Tu não te enxerga, véia? Onde já se viu?

- E que barulho era aquele? – ela indagou, desviando de propósito o rumo da conversa.

- Barulho? Não ouvi barulho nenhum...

- Tavas fazendo uns ronco tão esquisito...

- Ah, sei lá. Decerto era do sonho...

- Então me conta!

- Se eu não escutei nada...

- Mas não é o barulho! É o sonho! Me conta!

- Tás doida, véia?

- Doida por quê? Que mal tem?

- E pra quê tu qués sabê?

- Pra sonhá acordada, ora...

- Eeeh..., o que que há contigo, minha véia? Tô te estranhando... Mulhé não sonha com essas coisa...

- Quem que te disse?

- É o que todo mundo diz, ué...

- Pois fica sabendo que todo mundo sonha... – ela entregou.

E ele não pegou mais no sono. Nem ela. Um sabia que o outro estava acordado, mas ninguém falava. Até que, passados uns dez minutos, ele perguntou, ressabiado:

- Tu também sonha com isso?... De verdade?

Ela, então, com medo de se complicar, declarou:

- Eu tava brincando, velho. Mas me conta!

- Não me lembro mais...

- Mentira tua. Lembras, sim. Tu que não qués contá...

- Eu tenho vergonha. Não sei contá essas coisa...

- Sabes, sim. Tu que não qués qu’eu saiba...

- Saiba o quê?

- Que tu sonha com isso...

- Ah, não aborrece, mulhé. Não tenho culpa. Eu tava dormindo...

- A gente só sonha o que pensa – ela sentenciou, acrescentando – Eu li numa revista, que falava num tal de Freude, ‘que o sonho é um desejo não realizado’...

- Já não basta tua filha? E tuas neta? Andas lendo essas porcaria também, é?

- Que porcaria?

- Essas sacanage...

- Mas não era sacanage! Era uma reportage séria...

- Reportage séria? Nessas revista feminina que só fala de sexo? Isso é sacanage. Pôca vergonha, é o que é..., pra aumentá as venda...

- Pôca vergonha é um velho como tu tê sonho erótico. Fazê..., que é bom..., há tempo que não faz... – foi o protesto incontido da velhinha.

- Mas como é qu’eu vou fazê, mulhé, s’eu não consigo mais?

- E pra que serve esses comprimido moderno? Não é pra isso?

- Não adianta! Eu já tô muito véio... não consigo...

- Mas consegue no sonho... Isso é qu’eu não entendo – ela argumentou.

- Já te disse qu’eu não sei explicá, mulhé.

- Não vem com essa, não, véio. Tu és um fingido...

- Eu? Um fingido? Eu? 

- Vai dizê que tu nunca deste o teus pulinho...?

- Eu? Tás louca, mulhé? Sempre fui um home sério...

- Pra cá co’essa lorota... Com’é que tavas pulando?

- Qués sabê mesmo, minha véia?

- Quero! – ela confirmou, depressa, imaginando que ele resolvera abrir o jogo.

- Isso não é conversa pra dois véio... Vamo dormi, qu’é melhó...

 

E não pregaram olho o resto da noite. De manhã, no café, estavam encabulados, contrafeitos. Não se encaravam com a simplicidade de costume. Um silêncio embaraçoso, quase cúmplice, pesava no ar. Era como se nada tivesse acontecido. O tempo passou, e nenhum dos dois tocou mais no assunto.

E apesar de se conhecerem tão bem...; de serem como dois livros abertos...; de não terem segredos um com outro..., a velhinha nunca soube se o velhinho voltou a sonhar, porque ele nunca mais se sacudiu...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 22h09
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O VELHO VESTIBULANDO

 

Com 63 anos, ele se dedica a fazer vestibulares. Já fez 6 e passou em todos. Dizem ser figura conhecida nos meios estudantis. Chega, entra, faz a prova e passa. Matricula-se no curso e experimenta duas coisas: o nível do corpo docente e a convivência com o discente. Se se agrada, vai ficando. Mas como é irrequieto e exigente, nunca terminou um curso. Compraz-se em viver estudando e convivendo. Questionar os mestres é sua especialidade e seu prazer, pois é uma mente ativa e bem informada. Dependendo das respostas, decide se fica ou se vai.

Conheci-o na rua, dia desses. A princípio, nada dei por ele; pele ressequida e enrugada, barba grisalha, calça jeans, tênis, camiseta sem mangas e um chapéu de palha. Olhos vivos e sorriso pronto. Estava até com um abscesso num dente superior, que fazia desaparecer o sulco naso-labial correspondente. Mas, à medida que expunha suas idéias, fui me convencendo de que estava diante de um cérebro diferenciado, com larga visão de mundo. Leu quase todos os clássicos e não hesita, seja qual for o interlocutor, em duvidar de alguns nomes que são unanimidade em qualquer roda de intelectuais acadêmicos.

Fiquei sobretudo feliz ao verificar que alguns desses ícones de areia já faziam parte da minha seleção de impostores que, cheios de empáfia, desfilam nos palcos da fama imerecida.

Nem recordo seu nome. Sem data marcada, ficamos de nos reencontrar no mesmo ponto, mas ele ainda não deu o ar de sua graça. Dizem que, por capricho, mora sozinho no casebre de um sitio da periferia, cercado de livros, plantas e animais. Um ermitão, portanto. Um esquisito. Um atípico. Não escreve. Nem televisor tem. Só lê e pensa. Mas com que clareza! Sua comunicação é puramente verbal, e quem quiser – e puder – que o escute.

Estou ansioso por revê-lo...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 17h17
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O TERCEIRO MILÊNIO

 

Eis uma perspectiva que sempre me fascinou: - a chegada do terceiro milênio. Fomos os testemunhos vivos do fato. Por isso, tivemos, em relação a ele, enorme responsabilidade no transcurso do tempo.

Todavia, dois mil anos, no caso, é uma medida "relativa", uma contagem baseada no suposto ano do nascimento de Cristo, do qual ninguém tem certeza e com o qual nem todos os estudos religiosos concordam; li algures que Ele teria nascido seis anos antes e, se foi assim, o que restou da data?

Contudo, valeu o calendário. E prevaleceu a influência dos "milenistas", muito dados a predizer catástrofes apocalípticas, como, segundo consta, aconteceu no período anterior à passagem do ano 1000.

Esquecem esses "profetas de plantão" que o tempo é uma dimensão cósmica contada convencionalmente com nossos relógios, pois "logo ali" – como diria o nativo ilhéu em sua ingênua avaliação de distâncias – em Júpiter, o dia, dada a rápida rotação do enorme planeta em torno do próprio eixo, dura só 10 das nossas horas, e o ano, em virtude da sua órbita mais afastada do Sol, dura 12 dos nossos.

Mesmo assim, disseram eles, estivemos sujeitos, por um irado pré-determinismo divino, aos mais ciclópicos dilúvios, que viriam punir os nossos acumulados pecados “não mais originais”, lamentáveis crendices que não encontram mais guarida no atual estágio do conhecimento.

Preciso deixar registrada minha opinião sobre tudo isso para não ser misturado à massa comum que sempre foi e será o alvo de pregadores, gurus e adivinhos, ansiosos por tirar proveito material da credulidade coletiva.

Nem parece que vivemos na era da informática, da astrofísica, da realidade virtual e do genoma. Nossos ancestrais, que viveram no ano 1000 – aqueles sim! – não tinham alternativa, subjugados pelo obscurantismo religioso católico, bárbaro e medieval, sem poder expressar opinião, com medo das represálias dos papas e cardeais ignorantes e prepotentes, donos da 'verdade da época'.

Nós, ao contrário, temos a obrigação de pensar. E se não quisermos ser vistos pelas gerações futuras como "farinha do mesmo saco", temos que dar nosso testemunho de que nem todos acreditamos em  dogmas, profecias, revelações, milagres, búzios, tarôs e todas as charlatanices congêneres que seria fastidioso enumerar.

E, por ilação, como pensei no ano 1000, projeto-me agora ao ano 3000. Será que a humanidade do futuro já se terá livrado dessas influências espúrias e estará finalmente integrada na obrigatória visão racional e científica que o amanhã nos reserva?

Ou ainda existirão os milenistas a profetizar cataclismos punitivos que reconduzirão os seres humanos à vexatória condição de descendentes e cúmplices involuntários do ridículo "pecado original" de um Adão e de uma Eva imaginários, ou de vítimas predestinadas de uma raiva divina inconcebível, a abater-se com crueldade infinita sobre simples viventes que não têm qualquer noção, e muito menos, culpa de suas próprias origens?

 

             Mário Gentil Costa

Escrito por MaGenCo às 20h30
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RESPOSTA A UMA INTERPELAÇÃO

        Há algum tempo, após ter publicado num periódico local uma crônica intitulada “Imagem e Semelhança?” em que enfoquei a impossibilidade de termos sido criados por Deus à sua imagem e semelhança, recebi de uma leitora uma interpelação fundada em preceitos de fé religiosa. Eis os termos da mesma:

 

        “Boa noite, homem gerado pela colisão acidental de uma infinidade de átomos! Aqui, quem vos fala é alguém que foi criada à imagem e semelhança de Deus, e venho com o propósito de formular-lhe apenas uma simples pergunta: Se nada pode ser criado do nada, se os átomos dão origem a tudo – logo não podem ser considerados nada – de onde vieram os átomos? Não nascem e nem morrem? Então, vieram do nada? Fica difícil acreditar que alguém que trabalhe tão perto do nascimento e da morte, como um médico, possa duvidar de uma Inteligência Suprema na Criação da Vida e credite ao acaso a beleza e perfeição das coisas do mundo. E olha que não foi como médica – que também sou – que me motivei mandar-lhe este e-mail, mas como Ser Humano, com corpo e alma, aquele mortal, sem dúvida, mas esta imortal, com toda a certeza.

         Um grande abraço de alguém que, no curso de medicina, teve o prazer de tê-lo como mestre dedicado”.

 

 

E aqui vai o que lhe escrevi em resposta:

Cara colega e ex-aluna,

Sem querer iniciar uma polêmica em que, sem dúvida, você continuará com suas inabaláveis certezas de fé religiosa, e eu com minhas incertezas e meu ceticismo, só desejo lembrar-lhe uma frase – essa, sim, imortal – dita (e provada) por um gênio da ciência, reconhecido e respeitado por todos os seus pares, e cujo nome todos conhecemos desde a mais tenra idade – Antoine Laurent de Lavoisier: "Na Natureza nada se cria e nada se perde; tudo se transforma", entendida genericamente como a lei da conservação da matéria e da energia.

Ela, por suposto – e espero que você concorde – vale para todo o Universo do qual, como indivíduos conscientes e como coletividade, fazemos parte integrante (e passageira), e, acho eu, que sempre foi assim: como expressão máxima da Natureza, o Universo nunca foi criado. Ele é a própria existência, a grande e única causa físico-energética de tudo, e sua inexistência, sim!, seria o nada. Os átomos, as partículas subatômicas e suas forças inerentes sempre existiram. Por isso mesmo, nunca exigiram um criador. E como todo efeito exige uma causa, seu suposto criador não poderia fugir à regra, sob pena de cairmos no chamado processo da 'regressão infinita': um criador para criar o criador subseqüente e assim sucessivamente e daí para a frente, ou, se você preferir, daí para trás...

Ou terá sido Ele a única exceção?

Ou melhor ainda, será que só Ele poderia existir por si mesmo, e o Universo não? De resto, é uma desnecessidade exigir-se um ser eterno (Deus) para criar um ser infinito, o Universo. Ou os dois (conceitos) se superpõem e são a mesma coisa, caso do panteísmo de Spinoza – que acho desnecessário – ou são incompatíveis e mutuamente excludentes. Nessa hipótese, entre os dois, prefiro ficar com o que vejo na noite estrelada, quase palpo e cada vez mais conheço através da ciência. 

É assim que eu, com todo o direito, penso há décadas, depois de muito meditar com liberdade, sem tutelas de fé religiosa ou imposições dogmáticas: nosso cérebro evoluído – espécie de hardware – porém perecível, é a sede da nossa alma (espírito ou mente – espécie de software), que, por isso, morre com ele. E comparativamente, mas com farta dose de analogia, todos sabemos que um programa de computador jamais se executa sem o respectivo disco rígido.

A única diferença entre nós e um primata antropóide está na estrutura de um córtex mais volumoso e evoluído e no número de neurônios e sinapses que nos conferem mais aptidão.

De resto, somos quase iguais a ele (anatomofisiologicamente) – não bastassem as semelhanças não raro embaraçosas e constrangedoras (de 99,64%) que quase nos igualam na escala evolutiva.

Foi justamente graças a esses substratos da memória e da razão que, por lembrarmos o passado e prevermos a aniquilação total – coisa que nossos primos-primatas ainda não conseguem – inventamos a imortalidade e as religiões em geral. A verdade é que não fomos feitos à imagem e semelhança de ninguém. Caso tivesse sido assim, deveríamos (ou mereceríamos) ser geneticamente exclusivos, em nada semelhantes à fauna que nos rodeia. Ou, no mínimo, caberia apontar aí a comprometedora falta de talento de um criador que, ao fazê-lo, mostrou-se incapaz de gerar um ser original, inédito e perfeito. O resto, acho eu de novo, é mera esperança dos crentes.

        Você aceita a história do Gênesis, contada no Velho Testamento? Pois eu aceito Epicuro, Darwin, Lavoisier, Carl Sagan, Albert Einstein e seus pares.

        Cada um na sua, minha cara...

        Tem mais: por incrível que lhe possa parecer, também sou homem de fé, mas minha fé não se liga ao sobrenatural; só ao natural (que é a Natureza). E é perfeitamente coerente, sim, com o exercício da medicina, uma ciência fundada na biologia, na moral, na ética e na solidariedade humana, conceitos que nada têm a ver com religião, e sim, com o conhecimento através da experiência racional, essencialmente terrena e cerebral.

        E tem mais ainda: existe beleza no mundo, sim, mas não existe perfeição constante; pelo menos a perfeição idealística. Caso contrário, não surgiriam anencéfalos e aberrações similares no caso do ser humano, figura eleita da suposta divindade.

        Tudo e todos, queiramos ou não, obedecemos e estamos sujeitos à lei das probabilidades, que é cósmica, autoexistente, puramente estatística e impessoal. Cada um de nós, como indivíduo, é produto do acaso. Tanto isso é verdade que, se entre milhões, um outro espermatozóide – eventualmente mais veloz – tivesse chegado antes ao óvulo do qual partimos, já não seríamos nós (indivíduo), e sim outro alguém, no máximo parecido, mas com impressão digital e desenho de íris exclusivos. Ou será que existe predeterminação divina até nisso? Algo assim como: "Agora vou criar o Mario, com tais e quais características?" Cabe supor que não!

        Sabendo que, neste tema, nunca chegaremos a um acordo, pois fé religiosa e seu contrário nunca se entenderam, mas insistindo no direito à liberdade de expressão – que também lhe confiro – queira aceitar as minhas mais respeitosas saudações. E, se possível, continue me querendo bem. Da mesma maneira que eu, com todas as minhas imperfeições e falibilidades humanas, procuro querer bem a todos os meus semelhantes...


Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 22h40
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UM PEQUENO COMENTÁRIO SOBRE O FUTEBOL

 

Acabo de assistir ao jogo Grêmio e Internacional e, como só penso no Flamengo, fiquei contente com o empate. Embora simpatize mais com o Grêmio, queria de início a vitória do Inter, que está mal situado e, ao menos por enquanto, não ameaça a nossa liderança. Assim sendo, o resultado ficou de bom tamanho.

Nada disso, contudo, seria motivo de comentários, não tivessem se repetido nesse jogo dois fatos que, já há algum tempo, venho querendo enfocar criticamente.

O primeiro é o absurdo, que está virando rotina, de se permitir à torcida soltar fumaça e pós coloridos dentro dos estágios a cada gol de lá ou de cá. Acho que não seria difícil impedir esse péssimo costume. Bastaria, para isso, um mínimo de vigilância na entrada dos torcedores.

Desobedecendo a ordem de importância dos motivos, esse descalabro, em si, é lamentável por três aspectos: um, de natureza estético-visual, dado o prejuízo que causa à visibilidade das transmissões por TV e, creio, até mesmo aos que estão no estádio; outro, por dificultar, durante um longo lapso de tempo, a visão do juiz e dos bandeirinhas na observação das jogadas a certa distância, induzindo-os a erros de interpretação.

E o último – e principal por ser danoso à saúde – é o aspecto médico-sanitário da questão; afinal, os atletas, exigidos ao máximo pelo esforço físico inerente à prática do esporte, precisam, sobretudo, de fôlego. É verdade que são todos jovens, mas essa atmosfera enfumaçada, na melhor das hipóteses, reduz substancialmente a ventilação de seus alvéolos pulmonares. Alguém versado na fisiologia respiratória do ponto de vista da medicina esportiva teria, decerto, outros dados científicos a acrescentar a essa minha tese. Acredito, sem afirmar, que até a rapidez dos reflexos neuro-musculares, por escassez de oxigênio no cérebro, fica prejudicada ou retardada.

O que lastimo – e me surpreende mesmo – é não ter lido ou ouvido, até hoje, nenhum acadêmico qualificado levantar, junto à CBF e à imprensa esportiva, essa questão pontual. E como não disponho de uma coluna de jornal com a necessária penetração, nenhum dos responsáveis com poder de decisão tomará o mais longínquo conhecimento desse meu apelo. Vai seguir tudo como dantes...

O segundo enfoque se prende a uma questão de regra de jogo: está-se criando um vício que, em breve, se tornará costume e acabará por encerrar, de vez, a mínima possibilidade de algum goleiro, por mais atento e sortudo, defender um penalty. Essa tal "paradinha", que resultou no empate de hoje, é uma indecência, uma injustiça. O cobrador, simplesmente, faz que chuta e pega o guardião no contrapé, ficando com o gol aberto à sua frente e negando ao adversário a mínima chance de defesa. Daqui por diante, só um perna-de-pau perderá uma cobrança. E quem, usando esse artifício indecente, conseguir perder, deve, a meu ver, pedir o boné e mudar de profissão. Desse jeito, até eu garanto o gol...

Onde está a comissão que regulamenta e faz cumprir a regra? Será que ninguém vê isso? Só eu?

 

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 22h25
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DEPOIMENTO DE QUEM SABE O QUE DIZ

 

“Mario: andei dando uma zapeada no seu blog e ali vi um texto – intitulado “O Tempo e o Vento” – sobre o Érico Veríssimo. Não fiz comentário no local, pois qualquer coisa que eu tivesse para dizer ultrapassaria os mil caracteres que são postos à disposição.  No último domingo, o caderno “MAIS” da Folha gastou três páginas transcrevendo opiniões de professores de literatura brasileira a discutirem qual foi o maior escritor brasileiro de todas as épocas – Machado de Assis ou Guimarães Rosa(?).

         Li os dois. De Machado tenho a coleção quase completa.  Alguns de seus livros como “D. Casmurro”, “Memórias Póstumas do Braz Cubas” e “Quincas Borba”, li e reli. Do Guimarães li com prazer “Grande Sertão: Veredas” e uma parte de “Sagarana”.

         Só não entendi direito onde os votantes (Machado ganhou de 10 a 2) enfiaram José de Alencar, Gilberto Freyre, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Jorge Amado.

         Sobretudo, e principalmente, em que gaveta do esquecimento, enfiaram ÉRICO VERÍSSIMO? Tenho, como você, quase toda a sua obra. Sua trilogia “O TEMPO E O VENTO” li, inteira, várias vezes. É, até onde conheço, o maior clássico literário escrito em português do Brasil.

         Penso que Machado leva sobre ele as vantagens de ter sido o pioneiro da edição de romances (publicados, ressalte-se, às suas custas, pois não encontrou editor na época), de ser mulato, ser o criador e primeiro presidente da ABL.  No mais, porém, literariamente falando, não vejo onde Machado possa ser melhor que Érico. Basta um único trabalho deste, aquela trilogia, para botar no bolso toda a obra de Machado.

         A saga da conquista do Rio Grande desde os tempos das Missões, a luta das famílias Terra e Cambará, o lendário heroísmo do “Capitão Rodrigo”, e a história do estado sulino trazida até os tempos de Getúlio, são obra prima que nenhuma outra igualou até hoje na literatura brasileira.

         Não sou nenhum literato, nem professor de literatura, nem crítico, mas entendo o que leio. E não consigo atinar com o motivo que levou toda aquela gente a ignorar a figura ímpar do escritor gaúcho.

         Lamento por você que ele não o tenha esperado para abraçá-lo. E lamento, sobretudo, que ele não mereça as láureas de ser reconhecido como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Pelo menos, na opinião deste modesto datilógrafo que rabisca estas mal traçadas...

         Com um abraço do Osmard Andrade."

       

          MEU COMENTÁRIO:

         Osmard Andrade – oafaria@terra.com.br – é meu colega e amigo, otorrinolaringologista e oficial reformado do Corpo de Saúde da Marinha de Guerra do Brasil. Escreveu diversos livros de estudo e de ficção, um dos primeiros até traduzido para o estrangeiro. Leitor voraz e dono de uma seleta biblioteca, tem, portanto, senso crítico de sobra para opinar sobre uma questão que, talvez, merecesse o estudo de revisão de algum intelectual versado na história comparativa da Literatura Brasileira. Quem sabe, aí, num país cuja maior Academia de Letras imortaliza Paulo Coelho, José Sarney, Carlos Heitor Cony, Ivo Pitanguy e outros menos votados, se fizesse justiça póstuma ao grande e humilde Érico Veríssimo, que nunca buscou honrarias...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 11h23
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Divulgação/Divulgação

O PAPA E O MANTO SAGRADO 

No Vaticano, Marcio Braga explicou a Bento XVI o que significa o Flamengo, sua tradição e a importância do clube brasileiro no cenário internacional.

Após duas horas sob um calor de 40 graus na Praça de São Pedro, o presidente Marcio Braga conseguiu entregar a camisa do Flamengo ao Papa. Este demonstrou surpresa e entusiasmo ao receber a peça personalizada. Emocionado, o presidente recebeu a benção Papal em nome de todos os rubro-negros.

 

MEU COMENTÁRIO 

Tá bem, Marcio. Você teimou e foi. Sob um sol abrasador, penou 2 horas no meio da multidão, para entregar a Bento, de mão beijada, o nosso Manto Sagrado. Em troca, recebeu uma bênção que se destina a todos os rubro-negros do Brasil, menos a mim. Está satisfeito agora, Marcio? Por que não lhe pediu de presente, além disso, aquele charmoso chapeuzinho vermelho? Nele, já fica uma graça. Imagine-o, então, em você...

Espero que,  com o prestígio de que ele desfruta - dada sua ligação direta com o Todo-Poderoso - você se tenha lembrado de lhe pedir, como complemento da retribuição pelo mimo, o título Brasileiro de 2008. 

Quem sabe, agora, com a ajuda divina, a coisa anda?

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 18h20
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CAÇADOR DE NAZISTAS BUSCARÁ “DR. MORTE”

O famoso caçador de nazistas Efraim Zuroff viajará a Bariloche, na Argentina, e a Puerto Montt, no Chile, em busca do criminoso de guerra Aribert Heim, mais conhecido como "Dr. Morte", informou o Centro Wiesenthal.

América Latina - Sábado, 21 de junho de 2008

 

Nazista é fotografado em cidade austríaca

Heim é um dos criminosos da Segunda Guerra Mundial mais procurados, e Zuroff, diretor do Centro Wiesenthal, deve chegar à América do Sul em, no máximo, um mês.

Ele suspeita que o "Dr. Morte" esteja na Argentina ou no Chile. "Em três semanas, estaremos em San Carlos de Bariloche e Puerto Montt, lugares em que acredito que Heim possa estar", disse Zuroff.

O "Dr. Morte" assassinou centenas de pessoas no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria.

O criminoso é acusado ainda de ter retirado órgãos de pessoas vivas sem anestesia e aplicado injeções de veneno diretamente no coração das vítimas.

O Centro Wiesenthal acredita na presença do "Dr. Morte" em uma dessas cidades porque a sua filha vive em Puerto Montt, a 600 km de Santiago, a capital chilena.

 

MEU COMENTÁRIO

Esta notícia me reporta ao histórico episódio do seqüestro, nos anos 60, do criminoso nazista Adolf Eichmann, por parte de agentes do Mossad, Serviço Secreto Israelense. Como todo mundo sabe, o bandido foi seqüestrado à noite, quase à frente de sua casa, num bairro da periferia de Buenos Aires, quando retornava do trabalho. Por que ele circulava tão à vontade? Simplesmente porque nem sonhava estar sendo perseguido. Onde está, então, a diferença com o caso atual? No sigilo.

Como é que esse Zuroff pretende surpreender o tal Aribert Heim se lhe manda, via internet e pela imprensa, um aviso ostensivo de que o persegue e já conhece seu paradeiro?

Claro que a caça, assim avisada, tratará de escapar.

A estratégia secreta com que Simon Wiesenthal atuava, e que deu tão bons resultados, não está sendo seguida por seus sucessores. E Heim, que não é tolo nem nada, a estas horas, já terá dado um jeito de sumir. Bem feito!

 

Mario Gentil Costa 



Escrito por MaGenCo às 21h06
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MANTO-SAGRADO PARA O PAPA

 

Marcio Braga viaja para entregar uma camisa rubro-negra ao Papa Bento XVI

Presidente do Flamengo também terá reuniões com dirigentes do Milan e da Fifa: 'Blatter me disse que é rubro-negro'

Eduardo Peixoto Do GLOBOESPORTE.COM -  16/06/08 - 20h50 - Atualizado em 17/06/08 - 11h51

 

Marcio Braga volta à Europa  

 

Dois meses depois, o presidente do Flamengo, Marcio Braga, volta à Europa. Ele embarca nesta semana para compromissos diplomáticos. Na agenda está previsto um encontro com o Papa Bento XVI, no Vaticano, para entregar-lhe uma camisa rubro-negra.

- O Brasil não é a maior nação católica do mundo? Eu não presido o clube de maior torcida do país? Logo, ele tem de receber nosso manto.

MEU COMENTÁRIO

 

          Marcio Braga, presidente do Flamengo, irá à Europa para levar ao Papa Bento XVI uma camiseta do Flamengo. Fiquei estarrecido com essa notícia. Deploro-a. Deploro-a profundamente. Tenho até vergonha. Considero-a um gesto pueril, subserviente e barato. E tenho a mais absoluta certeza de que a mesma será motivo de riso nos bastidores do Vaticano. Que temos a ver com esse homem? Só falta ao mandatário rubro-negro afirmar que Bento também torce pelo nosso time.

          Não tenho certeza, mas desconfio de que, entre os mimos que Bento gosta de ganhar – e não devem ser poucos, pois quase todo mundo (menos eu!) o bajula, inclusive o presidente dos Estados Unidos – o último seria uma camiseta de um clube de futebol, seja ele qual for. Que coisa vulgar! Que idéia ridícula! Imaginem o Ratzinger travestido de jogador do Flamengo!

          Só não me sinto à vontade para descer a vulgaridades e adivinhar aqui o destino escatológico que terá, no caso, nosso manto-sagrado. Mas dependendo da maciez do tecido..., não duvido nada! E fico, daqui do meu canto, fantasiando o “diálogo de alto nível” que, por questões de protocolo, travar-se-á entre esses dois boquirrotos; Bento XVI, que sabe tudo – pois é ‘pluriglota’, infalível e onisciente – deve acompanhar diariamente, pelo rádio, o noticiário esportivo brasileiro e, por conseguinte, deve estar curioso por saber quando o Toró voltará a jogar...

          Marcio, volte atrás! Não seja tolo! E, por favor, não comprometa a torcida com essa iniciativa idiota, baseada na afirmação ainda mais cretina de que “o Brasil é a maior nação católica do mundo”. Grande título, esse!

          Você, Marcio, já deveria ter notado - pois só não nota quem não enxergar um palmo adiante do nariz - que esse papa é orgulhoso, cheio de si mesmo, e não lhe dará a mínima bola. Ou você pensa que, a exemplo do Bush, será recebido nos jardins privativos do Vaticano? A audiência que, por força do protocolo, lhe está reservada será a mais curta possível, a mais perfunctória, e você voltará para casa com cara de tacho e com a certeza íntima de ter feito um papelão.

          Vá por mim, Marcio. Desista enquanto é tempo!

         E trate de administrar o Flamengo como ele merece e precisa, usando, para isso, o imenso poderio financeiro que “a maior torcida do mundo” – 36 milhões de brasileiros – representa e lhe oferece.

          Aí, sim, você receberá meu aplauso irrestrito.

 

          Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 18h11
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O TEMPO E O VENTO

 

28 de novembro de 1975. São 4 horas da tarde. Estou no aeroporto de Floripa, esperando o Electra da Varig para voar até Porto Alegre. Meu objetivo é um só: satisfazer um desejo antigo, sempre adiado, e, finalmente, conhecer Érico Veríssimo, de quem tinha acabado de ler “O Tempo e o Vento”, sua saga maior.

Os personagens dessa famosa trilogia haviam adquirido, na minha imaginação, consistência quase carnal, e um amigo gaúcho já falecido, Rudolf Lang, também otorrinolaringologista, impressionado com meu genuíno entusiasmo pela obra do famoso homem de letras, se oferecera para agendar a visita.

- Deixa comigo. Sou amigo do Érico. Ele é meu cliente.

Não sou crítico literário, mas, da minha ótica de ledor sistemático e atento desde a juventude, Érico Veríssimo foi o grande romancista brasileiro do século XX e um dos maiores de todos os tempos. Nenhum dos outros que eu tenha lido teve, a meu ver, seu fôlego, sua constância, sua simplicidade, sua visão social, seu apego e seu respeito pelo leitor.

Sua produção completa, encadernada, engrandece minha biblioteca doméstica. Seu último livro – “Solo de Clarineta” – me reportou a uma experiência já vivida numa exposição de pintura e escultura na minha cidade, quando fui acometido pelo súbito impacto visual de uma obra de arte que tratei de adquirir em seguida e que até hoje ilustra e decora a parede do meu quarto. Era um abstrato de Dimas Rosa, um dos mestres da arte plástica catarinense. E Érico, com sua originalidade habitual, tivera igual sensação num museu americano, batizando-a de “susto estético”.

O Electra, vindo de São Paulo, chegou a Floripa na hora, como acontecia de rotina naqueles bons tempos. E decolou pontualmente. Em 45 minutos, pousava no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Dali, de táxi, rumei para o consultório do meu ilustre colega, na Rua da Praia. Cheguei e, reconhecido pela secretária – pois era assíduo freqüentador da casa – fui levado a aguardar na “sala da chacrinha”, equipada com cafezinho, geladeira, fumódromo e tudo o que convinha à tradicional hospitalidade com que o querido amigo recebia os mais chegados.

A visita a Érico se daria no início da noite.

- Fique à vontade, Dr. Mario. O Dr. Lang está atendendo o último paciente. Num instantinho, ele estará com o senhor.

- Obrigado, eu estou à vontade.

Com boa música de fundo, tomei o cafezinho, acendi um cigarro e caminhei até a janela. A famosa rua fervilhava em seu tradicional desfile de final de tarde de primavera. O sol poente, avermelhando o horizonte, se punha nas águas mansas do Guaíba.

Um ruído atrás. Era o Lang que chegava, tirando o jaleco azul-claro. Algo estava errado em sua expressão, de hábito alegre e expansiva; ele não sorria. E disse, simplesmente:

- Mario, tenho uma má notícia pra lhe dar.

- O que foi, Lang? O Érico adiou o encontro?

- Não. Ele morreu hoje. Infarto fulminante.

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 21h32
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SARGENTO LAURO, MEU HERÓI

 

Soube hoje, por um amigo comum, que o Sargento Lauro faleceu. Ele, simplesmente, salvou minha vida, e nunca lhe agradeci na justa medida. Lá se vão, pelo menos, 45 anos.

À época, eu atuava em todos os hospitais de Floripa. Minha agenda diária era uma correria sem fim. Operava de manhã, de segunda a sexta e, como o mais jovem dos três únicos otorrinos da cidade, tinha chamados quase todas as noites, sobretudo nos fins de semana. Os outros dois colegas eram mais velhos e, com a chegada de um novato que queria mostrar serviço, não vacilavam em transferir-lhe esse encargo pesado, em especial nas madrugadas.

Hemorragias nasais, traqueotomias de urgência, remoção de corpos estranhos de ouvido, nariz, garganta, esôfago ou pulmão, paracenteses de tímpano, drenagem de abscessos de mastóide e de amígdalas, bronco-aspirações em UTIs eram minha rotina. Não foram poucas as vezes em que, em plena tarde, com clientes na sala de espera, vi-me obrigado a interromper bruscamente o trabalho clínico para correr, a bordo do meu Gordini, pelas ruas do centro em direção a alguma dessas inadiáveis emergências hospitalares.

Não raro, nem tinha tempo de almoçar. Isso para não lembrar as noites de sono consumidas nesses socorros e o cansaço que, protestando intimamente, tive de vencer para estar pontualmente, às sete-e-meia da manhã, no centro cirúrgico para mais uma jornada de trabalho.

E ainda por cima, para atender ao apelo de um amigo médico a quem devia gentilezas recebidas nos tempos de estudante – uma das quais, simplesmente, a chance da minha primeira cirurgia com bisturi em punho – concordei em acrescentar a essa carga já penosa o compromisso de atender, uma vez por semana, militares e suas famílias no recém-restaurado Hospital da Polícia Militar de Santa Catarina e, ali, também operar alguns casos mais simples.

Dizer que sinto falta desse ritmo frenético seria pura demagogia. Não sinto a mínima. Sinto, isso sim, saudade da juventude, da energia e da resistência que me permitiam suportar a fadiga, embora deva hoje, de algum modo, estar pagando um preço por esse desgaste irreparável.

Pois foi numa dessas tardes, em plena digestão de um almoço corrido, que o saudoso Sargento Lauro salvou minha vida. Estava eu atendendo um caso rotineiro, quando irrompeu na sala um jovem de seus 15 anos, gritando:

- Doutor! Depressa! Minha mãe tá morrendo ali fora!

Diante do alarme, interrompi a consulta e me dirigi à sala de espera. Uma senhora de seus 45 anos, sentada no longo banco de madeira, cobria o rosto com uma toalha branca, manchada de sangue coagulado. Mais uma epistaxe para enriquecer meu acervo. Logo verifiquei que a hemorragia era pequena e que seu estado geral era bom – mucosas coradas, pulso forte e bem ritmado, pressão arterial normal, consciência plena; apenas a palidez natural do susto. E o rapazinho ao lado, tenso, ansioso. Dirigi-me, então, à paciente:

- A senhora, por favor, aguarde um pouquinho, enquanto eu despacho outra pessoa. Não se preocupe. Está tudo bem. É só um minutinho.

Já estava assinando a receita, tranqüilo, quando ouvi um barulho atrás, e uma sombra voava a meu lado. Era o Sargento Lauro, enfermeiro de plantão, que se projetava no ar, com um grito agudo:

- Cuidado!

Agachei-me instintivamente. A paciente, atônita, olhava a cena às minhas costas, e eu não entendia por quê. Numa reação automática, me virei e vi quando Lauro, num salto de verdadeiro campeão de karatê, imobilizava o rapazinho que me atacava com um punhal. A arma já estava no chão, e o doido jazia, dominado. Seus olhos, transfigurados, saltavam das órbitas, enquanto berrava:

- Minha mãe tá morrendo, seu médico filho-da-puta!

De repente, com a gritaria, a sala ficou cheia de militares. O garoto foi trancado num cubículo, enquanto seu pai, que era major, era chamado às pressas. A mãe, aturdida com a reação intempestiva do filho, protestava:

- Doutor, me desculpe. Esse menino é assim – muito nervoso. Não pode ser contrariado. Meus Deus! Que coisa! Eu estou tão envergonhada...

Passada a refrega, cauterizei-lhe um vasinho vagabundo no septo nasal e a mandei para casa. Não mais a vi, mas sei que ficou boa. Também nunca mais vi o garoto, que, hoje, se continuar com aquele pavio curto, deve ser um homem perigosíssimo.

Passados alguns anos, tive notícias de que seu pai, que também era “nervoso”, jogara-se do alto de um prédio, numa "crise de depressão".

Claro que nunca mais voltei àquele ambulatório. Mas cruzei com meu herói algumas vezes. Ele era de poucas palavras e se limitava a responder a meus protestos de dívida e gratidão imorredouras com um sorriso humilde, como se não houvesse feito nada demais; dizia sempre que apenas cumprira seu dever.

Imaginem, se ele não tivesse noção tão generosa do que isso significa...

 

Mario Gentil Costa

 

 

 



Escrito por MaGenCo às 20h32
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NOBEL DE MEDICINA DEFENDE

PESQUISAS COM CÉLULAS-TRONCO-EMBRIONÁRIAS

 

O geneticista Oliver Smithies, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 2007, defende no Brasil a pesquisa com células-tronco-embrionárias.

Entre outras afirmações, ele diz que “ao colocar o material genético em cultura, parece que se trata de coisa morta, mas, depois de quatro dias, observa-se, por exemplo, cardiomiócitos pulsando como se pertencessem a um ser vivo”.

Questionado sobre o fato recente de a Igreja Católica incluir a manipulação genética como o oitavo pecado capital, Smithies, com a diplomacia e a sutileza dos que não querem provocar polêmicas inúteis e, por isso, não dizem tudo o que pensam e preferem expressar suas idéias nas entrelinhas para os que são capazes de entendê-las, declara que “a religião evolui com o tempo e que há falta de compreensão, por parte dos religiosos, do trabalho que é desenvolvido pelos cientistas”.

Mesmo assim, diz ele, textualmente: “Quando as células-tronco-embrionárias são utilizadas para formar células ou tecidos em outra pessoa, é como se estivéssemos doando vida, pois trará benefícios para outros seres humanos. Morte é o descarte desse material”.

Encontrar a cura para doenças que hoje são consideradas mortais é uma das maiores expectativas da humanidade.

 

MEU COMENTÁRIO:

Agora, com a sofrida vitória, no Supremo Tribunal Federal, da lei que favorece as citadas pesquisas, a batalha entre a Ciência e o milenar obscurantismo castrador do Vaticano está praticamente ganha. Padres e demais pregadores podem deblaterar à vontade do alto de seus púlpitos, porque os verdadeiros interessados – os portadores de doenças até agora incuráveis e seus pais aflitos – saberão distinguir de que lado estavam a razão e o bom-senso. De nada adiantará o esforço reacionário, atrasado e caturra de Bento XVI e seus sequazes, ao acrescentar esse ridículo pecado a seu interminável e maçante rosário de culpas imaginárias.

Nota: vejam que cara de gente boa o velhinho tem. Aliás, muito mais confiável que a do Bento... 

 

Mario Gentil Costa   



Escrito por MaGenCo às 18h09
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“VIBRAÇÕES”

 

Como ex-portador de uma doença gravíssima, tive a felicidade e a surpresa de responder à terapia em nível acima da expectativa mais otimista, a ponto de ter vivido os últimos 8 anos sem medicação e sem seqüelas aparentes. Atribuo esse sucesso, em primeiríssimo lugar, à medicina científica clássica e, em segundo, a algum fator imensurável, relacionado à minha imunidade pessoal.

Na ocasião, na virada do milênio, recebi a oferta de um grupo de orações em sessões de cura mediúnicade cura mediúnica e, por questão de coerência com minha descrença, não me achei digno de usufruí-la sem a perda do respeito por mim mesmo; seria um oportunismo indecente, e preferi enfrentar um prognóstico que não era dos mais alvissareiros. Deu certo. Se não tivesse dado, é provável que tivesse me arrependido dessa eventual teimosia e nem sei se teria coragem de confessá-la. Ainda assim, também não consigo fugir de um sentimento de orgulho pela recusa. Afinal, foi um desafio que decidi enfrentar, e que outros não enfrentaram. Mas não é isso que desejo discutir aqui; agradeço a boa intenção de todos e respeito a fé alheia, assim como acho que minha descrença deve ser respeitada.

De resto, só se tem duas alternativas: ou se crê ou se não crê. Esta última, entretanto, é, no meu caso, mais que minha descrença em si, a conseqüência cumulativa e indireta de uma profunda e irreversível decepção com o comportamento de muitos arautos do chamado "cristianismo", tanto (e sobretudo) o praticado pelo Vaticano, quanto o exercido embusteiramente por líderes evangélicos milagreiros do tipo Edir Macedo.

Desenvolvi, a partir daí, uma crescente ojeriza por dogmas, mais que todos, pela presunção de "infalibilidade" de papas, e, no que toca a este atual Bento, chego a sentir pena, quando não náuseas, pelas bobagens que apregoa cínica e impunemente, a última das quais, de que “o inferno é um lugar físico e está cheio de gente”.

Sempre repito a amigos que, diante da eventual necessidade de acreditar na palavra pura simples de um católico, de um protestante ou de um espírita, preferiria crer na do último, pois, com as costumeiras exceções, na minha longa convivência com os três, não me lembro de ter conhecido um espírita desonesto, embora imagine que deva haver um ou outro... E de alguns dos primeiros, tenho as piores lembranças. Será apenas porque são a maioria? Talvez. O que sei é que o número de pessoas relapsas e volúveis entre os católicos é desproporcionalmente maior. Por quê? Por outro lado, será que as minorias são naturalmente mais seletivas? Quem sabe?

Minha apostasia vem de longa data, desde que, aos 18 anos, viajando para estudar fora, me livrei do jugo religioso familiar, sobretudo do meu avô – que era um católico intransigente – e tive contatos com mentes mais arejadas. Hoje, com imenso orgulho, sou um "auto-excomungado" e, à força de muito pensar e de umas tantas leituras determinantes, rompi com a crença no sobrenatural. Devo, portanto, ser tachado de "ateu", embora, durante décadas, tenha assumido, por mera comodidade, a postura indefinida do "agnóstico". E foi a partir daí que cheguei a conclusões que me repugna definir como “materialistas” – não gosto das conotações que essa palavra traz, já que a “matéria”, como hoje é vista pela física de partículas e pelos mistérios inerentes à nossa limitada compreensão do assunto no nível do microcosmo corpuscular relativístico dos binômios matéria-energia e espaço-tempo, às vezes nem parece ser “matéria” como a entendiam os físicos do passado.

    Mas também acho que está havendo, da parte de certos espiritualistas, um insidioso ânimo de usufruto dessa terrível e esmagadora incógnita. Tenho ouvido, lido e testemunhado legítimos depoimentos oportunísticos, por parte de lideranças místicas que se aproveitam do chamado "Princípio da Incerteza de Heisenberg" – sobre o qual nada sabem – para encaixar aí, nessa aparente imaterialidade puramente físico-energética, a justificativa para a existência do espírito em si. Tudo isso, para mim, não passa de mera especulação, e o mais triste é que não vejo, no contexto, perspectivas de uma  tese que venha a propiciar o decisivo enunciado da tão almejada "teoria unificada" que Einstein buscou em vão. Será preciso nascer outro gênio do seu porte para dar esse retumbante salto epistemológico. E, decerto, isso não acontecerá no meu tempo.

Outro aspecto que me dá urticárias, gera anticorpos e exacerba meu natural ceticismo, é a superficialidade crescente, muito ao sabor de certos crentes da espiritualidade, de usar o termo 'vibrações' para aludir a forças que nunca são definidas em termos de intensidade, freqüência e comprimento de onda, já que essas são as bases que aceito como válidas cientificamente para definir tal fenomenologia vibratória, que, por suposto, deve ser passível de medida qualitativa e quantitativa. E quanto às tais 'transformações" a que alguns aludem em seu arrazoado, aceito-as dentro das mesmas premissas. Caso contrário, para mim, o conceito se torna vago.

E tenho certeza de que o grande, o imenso Lavoisier, quando enunciou sua lei máxima e eterna, pensava da mesma forma que eu eu. Jamais lhe terá ocorrido estendê-la ao mundo da imaterialidade. Ele deve ter intuído o Universo como a sede auto-existente, possivelmente infinita, da química e da física. Só não imaginava que sua proposição viesse a aplicar-se a tantos e tão variados aspectos.

Também não consigo absorver a hipótese da permanência da identidade humana após a morte; acho que somos, como indivíduos, apenas um ser (como a própria palavra define – “indivisível e único”) e vivemos uma só vida terrena; cada pessoa com sua individualidade, da mesma forma que uma mosca ou uma barata. Acho que o Eu termina com a morte do cérebro (mente) onde está inapelavelmente inserido. Por comparação grosseira, o Eu seria o software – a programação individual – que nunca sobrevive à destruição do hardware (cérebro).

Não vejo razões, só porque somos os únicos animais (conhecidos) que têm certeza de sua finitude física, para privilegiar-nos com direitos especiais à eternidade. A única alternativa que aceito, como garantia de permanência no espaço-tempo, é nossa inevitável "transformação" em poeira de estrelas. Ou seja, nossas partículas atômicas e subatômicas é que, de acordo com o imortal gênio francês, são eternas...

 

Mario Gentil Costa



Escrito por MaGenCo às 19h11
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VITÓRIA DA RAZÃO

 

Aqui do meu canto, quero me congratular com os ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram a favor da liberdade de pesquisa com células-tronco embrionárias e garantiram, dentro dos moldes propostos pelo bom senso, a continuidade dos estudos e das experiências dos cientistas brasileiros rumo a essa necessidade premente. Doravante, o Brasil, livre e desimpedido, une-se aos países mais adiantados do planeta na busca de soluções para um sem-número de doenças até agora incuráveis, que condenavam a uma vida abjeta tantas vítimas infantis e adultas.

A perspectiva que se descortina diante dessa abertura é auspiciosa por todos os títulos, e podemos esperar que o futuro próximo nos acene com grandes saltos na aquisição de meios de cura efetiva de muitos males que, durante milênios, afligiram a humanidade.

Só tenho pena e – por que não confessar? – certa vergonha de que a decisão tenha tardado tanto e não tenha sido unânime, pois era isso que se devia esperar de uma elite supostamente imune a influências espúrias e, sobretudo, a assédios de natureza místico-religiosa, os mesmos que, durante séculos, atravancaram a marcha do pensamento racional. Basta lembrar o comportamento retrógrado e obscurantista, sobretudo da Igreja Católica, ao longo da história, quando se tratou de aceitar e conviver pacificamente com evidências indiscutíveis trazidas pela ciência desde os tempos de Galileu Galilei e, mais adiante, com a racionalidade da teoria da evolução que ameaçava abalar fragorosamente as bases de sua dialética criacionista.

Com essa decisão que, espero, seja irrevogável, o Brasil dá um exemplo incontestável de seu progressivo amadurecimento e independência crítica e ajuda a provar, mais uma vez, que os tempos mudaram e que a prevalência da religião em geral como reguladora de costumes retrógrados e limitadores do verdadeiro bem-estar social é coisa de um passado que em nada deve nos orgulhar.

O progresso científico, promovido dentro de preceitos éticos e constitucionais, mas desvinculado de tais posturas limitadoras, deve constituir a meta prioritária de qualquer nação que se preze e que não aceite pressões fundadas em supostos e mal interpretados preceitos de fé.

Ainda bem que, no seio de nossa magistratura, atua um percentual majoritário de cérebros desatrelados, capazes de assegurar, em situações críticas, a vitória da razão e da lógica, único meio dado ao ser humano para desbravar os caminhos de sua genuína redenção.

 

         Mario Gentil Costa

 

A favor da pesquisa

Editorial – Folha de S. Paulo, 30/5/2008

 

“Ao reconhecer a validade da Lei de Biossegurança, o STF impediu que uma ética privada, a religiosa, fosse imposta a todos.

 

A DECLARAÇÃO, pelo Supremo Tribunal Federal, da constitucionalidade do artigo 5º da Lei de Biossegurança (nº 11.105), que autoriza o uso de células-tronco de embriões humanos para pesquisa, significa antes de mais nada a vitória da lógica e da razão prática sobre especulações de inspiração religiosa.

A Lei de Biossegurança, afinal, está longe de constituir um diploma permissivo ou mesmo liberal. Ela limita as pesquisas com embriões humanos a remanescentes de tratamentos de fertilidade, que já existem e não foram nem seriam implantados num útero, sendo, portanto, nulas suas chances de produzir um ser humano em ato.

Preferir, em nome de um etéreo princípio de respeito à vida, manter esses blastocistos congelados indefinidamente a utilizá-los em investigações médicas de alta relevância, que poderão um dia debelar males hoje incuráveis, seria um contra-senso.

O ministro Carlos Alberto Direito, que em março interrompera o julgamento com pedido de vista, tentou conciliar sua visão ultracatólica com a necessidade de avançar nas pesquisas. Mas o resultado, um voto pela parcial inconstitucionalidade, lembra um pouco a omelete sem ovos: as pesquisas são válidas, desde que não impliquem destruição de embriões. Se a tese prevalecesse, os experimentos ficariam inviabilizados na prática.

Felizmente cinco magistrados acompanharam o relator, o ministro Carlos Ayres Britto, e rechaçaram a suposta inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança. Cinco discordaram parcialmente, e em graus diversos, de seu voto. A maioria entendeu que a discussão, mesmo quando travada sob a égide de princípios, e não em termos puramente pragmáticos, só pode ser equacionada no campo do direito, pois a ciência é incapaz de apontar um instante mágico a partir do qual um emaranhado de células se converte num ser humano titular de direitos.

Essa questão já foi há tempos pacificada pela doutrina. Como foi lembrado no julgamento que acabou ontem, pessoas e embriões são ambos titulares de direitos, mas de direitos diferenciados. Os de indivíduos já nascidos têm total primazia, ou a lei jamais poderia autorizar, como o faz desde 1943, o chamado aborto necessário (art. 128 do Código Penal), executado por médico para salvar a vida da mãe.

Tampouco faria sentido nossos sucessivos Códigos Civis determinarem, como o fazem pelo menos desde 1916, que a personalidade civil, isto é, o conjunto dos atributos jurídicos da pessoa, surge apenas quando o bebê nasce vivo.

A confirmação da validade constitucional da Lei de Biossegurança representa um ato de solidariedade intertemporal com as gerações que poderão beneficiar-se de novas terapêuticas. Significa, também, uma vitória da liberdade de pesquisa e do Estado laico sobre uma ética privada, a religiosa, a qual, embora merecedora de todo respeito, não pode ser imposta ao conjunto dos cidadãos.”



Escrito por MaGenCo às 23h17
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